Ttulo: Portas do Paraso.
Autor: Virginia C. Andrews.
Ttulo original: Gates of Paradise.
Dados da edio: Crculo de Leitores, Lisboa, 1995.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores Cunha.
Correco: Ftima Toms.
Estado da obra: corrigida.
Numerao de pgina: rodap.

V. C. ANDREWS

PORTAS DO PARASO
Traduo de ANA MARIA PINTO DA SILVA
Crculo de Leitores
Ttulo original: GATES OF PARADISE
Capa: FORTESPLIO
Ilustrao: CARLOS ANTUNES/FORTESPLIO
Copyright (r) 1989 by Virgnia Andrews impresso e encadernado para Crculo de Leitores
por Tilgrfica, S. A. no ms de Dezembro de 1995
Nmero de edio: 3971
Depsito legal nmero 91 273/95
ISBN 972-42-1266-1

PRLOGO

Tanto quanto me lembro, a nica pessoa com quem eu podia dividir os segredos mais ntimos era o Luke Casteel, Jr. Era como se eu s estivesse realmente viva quando
ele estava ao p de mim, e bem no fundo do meu corao eu sabia que ele sentia o mesmo, muito embora nunca se tivesse atrevido a fazer qualquer comentrio sobre
esse assunto. Queria olhar para ele; queria, para todo o sempre, olhar no fundo dos seus olhos doces e escuros de safira e dizer-lhe o que realmente sentia, mas
as palavras eram proibidas. Ele era meu meio-irmo.
Havia, porm, uma maneira de poder olhar continuamente para ele e ele para mim sem que nenhum de ns se apercebesse disso ou temesse que algum descobrisse o nosso
segredo. Era sempre que o pintava. Ele mostrava-se sempre disponvel. com o cavalete entre ns e o meu mundo artstico utilizado como janela, podia olhar mais atentamente
para o seu rosto bronzeado, de formas perfeitas, com as mas do rosto salientes, e conseguia captar a maneira como as madeixas de cabelo, rebeldes e negras como
azeviche, caam sobre a sua testa.
O Luke tinha o cabelo da minha tia Fanny, mas os olhos de um azul profundo e o nariz perfeito eram do meu pai. Havia fora nas linhas da sua boca e nos contornos
bem delineados e suaves do seu queixo. No podia deixar de reparar nas semelhanas evidentes com o meu pai e at comigo mesma. Ele tinha a mesma figura alta e esguia
do pap e mantinha os ombros muito direitos de uma maneira idntica. Aquelas parecenas sempre me entristeceram, porque me faziam lembrar que o Luke no era simplesmente
meu meio-irmo; era meu meio-irmo ilegtimo, fruto de uma indiscrio amorosa entre o pap e a minha tia Fanny, irm da minha me. Era algo que todos achmos melhor
nunca mencionar.
Tentmos ultrapassar isso, manter o assunto na sombra, muito embora soubssemos que as pessoas cochichavam e falavam mal de ns em Winnerrow. Apesar de a minha famlia
ser a mais ilustre em Winnerrow, ramos, de facto, uma famlia muito estranha. O Luke, Jr., vivia com a me, que havia casado duas vezes: uma vez com um homem muito
mais velho, que morreu, e outra com um homem muito mais novo, que se divorciou dela.
Toda a gente em Winnerrow se lembrava da audincia em tribunal sobre quem ganharia a custdia do Drake, o meio-irmo da mam e da tia Fanny, depois de Luke, o pai
delas, e a sua mais recente mulher, Stacie, terem morrido num acidente de viao. Nessa altura, o Drake devia ter uns cinco anos. A disputa resolvera-se fora do
tribunal: a mam obteve a custdia e a tia Fanny recebeu muito dinheiro. O Drake detestava que se falasse nisso e mais de uma vez se envolvera em brigas na escola
quando algum rapaz o provocava, ao dizer-lhe que ele "tinha sido comprado e pago". Em todo o caso, a me dizia que o Drake tinha o feitio do pai. Era bonito, musculoso,
quase atltico, bem como muito inteligente e determinado. Agora era um aluno finalista da Universidade de Harvard. Embora na realidade fosse meu tio, sempre o considerei
como um irmo mais velho. A mam e o pap criaram-no como um filho.
Quase toda a gente em Winnerrow conhecia a histria da mam: que nascera e fora criada nos Willies; que a sua me morrera ao d-la  luz; que vivera numa cabana
a maior parte da sua juventude e que depois fora viver com a famlia rica da sua me, os Tatterton.
Viveu na Manso Farthinggale, ou "Farthy" como ela dizia sempre que eu conseguia que ela falasse disso, o que era raro.
Mas eu e o Luke falvamos disso.
A Manso Farthingalle... povoava bastante a nossa imaginao... Esse lugar mgico e, contudo, sinistro. Um castelo recheado de mil segredos, alguns dos quais ns
sabamos que tinham a ver connosco. Continuava a ser a casa do misterioso Tony Tatterton, o homem que casara com a minha bisav e que dirigira o grande imprio dos
Brinquedos Tatterton, agora apenas vagamente associado  nossa Fbrica de Brinquedos dos Willies. Por razes que a mam no quer sequer discutir, recusa qualquer
ligao com esse homem, embora ele sempre nos tenha mandado cartes nos anos e no Natal. Desde que me lembro, mandava-me bonecas de todas as partes
do mundo, sempre que eu fazia anos. Pelo menos, ela deixou-me ficar com elas... Valiosas bonequinhas chinesas com cabelo negro, comprido e liso, e bonecas da Holanda,
da Noruega e da Irlanda, com roupas coloridas e caras bonitas e brilhantes.
Eu e o Luke queramos saber mais coisas sobre Tony Tatterton e Farthy. O Drake tambm tinha bastante curiosidade, apesar de no falar nisso tanto como o Luke e eu.
Se ao menos a nossa residncia, a Casa Hasbrouck, fosse to aberta e esclarecedora sobre o passado da famlia como o era em tempo de frias, quando os amigos da
mam e do pap e as suas famlias passeavam livremente por ali... Havia tantas perguntas por responder. O que levara os meus pais a regressarem aqui e a afastarem-se
do mundo rico e opulento da Manso Farthinggale? Por que razo a minha me quisera tanto voltar a Winnerrow, onde fora desprezada por todos por ser uma Casteel dos
Willies? Mesmo quando era professora aqui, nunca fora totalmente aceite pelas pessoas ricas e snobes da cidade.
Havia tantos segredos que assombravam os mistrios que nos rodeavam, pendurados nos recantos da nossa mente como se fossem teias de aranha. Desde sempre achei que
havia qualquer coisa que deveriam contar-me acerca de mim, mas nunca ningum o fez: nem a minha me, nem o meu pai, nem o meu tio Drake. Percebi isso nos silncios
que s vezes os meus pais estabeleciam entre si, entre mim e eles, e especialmente entre mim e a minha me.
Quem me dera poder deparar-se-me uma tela clara e limpa, agarrar no meu pincel e arrancar a verdade quela folha de papel em branco que estava  minha frente. Talvez
esse fosse o motivo da minha obsesso com a pintura. Era raro o dia em que no pintava qualquer coisa. Era algo que fazia parte de mim, tanto como... respirar.

PRIMEIRA PARTE

1 SEGREDOS DE FAMLIA

- Oh, no! - exclamou o Drake.
Surgiu por detrs de mim sem eu dar por isso, absorvida como estava pela minha pintura.
- No me digas que  outro quadro da Manso Farthinggale, com o Luke a olhar para as nuvens flutuantes atravs de uma janela.
O Drake revirou os olhos e fingiu desmaiar.
O Luke levantou-se rapidamente e afastou as madeixas de cabelo da testa. Sempre que alguma coisa o desconcertava ou enervava, recorria invariavelmente ao cabelo.
Virei-me devagar, com a inteno de franzir o sobrolho. Era isso o que Miss Marbleton, a minha professora de ingls e do Luke tambm, fazia cada vez que algum se
portava mal ou falava quando no era a sua vez; mas o Drake exibiu o seu sorriso diablico, e os seus olhos negros como carvo cintilavam, semelhantes a duas pedras
cobertas de orvalho. No consegui zangar-me com uma cara como aquela. Era muito bonito mas, mesmo que passasse a vida a fazer a barba, o seu rosto tinha sempre uma
mancha escura. A minha me passava muitas vezes a sua mo carinhosamente pelas suas faces e dizia-lhe para remover aqueles espinhos de ourio.
- Drake - disse eu docemente, quase a suplicar-lhe que no dissesse mais nada que pudesse constranger-me a mim ou ao Luke.
- Ora, Annie,  verdade, no ? - persistiu o Drake.
- Deves ter pintado, pelo menos, meia dzia de quadros como este, em que o Luke aparece dentro de Farthy ou a passear nos jardins. E o Luke nunca l esteve sequer.
Levantou a voz, como que nitidamente a lembrar-nos que, ele sim, j l tinha estado. Inclinei a cabea um pouco de lado, como a minha me fazia quando se lembrava
de alguma coisa de repente. Teria o Drake cimes por eu usar o
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Luke como modelo artstico? Nunca me ocorrera pedir-lhe para posar, porque era raro ele estar quieto durante o tempo suficiente para eu poder pintar o seu retrato.
- Os meus quadros de Farthy nunca so iguais - gritei numa atitude defensiva. - Como podem ser? Eu s trabalho a partir da minha prpria imaginao e dos pequenos
nadas que consegui apanhar aqui e ali atravs do pap e da mam.
- Achas que qualquer pessoa compreende isso... - frisou o Luke, mantendo os olhos fixos no seu livro de literatura inglesa.
O Drake fez um sorriso mais aberto.
- Ser que foi o grande Buda que falou?
Os olhos do Drake bailaram de divertimento. Sempre que conseguia que o Luke se irritasse, ficava satisfeito.
- Drake, por favor. Estou a perder a pacincia - argumentei -, e um artista tem de aproveitar o momento e agarr-lo como a um pssaro-beb... delicada, mas firmemente.
No queria parecer presunosa, mas nada me irritava mais do que uma discusso entre o Luke e o Drake.
Os meus olhos suplicantes e os meus apelos deram resultado. O rosto do Drake suavizou-se. Virou-se para mim e acalmou-se um pouco. A me dizia sempre que o Drake
se passeava por Winnerrow com o orgulho de um Casteel. Uma vez que ele tinha aproximadamente um metro e noventa, ombros largos, cintura estreita e braos musculados,
isso no era difcil de imaginar.
- Desculpa. Apenas julguei que podia afastar este Plato por um momento. Precisamos de um nono homem para o softball1 l na escola - acrescentou ele.
O Luke desviou a ateno do seu livro de estudo, genuinamente surpreendido com o convite, e os seus olhos tornaram-se pequenos e inquiridores. Estaria o Drake a
ser sincero? Desde que haviam comeado as frias da Pscoa, tinha passado a maior parte do tempo com os seus amigos mais antigos.
- Bem, eu... - O Luke olhou para mim. - Eu tinha de estudar para este teste final - explicou o Luke rapidamente -, e pensei que enquanto a Annie me pintava...
- Claro, claro, eu compreendo, Einstein. Einstein - repetiu o Drake, fazendo um gesto na direco do Luke, com
1 Softball: modalidade modificada de basebol, em que se utiliza uma bola idntica  do basebol, mas mais macia e maior. (N. da T.)
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um tom de sarcasmo na voz. - A vida no  s livros, sabes - disse ele, dando uma volta para encar-lo outra vez, e agora o seu rosto estava srio. - Tem tudo a
ver com o modo como se conhecem as pessoas e as levamos a gostar de ns e a respeitar-nos.  esse o segredo do sucesso. H cada vez mais executivos a sair de campos
de jogos do que das salas de aulas - declarou, agitando o seu comprido indicador direito.
O Luke no deu resposta. Passou os dedos pelo cabelo e fixou o Drake com um olhar impassvel e, contudo, penetrante e analtico. Isso era algo que o Drake no conseguia
suportar.
- Ah... Estou eu aqui a gastar saliva para qu? O Drake virou-se de novo para o meu quadro.
- Eu disse-te que Farthy era cinzenta e no azul - corrigiu ele suavemente.
- Na altura em que l viveste s tinhas cinco anos e tu prprio disseste que quase nunca l estavas. Talvez te tenhas esquecido - sugeriu o Luke, saindo rapidamente
em minha defesa.
- No se esquece a cor de um edifcio to grande como aquele! - exclamou o Drake, repuxando os cantos da boca.
- Independentemente da pouca idade que se tenha na altura, ou da curta permanncia.
- Bem, uma vez disseste-nos que havia duas piscinas exteriores, e mais tarde, o Logan corrigiu, dizendo que s havia uma exterior, a outra era interior - continuou
o Luke.
No que dizia respeito a Farthy, tanto ele como eu ramos o mais precisos possvel, preservando todos os pormenores e verdades que conhecamos. Mas era to pouco
o que sabamos.
- Ah, sim, Sherlock Holmes? - respondeu o Drake. Os seus olhos tornaram-se mais pequenos e mais frios.
No gostava que o corrigissem, principalmente se fosse o Luke a faz-lo.
- Bem, eu nunca disse que havia duas piscinas exteriores. Apenas disse que havia duas piscinas. S que tu no ouves nada do que te digo. Fico espantado como podes
ser to bom aluno. Como consegues isso? Copias?
- Drake, por favor! - exclamei eu, agarrando-lhe no pulso e apertando-o ligeiramente.
- Bem, ele no ouve. A no ser que sejas tu a falar acrescentou, sorrindo.
Estava satisfeito porque tinha tocado num ponto sensvel.
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O Luke corou, os seus olhos azuis desviaram-se por breves instantes na minha direco, antes de afast-los e de o seu rosto ter entristecido.
Olhei para alm dele, para o primeiro ponto elevado dos Willies, o cume de uma nuvem que o vento havia moldado com a forma de uma lgrima. De repente, senti vontade
de chorar e no foi apenas por causa da discusso entre o Drake e o Luke. No era a primeira vez que esta disposio melanclica me assaltava, como uma nuvem escura
que encobria o Sol. O que eu sabia... era que os sentimentos tristes estimulavam muitas vezes o meu desejo de pintar. A pintura trazia-me alvio, um sentido de equilbrio
e paz. Estava a criar o mundo que queria, o mundo que eu via com olhos interiores. Podia fazer com que fosse sempre Primavera, ou fazer com que o Inverno parecesse
deslumbrante e lindo. Sentia-me como um mgico que organizava truques especiais na minha mente e depois os animava numa tela vazia. Enquanto esboava a minha imagem
mais recente de Farthy, senti o meu corao ficar mais leve e o mundo  minha volta tornar-se cada vez mais caloroso, como se estivesse a desembaraar-se da minha
prpria sombra. Agora, s porque o Drake tinha quebrado a minha disposio, a tristeza voltara.
Percebi que o Luke e o Drake estavam ambos a olhar para mim, e os seus rostos estavam perturbados pela minha expresso sombria. Fiz um esforo para evitar as lgrimas
e sorri atravs das sombras que pairavam sobre o meu rosto.
- Talvez os meus quadros da Manso Farthinggale sejam todos diferentes, porque a casa tambm tem mudado - afirmei eu finalmente, num tom de voz pouco mais forte
do que um suspiro.
Os olhos do Luke arregalaram-se e os seus lbios macios exibiram um sorriso. Ele sabia o que significava aquele meu tom de voz. Estvamos prestes a iniciar o jogo
da fantasia; deixar as nossas imaginaes vaguearem temerariamente ao acaso e no ter medo de dizer tudo aquilo que os outros jovens de dezassete ou dezoito anos
achariam ridculo.
Porm, o jogo era mais do que isso. Quando o jogvamos, podamos dizer um ao outro coisas que recevamos dizer de outra maneira. Eu podia ser a sua princesa e ele
o meu prncipe. Podamos dizer um ao outro o que nos ia no corao, fingindo no se tratar de ns, mas sim de pessoas imaginrias que falavam. Nenhum de ns corava
ou desviava o olhar.
O Drake abanou a cabea. Tambm ele sabia o que estava para acontecer.
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- Oh, no - protestou ele -, vocs ainda fazem isso... O seu rosto adquiriu uma expresso fingida de embarao. Ignorei-o, afastei-me e continuei.
- Talvez Farthy seja como as estaes do ano... Cinzenta e sombria no Inverno e azul brilhante e acolhedora no Vero.
Estava a olhar para cima, como se tudo o que imaginava me fosse sugerido por um fragmento do azul do cu. Depois olhei na direco do Luke.
- Ou ento talvez se transforme naquilo que quisermos disse o Luke retomando o fio da meada. - Se eu quiser que ela seja feita de acar e melao, assim ser.
- Acar e melao? - O Drake sorriu de um modo afectado.
- E se eu quiser que ela seja um castelo magnfico com nobres e damas casadoiras e um prncipe triste, lastimando-se pelos cantos, ansiando pelo regresso da sua
princesa, assim ser - respondi eu, levantando a minha voz mais alto do que a dele.
- Posso ser o prncipe - perguntou o Luke rapidamente e levantou-se. -  espera que tu venhas?
Os nossos olhos pareceram tocar-se e o meu corao comeou a bater mais depressa  medida que ele se aproximava.
Pegou na minha mo e os seus dedos eram macios e quentes; ficou de p, com o rosto a pouca distncia do meu.
- Minha princesa Annie - murmurou ele.
As suas mos estavam pousadas no meu ombro. O meu corao batia desordenadamente. Ele ia beijar-me.
- Mais devagar, espertinho - disse o Drake subitamente.
Inclinou-se para diante e endireitou os ombros para a frente, de modo a parecer corcunda. Dobrou os dedos como se fossem garras e veio na minha direco.
- Eu sou Tony Tatterton - murmurou ele num tom de voz baixo e sinistro -, e vim roubar-vos a princesa, Sir Luke. Vivo nas entranhas mais escuras e profundas do castelo
Farthy e ela vir comigo e ser para sempre encarcerada no meu mundo, para tornar-se a princesa das trevas.
E soltou uma gargalhada em tom diablico...
Tanto eu como o Luke olhmos para ele espantados. A surpresa estampada nos nossos rostos fez o Drake tomar um pouco de conscincia. Endireitou-se imediatamente.
- Que disparate - disse o Drake. - Vocs at conseguiram que eu fizesse esta figura.
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Riu-se.
- No  nenhum disparate. So as nossas fantasias e os nossos sonhos que nos tornam criativos. Foi o que nos disse Miss Marbleton numa das ltimas aulas. No foi,
Luke?
O Luke apenas concordou com um aceno de cabea. Parecia aborrecido, profundamente ferido. Tinha os olhos baixos e os seus ombros deram o mesmo jeito que o pap tambm
costumava fazer quando algo o perturbava. O Luke tinha tantos gestos do pap.
- Tenho a certeza de que ela no teve inteno de inventar histrias sobre Farthy - respondeu o Drake e sorriu de um modo afectado.
- Mas no tens uma enorme curiosidade em saber como Farthy realmente , Drake? - perguntei eu.
Ele encolheu os ombros.
- Um dia destes, quando tiver um tempo livre na faculdade, vou at l. No  muito longe de Boston - acrescentou, com indiferena.
- Vais mesmo?
Aquela ideia encheu-me de inveja.
- Claro. Porque no?
- Mas a mam e o pap detestam falar sobre isso lembrei-lhe eu. - Iriam ficar furiosos se fosses at l.
- Nesse caso... no lhes conto nada - disse o Drake.
- S te digo a ti. Vai ser o nosso segredo, Annie - acrescentou ele, olhando de propsito para o Luke.
O Luke e eu olhmos um para o outro. O Drake no tinha a nossa intensidade quando se tratava de falar do passado e de Farthy.
De vez em quando, deitava um olhar s maravilhosas fotografias da fabulosa recepo do casamento da mam e do pap, que tivera lugar em Farthinggale: fotografias
de tanta gente distinta. Os homens usavam smoking e as mulheres elegantes vestidos de cerimnia; havia mesas e mesas de comida e criados que andavam numa roda-viva,
transportando bandejas com taas de champanhe.
E havia uma fotografia da mam a danar com Tony Tatterton. Ele tinha um ar to jovial, tal como uma estrela de cinema; e a mam parecia to entusiasmada e bem-disposta,
com os seus deslumbrantes e profundos olhos azuis, que eu herdara. Quando olhava para a fotografia, era difcil acreditar que ele pudesse fazer algo to terrvel
que a virasse contra ele. Como tudo aquilo era triste e misterioso. Era isso que me fazia olhar tantas vezes para as fotografias, como se o facto de as examinar
fosse revelar-me o obscuro segredo.
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- Pergunto-me se alguma vez chegarei a ver como a casa  realmente elegante e fabulosa - disse eu, num tom quase de pergunta e quase de desejo. - Sinto at inveja
por l teres estado quando tinhas cinco anos, Drake. Pelo menos, tens essa recordao, por muito distante que esteja.
- Dezasseis anos - frisou o Luke com cepticismo.
- Mesmo assim, ele sempre pode fechar os olhos e lembrar-se de alguma coisa ou ver alguma coisa - insisti eu.
- O que eu vejo de Farthy  apenas o que crio a partir da minha imaginao. At que ponto me aproximei da verdade? Se ao menos a minha me estivesse disposta a falar
sobre o assunto. Se pudssemos fazer uma visita. Podamos ignorar Tony Tatterton; nem olharamos sequer para o homem. No lhe dirigiria uma s palavra, se ela me
proibisse, mas ao menos podamos dar uma volta e...
- Annie!
O Luke deu um salto quando a minha me surgiu de uma esquina da casa, onde tinha estado, evidentemente, a ouvir a nossa conversa. O Drake acenou com a cabea, como
se estivesse  espera de que ela fosse fazer esta entrada abrupta.
- Sim, mam?
Refugiei-me atrs do meu cavalete. Olhou para o Luke, o qual desviou o olhar rapidamente e depois se aproximou de mim, evitando olhar para a minha tela.
- Annie - repetiu ela suavemente, e os seus olhos estavam cheios de uma profunda tristeza interior. - No te pedi j para no te atormentares a ti prpria e a mim
tambm, e deixares de falar sobre Farthinggale?
- Eu avisei-os - disse o Drake.
- Porque no ouves o teu tio, querida? Ele j tem idade suficiente para entender certas coisas.
- Sim, me.
Mesmo com aquele ar triste, ela era linda: a sua pele tinha um tom rosado, e o seu corpo era to firme e jovem como no dia em que casara com o meu pai. Toda a gente
que nos via juntas tinha a mesma reaco, especialmente os homens.
- Vocs as duas parecem mais ser duas irms do que me e filha.
- J te disse que  muito desagradvel para mim recordar-me dos tempos que passei naquela casa. Acredita em mim, aquilo no  nenhum castelo de contos de fadas.
No h prncipes jovens e belos  espera de desmaiar aos teus ps. Tu e o Luke no deviam... fingir essas coisas.
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- Eu tentei det-los - insistiu o Drake. - Eles entretm-se com este jogo tolo de fantasia.
- No  assim to tolo - protestei. - Toda a gente tem fantasias.
- s vezes representam como crianas da escola primria - continuou o Drake. - O Luke incentiva-a.
- O qu?
O Luke olhou para a minha me, e os seus olhos brilhavam de medo. Eu sabia como era importante para si que ela gostasse dele.
- No  verdade - gritei eu. - A culpa tambm  minha.
- Oh, por favor. No vamos dar demasiada importncia a este assunto - pediu a me. - Se realmente tm de fingir, h tantos assuntos bonitos, tantos lugares, tantas
coisas para pensar - acrescentou ela.
O seu tom de voz amenizou-se e tornou-se mais alegre. Sorriu para o Drake.
- Tens um ar to colegial com a tua camisola de Harvard, Drake. Aposto em como ests ansioso por voltar. Depois, virou-se para o Luke. - Espero que fiques to entusiasmado
com a universidade como o Drake est agora, Luke.
- vou ficar. Estou ansioso por ir para l.
O Luke olhou para a minha me e depois virou-se para mim rapidamente. Desde que me lembro, o Luke era assim tmido quando se encontrava na companhia da minha me.
Em todo o caso, era habitualmente tmido; porm, tinha medo que a mam o apanhasse a olhar para ela. No me lembro de ele ter longas conversas com ela ou at mesmo
com o pap, muito embora eu soubesse o quanto o Luke o admirava.
- Bem,  ptimo que vs to bem na escola, Luke elogiou ela. Endireitou os ombros e levantou a cabea, na atitude a que algumas pessoas da cidade chamavam "o orgulho
desafiador dos Casteel". Eu sabia que a maior parte das mulheres de Winnerrow tinha inveja dela. Para alm de ser bonita, era uma mulher de negcios bem sucedida.
No havia um homem que no a adorasse e respeitasse por ser to eficiente como doce e agradvel. - Todos nos orgulhamos de ti.
- Obrigado, Heaven - respondeu ele.
Puxou o cabelo para trs e fingiu interesse no seu livro de estudo enquanto o corao lhe rebentava de felicidade.
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Subitamente olhou para o relgio.
- No dei pelo tempo passar - declarou ele. -  melhor ir andando para casa.
- Pensei que fosses jantar connosco esta noite - protestei eu antes que ele tivesse tempo de se afastar.
- Mas  claro que deves jantar connosco hoje, Luke. A minha me olhou para o Drake com admirao.
-  a ltima noite que o Drake passa em casa antes de voltar para a universidade - disse ela. - Ser que a Fanny se importa?
- No.
Um sorriso subtil e sarcstico desenhou-se aos cantos da boca do Luke.
- Esta noite ela no est em casa.
- Ento, est bem - replicou a minha me rapidamente.
No estava interessada em ouvir pormenores. Todos ns tnhamos conhecimento das escapadelas da Fanny com homens mais novos e eu sabia como isso embaraava e incomodava
o Luke.
- Est decidido. vou mandar pr mais um lugar na mesa.
Voltou-se e os seus olhos pousaram longamente na minha tela. Olhei para o quadro e depois virei-me rapidamente para ela, a ver se havia algum sinal de reconhecimento
no seu rosto. Inclinou ligeiramente a cabea, e o seu olhar ficou de sbito distante, como se ela se tivesse acalmado ao som de uma cano longnqua.
- Ainda no est terminado - informei eu rapidamente, com receio de que ela pudesse fazer qualquer comentrio crtico. Apesar de tanto ela como o pap apoiarem bastante
o meu gosto pela pintura desde que comeara, pagando todas as aulas e fornecendo-me os melhores pincis e tintas, no consegui evitar sentir-me insegura. O pap
tinha excelentes artfices na sua fbrica, alguns dos quais eram das pessoas mais talentosas do pas. Sabia o que era a verdadeira arte.
- Porque no pintas um quadro dos Willies, Annie? Virou-se e apontou na direco dos montes.
- Adoraria pendurar algo semelhante na sala de jantar prosseguiu. - Os Willies na Primavera, com as suas florestas em flor, repletas de pssaros. Ou at mesmo no
Outono, com as cores do arco-ris das folhas. Sabes to bem pintar uma paisagem.
- Oh, mam, o meu trabalho no  suficientemente bom
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para ser exibido. Pelo menos, por enquanto - disse eu, abanando a cabea.
- Mas tu tens talento, Annie.
Os seus olhos azuis adoaram-se com amor e confiana.
- Est no teu sangue - murmurou ela, como se estivesse a dizer alguma blasfmia.
- Eu sei. O bisav esculpia lindos coelhos e criaturas da floresta.
-  verdade.
A minha me suspirou e as recordaes trouxeram ao seu rosto um sorriso suave.
- Parece que ainda estou a v-lo, sentado no alpendre da cabana, esculpindo durante horas e horas, pegando num pedao de madeira, sem forma, e transformando-o numa
perfeita criatura da floresta.  to maravilhoso ser-se artista, Annie; pegar numa tela em branco e criar algo maravilhoso...
- Oh, mam, eu ainda no sou assim to boa. Talvez nunca venha a ser - protestei eu  cautela -, mas no consigo deixar de querer.
- Claro que vais ser boa e no consegues evitar desej-lo, por causa... por causa da tua ascendncia artstica.
Fez uma pausa como se me tivesse contado um grande segredo. Depois sorriu e beijou-me na face.
- Entra comigo, Drake - chamou ela. - Ainda quero discutir uns pormenores antes que me esquea e partas para a universidade.
O Drake foi  frente e olhou para o meu quadro.
- H bocado estava s a brincar contigo, Annie. Est ptimo - disse ele, praticamente em sussurro, para que a minha me no ouvisse. - Sei como te sentes ao querer
ver coisas maiores e melhores do que Winnerrow. A partir do momento em que deixes esta cidade insignificante - acrescentou ele, virando-se um pouco na direco do
Luke -, no vais precisar de gastar o teu tempo fingindo estar noutro lugar.
E com isto, foi juntar-se  minha me. Ela deu-lhe o brao e encaminharam-se na direco da porta principal da Casa Hasbrouck. O Drake disse qualquer coisa que a
fez rir. Eu sabia que o Drake ocupava um lugar especial no seu corao, porque ele lhe fazia lembrar muito o seu pai. Ela adorava passear em Winnerrow com ele, de
brao dado.
s vezes apanhava o Luke a olh-los quando estavam juntos. Era um olhar de saudade, e percebia o quanto ele desejava ter uma famlia completa e autntica. Essa era
uma
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das razes por que ele adorava vir  Casa Hasbrouck, mesmo que apenas se sentasse muito quieto a observar-nos. Aqui havia um pai, o pai que ele nunca tivera mas
deveria ter tido e aqui havia uma me, que ele preferia que fosse a sua.
Senti o olhar do Luke pousado em mim e voltei-me. Estava a fitar-me com um olhar triste e perturbado, como se pudesse ler os meus pensamentos e soubesse como, por
vezes, me sentia triste por todos ns, apesar da nossa fortuna e posio em Winnerrow. De quando em quando, dava por mim a invejar famlias bastante mais pobres,
porque as suas vidas pareciam muito mais simples do que a nossa... sem passados secretos; sem parentes de quem sentir vergonha; sem meios-irmos, nem meios-tios.
Isso no queria dizer que eu trocasse algum da minha famlia. Eu amava-os a todos. At amava a tia Fanny. Era como se fssemos vtimas da mesma maldio.
- Queres continuar com o teu quadro, Annie? - perguntou o Luke, com alguma esperana nos seus brilhantes olhos azuis.
- No ests cansado?
- No. E tu? - perguntou ele.
- Nunca me canso de pintar e nunca me canso de pintar-te - acrescentei.

2 PRESENTES DE ANIVERSRIO

O dia em que eu e o Luke fizemos dezoito anos foi muito especial para ns os dois. Os meus pais foram nessa manh ao meu quarto para me acordarem. O pap tinha-me
comprado um medalho em ouro, dentro do qual havia uma fotografia sua e outra da mam. Vinha pendurado numa corrente de ouro de vinte e quatro quilates e brilhava
mais intensamente do que qualquer amuleto. Colocou-mo ao pescoo, beijou-me e abraou-me com tanta fora que o meu corao bateu alvoroado. Ele reparou na expresso
de surpresa estampada no meu rosto.
- No consigo evit-lo - murmurou ele. - Agora s uma senhora e estou com receio de perder a minha menina.
- Oh, pap. Nunca vou deixar de ser a tua menina gritei.
Ele beijou-me de novo e puxou-me para si at que a mam pigarreou.
- Tenho uma coisa que gostaria de dar agora  Annie comunicou ela.
Nem quis acreditar no que ela tinha na mo: algo que eu sabia ser mais importante para ela do que qualquer uma das suas jias mais caras. Na realidade, no conseguia
imaginar nada mais valioso para ela, e agora ia oferecer-ma!
Pensei nos dias em que eu era uma garota, antes de ter idade suficiente para ir para a escola. Lembro-me da minha me passar horas, pelo menos era o que me parecia,
a escovar o meu cabelo no seu quarto, em frente ao espelho, enquanto ouvamos a msica de Chopin. Ela adquiria uma expresso sonhadora e um ligeiro sorriso bailava-lhe
nos lbios magnificamente desenhados.
Perto de ns, numa outra mesa mais pequena, estava aquilo que eu continuava a chamar a sua casa de bonecas, apesar de no ser exactamente uma casa de bonecas. Era
um
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dos poucos exemplos de um brinquedo da Fbrica Tatterton que havia l em casa. Era uma rplica de uma casa de campo com um labirinto de sebes  sua volta. No me
era permitido l mexer, mas s vezes ela tirava o telhado e deixava-me olhar para o interior. L dentro, havia duas pessoas: um homem e uma jovem. O homem estava
deitado no cho com as mos atrs da cabea a olhar para cima, para a rapariga, que parecia ouvir atentamente o que ele estava a dizer.
- Que est ele a dizer-lhe, mam? - perguntei.
- Est a contar-lhe uma histria.
- Que espcie de histria, mam?
- Oh, uma histria acerca do mundo mgico, onde as pessoas so sempre agradveis e calorosas. Onde s h beleza e bondade.
- Onde fica esse mundo, mam?
- Durante um momento era nesta casa de campo.
- Tambm posso ir a esse mundo, mam?
- Oh, minha querida e doce Annie. Espero que sim.
- J l estiveste, mam?
- Ainda podia ver a sua cara pouco antes de responder-me. Os seus olhos brilharam ainda mais azuis do que o cu alguma vez fora, e o sorriso nos seus lbios rasgou-se
e aprofundou-se at que todo o seu rosto se tornou mais suave e mais bonito. Ela prpria parecia uma garotinha.
- Oh sim, Annie. J l estive uma vez.
- Porque te foste embora, mam?
- Porqu?
Olhou em volta como se a resposta a essa pergunta estivesse escrita num pedao de papel que tivesse ficado em algum lugar. Ento, voltou novamente os olhos na minha
direco, com as lgrimas a brilhar, e abraou-me.
- Porque, Annie... porque era demasiado maravilhoso para conseguir suportar.
Claro que nunca entendi o que ela quis dizer e ainda hoje no entendo. Como pode alguma coisa ser demasiado maravilhosa para se conseguir suportar?
No entanto, no pensei mais nisso. Queria olhar para a moblia e loia minsculas. Eram to perfeitas que me apeteceu tocar-lhes. Porm, no podia faz-lo por ser
tudo to frgil.
E agora ela ia dar-me tudo aquilo. Olhei para o pap. Os seus olhos eram pequenos e olhavam intensamente para a casa de campo. Nunca soube o que aquilo significava
para ele.
- No posso aceitar, mam. Significa tanto para ti protestei.
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- Tambm tu significas muito para mim, querida - disse a mam, entregando-me a casinha.
Peguei nela com todo o cuidado e carinho e pu-la rapidamente, em segurana, em cima da minha cmoda.
- Oh, obrigada. vou estim-la sempre - prometi. Tive a certeza disso, no s porque tinha sido to especial para ela, mas tambm porque podia olhar para aquele homem
e aquela mulher sempre que quisesse e pensar em mim e no Luke a fugirmos juntos para vivermos felizes para sempre numa casa de campo como aquela.
- No tens que agradecer, querida.
Os meus pais ficaram ali a sorrir-me, e ambos pareciam to jovens e to felizes. "Que bela manh para acordar", pensei eu. Desejei que o dia do aniversrio dos meus
dezoito anos durasse para sempre e que toda a minha vida fosse apenas um dia longo e feliz, em que toda a gente estivesse satisfeita e radiante e todos fssemos
amveis uns com os outros.
Depois de eles sarem, tomei um duche, vesti-me e fiquei de p em frente ao meu armrio, gastando tempo a pensar no que deveria vestir numa manh to especial. Decidi
usar a camisola de angor cor-de-rosa e a saia de seda branca. Era uma indumentria parecida com a que a rapariga da casa de campo usava.
Escovei o cabelo, apanhei-o dos lados e pus um bton cor-de-rosa muito suave. Satisfeita com a minha aparncia, sa do quarto apressadamente e precipitei-me pelas
escadas cobertas por um tapete azul e macio. Como se o mundo inteiro estivesse a celebrar o meu aniversrio, o sol brilhava com um magnfico esplendor dourado. At
as folhas e os ramos finos, compridos e em forma de aranha, dos salgueiros que estavam l fora, em frente s janelas da frente, pareciam translcidos. Tudo o que
era verde estava mais verde. Todas as flores que tinham despontado estavam mais vivas. O mundo estava cheio de cor e de calor.
Parei ao fundo da escada, porque no havia barulho na casa... Ningum estava a falar e no havia nenhum criado  vista.
- Ol? Onde est toda a gente?
Fui at  sala de jantar. A mesa estava posta para o pequeno-almoo, mas no estava l ningum. Fui ver  sala de estar,  sala de visitas e ao escritrio; no havia
ningum em nenhuma dessas salas. O Drake, que tinha chegado na noite anterior, vindo da universidade especialmente para os meus anos, ainda nem sequer tinha acordado.
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Mam? Pap? Drake?
Cheguei mesmo a ir  cozinha. O caf estava coado na cafeteira os ovos mexidos e prontos para serem metidos na frigideira; havia fatias de po nas torradeiras prontas
para serem torradas, o sumo havia sido deitado nos copos e colocado nas bandejas de prata, mas no havia ningum na cozinha. Onde estava Roland Star, o nosso cozinheiro,
ou jylrs. Avery, a nossa criada? E ainda no tinha visto Gerald VVilson, o nosso mordomo, nos corredores ou parado calmamente num canto.
- Que se passa aqui?
Sorri, confusa e com excitao. Finalmente dirigi-me  porta principal, abri-a e olhei l para fora.
L estavam eles: a minha me, o meu pai, o Drake, os criados e, um pouco afastado, o Luke. Todos eles exibiam um largo sorriso, estampado nos seus rostos.
- Que se passa aqui? - perguntei e balbuciei. - Porque esto vocs...
E l estava ele. No sei como o meu pai conseguira, na noite anterior, trazer um Mercedes descapotvel, novinho em folha, at  entrada da porta. Era azul-claro
com rodas de metal brilhante. Embrulharam-no com duas enormes fitas cor-de-rosa. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, todos eles deram incio  entoao do Parabns
a Voc. Fiquei com um n na garganta, enquanto dava voltas e mais voltas ao carro e reparei na placa da matrcula com o meu nome.
- Feliz aniversrio, querida Annie - disse a minha me.
- Oxal possas ter muitos mais aniversrios to felizes como este.
- No me parece que isso seja possvel - exclamei eu.
- Como poderei alguma vez ser mais feliz? Muito obrigada a todos.
Beijei o pap e abracei o Drake.
- No sei como vocs se sentem - comunicou o meu pai -, mas eu estou cheio de fome.
Todos rimos, e os criados desfilaram por mim, beijando-me e desejando-me um feliz aniversrio, aps o que regressaram aos seus deveres. Apenas o Luke ficou para
trs. Percebi que, independentemente da maneira como o tratavam, sentir-se-ia sempre um intruso.
- Anda, Luke - chamou a minha me, ao ver que ele tinha ficado exactamente no mesmo stio. - Eu e o Logan tambm temos uma coisa especial para ti.
- Obrigado, Heaven.
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A minha me olhou para o Luke, depois para mim e depois juntou-se aos outros. O Luke nem se mexeu.
- Anda, pateta - disse eu. -  o nosso dia especial. Ele abanou a cabea.
- Que lindo carro.
- Vamos dar uma volta nele logo depois do pequeno-almoo, est bem?
- ptimo - concordou, mas parecia confuso. - A Heaven convidou a minha me, mas ela est com uma ressaca. No sei se vai conseguir vir - explicou o Luke.
- Oh Luke, tenho muita pena. - Peguei na sua mo.
- No vamos deixar que nada nos aborrea hoje e, se alguma coisa aborrecer, vamos para o terrao e ficaremos isolados.
Aquilo f-lo sorrir. Quando ramos muito pequenos passvamos l grande parte do tempo. Tornou-se um lugar especial para ns; o centro das nossas fantasias. Sem nunca
nos referirmos a ele ou dizermos alguma coisa, compreendamos que sempre que queramos fazer ou dizer algo de especial amos para o terrao.
Subir aqueles trs degraus era como sair do mundo real. Era um grande terrao com um banco circular preso  balaustrada. Os meus pais mandaram-no pintar de novo,
em tons alegres de branco e verde. Havia pequenas lanternas espaadamente penduradas ao longo das traves do tecto.  noite, podamos acend-las e tanto eu como o
Luke achvamos que isso o tornava ainda mais mgico.
Praticamente ramos os nicos que o utilizavam. Era mais um stio decorativo. No me lembro de o meu pai alguma vez l ter ido. O Drake no lhe dava grande importncia
e no gostava de sentar-se l. Preferia sentar-se no escritrio, at mesmo nos dias mais quentes e soalheiros. A menos que, evidentemente, eu quisesse ir at l
e ele no tivesse mais nada para fazer. Nesse caso, ia comigo, mas no parava de queixar-se dos insectos ou dos duros bancos de madeira.
- Seja como for, temos de l ir - disse o Luke. - Tenho uma coisa para ti - acrescentou.
- E eu tambm tenho uma coisa para ti. Vs? Vai ser um dia maravilhoso. Feliz aniversrio.
- Feliz aniversrio, Annie.
- Muito bem. Agora vamos comer. Estou esfomeada. Toda esta excitao fez-me fome.
Ele riu-se e encaminhmo-nos apressadamente em direco  Casa Hasbrouck.
O Luke enganara-se em relao  sua me. A tia Fanny
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fez uma das suas habituais entradas dramticas. Tnhamos todos acabado de nos sentar para tomar o pequeno-almoo quando ela irrompeu pela porta da frente.
Parece que no estavam  minha espera - declarou ela com as mos nas ancas.
Usava um chapu de cetim preto, com abas largas e uma fita de um verde garrido. O cabelo estava penteado ao alto e preso. O Luke devia ter razo quanto  ressaca,
porque ela usava culos escuros dentro de casa. A tia Fanny usava muitas vezes roupas bizarras, especialmente nas ocasies em que nos visitava. Pensei que ela apenas
tentava provocar a mam; contudo, a minha me nunca parecia prestar muita ateno  roupa da Fanny. Hoje trazia uma mini-saia de couro verde-escura e um colete igualmente
de couro, sobre uma blusa de folhos cor-de-rosa. Todas aquelas cores faziam com que ela parecesse uma rvore de Natal.
- J nos sentmos  mesa com mais ou menos meia hora de atraso, Fanny - disse a mam.
- Ah, sim?
Tirou o chapu da cabea com um s gesto e suspirou. Depois, deu um passo em frente e tirou de baixo do brao um presente, cuidadosamente a enfiado.
- Feliz aniversrio, querida Annie.
- Obrigada, tia Fanny.
Aceitei-o educadamente e afastei-me um pouco, de modo a poder desembrulh-lo sem incomodar ningum  mesa. O pap estava sentado, com uma expresso sisuda, as mos
dobradas e o queixo apoiado nelas. O Luke olhou para baixo, para a mesa e abanou a cabea. O Drake exibia um grande sorriso. De todos ns, o Drake era quem mais
gostava da tia Fanny. Acho que ela sabia disso, porque olhava sempre na sua direco e piscava-lhe o olho como se houvesse alguma coisa especial entre eles.
A sua prenda era bastante curiosa e perfeitamente inesperada: era um guarda-jias em marfim, talhado  mo e que, sempre que se abria tocava a msica "Memories"
do espectculo musical Cats. A mam arregalou os olhos. Estava impressionada.
-  linda, Fanny. Onde conseguiste arranj-la?
- Comprei uma coisa que no se pode achar em Winnerrow, Heavenly. Mandei um... um senhor meu amigo a Nova Iorque especialmente por tua causa, Annie.
- Oh, obrigada, tia Fanny. Beijei-a e ela sorriu radiante.
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- A prenda do Luke est em casa.  muito grande para andar com ela por a. Comprei uma televiso a cores s para ele.
- Oh. Isso  formidvel, Luke - disse a mam.
No entanto, o Luke limitou-se a abanar ligeiramente a cabea. No via muita televiso. Era um apreciador da leitura.
- Era bom que vocs tivessem nascido com uns meses de diferena - disse a tia Fanny, sentando-se  mesa. - Era mais fcil para ir aos vossos anos.
O seu comentrio foi seguido de uma gargalhada estrepitosa e depois continuou.
- Esto todos a olhar embasbacados para mim porqu? Se isto  o pequeno-almoo, ento vamos comer. No como desde... ontem de manh - acrescentou ela e riu-se de
novo.
Apesar das atitudes inusitadas da tia Fanny  mesa e dos comentrios espordicos em voz alta, divertimo-nos bastante. Aquele aniversrio era o melhor e o mais extraordinrio
da minha vida. Foi um dia verdadeiramente singular; um dia cheio de msica, de riso e de sol; um dia que preencheria pginas e pginas do meu dirio. E mal conseguia
esperar que o Luke posasse para o que eu chamaria o seu "Retrato dos Dezoito Anos".
Toda a gente me fez sentir como uma princesa. At mesmo os criados me compraram prendas. Ento, aconteceu outra coisa especial.
Antes que eu tivesse tempo de levar o Luke a dar uma volta no meu carro e escaparmos em seguida para o terrao, a minha me chamou-me  parte e pediu-me para subir
com ela. Fomos at ao quarto dos meus pais. Era um quarto enorme, com uma gigantesca cama de casal, cuja cabeceira era feita de madeira de nogueira, talhada  mo,
e grandes colunas igualmente de nogueira. Olhei para ela como se fosse preciso uma dzia de homens para levant-la.
Por cima da cama estava uma das coisas que eu sabia que a minha me tinha trazido da Manso Farthinggale e, porque eu sabia que havia vindo de l, era sempre para
mim algo extraordinrio, at mesmo mgico. Claro que tambm o apreciei como artista. Era um quadro da velha cabana nos Willies, em que estavam duas pessoas de idade,
sentadas em cadeiras de baloio no alpendre.
Desde que chegara  Casa Hasbrouck, a minha me mudara a decorao do quarto uma srie de vezes. Naquele momento, tinha nas janelas elegantes reposteiros de cetim
azul,
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debruados a ouro. O papel de parede era azul-claro e aveludado, e o tapete azul-claro, a condizer, era to grosso e macio, que eu adorava andar descala sobre ele.
Dois dos mais recentes e mais jovens artesos da fbrica foram contratados para fazerem, por encomenda, cmodas e armrios naquela mesma madeira de nogueira da cama.
A mesa de toilette da minha me abrangia quase toda a extenso da parede do lado direito, acompanhada por um espelho a todo o comprimento. Levou-me directamente
at  sua mesa de toilette e abriu uma das gavetas do meio.
- H uma coisa que eu gostaria de dar-te - declarou ela -, agora que fizeste dezoito anos. Evidentemente que sei que s vais us-lo em ocasies especiais, mas contudo,
quero dar-to hoje.
Meteu a mo na gaveta e tirou de l o grande estojo negro de jias, que eu sabia conter o seu mais valioso colar de diamantes e os brincos a condizer.
- Oh, me!
Os meus lbios abriram-se de xtase ao perceber o que ela ia fazer.
Abriu o estojo e estendeu-mo. Ambas ficmos a admirar os esplendorosos diamantes. Compreendi que, quando a minha me olhava para eles, recordava momentos especiais.
Como eu desejei que, apenas pelo facto de os usar, eles me revelassem todos os segredos do nosso passado; transpusessem tambm as preciosas recordaes da minha
me para a minha mente e me ensinassem a sensatez e os conhecimentos que ela adquirira atravs das suas experincias dolorosas, bem como das agradveis.
- Pertenceu  minha av Jillian, que viveu como uma rainha.
- E que no permitia que lhe chamasses av - murmurei eu, lembrando-me de uma das poucas coisas que ela me contara sobre a sua vida na Manso Farthinggale.
- No. - A mam sorriu. - Ela era muito, muito vaidosa e queria agarrar-se para sempre  sua juventude e  sua beleza, apegando-se a cada iluso com a tenacidade
de uma mulher que est a afogar-se e se agarra desesperadamente a um pedao de madeira flutuante. Jias e roupas bonitas eram algumas das coisas a que ela dava importncia.
Claro que continuou ela, com aquele sorriso meigo nos lbios -, fez operaes plsticas e tratamentos em clnicas de emagrecimento e comprou tudo o que era creme
milagroso. Usava chapus de abas largas, sempre que estava ao sol, porque tinha
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medo de que a luz do Sol lhe provocasse o aparecimento de rugas.
Ela continuou e eu sustive a respirao, porque se tratava de uma das mais longas descries da sua av que ela me fazia e eu no queria interromp-la.
- A sua pele realmente ficou macia e favoreceu-lhe a expresso e, apesar de ser vinte anos mais velha do que o Tony, aqueles que no o sabiam no davam pela diferena.
Passava horas a fio em frente ao espelho, na sua mesa de toilette.
O sorriso da minha me abriu-se. Fez uma pausa perdida, por um momento, na sua memria.
- Seja como for - disse ela, despertando de novo para a realidade -, isto  algo que eu herdei e agora quero que fique para ti.
- So to bonitos que at tenho receio de us-los.
- No deves ter medo de possuir e usar coisas bonitas, Annie. Houve um tempo em que eu tambm tinha. Costumava sentir-me culpada por ter tanto e lembrava-me da maneira
modesta como eu e a minha famlia havamos vivido nos Willies.
Os seus olhos azuis adquiriram subitamente uma expresso determinada.
- Mas cedo descobri que os ricos no merecem menos do que os pobres no que diz respeito a herdar e apreciar as coisas mais valiosas e maravilhosas que esta vida
tem para oferecer.
E continuou com uma veemncia que me revelou que as suas palavras eram o resultado de muita dor e sofrimento.
- Nunca penses que s melhor do que ningum, s porque cresceste de um modo privilegiado. Os ricos so muitas vezes impulsionados pelos mesmos motivos aviltantes
dos mais desprezveis e dos muito pobres. Talvez at mais do que os pobres - acrescentou ela -, porque tm mais tempo livre para vaguear atravs da sua loucura privada.
- Aprendeste essas coisas em Farthinggale? - perguntei suavemente, esperando que ela tivesse escolhido o meu dcimo oitavo aniversrio como a ocasio propcia para
contar-me os seus segredos mais obscuros.
- Sim - murmurou ela.
Esperei, sustendo a respirao, que ela me dissesse mais alguma coisa; nesse momento, houve um estalido qualquer e ela recomps-se rapidamente daquela torrente de
recordaes.
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Os seus olhos arregalaram-se e tornaram-se brilhantes como se tivesse acabado de sair de um estado hipntico.
- Mas no falemos de coisas desagradveis. Muito menos hoje, querida.
Inclinou-se e beijou-me na face e depois colocou nas minhas mos o colar e os brincos de diamantes.
- J  tempo de eles passarem para ti.  claro que de vez em quando eu posso ir pedir-tos emprestados.
Ambas nos rimos e ela abraou-me.
-  s o tempo de guard-los num lugar seguro e j deso - disse-lhe eu, quando me afastei do seu abrao. - Quero levar o Luke a dar um passeio no meu carro novo.
- E no te esqueas do Drake. Ele tambm est ansioso por ir, Annie.
A me estava sempre a insistir para que eu ficasse perto do Drake.
- Mas o carro s tem dois lugares! - exclamei, com desalento.
Teria de escolher entre os dois e arriscar-me a ferir os sentimentos de um ou de outro.
- O Drake veio da universidade de propsito para os teus anos, Annie. Fez um esforo especial para poder estar aqui. O Luke est sempre aqui e, de qualquer maneira,
passas tempo de mais com ele. Tenho reparado que h meses que no sais com ningum. Os outros rapazes da cidade j esto provavelmente a ficar desencorajados.
- Os rapazes da minha turma so parvos e imaturos. A nica coisa que lhes interessa  beber at  inconscincia para provarem que so homens. Pelo menos, sou capaz
de manter com o Luke uma conversa inteligente - argumentei, consciente de que estava prestes a chorar.
- Calma, Annie - disse ela, baixando os olhos -, isso no  saudvel.
As suas palavras caram como pesadas gotas de chuva, porque eu sabia que ela tinha razo no que dizia. Acenei com a cabea e tentei falar sem tremer a voz.
- Sinto pena dele.
- Eu sei, mas em breve ele vai para a faculdade iniciar uma nova vida e tu vais viajar atravs da Europa e conhecer pessoas diferentes. Alm disso, a me dele tem
dinheiro, e ele  muito inteligente e  o orador1 oficial da vossa turma.
1 Orador oficial: no original, valedictorian.  o aluno que profere o discurso oficial de despedida, no final do ano lectivo, nas escolas dos Estados Unidos. (N.
da T.)
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Neste momento no h razo para se ter pena do Luke. At porque... - disse a minha me a sorrir. - Aposto em como ele ia ficar ofendido se soubesse disso.
- Oh, por favor, nunca lhe digas que eu disse isto!
- Nunca faria uma coisa dessas, Annie. Julgas que no gosto do Luke e no compreendo tudo o que ele tem passado ao longo destes anos? Admiro-o precisamente por isso
e pelo que ele se tornou - concluiu ela, alisando-me o cabelo.
- Agora vai guardar os diamantes e leva o Drake a dar um passeio e depois leva o Luke. Hoje no quero lgrimas nem palavras tristes. Esto absolutamente proibidas.
Sou at capaz de pedir ao mayor de Winnerrow que assine um decreto a proibi-lo - disse ela a rir.
Sorri e afastei as preocupaes.
- Obrigada por seres to maravilhosa comigo - agradeci-lhe eu.
- Nem podia ser de outra maneira, querida. Amo-te muito.
Tornou a beijar-me, e eu apressei-me a guardar os diamantes em segurana na gaveta das minhas jias. Quando voltei a descer, encontrei o Drake, o Luke e o meu pai
numa sria discusso sobre economia. Estavam a discutir sobre o dfice comercial e a necessidade de haver legislao adequada sobre essa matria. Estive a ouvi-los
por um momento, admirando a maneira como o Luke se defendia perante eles os dois. Depois irrompi pelo escritrio para anunciar que os passeios no meu novo Mercedes
iriam ter incio.
- Vamos fazer isto por idades - disse eu diplomaticamente. - Primeiro o pap, depois o Drake e a seguir o Luke. Descemos trs vezes a rua principal e voltamos.
O pap riu-se.
- Consegues imaginar o que os vizinhos vo dizer? perguntou ele. - Vo achar que estamos a exibir a nossa fortuna.
- O que  bom  para se mostrar - vangloriou-se o Drake. - No vejo razo para nos envergonharmos da riqueza.  uma atitude falsa e liberal.
- S estou a referir-me a um passeio - protestei. Todos se viraram para mim e ento, de repente, os trs desataram a rir da expresso da minha cara e da maneira
como eu tinha as mos nas ancas.
- Homens! - exclamei, e preparei-me para virar costas.
- Oh, Annie - protestou o pap rapidamente e correu para me abraar. - S que tu s to engraada quando ests
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aflgada... Anda, vamos l ver se o carro vale toda esta confuso.
Levei cada um deles a dar um passeio. O Drake insistiu em que Parasse no restaurante, para que ele pudesse cumprimentar alguns dos seus velhos amigos, por alguns
instantes; o que ele realmente queria era exibir o carro. O Luke estava a ler uma revista no terrao quando regressei com o Drake. Este decidiu acabar um trabalho
para a faculdade, para poder ter o resto do dia livre e ir jantar fora connosco mais tarde.
- Volto j - gritei para o Luke e corri para dentro de casa, subindo as escadas at ao meu quarto para ir buscar a prenda que eu tinha para ele. A mam e o pap
ficaram surpreendidos quando me viram passar pela sala de estar a correr.
- Vai com calma! - disse o meu pai. - Ou ento vais ficar velha antes do tempo.
Ouvi-o rir da sua prpria piada quando fechei a porta da frente atrs de mim e voei at ao terrao, com o corao a bater descompassado. Corada de excitao, subi
a escada a correr e deixei-me cair ao lado do Luke.
- Feliz aniversrio - disse eu, e estendi a minha mo. Examinou o pequeno embrulho por um instante e depois arrancou-mo das mos.
- Podem ser as chaves de um outro Mercedes - gracejou ele.
Abriu o embrulho e levantou a tampa da pequena caixa para descobrir um anel de ouro macio, com uma pedra negra de nix, prprio para usar no dedo mnimo.
- Caramba!
- Olha o que est escrito na parte de dentro. Virou-o para ler a minscula gravao, que dizia: "com amor da tua irm, Annie."
Era a primeira vez que um de ns escrevia qualquer coisa reveladora da nossa verdadeira relao. Os olhos do Luke humedeceram com a emoo; porm, conteve as lgrimas
nas plpebras por no querer parecer menos masculino se as deixasse correr, mesmo que fosse de felicidade. Reparei como ele se esforava bastante por conter as emoes
e sufoc-las dentro de si.
- Pe o anel no dedo - pedi eu de imediato.
Ele enfiou-o no dedo e aproximou-o da luz do Sol. Como a pedra brilhava!
-  to bonito. Como sabias que eu gostava desta jia?
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- Lembro-me de o teres mencionado uma vez quando estvamos a ver uma revista.
- s fantstica.
Ficou a olhar para o anel e passou, vezes sem conta, o dedo indicador sobre ele. Depois, ergueu rapidamente os olhos com um brilho de malcia. Esticou a mo atrs
de si e puxou uma caixa estreita e lisa, embrulhada em papel cor-de-rosa. Primeiro, abri o carto.
Surpreendentemente, como se tivssemos ambos concordado que o nosso dcimo oitavo aniversrio deveria acabar com todo o fingimento, o seu carto dizia: "Para a minha
irm, por ocasio do aniversrio dos seus dezoito anos." Sempre que me dava um carto, era costume escrever algumas linhas mais pessoais junto ao que j estava impresso.
Os anos podem passar, e o tempo como a fantasia mgica que sonhmos podem separar-nos. Mas nunca temas a minha capacidade de decifrar o enigma e encontrar-te onde
quer que estejas.
Feliz Aniversrio, Luke
- Oh, Luke. S estas palavras j so uma prenda. So at mais valiosas para mim do que o meu carro novo.
O seu sorriso era humilde e reprimido.
- Abre o presente.
Os meus dedos tremiam enquanto tentava desembrulhar a caixa com habilidade. Queria aproveitar o papel, a fita, todos os momentos e tudo o resto que estava associado
quele dia magnfico. Sob o papel estava uma caixa creme. Levantei a tampa e vi papel branco a embrulhar o objecto. Ao tir-lo, deparou-se-me uma gravura em bronze
de uma casa grande, sob a qual estava gravado: "Manso Farthinggale, o Nosso Castelo Mgico. com Amor, Luke."
Levantei os olhos, algo confusa, e ele inclinou-se para a frente e pegou nas minhas mos,  medida que ia explicando.
- Um dia estava no sto a remexer num ba velho da minha me e descobri este recorte de jornal que ela tinha guardado. Estava numa das colunas sociais e tinha uma
descrio sobre a recepo do casamento dos teus pais. Em segundo plano desta fotografia dos convidados e da festa, via-se claramente a Manso Farthinggale. Levei
este recorte a um fotgrafo que isolou o edifcio na fotografia e depois fez uma rplica em bronze, que  essa que tens a.
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Oh, Luke.
Passei os meus dedos sobre o relevo do metal. - E assim, onde quer que estejas e o que quer que faas, nunca esquecers o nosso jogo de fantasia - disse ele suavemente.
- Nunca esquecerei.
- Claro que... - continuou ele, encostando-se rapidamente para trs, apercebendo-se da proximidade com que os nossos rostos estavam um do outro. - Isso  como a
casa era h muito tempo. Quem sabe como estar agora.
-  uma prenda maravilhosa - exclamei -, porque tem um significado especial para ns. S tu serias capaz de pensar numa coisa destas. vou ter de escond-la da minha
me. Sabes como ela fica quando se faz qualquer aluso a Farthy.
- Ah, pois sei. Eu prprio ia sugerir-te isso. No tenho necessidade de causar mais motivos para ela no gostar de mim.
- Mas ela gosta de ti, Luke. Havias de ouvir a maneira como ela fala de ti. Tem muito orgulho em ti. A srio! - exclamei.
-  verdade?
Percebi como isso era importante para ele.
- Sim,  verdade. Nunca se cansa de repetir que tu s o orador oficial da turma. Acha que  fantstica a maneira como conseguiste ultrapassar os obstculos e chegar
to longe.
Ele acenou a cabea com compreenso.
- As montanhas muito altas podem ser mais difceis de escalar, Annie - afirmou ele -, mas a vista do topo vale sempre a pena o esforo que se fez. Alcanar o topo.
Tem sido esse o meu lema.
Fitou-me demoradamente. A montanha entre ns era demasiado alta.
- Agora vamos - propus, juntando o carto e o papel de embrulho  prenda. - Est na hora de irmos dar uma volta no meu carro novo.
Peguei-lhe na mo e corri pelo relvado em direco ao carro. Depois disso, esgueirei-me com a prenda at ao meu quarto e guardei-a entre as coisas mais ntimas e
pessoais. O Drake veio ter comigo nessa noite antes do jantar para perguntar-me o que o Luke me tinha dado. Conhecia a maneira como ns trocvamos prendas de aniversrio
desde os nossos doze anos. Mostrei-lhe a placa de bronze depois de o ter feito prometer que no ia contar  minha me. No lhe mostrei o carto do Luke.
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- No se parece nada com a casa - disse ele quando destapei a caixa. - Pelo menos, no da maneira como eu me lembro dela.
- Mas tem de parecer, Drake. Ele encontrou uma fotografia da casa e levou-a a um fotgrafo.
- No sei - abanou a cabea. - O castelo mgico... Ainda continuas intrigada com esse lugar, no continuas?
- Sim, Drake. No consigo evit-lo.
Abanou a cabea e os seus olhos pareceram mais pequenos e pensativos. Guardei a prenda e fomos juntar-nos aos meus pais para o jantar de aniversrio. Nessa noite,
porm antes de ir dormir, fui busc-la outra vez, examinei-a e pensei se o Drake teria razo em continuar a troar do nosso jogo de fantasia. Alguma vez encontraria
eu esse tal lugar mgico e maravilhoso? Tinha dvidas...
Um dia, algumas semanas mais tarde, recebi uma carta do Drake. Era frequente ele escrever-me para descrever-me a sua vida na universidade, ou ento para dar-me algum
conselho. Muito embora ele conseguisse ser, por vezes, um tirano e tambm cruel para com o Luke, eu sentia a falta da sua perspiccia, sentido de humor e das suas
manias de irmo mais velho. Estava sempre ansiosa por receber correspondncia dele ou algum telefonema de vez em quando. De uma maneira geral, as suas cartas estavam
cheias de anedotas acerca das raparigas da faculdade, das associaes de estudantes e dos episdios que aconteciam em Harvard. Contara-me sobre a fotografia da equipa
de remo, na qual aparecia o meu tio Keith. Este era meio-irmo do Drake e era um homem sobre o qual raramente ouvamos falar ou tnhamos notcias. Por isso, no
fiquei surpreendida ao receber aquela sua carta. O que me surpreendeu foi o seu volume. O sobrescrito estava to cheio que eu julguei que ele l tivesse posto mais
qualquer coisa para alm da folha do seu papel timbrado.
Estendi-me na minha colcha de renda e abri a carta do Drake.
"Querida Annie,
Tenho novidades que tenho a certeza vo empolgar-te muito. Tem sido extremamente fascinante para mim, mas tens de fazer todos os possveis por esconder esta carta
de Heaven.
Depois do teu maravilhoso aniversrio e no caminho
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de volta  faculdade, pensei no fascnio que tens pela Manso Farthinggale e como tu e o Luke tm construdo uma imagem fantasiosa desse lugar, desde a vossa infncia.
Cheguei  concluso que a razo por que vocs agem de uma maneira to tonta  porque, tal como eu, vocs no sabem muita coisa sobre a casa ou sobre o misterioso
Tony Tatterton, meu meio tio-av e teu meio bisav. Ento fiz uma coisa que sei que iria aborrecer a Heaven, mas fi-la principalmente por ti.
Annie, escrevi uma carta a Tony Tatterton, na qual me apresentei e lhe pedi autorizao para lhe fazer uma visita. Logo depois de achar que ele a tinha recebido,
um homem, com uma voz bastante distinta, telefonou-me e convidou-me a ir  Manso Farthinggale. Esse homem era Tony Tatterton e eu aceitei o seu convite.
Sim, Annie, acabei de regressar do teu reino mgico e tenho algo bastante triste, trgico e, contudo, muito fascinante para contar-te.
Em primeiro lugar, devo dizer-te que  uma casa verdadeiramente enorme e ainda existe aquele porto de ferro forjado. Mas no  to grande como tu e o Luke imaginavam
que era. Tem, no entanto, um porto bastante grande, com grandes letras.
Mas  a que comeam e acabam as fantasias. A casa  escura e est degradada. Acredita-me, no estou a dizer isto por ter feito tantas vezes troa de ti e do Luke
sempre que vocs fingiam que Farthinggale era o vosso castelo encantado. Aquela casa no tem nada de mgico; apenas algo de trgico.
Na verdade, as grandes portas rangeram quando se abriram. Um mordomo, que parecia to velho como Matusalm, saudou-me e eu entrei naquele imenso edifcio. A entrada
parecia ser to grande como o ginsio do liceu de Winnerrow, mas estava fracamente iluminada e as cortinas estavam corridas em todo o lado, o que me fez sentir arrepiado.
Vi a extensa escadaria e algumas recordaes de infncia vieram  minha memria. O mordomo conduziu-me at um gabinete no lado direito da casa e foi a que conheci
Tony Tatterton. Estava sentado atrs de uma enorme secretria de mogno escuro, onde havia um nico candeeiro que iluminava a sala. Por entre
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as sombras, ele parecia muito magro, mas quando me anunciaram, levantou-se rapidamente e mandou o mordomo abrir as cortinas.
Embora ele no se encaixasse muito bem na ideia que eu fazia de um multimilionrio, achei-o cordial, inteligente e muito simptico. Mostrou-se muito interessado
na minha carreira e, assim que soube que eu estava a estudar economia, ofereceu-me uma oportunidade de trabalhar nas suas empresas. Imagina!
Evidentemente que a nossa conversa se restringiu principalmente a ti e  tua me. Ficou muito interessado em saber coisas sobre ti. No final senti-me algo triste,
porque ele parecia to perdido e solitrio naquela casa enorme, sedento por saber mais pormenores sobre a famlia.
Claro que no chegmos a falar nas razes que levaram a que ele e a Heaven no se falassem, mas digo-te o seguinte: depois de ter passado um tempo em Farthinggale
com Tony Tatterton, desejei que a discrdia existente entre eles acabasse rapidamente.
Quando voltar a ver-te, conto-te mais pormenores. Finalmente no precisas de depender mais da tua imaginao, nem da do Luke, para descobrir como , na realidade,
a Manso Farthinggale. Tens uma testemunha que vai contar-te a verdade. Talvez no queiras pintar mais quadros de Farthinggale, mas quem sabe se isso no  bom,
porque podes passar a interessar-te por assuntos mais alegres e animados.
Espero voltar a ver-te em breve.
Saudades, Drake."
Pousei a carta. Por uma razo que no soube explicar, comecei a chorar. Nem me apercebi de que as lgrimas no pararam de correr pela minha face enquanto lia a descrio
do Drake sobre Farthy e Tony Tatterton. Era como se eu tivesse estado a ler a necrologia relativa a um amigo chegado.
Tenho a certeza de que o Drake no fez por mal. S fez aquilo que julgou que eu queria que ele fizesse; contudo, ao faz-lo, correu a cortina da fantasia e da iluso
dos sonhos infantis e deixou-me triste e vazia.
Agora mais do que nunca, eu queria saber o que levara a minha me a afastar-se de Farthinggale e a deixar aquele distinto homem idoso sozinho naquelas salas enormes,
envoltas em sombras profundas.
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No consegui evitar. O meu choro suave intensificou-se cada vez mais, at que comecei a soluar como um beb.
Quando fiquei exausta, adormeci com a carta do Drake apertada nas mos e acordei com o telefone a tocar. Fiquei muito feliz ao ouvir a voz do Luke.
- Que aconteceu? - perguntou ele imediatamente. Havia, na realidade, algo especial entre ns por termos nascido no mesmo dia. Parecamos saber sempre instintivamente
quando o outro estava aborrecido.
- O Drake escreveu-me uma carta. Ele foi a Farthinggale e falou com Tony Tatterton.
Por um momento, ele no respondeu.
- Verdade?
- Tens de vir at c para que eu te a possa ler - disse-lhe eu. - Oh, Luke, no  nada como aquilo que sonhmos.
- No quero saber o que o Drake escreveu ou como ela realmente  - disse o Luke em tom desafiador. - Os nossos sonhos so importantes para ns, porque preenchem
as nossas vidas com esperana e inspirao.
- Oh, Luke... - Sorri perante a sua determinao em agarrar-se s nossas preciosas fantasias secretas. - Espero que estejas sempre presente quando eu precisar de
algum que me anime.
- Claro que sim - prometeu ele.
No pude evitar perguntar a mim prpria se essa no seria tambm mais uma das nossas fantasias de infncia.

3 ENCRUZILHADAS ASSUSTADORAS

O Drake no podia sair da faculdade antes do final de Junho porque tinha exames, mas telefonou-me alguns dias depois de ter enviado a carta, para ter a certeza de
que eu a tinha recebido e tambm para contar-me mais coisas sobre Farthy.
- O Tony Tatterton mostrou-me o quarto que um dia foi da Heaven, quando ela chegou a Farthy para morar - disse o Drake e baixou a voz, como se estivesse a fazer
uma confidncia.
- No me digas!
O meu corao bateu mais depressa e mais forte s de pensar que ele l tinha estado, naquele lugar onde haviam ocorrido tantos segredos envolvendo a minha famlia.
De todos ns, o Drake foi o que esteve mais prximo das respostas s perguntas que me perseguiam. Haveria algum indcio que lhe tivesse escapado, mas no qual eu
teria reparado?
- Tambm foi o quarto da tua av, Leigh. A dada altura fiquei um pouco confuso, porque numa altura ele falava da Heaven, mas depois j estava a referir-se a Leigh.
- Talvez seja ele que est confuso. Quem sabe se no est senil - sugeri eu.
- No me parece. Ainda se ocupa de alguns dos negcios da Companhia de Brinquedos Tatterton e, quando comemos a falar da minha carreira e de economia, pareceu-me
muito perspicaz e perfeitamente a par do assunto.
- Como  ele? Parece-se com as fotografias?
- Agora j no. Est completamente grisalho e, quando o vi, era visvel que no fazia a barba h muitos dias. Usava uma roupa que parecia cara, mas o casaco, tal
como as calas precisavam de ser passados a ferro e tinha a gravata cheia de ndoas. Tambm no me parece que o mordomo, um homem chamado Curtis, esteja em boa forma.
Aparentemente
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v mal e leva uma eternidade para se deslocar de uma sala para outra.
No viste nenhuma criada? - perguntei, um pouco admirada.
Sempre pensei que um homem to rico como Tony Tatterton vivesse rodeado de um batalho de criados.
- No vi nenhuma, mas tenho a certeza de que deve haver pelo menos uma, para limpar as salas que ele utiliza. Conheci o cozinheiro, porque veio ajudar a servir a
refeio. Chama-se... Toma bem nota... Rye Whiskey.
- Oh, lembro-me de a mam mencionar esse nome gritei eu de excitao.
S de ouvir aquele nome, algumas histrias do passado proibido vieram  minha memria.
- Ele tambm deve ser muito velho.
-  provvel, mas no acusa tanto a idade como o mordomo. Ficou to agradecido por ter outra pessoa a comer l em casa que encheu o meu prato com comida que dava
para, pelo menos, mais trs pessoas. Simpatizei com ele. Tem um excelente sentido de humor e percebi que ele gosta bastante do Tony.
- Como eu gostaria de tambm l ter estado - exclamei.
Acho que cada momento seria uma descoberta e um melhor entendimento sobre o passado da minha famlia. Subir aquelas escadas e entrar no quarto que havia pertencido
 minha av e  minha me! Talvez eu tivesse visto alguma coisa que pudesse desvendar de imediato o mistrio que fazia com que a minha me detestasse tanto Tony
Tatterton e a razo por que ela recusava voltar quela casa, mesmo que fosse apenas para uma visita.
Principalmente estaria dentro do meu mundo imaginrio e do do Luke tambm. Isso iria provar que aquele lugar era como tnhamos imaginado? Seria o lugar onde podamos
ser livres e verdadeiros, onde estaramos a salvo de todas as coisas desagradveis, srdidas, feias e distorcidas que podem, por vezes, transformar a vida num fardo?
Pint-la como  na realidade! Seria to excitante. Podia imaginar-me naquele vasto relvado, com o enorme edifcio  minha frente.
- No creio que l quisesses ir - disse o Drake num tom de voz desanimador. - Acredita-me. Foi demasiado triste. Prometi que me manteria em contacto com ele. Por
isso, acho que vou telefonar-lhe daqui a alguns dias. Agrada-me
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bastante a possibilidade de trabalhar na sua empresa, como executivo, claro. Mas no contes  Heaven que eu te disse isto.
- Claro que no.
Mais uma vez fiquei admirada com a vontade que o Drake demonstrava, no s em ocultar tudo aquilo da minha me, como tambm em persistir na ideia de manter um relacionamento
com o Tony Tatterton, o que seria algo completamente desprezvel para ela. Perguntei-me que espcie de homem poderia ser o Tony Tatterton, o qual podia ter um efeito
to importante no Drake e continuar a exercer, mesmo agora, uma influncia to forte?
- Bem, de qualquer maneira, vejo-te daqui a algumas semanas. Receio que no v poder assistir  grande festa de aniversrio da Fanny, o que lamento imenso. Ela escreveu-me
a contar que contratou um conjunto e uma empresa para servir a comida. Convidou montes de pessoas, inclusive alguns dos amigos dos teus pais. At contratou pessoal
para lhe decorar a casa e os jardins. Imaginas uma pessoa a dar uma festa dessas a si prpria! S sei que ela est a organizar e a preparar o seu prprio pblico
para um dos seus espectculos bizarros. Anota tudo para poderes contar-me depois as coisas ridculas e constrangedoras que ela fizer. Calculo que v convidar todos
os seus jovens namorados, que vo reunir-se  sua volta como pretendentes aos ps de uma rainha. Tenho vontade de rir s de pensar nisso.
-  muito desagradvel para o Luke - disse eu, com pena por ver que at o Drake fazia troa da Fanny. - Ele nem quer ir! At est com medo! - exclamei.
- E depois? - disse o Drake com uma indiferena e insensibilidade surpreendentes. - Dize-lhe para se esconder no quarto. Volto a falar-te quando for visitar o Tony
Tatterton de novo e conto-te mais alguma coisa que eu achar interessante.
No consegui deixar de pensar no que ele tinha visto e feito.
- Oh, Drake, tu foste o nico que l esteve e agora voltaste l e vais uma outra vez - lamentei-me como uma garota invejosa, mas no consegui evit-lo.
- Tambm l estars, atravs de mim - prometeu o Drake com uma voz mais doce, mais afectuosa -, e no vai ser nenhum jogo de fantasia. Falo-te em breve. Adeus.
No dia seguinte mal pude esperar pelo intervalo do almoo l na escola, para poder contar ao Luke o telefonema do
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Drake. No estava  espera que ele ficasse to entusiasmado como eu, porque ele no tinha razes de famlia em Farthy e no estava to empenhado em conhecer os antepassados
e os mistrios que envolviam o passado da minha me; porm, normalmente deixava-se envolver por causa das nossas fantasias. Sentou-se a mastigar ruidosamente a sua
sanduche com indiferena e escutou, mas percebi que ele estava terrivelmente distrado e preocupado. Ao contrrio do que era costume, recusou-se a falar quando
lhe perguntei o que tinha. Fiquei a pensar nele o resto do dia, na escola e, quando as aulas acabaram, pedi-lhe para acompanhar-me a casa, para poder fazer-lhe mais
algumas perguntas.
Era um daqueles dias do final da Primavera, que mais parecia estarmos no pino do Vero, com grossas nuvens fofas e brancas deslizando vagarosamente num cu azul-turquesa.
Enquanto eu e o Luke caminhvamos, ouvamos o tinir do gelo nas barracas dos vendedores ambulantes de limonadas e refrescos. As pessoas mais idosas estavam sentadas
c fora nos-seus alpendres e olhavam o movimento da rua com curiosidade. De vez em quando ouvamos algo parecido com isto: " a rapariga dos Stonewall?" Ou ento:
"No  mesmo uma Casteel?"
Odiava a maneira como eles pronunciavam "Casteel", fazendo com que parecesse uma palavra amaldioada, como se a nossa famlia fosse menos humana do que as outras.
Em parte, sabia que as pessoas viam os Casteel daquela maneira devido ao comportamento da minha tia Fanny ao longo dos anos, e tambm porque os Casteel eram gente
dos Willies. Pessoas dos montes que no tinham muita instruo e detinham uma fraco da riqueza das pessoas da cidade. Essas pessoas desdenhavam do modo como a
gente dos Willies se vestia e vivia, e grande parte dessa atitude era compreensvel, mas por que razo no seriam capazes de ver como o Luke era maravilhoso e tudo
o que ele conseguira superar? Ele tinha razo ao dizer: "Junta-te aos poderosos!"
Gostava particularmente do caminho da escola para casa, na altura da Primavera, porque as ruas estavam enfeitadas de rvores em flor e arbustos; os prados apresentavam-se
verdejantes e viosos; floriam tlipas, ris e azleas; os passeios e os ptios encontravam-se impecavelmente limpos. Os estorninhos pousavam nos postes telefnicos,
como se estivessem de sentinela, observando o movimento de carros e pessoas l em baixo. Os tordos, empoleirados nos ramos das rvores, espreitavam com olhos curiosos
por entre as folhas frescas,
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verdes e luxuriantes. S muito raramente se via passar um beija-flor. Parecia terem uma energia sem fim, independentemente do calor que fizesse. O mundo parecia
fresco e cheio de vida.
O Luke manteve-se calado e de cabea baixa durante a maior parte do caminho para casa. Quando parei  entrada do acesso  Casa Hasbrouck, percebi que ele nem tinha
reparado que j havamos chegado.
- Queres sentar-te no terrao um bocado? - perguntei, esperanosa, j que eu queria mant-lo perto de mim at que ele me dissesse exactamente aquilo que o preocupava.
- No, prefiro ir para casa - retorquiu ele com uma voz profundamente melanclica.
- Luke Toby Casteel! - exclamei finalmente, com as mos nos quadris. - No temos o hbito de guardar segredos um do outro, mesmo que sejam dolorosos.
Durante um momento ele fitou-me, como se tivesse acordado de repente e percebido que eu estava ali. Depois desviou o olhar.
- Fui admitido em Harvard ontem com uma bolsa de estudo completamente paga - comunicou-me ele com uma surpreendente falta de sentimento e excitao.
- Oh, Luke, que maravilha!
Levantou a mo como que a dizer que ainda no tinha acabado; depois, olhou outra vez para baixo e reuniu foras para continuar, enquanto eu esperava com um n na
garganta.
- Nem sequer contei  minha me que me tinha candidatado a Harvard. Sempre que eu costumava tocar no assunto, ela dava incio a uma das suas tiradas sobre o sangue
azul desta famlia ingrata, que se acha muito melhor do que ela. Dizia cobras e lagartos do tio Keith e da tia Jane, porque eles nunca lhe telefonavam nem escreviam,
nem davam sequer pela sua existncia. Aborrece-a nunca ter sido convidada para ir a Farthinggale, nem mesmo para a festa do casamento dos teus pais. Para ela tudo
est relacionado: Harvard, os Tatterton, a riqueza e aqueles a quem ela chama "os empertigados da cidade".
- Mas Luke, isso  to injusto para ti - consolei-o eu. Ele concordou com um aceno de cabea.
- De qualquer modo - continuou -, no lhe contara nada acerca da minha candidatura. A atribuio da bolsa de estudo chegou ontem pelo correio e ela abriu a carta.
Depois embebedou-se e rasgou a carta. Encontrei os pedacinhos no cho do meu quarto.
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- Oh, Luke, tenho tanta pena.
Encolhi-me de medo s de pensar no que ele devia ter sentido quando entrara no quarto e descobrira aquela correspondncia to importante espalhada pelo cho.
- No faz mal. O facto de ela ter rasgado a carta no vai impedir-me de ir. O que me incomoda so as coisas horrveis que ela disse enquanto se encontrava num dos
seus estados de embriaguez.
Sem precisar que ele me contasse, adivinhei o rumo que as suas palavras desagradveis haviam tomado.
- Foi sobre o meu pai?
Disse que sim com a cabea e eu respirei fundo, a fim de preparar-me para o que vinha a seguir.
-  melhor contares-me.
Fechei os olhos e estremeci antes mesmo de ouvir algo de horrvel.
- No vou contar-te tudo, porque h coisas demasiado perversas e odiosas. Nem eu mesmo quero lembrar-me, quanto mais repeti-las. A pior parte foi quando ela me acusou
de ser mais parecido com o Logan do que com ela; de ser mais leal  parte mais snobe da famlia do que a ela. Mas a verdade, Annie,  que os teus pais me tratam
melhor do que ela. Quase nunca est em casa para fazer o jantar, e detesta-me por eu passar tanto tempo na tua casa!
- Oh, ela no te detesta, Luke.
- Detesta uma parte de mim: a parte Stonewall. Por isso embebeda-se e escapa-se com um dos seus jovens namorados e depois castiga-me por eu no gostar que ela beba
e esteja com eles!
- Sinto muito, Luke, mas em breve partirs para a universidade e vais ficar afastado de tudo isto - prometi, muito embora odiasse a ideia de que iramos ficar separados.
- O facto  que eu no a odeio. Apenas detesto o que ela, por vezes, faz consigo mesma, e tenho pena dela e da vida que leva. Por isso, estudei muito e consegui
que ela tenha razes para recuperar o orgulho e andar de cabea levantada, no que ela no o consiga de qualquer maneira - acrescentou.
Eu sorri. A tia Fanny no hesitaria em pavonear o seu sucesso face s pessoas de Winnerrow. E ele continuou.
- Mas em vez de ficar satisfeita por eu ter sido aceite em Harvard com uma bolsa de estudo completa, acusa-me de abandon-la.
- Ela vai mudar de ideias - assegurei-lhe.
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"Pobre Luke", pensei. Trabalhara tanto para nos fazer a todos sentir orgulho nele, e a sua me destrua esse orgulho e deitava-o para o cho, como se fosse lixo.
Como ele devia estar destroado. Queria consol-lo, aliviar a sua angstia, segur-lo nos meus braos e ajud-lo a sentir-se feliz e alegre outra vez. E f-lo-ia,
se ao menos... se ao menos no houvesse tanta coisa que me impedisse.
- No sei. Em todo o caso, no me sinto nada entusiasmado com a proximidade da festa do seu aniversrio. Convidou todos os homens com quem andou e alguns dos seus
amigos de baixa condio, s pelo prazer de confront-los com a famlia. - Abanou a cabea. - No vai ser nada agradvel para nenhum de ns.
- A minha me vai aguentar, como sempre - garanti eu, como se a admirao que eu sentia pela minha me me animasse o esprito. - Em qualquer circunstncia, ela 
uma senhora. S espero ter metade da sua fora quando chegar  idade dela.
O Luke concordou com um aceno de cabea, com aquele olhar analtico que ostentava ao chegar a uma concluso.
- Vais ter. s igualzinha a ela.
- Obrigada. No h ningum com quem eu mais gostasse de parecer-me. E no te preocupes com a festa. vou l estar contigo para ajudar-te, caso a tia Fanny saia da
linha assegurei-lhe.
Os meus olhos e o meu rosto adquiriram uma expresso to intensa e determinada como acontecia com a mam quando tomava uma resoluo sobre qualquer assunto.
- Ainda no a viste realmente fora da linha, Annie avisou o Luke.
Depois, abanou de novo a cabea, sorriu e o seu rosto iluminou-se.
- De qualquer modo, obrigado por me ouvires. Sempre estiveste presente quando precisei de ti, e isso  muito importante. Nem imaginas quanto, Annie. S o facto de
saber que posso contar contigo ajudou-me a continuar, a trepar aquelas montanhas mais altas, a querer ver a vista l de cima. Quando fui admitido em Harvard, pensei
para comigo: "A Annie vai ficar orgulhosa e  por causa dela que eu desejo tanto isto e desejo tanto ser algum." s vezes acho que s a nica famlia de verdade
que tenho. Obrigado, Annie.
- No tens que agradecer-me por isso, Luke Toby Jnior.
No gostei da maneira como aquilo me soou; foi como se
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fosse unicamente uma boa amiga. Eu era mais do que isso e tinha de ser mais; queria ser mais. Tambm tu ouviste muitas vezes os meus problemas.
Ele sorriu com a minha lembrana, e os seus olhos azuis ficaram mais suaves e calorosos, tal como o cu sobre as nossas cabeas.
- vou ter saudades tuas quando fores para a Europa estudar arte. No entanto, sei como isso  importante para ti acrescentou ele suavemente. - E tambm sei que isso
vai ajudar-te a tornares-te a artista maravilhosa que ests destinada a ser.
- vou escrever-te sempre, mas tenho a certeza de que aps a primeira semana j ters arranjado uma namorada "emproada".
Como eu gostaria de dizer-lhe que seria sempre a sua namorada, mas como poderia faz-lo? ramos irmos e parecia que o mundo inteiro estava entre ns e aquilo que
queramos. No entanto, no fundo do meu corao, sabia que ele sentia o mesmo que eu, e uma parte de ns gritava, lamentava-se e desejava que pudssemos ficar juntos
para sempre.
Por isso, tnhamos de fingir, falvamos em cada um de ns encontrar outra pessoa, apesar de nos nossos coraes desejarmos e rezarmos para que isso nunca acontecesse.
O seu sorriso desapareceu e ficou to srio como um padre em dia de domingo.
- No sei. Depois de teres sido minha amiga durante toda a vida, seja ela quem for, vai ter de ser a maior das perfeies.
Os seus olhos azuis brilhantes voltaram-se, de novo, na minha direco, cheios de calor e afecto. Olhou para mim com tal desejo que eu senti um rubor subir-me ao
pescoo e fixar-se nas minhas faces. Estava a olhar para mim e eu para ele da maneira como dois jovens amantes deveriam olhar-se. No havia como neg-lo. Todo o
meu ser ansiava desesperadamente por abra-lo; quase que conseguia sentir os seus lbios de encontro aos meus. Esperou um sinal de encorajamento. Tinha de pr termo
quela situao antes que fosse longe de mais.
- Telefono-te mais tarde - sussurrei com uma voz ofegante, e corri pelo caminho at  entrada principal da Casa Hasbrouck.
Quando olhei para trs, ele ainda estava parado no mesmo stio. Acenou-me e eu acenei tambm. Esgueirei-me para dentro de casa e dirigi-me rapidamente para o meu
quarto,
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com o corao a bater mais violentamente do que nunca Porque tinha o Luke de ser meu meio-irmo e estar mais prximo de mim do que qualquer outra pessoa da minha
idade? Partilhvamos tanta coisa: a nossa felicidade e a nossa tristeza.
Como desejei que ele fosse um desconhecido a caminho de Harvard; que eu fosse visitar Tony Tatterton em Farthinggale e tivesse acabado de conhecer o Luke em Boston.
Talvez nos encontrssemos numa loja. Ele dirigir-se-ia a mim e diria qualquer coisa como:
- Oh, essa cor no a favorece. Talvez esta aqui. - Iria buscar o xaile cor de gua-marinha. - Vai querer realar a cor dos seus olhos.
Ento, eu virava-me e contemplava o rosto mais atraente que jamais tinha visto e apaixonar-me-ia instantaneamente.
- Desculpe a ousadia, mas no podia ficar tranquilo a v-la cometer um grande erro.
Falaria com a sua costumada autoconfiana e deixar-me-ia boquiaberta. Sentia-me sempre em segurana quando estava com o Luke.
- Nesse caso, tenho de agradecer-lhe - diria eu, pestanejando galantemente. - Mas, antes, preciso de saber o seu nome.
- Luke. E o seu nome  Annie. J me dei ao trabalho de investigar.
- A srio?
Ficaria lisonjeada e impressionada. Depois iramos tomar um caf e conversaramos. Iramos ao cinema e jantar fora sempre que eu viesse a Boston. Depois, ele iria
visitar-me  propriedade e ficaramos a conhecer-nos melhor naquele ambiente sumptuoso, s que no seria nada daquilo que o Drake havia descrito; seria como eu e
o Luke havamos fantasiado: um castelo cheio de salas e arco-ris de sonhos. Se ao menos eu pudesse adormecer e, quando acordasse, aquela fantasia pudesse ser uma
realidade.
Contudo, isso no era possvel. O tempo era como uma montanha-russa e estvamos a aproximar-nos do topo da colina mais alta. Ambos nos encontrvamos prestes a terminar
o liceu e depois precipitar-nos-amos a pique nos nossos futuros que poderiam facilmente conduzir-nos em direces opostas. Nem teramos sequer a oportunidade de
nos voltarmos e olhar para trs.
Fiquei de p, junto  janela do meu quarto, e olhei-o a afastar-se. Em seguida, deitei-me em cima da cama e continnuei
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a olhar pela janela atravs das cortinas cor-de-rosa e brancas, a escutar o canto dos pssaros e o bater descompassado do meu prprio corao. Senti-me to triste
que chorei Durante um bocado que me pareceu uma eternidade. A voz doce e preocupada da minha me salvou-me das minhas prprias lgrimas.
- Annie, que se passa?
Entrou no quarto apressadamente e sentou-se na cama, ao meu lado.
- Querida?
Senti o alvio da sua mo no meu cabelo, afagando o meu cabelo comprido, castanho-escuro, com apreenso. Virei para ela os meus olhos cheios de lgrimas.
- Oh, me, no sei - lamentei-me. - s vezes, no consigo deixar de chorar e sentir-me pessimamente. Sei que deveria sentir-me feliz. Em breve acabo o liceu e estarei
de partida para uma visita prolongada pela Europa. vou ver todos aqueles lugares maravilhosos sobre os quais a maior parte das pessoas apenas leu ou viu fotografias,
e tenho tantas coisas que outras raparigas da minha idade no tm, mas...
- Mas o qu, Annie?
- Mas de repente tudo parece acontecer depressa de mais. O Luke est a preparar-se para ir para a universidade e tornar-se uma outra pessoa. Provavelmente vamos
ver-nos muito pouco da em diante - gritei.
- Mas  isso que significa crescer, querida. Ela sorriu e beijou-me no rosto.
- E todas aquelas coisas que costumavam ser to importantes para mim vo parecer pequenas e... simples. O terrao...
- Que tem o terrao, Annie?
Aguardou uma resposta com um sorriso gelado nos lbios, enquanto eu tentava encontrar as palavras que fizessem tanto sentido para mim como para ela.
- Agora  s... um terrao - declarei.
- Bem,  o que sempre foi, Annie.
- No, era mais do que isso - insisti.
"Era muito mais", pensei. Era o lugar dos nossos sonhos... e esses estavam a desaparecer muito rapidamente. A mam abanou a cabea.
- S ests a atravessar uma fase, como todas as pessoas da tua idade, Annie. A vida pode ser assustadora quando se nos deparam estas encruzilhadas. Durante todo
este tempo, foste uma menina protegida e amada e agora pedem-te que cresas e te tornes responsvel.
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- Isto tambm te aconteceu? - perguntei.
- Receio que tenha sido bastante mais cedo.
- Porque o teu pai te vendeu, tal como aos teus irmos e irms?
- Muito antes disso, Annie. No tive muitas oportunidades de ser uma criana. Antes que pudesse aperceber-me do que estava a acontecer, tive de ser uma me para
o Keith e para a Jane.
- Eu sei. E a Fanny no ajudou em nada - repeti. J tinha ouvido aquela histria e receava que fosse a mesma coisa que iria ouvir agora.
- No. - Riu-se. - Muito dificilmente. A Fanny sempre conseguiu livrar-se das frustraes como de uma pea de roupa que facilmente se despe. Mas o teu tio tom ajudou
bastante. O tom era maravilhoso, forte e muito maduro para a sua idade. Como eu gostaria que o tivesses conhecido acrescentou ela, melancolicamente.
Os seus olhos, tal como os meus, adquiriram uma expresso distante.
- Mas a tua vida transformou-se para muito melhor depois de ires viver para Farthy, no  verdade? - recordei eu, esperando que ela me contasse mais alguma coisa.
Parecia assustada, como se, de facto, tivesse estado noutro mundo.
- No imediatamente. No te esqueas de que eu era uma rapariga dos Willies que, de repente, foi viver para um mundo elegante, sofisticado e luxuoso. Fui enviada
para uma escola distinta, frequentada apenas por raparigas ricas e snobes, que me fizeram sentir indesejada.
O seu rosto endureceu  medida que se recordava.
- As raparigas ricas podem ser muito cruis, porque o seu dinheiro e a sua fortuna protegem-nas como um casulo. Nunca desconsideres nem sejas antiptica para com
aqueles que tm menos do que tu, Annie.
- Oh, no serei - insisti.
Sem dvida que a minha me me tinha instilado esses conceitos desde o tempo em que eu tinha idade suficiente para falar.
- No, de facto, no me parece que sejas. - Sorriu docemente. - Por muito que tentasse, o teu pai no conseguiu estragar-te com mimos - troou ela, e os seus olhos
brilharam de carinho.
- Me, vais contar-me alguma vez porque odeias tanto o Tony Tatterton?
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Engoli em seco e mordi a lngua com fora para evitar contar-lhe sobre a carta do Drake e a sua visita a Farthy.
O meu dio no  to grande como a pena que sinto dele, Annie - disse ela, e a sua voz soou firme. - Ele pode ser um dos homens mais ricos da Costa Leste, mas, tanto
quanto sei,  uma criatura pattica.
- Mas porqu?
Fitou-me. Ao olhar para mim, conseguiria ela ver as coisas que eu j sabia, as coisas que o Drake me havia escrito e contado pelo telefone? Fui forada a desviar
os meus olhos dos dela; porm, na verdade, ela no estava a olhar para mim; estava a olhar atravs de mim para as suas prprias recordaes. Reparei na maneira como
elas transformavam e torciam os seus lbios; lhe tornavam os olhos mais pequenos e lhe trouxeram um sorriso ao rosto, seguido de uma expresso zangada.
- Me?
- Annie - respondeu ela -, h muito tempo, houve algum que me disse que  uma armadilha pensar que, por vezes, o desejo e a necessidade so sinnimos de amor. E
tinha razo. O amor  uma coisa muito mais valiosa, mas tambm muito mais frgil. To frgil como... como um dos nossos brinquedos feitos  mo, mais pequenos, mais
minuciosos e mais delicados. Se o agarrares com demasiada fora, esmigalha-se por entre os teus dedos. Mas, se lhe pegares com pouca fora, o vento pode lev-lo
com um sopro e despeda-lo no cho frio. Escuta a voz do teu corao, Annie, mas certifica-te bem de que a voz vem realmente do teu corao. Prometes-me que vais
lembrar-te disto, Annie?
- Sim... Mas por que razo ests a dizer-me tudo isso? Tem alguma coisa a ver com a tua vida em Farthy?
Sustive a respirao.
- Um dia, conto-te tudo, Annie. Prometo. Mas agora ainda no  a altura certa. Confia em mim, por favor.
- Confio em ti, me, mais do que em qualquer outra pessoa no mundo.
No consegui evitar a decepo. H tantos anos que ouvia aquela promessa. Quando seria a altura certa? J tinha dezoito anos e era uma mulher adulta. A minha me
oferecera-me os seus diamantes mais valiosos e a cpia to apreciada da casa de campo. Quando me contaria ela a verdadeira histria da sua vida?
- Minha Annie! Minha querida e adorada Annie! Abraou-me e apertou a sua face de encontro  minha.
Depois, suspirou e levantou-se.
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- Bem, ainda no comprei uma prenda de aniversrio para a tua tia Fanny. Fala como um... um carroceiro, mas est longe de ser parva.  capaz de fazer-nos sentir
culpados antes de termos uma hiptese de dizer no. No h ningum como ela - acrescentou a minha me, abanando a cabea com um sorriso divertido.
- Fala com ela sobre o Luke, me. Faze com que ela deixe de infernizar-lhe a vida e faz-lo sentir remorsos por ir para Harvard.
- Ele foi admitido?
Levantou a voz com o prazer que sentiu ao ouvir a notcia.
- Sim. E com uma bolsa de estudo completa!
- Que maravilha!
Ela endireitou-se com uma ponta de orgulho.
- Mais outro descendente do av Toby Casteel que vai para Harvard - comunicou ela, como se o estivesse a fazer para a cidade inteira. Em seguida, os seus olhos suavizaram-se.
- No te preocupes com a Fanny. Ela vai dizer e fazer algo dramtico mas, no fundo do corao, est orgulhosa do Luke e tenho a certeza de que achar uma razo para
ir fazer-lhe uma visita e passear-se pelo recinto inteiro da universidade como uma rainha.
Cruzou os braos por baixo dos seios, como a tia Fanny fazia tantas vezes, e atirou a cabea para trs.
- Bem, o meu filho anda aqui, por isso acho que posso passear nesta relva se me apetecer.
Ambas nos rimos e depois ela voltou a abraar-me.
- Assim est melhor. Agora s a Annie que deves sempre ser: feliz, gentil e animada. s tudo o que eu desejaria ter sido, querida - disse ela, docemente.
Nesse momento, as minhas lgrimas eram de felicidade.
Como a minha me conseguia sempre desanuviar to rapidamente as minhas nuvens mais sombrias. De sbito, o meu mundo estava outra vez inundado pelo sol brilhante
e dourado e as canes dos pssaros deixaram de ser tristes. Abracei-a, beijei-a e dirigi-me  casa de banho para lavar o meu rosto sulcado pelas lgrimas, de modo
a poder ir com ela comprar um presente de aniversrio para a
tia Fanny.

4 A FESTA DE ANIVERSRIO DA TIA FANNY

Estava uma noite maravilhosa para uma festa. O cu era uma cortina de sumptuoso veludo negro e sobre ela pequenos diamantes engastados ao acaso. O ar estava perfumado
e calmo. Eu e os meus pais j nos tnhamos vestido e estvamos prontos. Roland Star saudou-nos l fora, na entrada, quando samos de casa.
- Isto  a calmaria que antecede uma forte tempestade comentou ele, no seu modo pachorrento.
- Mas no h uma nuvem no cu! - notei eu.
No que tocava a prever o tempo, o Roland quase nunca se enganava.
- As nuvens esto l mais adiante, flutuando para l do horizonte, Annie. So do tipo que se aproxima devagar e sem ser notado.  s esperar um bocado e j vo aparecer
os primeiros raios. Depois  correr para dentro de casa.
- Achas que vai chover? - perguntei  minha me. Uma trovoada primaveril podia significar chuva torrencial e o inundar de tudo. Ento, a festa seria um fracasso.
- No te preocupes. No vamos ficar muito tempo na festa.
Olhou para o meu pai para obter uma confirmao, mas ele apenas encolheu os ombros. Em seguida, entrmos no nosso Rolls-Royce e dirigimo-nos para casa da Fanny e
do Luke.
Tinham uma casa bonita, modesta comparada com a Casa Hasbrouck, tal como a maioria das casas em Winnerrow. Depois de a tia Fanny ter "misteriosamente" herdado uma
avultada soma em dinheiro - uma herana que, tal como eu, o Luke e o Drake viemos a perceber, tinha alguma coisa a ver com a audincia pela custdia do Drake - redecorou
a casa e aumentou-a. Comprou a casa original com o dinheiro que recebeu do seu primeiro casamento com um homem chamado
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Mallory. Nunca soube o seu primeiro nome, porque ela sempre se referia a ele apenas como "o velho Mallory". O seu segundo casamento com Randall Wilcox durara pouco.
H muito tempo que ele havia partido e depois disso a tia Fanny voltara a usar legalmente o nome Casteel, em parte para poder esfreg-lo na cara dos habitantes da
cidade, ou pelo menos foi o que eu sempre pensei.
A tia Fanny parecia estar sempre a ameaar-nos com um terceiro casamento. No entanto, dava-me ideia que isso seria uma ameaa v porque, desde que eu me lembrava,
nunca mais ela sara com algum prximo da sua idade. Todos os seus namorados andavam na casa dos vinte anos. Um dos mais recentes, Brent Morris, era apenas quatro
anos mais velho do que o Luke.
A casa dela ficava numa colina, com vista sobre Winnerrow, e o conjunto de rock tinha instalado altifalantes com um som to alto que podia ouvir-se a msica l em
baixo na rua principal. Comemos a ouvir a msica assim que inicimos a subida da colina. A minha me achou aquilo um excesso, mas o pap limitou-se a rir.
Quando chegmos, a festa estava no seu auge. O conjunto de rock instalara-se na garagem da Fanny e a entrada, que havia sido alargada e ampliada, estava a ser utilizada
como pista de dana. Por cima da porta da garagem, pintada de vermelho fluorescente, havia uma faixa que dizia FELIZ ANIVERSRIO, FANNY! Lanternas de papel estavam
penduradas nos galhos das rvores e havia serpentinas espalhadas a decorar toda a propriedade.
A mam pediu ao pap para estacionar o carro num lugar onde no pudesse ser bloqueado por nenhum outro, para podermos sair apressadamente quando ela achasse conveniente;
o pap, porm, no parecia to ansioso por procurar uma sada de emergncia. Estava com uma invulgar boa disposio. Desconfiei que tinha bebido um pouco em casa
para se fortalecer para a ocasio. Independentemente dos anos que passaram e da maneira sensacional como a mam tinha reagido, o pap ficava sempre perturbado na
presena da tia Fanny. As conversas dela eram normalmente plenas de insinuaes, que deixavam toda a gente pouco  vontade. Tinha de admirar a mam pela maneira
subtil, como uma grande dama, com que sempre havia lidado com as atitudes da Fanny. S esperava que o Luke tivesse razo ao dizer que eu seria to forte e firme
como ela quando estivesse sozinha.
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A tia Fanny veio logo a correr na nossa direco assim que samos do carro. Tinha o cabelo encrespado e no ar e usava um vestido de couro negro, o mais apertado
que se possa imaginar. Era como uma segunda pele. O vestido tinha um grande decote em V, bem pronunciado abaixo da curvatura dos seus seios. No usava qualquer jia,
como se no quisesse que nada competisse com a pele macia e levemente rosada do seu seio. A minha me no parecia surpreendida; os olhos do pap, contudo, arregalaram-se
em sinal de admirao masculina. Olhei em volta,  procura do Luke, percebendo como ele j devia estar a sentir-se embaraado.
Fanny enfiou um dos braos debaixo do brao direito da mam e o outro no brao esquerdo do pap, de maneira a poder acompanh-los at ao local da festa e anunciar
a sua chegada, o que fez de imediato. Segui-os, de perto, um pouco mais atrs.
Tinha sido instalado um amplo bar em frente da casa e dois barmen serviam generosamente as bebidas, sem sequer se pYeocuparem com a quantidade de lcool que punham
nos copos. Perto do bar provisrio, havia um barril cheio de cerveja, submerso num tanque de gelo. Uma correnteza uniforme de homens, muitos dos quais habitavam
nos Willies, faziam fila para encher as suas canecas.
A Fanny mandara pendurar conjuntos de lmpadas ao longo do relvado, desde a casa at s rvores mais prximas. Contratara meia dzia de mulheres para preparar e
servir a comida. Todas elas usavam batas de algodo branco e serviam a comida atrs de compridas mesas cobertas de tachos com frango frito, travessas de peixe, tigelas
cheias de uma variedade de saladas, pur de batata e legumes cozidos em vapor.
- A minha mana rica e o meu cunhado, o rei e a rainha de Winnerrow, os Stonewall! - gritou a Fanny.
- Oh, Fanny, por favor. Tem juzo - repreendeu-a a minha me.
- Ora, deixa-a divertir-se - disse o pap. Achei que ele gostara de ser chamado o rei de Winnerrow. E prosseguiu:
-  a noite dela. Feliz aniversrio, Fanny!
- Obrigadinha, querido Logan, mas no levo ao menos um beijo de parabns? No te importas, pois no, Heavenly?
- Isso  com o Logan, Fanny. No tenho que dizer-lhe quem ele pode ou no beijar.
A Fanny achou graa  resposta da minha me. Comeou
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a rir sem parar, e depois cessou o riso de repente e encostou-se ao meu pai de uma maneira to sedutora que interrompeu as conversas  nossa volta. Toda a gente
se calou e ficou a olhar. A minha me afastou-se; eu, porm, no consegui desviar o olhar deles os dois. O pap sorriu nervosamente e depois inclinou-se para dar
 Fanny o seu beijo de parabns.
Quando os seus lbios se tocaram, a Fanny agarrou-o pelos ombros e puxou-o para si. Vi como ela movimentava a lngua entre os lbios dele e encostara o peito ao
brao dele. Alguns dos homens dos Willies aplaudiram e incitaram com lascvia. Quando os seus lbios finalmente se separaram, a Fanny arrastou o pap at  pista
de dana, enquanto ele olhava para trs para mim e para a minha me, sem conseguir fazer nada. A Fanny comeou a rodopiar  sua frente, incitando-o a juntar-se a
ela, naquilo a que chamou "estas danas modernas".
Obrigou-o a desapertar um pouco a gravata.
- No precisavas de ficar todo pinoca para a tua velha Fanny - comunicou ela.
Dirigia tudo o que dizia para a assistncia de rapazes que se aglomerava  sua volta. Eles riam, sorriam e acotovelavam-se. O conjunto tocava cada vez mais alto.
Voltei a procurar o Luke, mas no o vi c fora em lado nenhum.
- vou buscar qualquer coisa para comer, Annie - declarou a minha me com firmeza -, e vou pr o presente da Fanny naquela pilha ali adiante. Queres comer alguma
coisa?
Olhei para o seu rosto e perguntei-me como se sentiria ela em relao ao facto de o pap e a tia Fanny estarem a ser o centro das atenes, principalmente com todos
os mexericos que corriam sobre o seu caso h tantos anos. Contudo, mesmo nessas circunstncias, a mam tinha uma capacidade extraordinria para reprimir os seus
verdadeiros sentimentos. S mesmo uma pessoa como eu, algum que a conhecia h tanto tempo e estava to prxima dela, podia reparar no olhar frio e duro nos seus
olhos azuis e perceber que ela estava no s triste, como tambm furiosa.
Como conseguia ela controlar-se tanto? Isso era para mim um enigma. E se acontecesse algo parecido comigo e com o meu marido? Seria eu capaz de controlar-me como
ela, ou simplesmente explodiria? Se fosse com o Luke e ele estivesse a beijar outra mulher...
O pap tentava balanar as ancas ao ritmo da Fanny, enquanto ela se aproximava e pousava as mos nos seus ombros.
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Achei-a ridcula, a danar como uma adolescente lasciva. Ele parecia aturdido. Como o pap e a tia Fanny estavam a ser injustos para com a mam, tendo em conta o
que ela era obrigada a suportar enquanto eles se exibiam para aquela multido enrouquecida. Apeteceu-me gritar para o pap parar com aquilo e tambm quis dar um
berro  tia Fanny por no ter em considerao os sentimentos da minha me. Havia um limite para o egosmo e para tudo o que se podia desculpar em nome da diverso,
conclu eu. Precisava de falar Com o Luke.
- Primeiro vou procurar o Luke e depois vamos ter contigo
- Est bem, querida - disse ela e deitou um olhar para o pap e para a tia Fanny.
Nesse momento, a Fanny tinha os braos  volta da cintura dele e balanava as ancas freneticamente de um lado para o outro. Por um momento, perguntei a mim prprio
se no deveria interromp-los e levar o pap para longe da Fanny, mas depois pensei que ela podia fazer um escndalo ainda maior, embaraando-nos ainda mais. Fui
 procura do Luke e finalmente encontrei-o em casa, sentado sozinho no sof da sala de estar.
- Luke, porque ests sentado aqui sozinho?
Ele levantou os olhos. Quando me viu, o seu sorriso rompeu a camada de gelo que cobria o seu rosto furioso.
- J no consigo suportar aquilo l fora, Annie. Decidi que o melhor a fazer era vir para dentro e esperar que tudo acabe. Ela est a atirar-se a todos eles, e a
maneira como a beijam e como ela corresponde... - Abanou a cabea. - Que est ela a tentar provar?
- Provavelmente que pode ser jovem e bonita para sempre. Que os rapazes novos vo sempre desej-la.
- Por que razo no se porta ela como uma mulher da sua idade? Porque no pode ela ter classe, como a Heaven?
- Agora est a fazer uma cena com o pap, e a minha me est furiosa - disse eu, sem esconder a minha raiva.
Ele ergueu o olhar rapidamente.
- A srio? At tive pesadelos com isso. E o teu pai est a reagir como?
- Acho que est s a tentar ser delicado e evitar que ela provoque cenas ainda mais embaraosas, mas no sei por quanto tempo mais a minha me vai aguentar. Tenho
tanta pena dela, Luke.
- Julgo que  melhor voltar l para fora. Talvez eu possa fazer alguma coisa. Desculpa - disse ele.
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- No podes passar a vida a pedir desculpas pela tua me, Luke.
- Acho que no tenho feito outra coisa desde que me lembro.
Endireitou-se. Estava muito bonito, com um casaco desportivo azul-claro e gravata. O seu abundante cabelo negro era macio e ondulado. Na minha opinio j no parecia
um rapazinho. Parecia um homem; um homem que conseguiria lidar com uma situao como esta. Fui atrs dele at l fora.
O conjunto estava a tocar outra msica. Subitamente, ouviu-se uma moda dos Willies, e os homens das barracas haviam formado uma roda  volta da tia Fanny e do pap,
que parecia ter-se habituado quela pardia  medida que a tia Fanny rodopiava  sua volta. O seu cabelo, que j estivera cuidadosamente penteado, mostrava-se agora
em desalinho, esvoaando desenfreadamente.
Vislumbrei a minha me, ligeiramente afastada, de p sob um pinheiro. Tinha um prato de comida nas mos, mas, na realidade, no estava a comer.
- O teu pai est a fazer figura de parvo - murmurou ela, quando eu e o Luke nos aproximmos dela. - Tenho estado  espera que ele caia em si, mas pelas minhas contas
ele j tomou umas quatro bebidas.
- Eu vou interromp-los - ofereceu-se o Luke.
Afastou-se antes de a minha me poder responder. Desviou dois homens e entrou na roda, agarrou a mo direita da tia Fanny e puxou-a para si, afastando-a do pap,
o qual ainda ficou s voltas, confuso por um momento. Em seguida, recomps-se, viu que a Fanny estava a danar com o Luke e retirou-se do centro da roda. A minha
me avanou.
-  melhor comeres alguma coisa, Logan, para ensopares um pouco desse lcool - aconselhou ela, numa voz dura e fria.
- Ha?
Ele olhou para mim e depois para a roda de homens e mulheres que batiam palmas e se juntavam ao Luke e  Fanny enquanto estes danavam. Limpou o rosto com o leno
e abanou a cabea.
- A tua irm  doida! - exclamou. A minha me fitou-o apenas. - Estou esfomeado - acrescentou rapidamente e dirigiu-se para a mesa da comida.
Fiquei a v-lo tropear pelo caminho e, quando levantei os olhos para o cu, vi as nuvens furtivas de Roland Star comearem a deslizar por cima dos imponentes montes
escuros, dirigindo-se directamente para Winnerrow.
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O pap encheu um prato com comida e deixou-se cair pesadamente numa cadeira perto de uma das mesas que a Fanny mandara colocar no relvado. A me e eu juntmo-nos
a ele e comemos a comer enquanto observvamos aquele rupo de bomios que se agitava num frenesim cada vez mais desenfreado. Reconheci algumas das pessoas da cidade.
Parecia-me que a Fanny devia ter convidado todas as pessoas que encontrara, com a inteno de fazer com que a sua festa se tornasse um evento memorvel para Winnerrow.
Muitas dessas pessoas eram operrios e serventes. Nenhum dos amigos mais sofisticados dos meus pais havia comparecido, nem mesmo como ateno para com eles; tive
a certeza de que a minha me seria perfeitamente capaz de perdo-los por isso. No me lembro de alguma vez ter visto a minha me to constrangida como naquele momento.
Subitamente, a tia Fanny parou de danar e dirigiu-se ao responsvel do conjunto. Ele acenou com a cabea, e o conjunto tocou uma curta introduo seguida pelo rufar
da bateria. A tia Fanny virou uma lata de lixo ao contrrio e dois dos seus jovens admiradores masculinos ajudaram-na a subir.
- Quero dizer uma coisa - comeou ela.
- S uma? - gritou algum, e seguiu-se uma confuso de risos.
- Bem, talvez seja mais ou menos uma dzia - contraps a tia Fanny, e seguiram-se mais risos. - Quero agradecer a todos por terem vindo  festa dos meus quarenta
anos.  isso mesmo, eu disse quarenta e tenho muito orgulho nisso. Tenho orgulho em ter quarenta anos e parecer ter vinte.
Deu uma volta em cima da lata do lixo para exibir a sua silhueta, empinando os seios. Os homens que estavam  sua volta assobiaram e bateram com os ps no cho.
Olhei para o Luke. Retirara-se um pouco para o lado e baixara a cabea. Senti imensa pena dele e desejei poder pegar-lhe na mo e lev-lo para bem longe dali.
- As outras mulheres, principalmente as ricas e poderosas de Winnerrow, que nem sequer se dignaram vir  minha festa, mentem sobre a idade. So obrigadas, porque
quando tinham vinte anos pareciam ter quarenta.
Houve ainda mais risos. Ento um dos rapazes gritou:
- Eu tenho vinte anos, Fanny. Quantas vezes  que vinte cabe em quarenta?
Os risos aumentaram de tom. A Fanny sorriu, ps as mos nas ancas e virou-se para ele.
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- Nem uma - exclamou ela, e a assistncia uivou. - de qualquer maneira, seus palermas, hoje tenho muitas razes para estar contente. Esto a ver ali o meu filho
Luke, com um ar de quem quer meter-se debaixo de uma pedra. Ora bem, ele deu-me uma grande alegria. Foi admitido em Harvard, e eles querem tanto que ele v que at
lhe pagam as malditas contas todas. E que tal para um Casteel, ha?
O Luke levantou a cabea; o seu rosto estava to vermelho que eu pensei que fosse pegar fogo. Toda a gente se tinha virado para olhar para ele.
- Ento queres fazer um discurso, querido Luke, ou achas que estes labregos no te iam perceber?
O Luke no respondeu.
- No faz mal, querido. Sou capaz de falar pelos dois e, quando for a Harvard, hei-de mostrar umas coisas a esses professores.
- L isso vais, Fanny - gritou algum.
Em seguida, o conjunto atacou o Parabns a Voc e a assistncia comeou a cantar. A Fanny fazia poses em cima do caixote virado ao contrrio e sorriu abertamente
para mim e para a minha me. Quando a cano terminou, todos aplaudiram, enquanto meia dzia daqueles rapazes se precipitava para ajudar a Fanny a descer.
Momentos mais tarde, a nossa ateno ficou centrada em dois homens que comearam a empurrar-se. Um deles acusava o outro de lhe ter passado  frente na fila da cerveja.
Os amigos de ambos, em vez de separ-los, incitavam-nos, at que um deu um soco no outro. As pessoas apressaram-se a separ-los. O pap achou graa a tudo aquilo.
- J  hora de irmos, Logan - declarou a mam com firmeza. - Esta festa s tem tendncia a piorar.
- Daqui a pouco - respondeu o pap e levantou-se para se aproximar da discusso.
Os dois homens vociferavam injrias recprocas. Consegui ouvir as gargalhadas da tia Fanny no meio do barulho. O vento tornara-se mais forte, e as lmpadas que estavam
penduradas ao longo do relvado comearam a baloiar. A faixa em homenagem  tia Fanny rompeu-se,  medida que o vento a empurrava para cima e para baixo, de modo
que agora oscilava livremente na noite como um estandarte de guerra.
A tia Fanny dirigiu-se directamente para o local da briga.
- Que raio de ideia  essa de lutar no dia dos meus anos? - perguntou ela, com as mos nas ancas.
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Trs dos seus jovens namorados juntaram-se  sua volta e
comearam a descrever-lhe a rixa. Ela balanava entre um p
e outro enquanto escutava. O Luke surgiu por detrs dela,
olhou na minha direco e abanou a cabea. A mam lanou-se subitamente para a frente e agarrou no brao do pap.
- Logan, quero ir para casa. Agora! - insistiu ela.
Fitou-a por um instante e depois anuiu. Ela conduziu-o at ao logar onde eu estava.
- Vamos embora, Annie.
A raiva estampada no seu rosto parecia prestes a explodir.
Levantei-me e segui-a, e o meu pai arrastava-se lentamente atrs de ns. Antes, porm, que consegussemos chegar ao carro, a Fanny descobriu-nos e gritou:
- Onde  que pensas que vais, Heavenly? A minha festa ainda agora comeou!
Olhei para trs, mas a minha me mandou-me continuar e seguir para o carro. As gargalhadas da tia Fanny seguiram-nos como a cauda de um papagaio de papel. O pap
tropeou atrs de ns e apanhou-nos j depois de estarmos no banco traseiro do carro.
- s capaz de guiar? - perguntou-lhe a minha me.
- Claro que sou capaz de guiar. No percebo porque ests to nervosa. Dois tipos tiveram uma pequena desavena. Nada de especial. J esto outra vez grandes amigos.
Entrou no carro e comeou a remexer nos bolsos,  procura das chaves.
- Bebeste de mais, Logan. E sei que tambm tomaste qualquer coisa em casa, antes de sairmos para a festa.
- E depois?  para isso que servem as festas, ou no ? - respondeu ele com uma aspereza inesperada.
- No - retorquiu ela, violentamente.
O pai encontrou a chave e concentrou-se em conseguir met-la na ignio. No me lembro de alguma vez o ter visto assim to confuso. De repente, um pingo de chuva
bateu no pra-brisas como um esguicho. Seguiu-se outro e depois outro.
- De qualquer maneira, parece que vai chover na festa disse ele de mau humor. - O Roland tinha razo.
-  a melhor coisa que podia acontecer - comentou a minha me. - Vai acalmar os nimos de todos e toda a gente - acrescentou, olhando para ele propositadamente -
est a precisar de esfriar um pouco os nimos.
O pap ps o carro a trabalhar e ns fomos empurradas para a frente.
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- Que queres dizer com isso?
Voltou-se para a mam e olhou para ela de uma maneira agressiva.
- No devias t-la deixado beijar-te e tratar-te daquela maneira, Logan. Toda a gente viu.
- E ento, que querias que eu fizesse? Que lhe desse uma sova?
- No, mas no precisavas de ter sido to solcito.
- Solcito? Ora, deixa-te disso, Heaven. No  justo. Estava encurralado, eu...
- Vai mais devagar. A chuva est mais intensa e sabes como estas estradas podem ser perigosas - advertiu a mam.
- Eu no queria danar assim com ela, mas achei que se me afastasse, podia ser pior e quem sabe o que ela seria capaz de dizer. Ela estava a cair de bbeda e...
- Vai mais devagar! - gritou ela, desta vez com maior veemncia.
Agora, o pra-brisas j estava coberto de gua e os limpa-vidros no conseguiam afast-la totalmente.
Detestei v-los daquela maneira. Apercebi-me de que as nicas vezes que eles discutiam assim era quando a tia Fanny estava envolvida na discusso. Por qualquer razo,
ela conseguia sempre causar problemas entre eles, remexendo em feridas antigas, ou abrindo novas feridas. Na minha opinio, fora uma pena ela no ter fugido com
um dos seus rapazes e deixar o Luke a viver connosco. Ento sim, podamos ser verdadeiramente uma famlia feliz e nunca teramos de preocupar-nos com situaes desagradveis
como esta.
- No vejo nada! - exclamou a mam, mas o pap no a ouviu.
- s capaz de imaginar o que est a passar-se l agora? disse ele a rir. Olhou para a mam e lamentou-se: - Desculpa se te fiz sofrer, Heaven. A srio que estava
s a tentar...
- Logan, olha para a estrada. Estas curvas...
A estrada que descia at Winnerrow era ngreme e cheia de curvas perigosas. Naquele momento, a chuva, que vinha de leste, fustigava as encostas dos montes. A conduo
incerta do pap fazia-me balanar de um lado para o outro, l atrs. Estiquei-me e agarrei-me  pega por cima da janela.
- Tu sabes que no tive inteno de fazer nada... - recomeou ele, mas a mam cortou-lhe a palavra.
- Est bem, Logan - declarou ela com nfase. - Falamos sobre isso quando chegarmos a casa.
De repente, quando nos aproximvamos de uma curva
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apertada, um veculo, que vinha a subir a colina, dirigiu-se a grande velocidade na nossa direco.
Ouvi a minha me gritar e senti o carro dar uma guinada para a direita. Depois, senti o carro travar.
A ltima coisa de que me lembro foi o grito agudo da mam e a voz subitamente sbria do pap a chamar o meu nome.
- Annie... Annie... Annie...

5 A MAIOR PERDA

Abri os olhos. Pareceu-me estar a fazer um esforo enorme. Era como se as plpebras tivessem sido cosidas. Pestanejei repetidamente, e as plpebras comearam a abrir
e a fechar com menos esforo.
Onde estava eu? O quarto era to branco. E aquela roupa de cama... cheirava a goma e era to spera. E havia um pequeno zumbido nos meus ouvidos.
- Annie! Enfermeira, ela est a abrir os olhos. Enfermeira... enfermeira!
Virei-me devagar, e a minha cabea parecia feita de pedra, como o busto de Jefferson Davis1 no ptio principal da escola de Winnerrow. Uma mulher de branco - uma
enfermeira - tomou o meu pulso direito entre os seus dedos para verificar a minha pulsao e vi o tubo do soro preso ao meu brao.
Olhei para a minha esquerda. A, estava sentado um senhor de idade, com o cabelo grisalho e os olhos azul-claros mais brilhantes que eu j vira. Virei-me de novo
para a enfermeira. Estava ocupada a escrever num grfico e deitou apenas um rpido olhar ao homem, o qual tomou a minha mo esquerda entre as suas e se inclinou
um pouco mais sobre mim. Ficou to prximo que consegui sentir o cheiro do seu aftershave ligeiramente adocicado.
- Quem  o senhor? - perguntei. - O que estou a fazer aqui?
- Annie, receio que me tenha cabido a tarefa de comunicar-te
1 Jefferson Davis: oficial e poltico norte-americano que nasceu em Fairview, no Kentucky, em 1808, e faleceu em Nova Orlees, em 1889. Foi presidente dos Estados
Confederados durante a Guerra da Sucesso. (N. da T.)
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a notcia mais terrvel que possas ouvir. Espero que no me odeeies Por ser o portador de to grande desgosto.
fechou os olhos e respirou fundo, como se lhe faltasse o ar por dizer aquelas poucas palavras.
- Que desgosto?
Tentei erguer-me; o meu corpo, porm, parecia adormecido da cintura para baixo. S consegui levantar os ombros a escassos centmetros do colcho.
- Sofreste um terrvel acidente de automvel e estiveste em coma.
- Acidente?
Pisquei os olhos. Depois lembrei-me de tudo de repente: a chuva, o grito da minha me e o meu pai a chamar "Annie!" O meu corao estremeceu.
- Oh, meu Deus! Onde esto os meus pais? Onde est a minha me? Mam! - gritei, sentindo-me subitamente desvairada. Olhei para a enfermeira e perguntei: - Onde est
o pap?
Um pnico frio e hmido apossou-se de mim. Aquele homem estranho fechou os olhos e depois abriu-os devagar, apertando a minha mo.
- Annie, sinto muito.
Senti-me como se estivesse a viver um pesadelo em cmara lenta. Olhei para o homem e vi a dor nos seus olhos misturada com lgrimas. Baixou a cabea e depois levantou-a
para encarar-me.
- Sinto muito, Annie.
- No!
No quis aceitar as suas palavras, mesmo antes de ele as pronunciar.
- Morreram os dois - comunicou-me ele, com as lgrimas a correrem pelo rosto. - Estiveste em coma durante dois dias.
- No!
Retirei a minha mo dos seus dedos fortes e enterrei o rosto na almofada.
- No, no acredito em si.
Naquele momento, sentia todo o meu corpo adormecido, gelado, como se estivesse morta. No queria estar ali e desejava que aquele homem se fosse embora. Tudo o que
eu queria era estar novamente em casa junto dos meus pais. "Oh, meu Deus", rezei eu, "por favor, faze com que isso acontea e por favor faze com que este pesadelo
desaparea. Por favor, por favor..."
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- Annie, pobre Annie.
Senti-o afagar o meu cabelo como a minha me tantas vezes fazia.
- Vim logo que me chamaram e tenho estado  cabeceira da tua cama desde ento.
Virei-me devagar e olhei por entre os dedos. O rosto do homem estava cheio de simpatia e desgosto. O seu pranto e o seu sofrimento eram sinceros.
De repente, tornou-se claro para mim quem era aquele homem. S podia ser o misterioso Tony Tatterton, o prncipe da Manso Farthinggale, e estava ali,  minha cabeceira
- Contratei enfermeiras vinte e quatro horas por dia e mandei vir os meus mdicos particulares de propsito para ti, mas as condies aqui esto longe de serem desejveis.
Primeiro,  preciso que vs para Boston e depois para Farthinggale - continuou ele.
Tudo o que ele me dizia passava por mim como palavras murmuradas num sonho. Abanei a cabea.
- Quero ver a mam. Pap...
- Eles morreram e aguardam o funeral na Manso Farthinggale. Tenho a certeza de que esta seria a vontade do teu pai - disse ele suavemente.
- A Manso Farthinggale?
- Os Stonewall, os teus avs paternos, j morreram os dois, se no, t-los-ia consultado, mas estou certo de que eles quereriam assim... Um enterro digno para os
teus pais. E, da minha parte, vou gastar at ao meu ltimo centavo para que fiques outra vez de boa sade.
Olhei para ele por um momento, e ento as lgrimas que haviam ficado retidas nos meus olhos como a gua numa comporta, soltaram-se, correram livremente e eu comecei
a soluar sem parar, estremecendo todo o meu corpo da cintura para cima. Tony Tatterton inclinou-se para a frente para abraar-me e confortar-me o melhor que podia.
- Tenho tanta pena, minha pobre, minha querida Annie. A linda filha da Heaven... a neta da Leigh - murmurou ele ao beijar-me na testa, ao mesmo tempo que afastava
as madeixas do meu cabelo. - Mas no vais ficar sozinha; nunca ficars sozinha. Eu estou aqui agora e sempre estarei enquanto for vivo.
- Que se passa comigo? - perguntei por entre lgrimas. - No consigo mexer as pernas. Nem sequer consigo senti-las!
- Levaste uma grande pancada na coluna e na cabea.
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Os mdicos so de opinio que o traumatismo que sofreste na coluna afectou a tua coordenao motora, mas no te preocupes com o que te aconteceu, Annie. Como j
disse, vais pr-te boa outra vez.
Beijou o meu rosto encharcado em lgrimas e sorriu, e os seus olhos azuis eram tranquilos.
O Drake - disse eu. - Onde est o Drake? E o Luke? Onde est o Luke? E a tia Fanny - murmurei.
Nesse momento, precisava da minha famlia  minha volta e no daquele estranho. Oh, meu Deus, que iria acontecer comigo? Senti-me perdida, desolada, vazia, vagueando
como um papagaio de papel ao vento, cujo cordel se partira. Que faria agora?
- O Drake est l fora, na sala de espera. O Luke e a Fanny j passaram por c vrias vezes e vou avis-los de que j saste do coma - disse o Tony. - Mas primeiro
vou mandar entrar os meus mdicos.
- No. Primeiro quero ver o Drake e, por favor, telefone ao Luke e  Fanny e pea-lhes para virem j para c.
- Est bem, eu peo. Fao tudo o que quiseres.
Ele beijou-me de novo no rosto e levantou-se. Sorriu-me de uma maneira calorosa e ao mesmo tempo estranha, e depois saiu. Momentos mais tarde, o Drake entrou no
quarto com uma expresso carrancuda e os olhos injectados. Sem dizer uma palavra, abraou-me e apertou-me com fora de encontro ao seu peito, e eu comecei outra
vez a chorar. Os soluos fizeram-me doer as costas e o corao. Ele beijou-me, abraou-me e embalou-me como a um beb, encostando o seu rosto ao meu, e as suas lgrimas
misturaram-se com as minhas.
- Tu sabes que eles eram como se fossem os meus pais disse ele. - A minha me verdadeira no poderia ter-me amado mais do que a Heaven, e o Logan sempre me tratou
como a um filho. Uma vez, ao dar um passeio a cavalo sozinho com ele, lembro-me de ele dizer-me que sempre pensava em mim como se eu fosse seu filho. "O que  meu
 teu e sempre ser", disse ele.
- Oh, Drake, ser mesmo verdade tudo isto? Eles morreram mesmo e desapareceram para sempre?
- Sim, e  um milagre estares viva. Eu vi o carro. Ficou completamente desfeito.
- No consigo mexer as pernas. At parece que nem sequer as tenho.
- Eu sei. O Tony contou-me o que os mdicos acham.
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Ele vai fazer tudo por ti, Annie.  um homem extraordinrio e maravilhoso. Assim que ele soube do acontecido, moveu cus e terras em nome da sua fortuna. Mandou
vir mdicos de avio e ele prprio tem estado permanentemente ao teu lado. Mandou vir um dos seus gerentes, de modo a que a fbrica do Logan em Winnerrow possa continuar
a funcionar porque, tal como ele diz, era muito importante para o Logan e para a Heaven que as pessoas daqui tivessem alguma coisa significativa. Jurou que a fbrica
no vai fechar e vai at mesmo expandir-se. At me perguntou se eu estaria disposto a dirigi-la um dia mais tarde, depois de me formar. O Drake continuou.
- E, depois, disse-me que tenciona fazer obras em Farthinggale outra vez, para que tu possas restabelecer-te num cenrio maravilhoso.  uma sorte ele estar do nosso
lado, Annie, numa altura de grande necessidade como esta.
- Mas eu no quero ir para Farthinggale! Quero ir para casa, Drake! Farthinggale nunca deveria ser um hospital; deveria ser... um lugar especial, um paraso. Por
favor, Drake.
- Annie, eu sei que  difcil para ti conseguires pensar com clareza. Deves deixar isso para outras pessoas mais velhas e mais sensatas, e que no estejam to prximas
da tragdia como tu. Temos de fazer o que for melhor para ti.  isso que queres, no ? Queres voltar a andar e continuar a viver a tua vida?
- A minha vida? Sem a mam e sem o pap? Longe de todos? Do Luke? De ti? De todas as pessoas que amo? Como posso continuar a viver a minha vida?
- Tens de fazer um esforo, Annie.  isso que a Heaven e o Logan quereriam e, se eu no te dissesse isso, sentir-me-ia culpado. Os teus pais no eram do tipo de
pessoas que desistem de tudo, Annie. Tens de ser igual a eles. No importa quais forem os obstculos que se te deparem. Enfrenta-os e ultrapassa-os.
"No importa quais forem os obstculos", pensei. "Enfrenta os mais difceis", pensei. Era esse tambm o conselho do Luke.
- No vou afastar-me de ti, Annie. vou estar prximo. Hoje volto para Boston e vou visitar-te no hospital de l. Eu sei que  impossvel para ti pensares nisso tudo
agora, porque as coisas esto a acontecer demasiado depressa, mas confia naqueles que te amam. Por favor - implorou ele.
Respirei fundo e enfiei a cabea na almofada. O peso do mundo parecia comprimir-me. As minhas plpebras estavam
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pesadas de novo e senti-me atordoada e cansada. Pensei que talvez se eu adormecesse e voltasse a acordar, tudo aquilo no passasse de um terrvel pesadelo e despertasse
no meu quarto na Casa Hasbrouck.
Seria de manh, e a mam entraria com a sua energia habitual, falando das coisas que iramos fazer nessa manh. L em baixo, o pap estaria a tomar o seu caf e
a ler o Wall Street Journal. Eu tomaria um duche, vestir-me-ia e desceria as escadas a correr para saudar um dia novo e luminoso, e ele dar-me-ia um beijo de despedida
antes de sair para a fbrica, tal como fazia todas as manhs. Penetrei no meu sonho nublado.
- O Roland j preparou o meu pequeno-almoo - murmurei.
- Ha? - disse o Drake.
- Tenho de comer e arranjar-me. Hoje a me e eu vamos s compras. Preciso de um vestido para a festa de aniversrio da Maggie Templeton e queremos comprar um presente
especial. No troces de ns, Drake. Estou a ver-te sorrir.
- Annie...
Tomou a minha cabea nas suas mos; eu, porm, no consegui abrir os olhos. Por isso, ele encostou a minha cabea na almofada outra vez.
- A casinha de bonecas...  to bonita... to bonita... Obrigada, mam. vou guard-la com carinho para sempre...
- Annie...
Seria a voz do pap que continuava a chamar por mim? Pap, por favor, no pares de chamar por mim. Pap...
Deixei-me envolver pelos braos calorosos e reconfortantes do sono. Deitei-me e virei-me devagar, afastando aquela luz feia e medonha que queria irromper pelo meu
mundo de fantasia, destruindo-o por completo.
- No vamos deixar que isso acontea, Luke. No vamos. Eu sei... Procura as montanhas mais altas... a vista, a vista...
- Oh, Annie, tens de ficar boa outra vez - murmurou o Drake e pegou na minha mo.
Contudo, no meu sonho eu pegava na mo do Luke e corramos pelo relvado em direco ao nosso paraso de faz-de-conta, onde eu me sentia salva e outra vez em segurana.
E podia adormecer.
Quando acordei, os mdicos do Tony e a enfermeira particular
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estavam a olhar para mim. Um homem alto e moreno com um fino bigode acastanhado e olhos doces cor de avel segurava a minha mo e sorria-me.
- Ento, viva - disse ele. - Sou o doutor Malisoff e vou tratar de ti at que fiques boa outra vez.
Olhei para ele, e o seu rosto tornava-se cada vez mais ntido, at que consegui ver com nitidez as pequenas rugas finas que se desenhavam na sua testa, como se algum
a tivesse traado umas linhas com um lpis.
- O que tenho eu? - perguntei.
Os meus lbios estavam to secos que sentia necessidade de estar sempre a passar a lngua por eles. Em vez de responder-me, voltou-se para o mdico mais jovem que
estava ao seu lado. Esse tinha o cabelo louro e pele clara, e havia vestgios de pequenas sardas sob os seus olhos.
- Este  o doutor Carson, o meu assistente. Vamos ambos tratar de ti.
- Ol - disse o mdico mais novo.
Estava a examinar um grfico que a enfermeira lhe entregara.
- E esta  Mistress Broadfield, a tua enfermeira particular. Vai ficar contigo a partir de agora at ao dia em que fiques boa e suficientemente forte para poderes
voltar a tratar de ti.
- Ol, Annie - disse ela, e exibiu um sorriso que surgiu to rpido como o flash de uma mquina fotogrfica.
Tinha o cabelo to negro como a tia Fanny, mas este estava cortado muito curto e o rosto era redondo e grande. Os ombros eram largos como os de um homem. No usava
maquilhagem, e os seus lbios eram de um vermelho-plido.
- Onde est o Drake? - perguntei, e depois recordei-me vagamente de ele me ter dito que tinha de voltar para Boston.
- O Drake? - disse o doutor Malisoff. - Esto duas pessoas na sala de espera para te verem. Uma  a tua tia Fanny e a outra julgo que  o seu filho, no ? - Olhou
para Mrs. Broadfield, que confirmou rapidamente com a cabea. - vou mand-los entrar daqui a pouco. Primeiro deixa-me contar-te o que tencionamos fazer contigo,
Annie.
E prosseguiu:
- Aparentemente, quando o carro do teu pai capotou, bateste de encontro a algo muito duro e a pancada na coluna, mesmo por detrs da tua cabea, deu origem ao que
ns chamamos um traumatismo, que est a interferir com o controlo
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dos teus movimentos e a causar uma paralisia na parte inferior do teu corpo. No sabemos exactamente onde est localizada a leso ou a sua extenso, porque este
hospital no dispe do equipamento necessrio para podermos fazer um diagnstico exacto. Por isso, estamos a tratar de tudo para transferir-te para Boston, onde
sers examinada por um neurologista, meu associado. A, eles tm material sofisticado, tal como sondas para localizar as tuas leses e ajudar-nos a chegar a um diagnstico
correcto, uma terapia e um prognstico adequados.
- Neste momento, no sinto qualquer dor nas minhas pernas - disse eu, e ele sorriu.
- No. Realmente no sentes, se elas estiverem paralisadas. Se sentires dores, isso  um sinal de que os teus nervos e msculos esto a voltar outra vez a funcionar.
Sei que parece esquisito desejar sentir dores, mas na realidade  isso que temos de fazer. O meu parecer  que se tratarmos a leso, a funo motora das tuas pernas
vai voltar. No entanto, isso pode levar algum tempo, e durante esse tempo vais precisar de mais do que carinho e afecto. Vais precisar de ajuda mdica.
Fiquei impressionada e confiante com o seu tom de voz encorajador... Mas queria que o pap estivesse aqui ao meu lado a segurar a minha mo; precisava que a mam
me dissesse que eu ia ficar boa e no apenas dos mdicos e das enfermeiras. Nunca me sentira to sozinha, to desolada e abandonada naquele mundo estranho e frio.
- Portanto - continuou o mdico, largando a minha mo e endireitando-se outra vez -, descontrai-te at que se completem todos os preparativos. Vais de ambulncia
at ao aeroporto e da vais num avio hospitalar para Boston. Voltou a sorrir e deu umas palmadinhas na minha mo. - Entretanto, Mistress Broadfield vai dar-te um
pouco de alimento lquido, est bem?
- No tenho fome.
Quem seria capaz de pensar em comida numa altura como aquela? Pouco me importava se voltaria de novo a comer ou no.
- Eu entendo, mas gostaria que tomasses qualquer coisa lquida, um outro tipo de alimento para alm do que ests a receber atravs do soro. Estamos de acordo?
Fez uma pausa e sorriu-me outra vez, decerto para me sossegar, se bem que nada conseguiria faz-lo.
- Agora vou mandar entrar a tua famlia para te verem anunciou.
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Virou as costas e saiu com o outro mdico mais novo. Mrs. Broadfield preparou-me um pequeno pacote de sumo de frutas, abriu-o e meteu-lhe uma palhinha.
- Agora, chupa devagar - aconselhou ela, ajustando a cama de modo a eu ficar sentada.
Os seus dedos curtos e grossos e as suas grandes palmas das mos cheiravam ao lcool com que ela tinha acabado de esfreg-las. Como estava to perto de mim, consegui
ver os pequenos plos pretos que estavam espetados no fundo do seu queixo redondo. Eu queria a minha me, a minha linda, carinhosa e perfumada me para tratar de
mim e no aquela horrorosa desconhecida.
Colocou o sumo na minha mo livre e deslizou a mesa por cima da cama. A mudana da minha postura fez-me voltar a ficar tonta e tive de fechar os olhos.
- Estou a ficar enjoada - exclamei.
- Tenta s um pouco - insistiu ela.
Bebi um pouco do sumo rapidamente e engoli-o. Doeu-me a garganta e eu gemi.
- Por favor, baixe-me a cama outra vez - supliquei.
- Vais ter de tentar, Annie. S um pouco todos os dias. Os mdicos no podem fazer tudo - comentou ela, com um sinal de desagrado e at mesmo de impacincia na sua
voz.
- No estou preparada ainda - insisti.
Abanou a cabea e retirou a mesa. Chupei um pouco mais pela palhinha e depois entreguei-lhe o sumo. Ela apertou os lbios, com um sinal de aborrecimento na sua cara
impenetrvel. Quando olhei para ela mais de perto, reparei como a sua pele estava cheia de marcas e perguntei a mim prpria como era possvel que uma enfermeira
tivesse uma pele em to mau estado.
Assim que ela voltou a baixar a cama completamente, a tia Fanny irrompeu pelo quarto, com o Luke mesmo atrs dela. Nunca me senti to feliz por v-los. A tia Fanny
estendeu-me as mos.
- Oh, Deus... Oh, Deus! - gritou ela. Mrs. Broadfield quase deixou cair a bandeja.
- Oh, Annie, querida, pobrezinha. Minha pobre sobrinha.
As lgrimas corriam-lhe pelo rosto e ela tocava levemente com o leno de seda nas faces.
- Oh, Deus, Deus... Olha para ela naquela cama. Coitadinha - lamentou e apoiou-se no Luke.
Os ombros dela tremiam. Ento, respirou fundo, dirigiu-se
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a mim e beijou-me na testa. Agradou-me o seu perfume de rosas; o seu perfume muito prprio, que mandava vir de Nova Iorque uma vez por ms.
Abraou-me a soluar, com o seu corpo a abanar o meu. Olhei para o Luke, o qual parecia embaraado com aquela Demonstrao exibicionista de desgosto executada pela
sua me. Estendi a mo para indicar que ele devia aproximar-se. A tia Fanny estava agarrada a mim como se quisesse salvar-me a vida. Os seus soluos aumentaram de
intensidade.
- Me - disse o Luke. - Est a piorar as coisas. Por favor.
A tia Fanny afastou-se de mim abruptamente.
- O qu? - Esfregou levemente os olhos de novo. Oh... Oh, Deus, Deus...
- Me, por favor. Pense em tudo o que a Annie passou - suplicou o Luke, baixando a voz para dar nfase s suas palavras.
A minha me costumava dizer que no havia ningum capaz-de lidar com a Fanny melhor do que o Luke, sobretudo quando ela exagerava.
- Oh, querida, querida Annie - disse ela, beijando-me na face, e as suas lgrimas ensoparam o meu rosto.
Limpou as lgrimas e levantou-se.
- O pobrezinho do Luke e eu temos estado especados l fora h uma data de horas  espera que os mdicos e as enfermeiras nos deixassem entrar - acrescentou ela,
lanando um olhar castigador a Mrs. Broadfield.
De repente, o seu enorme desgosto transformou-se numa imensa fria.
- Veja se no a deixa agitada - ordenou Mrs. Broadfield e saiu do quarto.
- No...  que eu odeio mdicos e enfermeiras. Todos eles tm estas caras medonhas. Lembram-me ratos. E odeio o cheiro dos hospitais. Porque no pem eles desodorizantes
nos corredores e no trazem flores? Se eu alguma vez adoecer, Luke, e no saiba o que fao, contrata uma enfermeira particular como tem a Annie e deixa-me ficar
em casa, ests a ouvir? - declarou a tia Fanny.
Era como se o seu desgosto fosse apenas uma capa que ela podia tirar quando lhe apetecesse.
O Luke sentou-se na minha cama. Ele estava to bonito, to jovem e os seus olhos pareciam dois lagos de medo e de dor.
- Ol, Annie.
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- Luke, oh, Luke.
Ele tomou a minha mo gentilmente entre as suas. As lgrimas brilhavam nos seus olhos e deixaram o meu corao ainda mais triste. Sofria to profundamente como eu,
porque, embora todos sempre tivssemos ignorado quem ele realmente era durante esses anos, a verdade  que tambm ele havia perdido o pai. E a minha me era muitas
vezes mais generosa e carinhosa para ele do que a sua prpria me.
- Tambm no vale a pena estarmos todos para aqui a chorar que nem uns desalmados - exclamou subitamente a tia Fanny. - No podemos traz-los de volta, apesar de
eu dar tudo para que isso pudesse ser verdade. Eu amava a Heaven mais do que alguma vez lhe disse. Lamento ter sido to m para ela durante todos estes anos, mas
no conseguia evitar os meus cimes. Ela entendia isso e sempre me perdoava, coisa que eu no teria feito com ela.
Limpou suavemente os olhos com o seu leno de renda e depois respirou fundo e empinou os ombros para trs.
- Mas - anunciou ela -, eu sei que ela havia de querer que eu tomasse conta de tudo agora. Sinto isso.
A tia Fanny abanou a cabea em sinal de concordncia consigo prpria,  medida que o seu orgulho se manifestava ao continuar o seu discurso.
- Sou to capaz de o fazer como... como aquele velho rico e nojento que se diz teu bisav.
Abanou de novo a cabea e fez deslizar as palmas das mos pelos cabelos, como se tivesse ficado presa numa teia de aranha.
- Me... - O Luke tocou-lhe na mo esquerda e apontou para mim. - Esta no  a altura...
- Que parvoce! O que  preciso fazer tem de ser feito. Agora ele diz que os testamentos dos pais dela o deixam  frente de tudo, mas eu digo...
O Luke olhou furioso para a tia Fanny.
- Me, a Annie no est em condies de discutir nada disso agora. Neste momento, ela tem outras preocupaes.
- Bem, acho que ele faz bem em lhe dar o melhor tratamento possvel - prosseguiu a tia Fanny, sem se mostrar impressionada pelas admoestaes e splicas do Luke
-, mas no que toca  Casa Hasbrouck e...
- Me, por favor.
A frustrao deteve-a e ela sorriu, mostrando os seus dentes brancos como prolas, em profundo contraste com a sua pele escura como uma ndia.
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Pronto, est bem, eu espero at te sentires melhor,
Annie- E no te preocupes nada com o que aquele ricao vai fazer com a sua fortuna.
- Ele tem sido to gentil at agora, tia Fanny - disse eu, sem conseguir que a minha voz soasse mais alta do que um simples sussurro.
- Pois, mas ele tem l as suas razes.
- Razes?
- Me, por favor. - O Luke virou-se para ela com um olhar colrico. - J lhe disse que no  o momento certo.
- Est bem, est bem.
Mrs. Broadfield regressou ao meu quarto e surgiu por detrs deles, movimentando-se to silenciosamente nos seus macios sapatos brancos de enfermeira que nenhuma
de ns a ouviu entrar. De repente estava ali, como um fantasma branco como leite.
- Lamento, mas agora tm de sair. Vamos preparar a Annie para a viagem.
- Ir embora? Ainda agora chegmos. Esta  a minha sobrinha, no sei se sabe...
- Sinto muito. Temos horrios a cumprir - insistiu a enfermeira, autoritariamente.
- Ento, vo lev-la para onde? - perguntou a Fanny.
- Para um hospital em Boston. Podem obter uma informao mais completa junto ao balco das enfermeiras, neste mesmo piso - acrescentou Mrs. Broadfield.
A tia Fanny abanou a cabea de raiva; a senhora Broadfield limitou-se a dar a volta  minha cama, para ajustar o soro.
- Ento, querida Annie, preocupa-te s em ficares boa outra vez, ouviste?
Beijou-me a face e apertou a minha mo.
- Hei-de ir a esse hospital pinoca em Boston daqui a uns dias, para ver se no te falta nada e te tratam como deve ser - acrescentou ela e deitou um olhar a Mrs.
Broadfield, a qual continuou o seu trabalho, como se a Fanny j no estivesse ali.
- Eu vou com ela, Annie - disse o Luke e voltou a tomar a minha mo entre as suas.
- Oh, Luke, agora vou perder a tua entrega do diploma e o teu discurso - chorei eu.
- Claro que no vais - disse o Luke com a sua segurana caracterstica. - vou ler-te todo o meu discurso pelo telefone e, nesse dia, antes de ir para a escola, vou
ao terrao e
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sento-me l como se tu tambm estivesses presente, e finjo que nada disto aconteceu.
- Que raio de conversa  essa? - perguntou a tia Fanny, com um sorriso meio curioso, meio compreensivo estampado no seu rosto.
-  uma conversa s nossa - respondeu o Luke.
A verdade estava escrita nos seus olhos e o seu amor por mim tambm era visvel. Inclinou-se e beijou-me na face no preciso momento em que Tony Tatterton voltou
a entrar no quarto.
- Ento, como estamos? - perguntou ele.
Olhou para o Luke, o qual se virou de repente e olhou para ele com desconfiana.
- O meu nome  Tony Tatterton - disse, rapidamente e estendeu a mo. - E tu deves ser...
-  o meu filho Luke - comunicou a tia Fanny. - Suponho que sabe quem sou eu. Sou a irm da Heaven.
Ela pronunciou aquelas palavras de uma maneira rspida e odiosa, como nunca a ouvira falar. Olhei para Tony, para ver a sua reaco, mas ele limitou-se a acenar
com a cabea.
- Claro. Bem, agora a nossa ateno deve centrar-se completamente na Annie e ajud-la a preparar-se para partir. Estou l em baixo junto  ambulncia - acrescentou
ele e voltou a lanar um olhar ao Luke. Os olhos deste trabalhavam em ritmo acelerado ao analisar e examinar Tony de uma maneira crtica.
- Ns tambm vamos estar contigo em Boston - repetiu o Luke, e depois ele e a tia Fanny retiraram-se.
Antes que eu tivesse tempo de comear a chorar, chegaram os maqueiros com a maca e procederam  operao de me colocarem nela, segundo as instrues de Mrs. Broadfield.
Dentro de poucos instantes era transportada para fora do quarto e atravs do corredor.
E no havia ali ningum ao meu lado que pudesse segurar-me na mo. No havia ningum que me amasse ou que eu amasse. Todos aqueles rostos que me rodeavam eram desconhecidos
e vazios. Eram os rostos de pessoas que me viam apenas como uma parte do seu trabalho. Mrs. Broadfield aconchegou o cobertor  volta dos meus ombros com eficincia,
quando chegmos  porta de acesso ao parque de estacionamento, onde a ambulncia nos aguardava.
Muito embora o cu estivesse nublado e cinzento, fechei os olhos no momento em que a luz do exterior incidiu no meu rosto. No entanto, isso durou apenas alguns segundos,
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e fui rapidamente transportada da maca do hospital para a maca da ambulncia. Voltei a abrir os olhos quando as portas se fecharam, e Mrs. Broadfield ocupou o lugar
ao lado. Ela ajustou o soro e recostou-se. Senti a ambulncia dar um solavanco para a frente e arrancar atravs da sada do hospital para a sua viagem at ao aeroporto
e ao avio que me levaria a um hospital de uma grande cidade.
No consegui deixar de pensar se alguma vez voltaria a ver Winnerrow. De repente, todas as coisas que sempre tinham sido uma certeza para mim pareceram-me muito
valiosas e queridas, especialmente aquela pequena cidade a que o Drake chamava "insignificante".
Desejei poder sentar-me e olhar atravs da janela enquanto nos afastvamos. Queria deitar um ltimo olhar quela localidade, queria guardar, levar comigo e dar um
ltimo adeus aos vastos campos verdes e s pequenas quintas acolhedoras, com as suas plantaes de Vero. E principalmente queria ter uma ltima panormica dos montes
com as suas cabanas dos mineiros das minas de carvo e os abrigos de Contrabandistas salpicados pelas colinas. Queria dizer adeus aos Willies.
Estava a ser arrancada ao meu mundo, afastada de todas as pessoas e lugares que eu amava e estimava e com os quais me identificava. No voltaria a haver as magnlias,
nem o perfume suave das flores que despontavam na rua quando eu ia para a escola. No haveria o terrao mgico, nem a minscula caixa de msica em forma de casa
de campo a tocar Chopin. Fechei os olhos e imaginei a Casa Hasbrouck nesse momento. Todos os nossos criados estavam certamente entorpecidos, sem serem capazes ainda
de se refazerem do desgosto causado pela morte dos meus pais.
A minha cabea comeou a latejar. As lgrimas corriam livremente dos meus olhos, e o meu corpo era sacudido pelos soluos.
Nunca mais os veria? Nunca mais escutaria o meu pai a chamar-me quando chegava a casa: "Onde est a minha menina? Onde est a minha pequenina Annie?" Quando eu era
pequena, escondia-me atrs da cadeira de espaldar alto, em chita azul, que estava na sala de estar, e apertava a minha pequenina mo fechada de encontro aos lbios
para reprimir uma risadinha, enquanto ele fingia procurar-me por todo o lado. Depois, ele ficava com uma expresso preocupada, e o meu corao doa s de pensar
que eu podia causar-lhe algum sofrimento.
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- Estou aqui, pap - chamava eu, e ele pegava-me ao colo e cobria-me de beijos. Depois, levava-me at ao gabinete onde a mam estava sentada com o Drake a ouvir
as suas histrias da escola. Deixvamo-nos cair no sof de couro e eu sentava-me ao colo do pap e ficvamos a ouvir tambm at  altura em que a minha me dizia
que eram horas de irmos todos tomar banho e vestir-nos para o jantar.
Aqueles dias sempre me pareceram cheios de sol e risos. Agora as nuvens pairavam sobre ns e lanavam sombras como lenis de chuva fria, como mortalhas fnebres.
Os meus pais estavam mortos e os meus dias felizes de sol eram agora ensombrados de negro.
- Tenta dormir, Annie - aconselhou Mrs. Broadfield, arrancando-me do meu devaneio. - Ficar a deitada a chorar s vai enfraquecer-te mais, e tens ainda muitas batalhas
para enfrentar. Podes acreditar em mim...
- J alguma vez teve de tratar de um doente como eu? perguntei, compreendendo que era preciso fazer amizade com aquela mulher.
Oh, como eu precisava de amigos, de algum com quem falar; algum mais velho, mais sensato, algum que pudesse ajudar-me a saber o que fazer e como comportar-me
naquele mau momento. Precisava de algum com sabedoria, mas tambm de algum com simpatia e sentimentos afectuosos.
- Sim, j tive algumas vtimas de acidentes - informou ela, e a sua voz mostrava-se cheia de arrogncia.
- E todos eles recuperaram? - perguntei eu, esperanada.
- Claro que no - respondeu, rispidamente.
- Ser que eu vou recuperar?
- Os teus mdicos esto esperanosos.
- Mas o que acha a senhora?
Perguntei a mim prpria como era possvel que uma pessoa, supostamente dedicada a ajudar os outros, principalmente pessoas bastante carentes, podia ser to fria
e impessoal. No saberia ela como o carinho e o afecto eram importantes? Por que seria ela to reservada?
Evidentemente que Tony Tatterton devia ter obtido informaes sobre aquela mulher antes de contrat-la. A minha recuperao era to importante para ele que certamente
procurara o melhor para mim e, no entanto, desejei que ele tivesse encontrado algum que soubesse ser mais afectuosa e digna de confiana; talvez uma pessoa mais
jovem. Ento, lembrei-me do que o Drake havia dito: que eu devia entregar-me
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nas mos de pessoas mais velhas e mais sensatas, e que, naquele momento, soubessem pensar com mais clareza do que eu.
- Acho que deves tentar descansar, e no te preocupes com isso agora. Seja como for, agora no podemos fazer nada - insistiu Mrs. Broadfield, e a sua voz continuava
fria e impessoal. - O teu bisav vai dar-te o melhor e o mais caro tratamento. Tens sorte em t-lo. Acredita-me, tenho tido outros doentes com muito menos do que
tu.
De facto, ele viera rapidamente em meu auxlio e parecia ter-se empenhado por completo em ajudar-me a recuperar. Por isso, ficara ainda mais curiosa acerca da razo
que havia levado a minha me - que era uma pessoa com uma grande capacidade para amar - a afastar-se de um homem que, aparentemente, tinha um corao to generoso.
Viria alguma vez a saber, ou as respostas teriam morrido tambm com os meus pais, naquela encosta das colinas dos Willies?
Estava cansada. Mrs. Broadfield tinha razo: no podia fazermais nada alm de descansar e esperar.
Ouvi a sirena da ambulncia apitar  medida que se afastava, e percebi vagamente que era por minha causa.

6 TONY TTTERTON

Dormi durante o resto do percurso at ao aeroporto, mas acordei quando me mudaram para o avio, e a conscincia do que estava a acontecer atingiu-me como uma bofetada
forte e fria na face. Nada daquilo era um sonho; era tudo verdade, estava tudo realmente a acontecer. A mam e o pap estavam mesmo mortos; haviam desaparecido para
sempre. Eu estava gravemente ferida e paraltica; todos os meus sonhos e planos, todas as coisas maravilhosas que a mam e o pap tinham idealizado para mim haviam
sido eliminados por um momento fatdico e horrendo numa estrada sinuosa dos montes.
Sempre que acordava, assaltava-me aquela terrvel recordao: via a chuva tapando a visibilidade do pra-brisas do carro, ouvia a mam e o pap a discutir por causa
do comportamento do pap na festa e via aquele carro vir de encontro a ns. Essas vises faziam-me gritar interiormente, e sofria tanto que ficava grata por comear
a sentir-me de novo atordoada. Sempre que o sono chegava, trazia alvio. S que, quando acordava, tinha de encarar a realidade e reviver todo aquele horror uma vez
mais.
Felizmente voltei a adormecer at que chegmos ao aeroporto de Boston e me transferiram para a ambulncia do hospital da cidade. Quando estava acordada, ficava sempre
impressionada com o tom autoritrio de Mrs. Broadfield e com a maneira como o pessoal hospitalar se apressava a agir quando ela dava uma ordem. Uma das vezes ouvi-a
dizer:
- Calma, ela no  uma saca de batatas, no sei se sabem.
E pensei: "Sim, o Drake tinha razo. Estou em boas mos; nas mos de profissionais."
Alternei entre o dormitar e o sono profundo, e acordei quando chegmos ao hospital e senti que algum me pegava na mo.
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Abri os olhos e olhei para cima, para Tony Tatterton. Ao princpio, ele no se apercebeu de que eu havia acordado e achei que ele tinha uma expresso sonhadora e
distante no seu rosto. Era como se olhar para mim o tivesse transportado para longe, sem sair dali. Quando finalmente percebeu que eu o fitava, o seu rosto iluminou-se
com um sorriso.
- Bem-vinda a Boston. Eu disse-te que estaria aqui quando chegasses para poder saudar-te e certificar-me de que tinhas tudo aquilo de que precisas. A viagem foi
boa? perguntou ele, extremamente preocupado.
Abanei a cabea afirmativamente. Quando o vira na vspera  minha cabeceira, fora tudo to irreal que a recordao que guardava dele era muito vaga. Agora tinha
uma oportunidade de ver realmente, em carne e osso, aquele homem que tantas vezes havia imaginado. As suas sobrancelhas eram bem delineadas e estava cuidadosamente
barbeado. O seu cabelo grisalho tambm estava bem penteado e parecia sedoso e abundante, como se tivesse sido tratado por um cabeleireiro profissional. Usava um
fato caro, de seda, s riscas, cinzento e branco e uma gravata em cinzento-escuro. Toda a sua roupa parecia acabada de comprar. Quando olhei para a minha mo entre
as suas, reparei que os seus dedos compridos e aristocrticos tambm estavam bem cuidados. As unhas brilhavam. Realmente, era bem diferente da figura do Tony Tatterton
que o Drake descrevera. A sua carta e o seu telefonema faziam agora parte do mundo imaginrio em que eu, por vezes, entrava. Porm, tivera de deix-lo abruptamente
e troc-lo por aquela realidade fria e cruel.
Tony Tatterton deixou-me inspeccion-lo e, enquanto o fazia, os seus olhos pousaram em mim de uma maneira gentil e afectuosa.
- Dormi durante a maior parte da viagem - afirmei eu, e a minha voz no era mais do que um simples murmrio.
- Sim. Mistress Broadfield contou-me. Estou contente por estares aqui, Annie. Em breve vais ter de submeter-te  legio de exames que os mdicos estipularam e conseguiremos
chegar ao fundo dos teus problemas, de modo a podermos cur-los.
Deu-me umas palmadinhas na mo e acenou a cabea com a confiana e a certeza de um homem que estava habituado a ter tudo o que queria.
- Os meus pais... - disse eu.
- Sim?
- O funeral deles...
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- Ento, Annie, no deves pensar nisso agora. J te contei em Winnerrow. Estou a tratar de tudo. A tua fora e concentrao devem centrar-se no pensamento de que
vais ficar boa - aconselhou ele.
- Mas eu devia estar l...
- Mas agora no podes l estar, Annie - contraps ele carinhosamente. - Assim que estiveres melhor, vou mandar celebrar outra cerimnia religiosa junto aos seus
tmulos e ento ns dois estaremos l juntos. Prometo. Mas agora ests entregue aos melhores cuidados mdicos.
Depois, virou-se para mim atenciosamente e prosseguiu:
- No deixes que a minha preocupao pelo momento presente e pelas necessidades imediatas te leve a pensar que eu no amava muito a tua me. E tambm gostava muitssimo
do teu pai. Assim que o conheci, percebi que ele era um executivo e fiquei muito feliz quando ele concordou em tomar parte nos meus negcios. Quando os teus pais
moravam em Farthy e trabalhvamos todos juntos, vivi alguns dos anos mais felizes da minha vida.
E continuou:
- Os anos seguintes, quando eles partiram, foram os mais tristes e duros da minha existncia. O que quer que eu tenha feito para causar uma ruptura entre ns, quero
desfaz-lo ao ajudar-te, Annie. Por favor, deixa-me fazer o que puder, de modo a compens-los.  a melhor coisa que posso fazer para honrar a sua memria.
Os seus olhos tornaram-se suplicantes e encheram-se de arrependimento.
- No quero impedi-lo, Tony, mas h tantas perguntas que gostaria de ver respondidas. Durante muito tempo, tentei fazer com que a mam falasse sobre o tempo que
passara em Farthy e a razo por que partiu, mas ela retraa-se, prometendo sempre que em breve me contaria tudo. Ainda recentemente, logo aps o meu aniversrio,
quando fiz dezoito anos, tornou a fazer-me essa promessa. E agora... - Engoli em seco com dificuldade. - Agora ela j no pode fazer isso.
- Mas eu conto-te, Annie - assegurou ele, subitamente. - Eu conto-te tudo o que precisares e quiseres saber. Por favor, confia e acredita em mim. - Sorriu e sentou-se.
- Na verdade, vai ser um alvio para mim. Vais ouvir-me e julgar-me.
Examinei o seu rosto. Estaria ele a ser sincero? Faria ele o que estava a prometer, ou estaria apenas a dizer aquelas coisas para que eu gostasse dele e confiasse
nele?
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- Tentei corrigir as coisas o melhor que podia - continuou.
- Espero que tenhas recebido os meus presentes e espero tambm que a tua me te tenha deixado ficar com eles.
- Oh, sim, tenho-os todos... Todas aquelas bonecas lindas e maravilhosas...
- Ainda bem.
Os seus olhos brilharam; parecia mais novo. Havia qualquer coisa de familiar no seu rosto que me fazia lembrar a mam... A maneira como ele conseguia ler e registar
os pensamentos e os estados de esprito, com um piscar de olhos...
- Sempre que viajava, preocupava-me em encontrar uma prenda especial para ti. Queria que tivesses artigos autnticos, e essas bonecas so um exemplo disso. J perdi
a conta de quantas te enviei, mas j deves ter uma boa coleco, no  verdade?
- Sim. Ocupam uma parede inteira do meu quarto. O pap diz sempre que ainda vou ter de abrir uma loja. Sempre que l entra, ele... - Fiz uma pausa, compreendendo
que o pap nunca mais l entraria nem voltaria a dizer aquelas coisas.
- Pobre Annie - consolou-me Tony. - Sofreste uma grande perda, uma grande perda. Nunca conseguirei fazer o suficiente para suavizar completamente a tua dor, mas
acredita em mim, Annie. vou fazer tudo o que for humanamente possvel.  esse agora o meu objectivo na vida - acrescentou, com o mesmo olhar determinado que eu tantas
vezes havia visto nos olhos da mam.
No conseguia hostiliz-lo, como o fazia a mam. Talvez fosse tudo um terrvel mal-entendido. Talvez o destino tivesse decidido que devia ser eu a acabar com tudo
aquilo.
- Eu sei que no consegues evitar uma certa desconfiana a meu respeito, Annie. Mas acredita que eu sou um homem com uma grande fortuna e, contudo, sem nada, e que
vai ficar grato com a oportunidade de fazer algo nobre e proveitoso no outono da sua vida. Certamente no vais negar-me essa oportunidade - disse ele, suavemente.
- Desde que prometa contar-me tudo o mais depressa possvel - exigi eu.
- Tens a palavra solene de um Tatterton, que descende de uma longa linhagem de cavalheiros distintos, em cuja palavra muitas pessoas confiaram - prometeu ele com
uma cara sria e grave. Depois virou-se para os maqueiros, que aguardavam ali prximo.
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- Ela est pronta. Boa sorte, minha querida.
Deu uma palmadinha na minha mo, ao mesmo tempo que eles seguravam na maca.
Comearam a transportar-me ao longo do corredor. Ergui a cabea o mais alto que consegui e pude ver Tony Tatterton que ficara para trs. Vi o olhar de afecto e preocupao
no seu rosto. Que homem maravilhoso e que fala suave ele tinha e, contudo, tambm era um homem que possua, obviamente, uma corrente de poder e confiana que brotava
de cada palavra sua. Mal podia esperar por saber mais coisas sobre ele. Os meus pais haviam racionado toda a minha curiosidade sobre aquele homem, como se tudo o
que eu devesse saber sobre ele tivesse de durar toda a vida.
Claro que eu sabia que ele tinha construdo uma indstria de brinquedos sem igual. "Um imprio", como o meu pai sempre lhe chamava, que valia milhes de dlares,
tanto no mercado estrangeiro como no nacional.
- Os Tatterton so os reis dos fabricantes de brinquedos - dissera-me o pap num dos raros momentos em que se dispusera a falar sobre isso. - Tal como os nossos,
esses brinquedos so destinados a coleccionadores.
- Os brinquedos do Tony so apenas destinados aos ricos - contrapunha a minha me.
Eu sabia que ela tinha orgulho no facto de os brinquedos feitos em Winnerrow serem comprados por toda a gente e no apenas pelos muito ricos.
- Os brinquedos da Fbrica Tatterton so para gente rica que no precisa de crescer, que esquece a sua infncia quando j no tem nada para descobrir debaixo das
suas rvores de Natal e que nunca apreciou uma festa de aniversrio. Pessoas como o Tony - acrescentava ela, e a raiva faiscava-lhe nos olhos como relmpagos.
Perguntei-me como poderia ele ser to diferente de um tipo de pessoas como eu, o meu pai e a minha me. Apesar de perceber o seu poder e a sua autoridade, tambm
me apercebia da sua gentileza e vulnerabilidade. Chorara lgrimas autnticas por mim e pelos meus pais.
Durante o resto do dia, dediquei-me a colaborar com os mdicos, os quais parecia estarem a submeter-me a todos os testes conhecidos na cincia mdica. Meteram-me
sondas e picaram-me por todos os lados. Incidiram toda a espcie de luzes sobre mim; fizeram-me radiografias em todas as posies; trocaram ideias e pareceres.
Tal como o Dr. Malisoff havia previsto, no senti qualquer
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dor nas pernas durante os exames. Conseguia mexer a parte superior do meu corpo, mas as minhas pernas eram como duas bonecas de trapos, bamboleando livremente quando
me iavam para as mesas de observao e me colocavam nas camas com todo o cuidado. Por vezes, sentia-me como se tivesse entrado em gua gelada at  cintura e o
gelo me tivesse adormecido desde os ps at s ancas. Os meus reflexos no respondiam e olhei aterrorizada para baixo, quando o assistente do Dr. Malisoff e um tal
Dr. Friedman, um neurologista, me espetaram um alfinete. No senti nada, mas v-lo enterrar-se na minha pele causou-me um certo sofrimento.
- Annie - disse o Dr. Malisoff a certa altura -,  como se te tivssemos dado aquilo a que se chama anestesia espinal, para evitar a dor durante uma operao. Somos
de opinio que a inflamao causada pelo traumatismo em redor da tua coluna vertebral  a responsvel pela tua paralisia neste momento. Ainda h mais alguns exames
que gostaramos de fazer para confirmar as nossas suspeitas.
Tentei ser uma doente que colabora. O meu estado tornava-me muito dependente de todos. Tinha de ser transportada de um lugar para o outro; era amarrada e desamarrada
de macas amovveis. Tornara-se muito difcil conseguir sentar-me. Todas as tentativas nesse sentido deixavam-me exausta. Os mdicos continuavam a afirmar-me que
conseguiria faz-lo com o tempo; eu sentia-me como se metade do meu corpo tivesse sido morto no acidente juntamente com os meus pais.
Estar assim to desamparada era no s frustrante, como irritante. Todos ns tomamos tantas coisas como certas: andar, sentar, ser capaz de levantar e irmos onde
quisermos e quando quisermos. As minhas leses pareciam sal sobre feridas porque, para alm da perda devastadora dos meus pais, via-me agora perante aquela incapacidade
fsica, contra a qual tinha de lutar. Quanto pode uma pessoa suportar? Apetecia-me gritar comigo mesma. Porque estava eu a ser submetida a uma to terrvel tortura?
Todas as coisas a que eu dava importncia tinham-me sido roubadas.
Apesar da maneira como eu me sentia, no conseguia deixar de ter medo do que me rodeava e do pessoal que trabalhava por mim. Era um hospital imponente, com corredores
duas vezes maiores do que os do hospital de Winnerrow. Havia pessoas que corriam apressadas por todo o lado, e todos pareciam importantes e ocupados. Via filas de
macas com doentes a ser empurrados pelos corredores e a entrar e
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a sair dos elevadores. Parecia haver uma comunicao a todo o instante ou uma chamada para um dos mdicos. Fiquei a saber que o edifcio tinha mais de vinte andares
e havia aquilo que me parecia um exrcito de enfermeiras e tcnicos a trabalhar ali. Achei que a tia Fanny e o Luke iriam perder-se ao tentar encontrar-me.
E, no entanto, mesmo nesse cenrio com todas essas pessoas que se ocupavam de tantos doentes, sentia-me importante; pressentia a presena de Tony Tatterton e o dinheiro
que estava em jogo. Desde o momento em que me afastei dele, vi-me rodeada por uma equipa de mdicos e tcnicos que ficaram comigo, at que finalmente me levaram
para aquele que seria o meu quarto particular do hospital. Mrs. Broadfield estava l  minha espera.
Para poder meter-me na cama, ela teve de encostar a maca e empurrar-me devagar, colocando primeiro as minhas pernas mortas em cima da cama e depois o resto do meu
corpo. Falou pouco durante esse instante; nem resmungou.
Depois de me ter confortavelmente instalado na cama, deu-me um pouco de sumo. Em seguida, correu a cortina  volta da cama para eu poder dormir, e disse-me que ficaria
sentada perto da porta, no caso de eu precisar de alguma coisa. Como estava exausta com os exames, adormeci outra vez e acordei quando ouvi vozes  minha volta.
Ergui os olhos e vi o Dr. Malisoff  minha cabeceira. Tony Tatterton estava de p ao lado dele.
- Ol, de novo. Como te sentes? - perguntou o mdico.
- Sinto-me cansada.
-  natural e tens todo o direito de estares cansada. Bem, finalmente chegmos a uma concluso sobre ti, minha menina. A minha teoria inicial estava correcta. A
pancada na tua coluna, mesmo na parte de trs da cabea, inflamou toda essa zona e  por isso que est a causar a tua paralisia. J houve um deslocamento, uma ligeira
melhoria. Por isso, no vai ser necessrio operar para aliviar qualquer presso. Em vez disso, vamos proceder a uma terapia adequada e, passado um tempo, faremos
fisioterapia. Mas no vais ter de ficar sempre no hospital - acrescentou ele, sorrindo perante o meu ar preocupado. - Felizmente, Mistress Broadfield  uma enfermeira
com experincia em fisioterapia e pode estabelecer o teu programa de recuperao na Manso Farthinggale. Queres fazer alguma pergunta?
- Poderei voltar a andar? - perguntei, esperanada.
- No vejo porque no. No vai acontecer de um dia para
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o outro, mas vai acontecer na altura certa, com o tempo, e eu irei visitar-te regularmente.
- Quando deixarei de sentir-me tonta?
- Isso  o resultado da contuso. Tambm vai levar o seu tempo, mas vais melhorar um pouco todos os dias.
- Foi s isso que aconteceu comigo? - perguntei, desconfiada.
- S isso?
O mdico riu-se e o Tony aproximou-se, sorrindo calorosamente.
- s vezes esqueo-me de como  maravilhoso ser-se jovem - disse-lhe o mdico, e o Tony concordou com um aceno de cabea.
-  maravilhoso e, se j no podemos ser jovens,  ptimo termos algum to jovem e to bonita como a Annie perto de ns.
O seu sorriso era pequeno, apertado e divertido.
- Mas eu vou ser um grande fardo - protestei. Uma coisa era ser um fardo para pessoas que amamos e que nos amam... Porm, partir com um estranho naquele estado fazia-me
sentir muito deslocada. Como eu precisava do conforto e do afecto da mam e do pap naquele momento, mas o destino decidira que nunca mais os teria.
- No para mim, nunca. Alm do mais, tenho criadas que esto sempre aborrecidas, porque agora tm muito pouco para fazer, e tambm tens a Mistress Broadfield.
- Falo consigo l fora - disse-lhe o Dr. Malisoff, numa voz pouco mais alta do que um sussurro; uma voz tpica de mdico, e saiu do meu quarto.
O Tony continuava a olhar-me intensamente.
- Venho visitar-te duas vezes por dia - prometeu ele.
- E vou trazer-te sempre qualquer coisa.
Esforou-se por dar um tom ligeiro e alegre  sua voz, como se eu ainda fosse uma criana que precisava de ser animada com brinquedos e bonecas.
- Queres que te traga alguma coisa em especial?
No me ocorria nada; a minha mente ainda estava muito enevoada com os trgicos acontecimentos e o impacto de tudo o que ainda estava para acontecer.
- No tem importncia. Deixa-me surpreender-te todos os dias.
Aproximou-se ainda mais, de modo a poder inclinar-se para beijar a minha testa e, por um momento, a sua mo demorou-se no meu ombro.
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- Graas a Deus, vais ficar boa, Annie. Graas a Ele vais ficar comigo e eu vou poder fazer alguma coisa para ajudar-te.
Manteve o seu rosto to prximo do meu que senti a sua face roar levemente na minha. Depois, beijou-me outra vez e saiu do quarto.
Mrs. Broadfield mediu-me a tenso e lavou-me com uma esponja e gua tpida. Em seguida, fiquei ali deitada, numa espcie de torpor, com os olhos abertos, reprimindo
as lgrimas. Por fim, fechei os olhos e deixei-me dormir.
O Drake veio visitar-me no dia seguinte. Fiquei contentssima por v-lo. Estava num lugar estranho, longe de casa, mas tinha a famlia por perto, e a famlia era
um valor que sempre me fora caro.
Dirigiu-se  minha cama, abraou-me e beijou-me carinhosamente, como se eu fosse feita de cristal e pensasse que podia partir-me em pedacinhos.
- Hoje ests com boa cara, Annie. Como te sentes?
- Muito cansada. Passo a vida a dormir e a sonhar e, quando acordo, tenho de dizer a mim mesma onde estou e recordar o que aconteceu. A minha mente no consegue
aceitar a verdade. Est constantemente a rejeit-la, como se deita fora comida retardada.
Ele sorriu, abanou a cabea e afagou-me o cabelo.
- Onde estiveste? Que tens feito? - perguntei rapidamente, ansiosa por ver como ele tinha encarado a tragdia e o seu prprio desgosto.
- Decidi ficar na faculdade e acabar o semestre.
- Oh!
De certo modo, julgara que o mundo inteiro tinha ficado parado por um momento. At o sol se tinha recusado a aparecer. A noite dominara a Terra por completo. Como
podia algum voltar a trabalhar, a viver ou a ser feliz?
- Os meus professores quiseram dispensar-me, mas eu achei que, se no ocupasse o esprito com alguma coisa, enlouquecia de desgosto - disse-me ele, depois de ter
puxado uma cadeira para junto da minha cama. - Espero que no me aches demasiado duro ou indiferente por fazer isso, mas no podia ficar parado. Era muito doloroso.
- Fizeste bem, Drake. Tenho a certeza de que era exactamente isso que o pap e a mam quereriam que fizesses.
Ele sorriu, grato pela minha compreenso, e eu acreditei na verdade das minhas palavras. Ningum era capaz de lidar melhor com o sofrimento do que a mam. O pap
costumava
dizer que ela era feita de ao. "Ao inoxidvel", como ele costumava brincar. O que eu daria para ouvir agora uma das suas piadas.
- Depois, durante uns tempos no pensas nos estudos.
- Mas no vou voltar para Winnerrow. Neste momento, seria demasiado doloroso para mim voltar para aquela casa enorme e vazia e, de qualquer modo, o Tony Tatterton
fez-me uma oferta irrecusvel para os meses de Vero.
- Que espcie de oferta? - perguntei, surpreendida pela maneira como Tony Tatterton havia tomado o comando das nossas vidas.
- Ele vai deixar-me trabalhar como estagirio num cargo de direco nos seus escritrios, imaginas? Ainda nem sa da faculdade, mas ele vai deixar-me assumir algumas
responsabilidades. At me arranjou um apartamento aqui em Boston. No te parece estimulante e maravilhoso?
- Claro que sim, Drake. Fico feliz por ti.
Desviei o olhar. Sabia que no era justo para com o Drake, mas naquele momento parecia no haver muito lugar para a felicidade. Na minha opinio, o mundo inteiro
devia estar de luto por mim e pelos meus pais. O vu negro que se havia abatido sobre tudo ainda estava preso a mim. No importava se o cu estivesse azul, porque
para mim tudo era cinzento.
- No pareces muito feliz,  por causa dos remdios que ests a tomar?
- No.
Olhmos um para o outro por um instante e vi a tristeza apossar-se outra vez do seu rosto, ensombrando os seus olhos e fazendo tremer os seus lbios.
- No - tornei a dizer. - Tenho pensado muito sobre o Tony. No consigo deixar de perguntar a mim prpria por que razo ele entrou to apressadamente nas nossas
vidas e porque tem sido to maravilhoso para connosco. Durante imenso tempo, a nossa famlia tratou-o como se ele no existisse. Tu at pensavas que ele nos detestava.
Tambm no te faz confuso?
- Que confuso pode isso fazer? Aconteceu uma tragdia horrvel e ele... ele efectivamente faz parte da famlia. Ou seja, ele foi casado com a tua bisav e av da
minha meia-irm e, alm disso, no tem mais ningum. No sei se sabes, mas o seu irmo mais novo suicidou-se - acrescentou o Drake num profundo murmrio.
- Irmo mais novo? No me lembro de alguma vez se ter falado nele.
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- Bem, uma ocasio, o Logan contou-me qualquer coisa sobre ele. Ao que parece, sempre foi um homem muito introvertido, sempre metido consigo e que vivia numa casa
de campo no outro lado do jardim, em vez de viver naquela casa enorme e linda.
- Casa de campo? Disseste casa de campo?
- Sim.
- Como aquela que a minha me tinha no quarto? Aquela espcie de brinquedo, em forma de caixa de msica que ela me deu pelos anos?
- Bem, nunca pensei sobre isso, mas... sim, acho que sim. Porque perguntas?
- No paro de sonhar com isso. Lembro-me disso e da msica, e das vezes que a mam me deixou pegar nela quando eu ainda era uma criana. s vezes, quando acordo
de uma das minhas sestas, julgo que estou em casa e olho em volta  procura das minhas coisas; procuro ouvir as vozes do pap e da mam, penso em chamar Mrs. Avery
e depois... Lembro-me de tudo, como se uma onda fria e escura me envolvesse rapidamente, e quase me afogo nesta verdade terrvel e hedionda. Estarei a enlouquecer,
Drake? Ser isso uma parte do que est a acontecer comigo e que ningum quer contar-me? Por favor, dize-me! Preciso de saber!
- Ests confusa com tudo o que aconteceu.  s isso disse ele, tranquilizador. - As recordaes esto misturadas.  compreensvel, considerando tudo aquilo por que
passaste. Havias de ter ouvido os disparates que dizias quando te visitei em Winnerrow.
Ele sorriu e abanou a cabea.
- Que disparates?
Por um momento, fiquei assustada. Teria o Drake tomado conhecimento dos meus pensamentos mais ntimos? Os meus segredos sobre o Luke?
- Toda a espcie de tolices. No te preocupes com isso acalmou-me ele, desviando o assunto. - E no te preocupes com o modo como vais ser tratada, nem receies ficar
sozinha. vou estar sempre por aqui durante o Vero e posso ir visitar-te  Manso Farthinggale todos os fins-de-semana. Agora, s a minha grande responsabilidade,
Annie, e pretendo tomar conta de ti muito bem. Mas preciso desenvolver os meus objectivos profissionais e tambm assumir responsabilidades sozinho. A independncia
est-me no sangue. No estou  espera de favores do Tony Tatterton. O que eu ganhar vai ser  custa do meu esforo e tenciono subir na vida - declarou, com orgulho.
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Continumos a falar sobre o facto de ele ir trabalhar para fony Tatterton e o que isso poderia significar para ele. As suas palavras fluam rapidamente, e eu perdi
o fio  meada, passado um bocado, ele percebeu que eu no estava a ouvir. os meus olhos teimavam em fechar-se.
- E aqui estou eu com a minha conversa a fazer-te dormir - afirmou ele e riu-se. - Se calhar era melhor contratarem-me para ajudar os que tm insnias.
- Oh, desculpa, Drake. Era minha inteno ouvir-te. At ouvi a maior parte do que disseste e...
- No faz mal.  possvel at que tenha ficado aqui demasiado tempo.
E levantou-se.
- Oh, no, Drake! Estou to contente por estares aqui! exclamei.
- Precisas de repousar se quisermos que recuperes. Em breve, venho visitar-te outra vez.  uma promessa. Adeus, Annie - murmurou ele ao inclinar-se para beijar-me
a face.
- No te preocupes. vou estar sempre perto.
- Obrigada, Drake.
Era reconfortante saber que ele estaria sempre prximo; porm, no consegui deixar de desejar que o Drake tambm estivesse perto de mim e que, de algum modo, pudesse
ficar comigo em Farthy e ajudar-me a recuperar. Talvez assim a minha vida no fosse to diferente do que era em Winnerrow. J sonhava comigo e com o Luke sentados
no terrao maior de Farthy, e o Luke passeava comigo, empurrando a cadeira de rodas, ou ento ele sentar-se-ia  cabeceira da minha cama e leria em voz alta enquanto
eu descansava.
Assim que o Drake saiu, Mistress Broadfield aproximou-se da cama e carregou no boto para elevar a cama at eu ficar sentada.
- Est na hora de comeres qualquer coisa - comunicou ela.
Fechei os olhos para evitar que o quarto continuasse a andar  roda; dessa vez no protestei. Agora, mais do que tudo, queria sair daquele hospital, onde estava
dependente de algum para comer, para as minhas necessidades fisiolgicas e para tudo o que precisasse. E tambm, mais do que qualquer outra coisa, eu queria ficar
suficientemente bem para poder ir ver os tmulos dos meus pais.
Ainda tinha de ir despedir-me deles.
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7 PERODO DE TREVAS

Tony Tatterton foi fiel  sua promessa: todas as vezes que me visitava, trazia-me uma surpresa diferente. Vinha ver-me duas vezes por dia: uma vez ao fim da manh
e outra vez ao fim da tarde. Ao princpio trazia caixas de bombons e braadas de flores; depois passou a mandar simplesmente entregar, todas as manhs, jarras de
rosas frescas. Na quarta vez que me visitou, trouxe-me um frasco de perfume de jasmim.
- Espero que gostes - disse ele. - Era o preferido da tua bisav.
- Lembro-me de que, s vezes, a minha me usava este perfume. Sim, gosto muito. Obrigada, Tony.
Pus logo um pouco do perfume e, quando ele inalou o aroma, os seus olhos ficaram vtreos e distantes por alguns momentos. Percebi que ele estava mergulhado nalguma
recordao. Como era um homem complicado e como era to parecido com a minha me! Como era meigo e carinhoso, tal como um rapazinho e, no entanto, como conseguia
ser forte e autoritrio! Como uma criana num baloio, oscilava entre uma personalidade e a outra. Apenas uma palavra, um aroma ou uma cor faziam-no mergulhar no
passado, afund-lo num abismo de recordaes. E depois, no momento seguinte, ele surgia alegre, perspicaz, alerta e pronto para assumir o comando.
Talvez no fssemos assim to diferentes. Quantas vezes os meus pais iam encontrar-me numa disposio melanclica. Muitas vezes, as coisas mais simples entristeciam-me:
um pssaro solitrio num ramo de um salgueiro; o som da buzina de um automvel  distncia; at mesmo o riso das crianas. De repente, encontrava-me perdida nos
meus prprios pensamentos profundos e depois, com a mesma rapidez, saa das sombras e voltava para a luz do Sol, incapaz de explicar por que razo havia estado triste.
Uma vez, a minha me encontrou-me
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debulhada em lgrimas. Estava sentada na sala de estar,
com os olhos fixos nas rvores e no cu azul.
- Porque ests a chorar, Annie? - perguntou ela. Primeiro olhei para ela confusa. Depois levei a mo ao rosto e senti-o molhado.
No consegui explicar a razo daquelas lgrimas. Apenas tinha acontecido.
Quando o Tony voltou ao hospital, o seu motorista, um homem chamado Miles, acompanhou-o para transportar uma srie de caixas. O Tony mandou-o coloc-las na mesa
ao lado da cama. Abriu caixa aps caixa e cada uma continha camisas de noite, em seda e todas elas de cores diferentes. Na ltima caixa havia um roupo de seda carmesim.
-  uma cor que ficava lindamente  tua me. - Os seus olhos brilharam com a recordao. - Ainda me recordo de um conjunto de vestido e casaco carmesim que eu lhe
comprei quando ela andava na escola feminina de Winterhaven.
- A minha me no foi feliz l - disse eu, interrompendo a sua recordao agradvel. - Dizia que as outras raparigas a tratavam cruelmente e, muito embora fossem
raparigas ricas, no eram to piedosas e generosas como as pessoas pobres dos Willies.
- Sim, sim, mas isso deu-lhe personalidade para competir com elas. E que personalidade forte ela tinha! Winterhaven era e ainda  uma escola altamente conceituada.
Obrigam as suas alunas a trabalhar e tm ao seu dispor professores inteligentes. Lembro-me de dizer  tua me que, se ela chegasse ao topo dentro daquela escola,
seria levada aos chs de caridade e conheceria as pessoas que realmente so importantes na sociedade de Boston. Mas tens razo. Ela no gostou das pessoas que l
conheceu. Ora - acrescentou ele, mudando de assunto rapidamente -, pelo menos vais ser a doente mais bem vestida do hospital.
Queria que ele falasse mais sobre os anos em que a minha me vivera na Manso Farthinggale, mas achei melhor deixar esse assunto para quando eu prpria realmente
l estivesse.
Quando uma das "senhoras cor-de-rosa" - mulheres de idade, amorosas, de aventais rosas que faziam obras de caridade, em regime de voluntariado naquele hospital -
veio trazer-me o correio no dia seguinte, entregou-me uma pequena pilha de cartes a desejar-me as melhoras. Esses cartes eram dos meus amigos de Winnerrow, dos
meus professores,
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de Mrs. Avery e de Roland Star, bem como cartes de Drake e do Luke. Pedi a Mrs. Bradfield que os colasse com fita gomada na minha parede. Reparei que ela no ficou
nada satisfeita com isso, mas, em todo o caso, fez o que lhe pedi.
No dia seguinte ao da chegada do carto, o Luke veio visitar-me com a tia Fanny. Como eu estava num quarto particular, podiam ir  hora que quisessem. A porta estava
aberta, e pude ouvir a tia Fanny a caminhar pelo corredor Provavelmente at a teria ouvido mesmo se a porta estivesse fechada. Primeiro, ela e o Luke pararam no
gabinete da enfermeira.
- Viemos ver a minha sobrinha - berrou ela. - Annie Stonewall.
Nem consegui ouvir a resposta da enfermeira, porque ela falou bastante baixo; porm, a tia Fanny no acusou o toque.
- Ento, porque  que os vossos quartos particulares so to lomje do elevador? Se a gente paga mais, devia ter vantagens.  por aqui, Luke.
- Vem a a minha tia - disse eu, avisando Mrs. Broadfield, que estava sentada como uma esttua de pedra ao p da porta, a ler a edio mais recente da revista People.
Nessa manh, o Tony tinha enviado dzias de revistas actuais e Mrs. Broadfield tinha-as separado por ordem no parapeito da janela. O meu quarto parecia uma biblioteca.
Algumas das enfermeiras habituais tinham aparecido a perguntar se podiam levar esta ou aquela revista para ler nos seus curtos intervalos. Mrs. Broadfield autorizou,
mas tomou nota, num pequeno bloco, do nome de todas, bem como das revistas que levavam.
-  s para lembrar onde elas esto - avisou ela. Mudou de posio no seu lugar quando os passos da tia Fanny se aproximaram mais. Era capaz de adivinhar, pelo som,
que ela usava saltos altos e vinha toda aperaltada para aquela visita. Apareceu  entrada da porta, usando um chapu branco de abas largas com uma faixa de veludo
preto; um casaco de ganga preto, de manga curta, uma saia de sarja acastanhada e um top curto e s riscas. Claro que a saia era muito justa nas ancas.
Apesar do modo como ela vivia e as coisas que dizia e fazia, tinha de admitir que a minha tia Fanny era uma mulher muito atraente, especialmente se se vestisse com
bom gosto. No era de admirar que os rapazes esvoaassem  sua volta como abelhas  volta de uma colmeia.
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O Luke entrou logo atrs dela. Usava uma camisa simples de manga curta, em algodo azul e jeans, mas reparei que tinha tomado um cuidado especial com o cabelo. Como
ele se orgulhava do seu cabelo negro e abundante. Os outros rapazes, obviamente invejosos, metiam-se com ele por causa do cuidado que tinha com o cabelo, no deixando
uma madeixa sequer fora do lugar.
Mrs. Broadfield levantou-se assim que a tia Fanny entrou no quarto. Afastou-se, como se no quisesse que surgisse uma oportunidade para grandes intimidades e bateu
com a revista na soleira da porta.
- Annie, querida Annie!
A tia Fanny precipitou-se para a minha cama e lanou os braos sobre mim, abraando-me.
Mrs. Broadfield dirigiu-se para a sada.
- No tenhas pressa, querida - respondeu a tia Fanny. Quase soltei uma gargalhada quando a Fanny se voltou para mim, com olhos abertos e os lbios franzidos, como
se tivesse acabado de engolir leite azedo.
O Luke aproximou-se do outro lado da minha cama, parecendo tmido e deslocado.
- Como ests, Annie?
- Um bocadinho melhor, Luke. J consigo sentar-me sem ficar tonta e at comecei a ingerir alimentos slidos.
- Que ptimo, querida. Sempre soube que se te trouxessem para um stio pinoca como este, punham-te fina num instante. - A Fanny lanou-me um olhar. - Aquela enfermeira
carrancuda trata-te bem?
- Oh, sim, tia Fanny. Ela  muito eficiente - disse eu para sosseg-la.
- Pelo menos parece. D-me ideia que precisas sempre de ter contigo uma pessoa que saiba contar as gotas de um remdio como deve ser, s que ela  j o suficiente
para deixar algum em coma.
- Toda a gente na escola te manda saudades, Annie, e tambm te mandam os psames - interrompeu o Luke, tentando desviar a conversa despropositada da me.
- Agradece-lhes por mim, Luke. E agradece-lhes tambm os cartes. Adorei o teu carto a desejar-me as melhoras.
Inclinei a cabea na direco da parede.
- Foi o que eu achei. Ele sorriu radiante.
- Onde est o carto que te mandei? - perguntou a tia
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Fanny, depois de ter examinado os cartes que estavam na parede.
- Mandou um carto, tia Fanny? Quando?
- H dias. Gastei montes de tempo a escolher o melhor fica sabendo. E tenho a certeza de que o enviei. Por isso Luke, no me acuses de me ter esquecido - acrescentou
ela rapidamente, antecipando-se s invectivas do Luke.
- Talvez chegue amanh, tia Fanny.
- Ou talvez aquela enfermeira pavorosa o tenha deitado fora antes de o receberes - disse ela, zombeteira.
- Oh, tia Fanny, porque faria ela uma coisa dessas?
- Sabe-se l. Ela no gostou de mim desde a primeira vez que me viu e eu tambm no gostei dela, nem um bocadinho. No tenho um pingo de confiana nela e sou capaz
de lhe dar um pontap.
- Tia Fanny!
- Me - advertiu o Luke.
- Pronto, est bem - resmungou ela.
- Est tudo pronto para o final do curso, Luke? - perguntei, tentando parecer alegre.
Iria perder o ano do final do meu curso...
- Faltam trs dias.
Passou com o dedo pela garganta, como que a sugerir que ia ser um desastre.
-  a primeira vez - disse ele - que vou fazer algo verdadeiramente importante sem que tu estejas ao meu lado para encorajar-me e apoiar-me, Annie.
Era maravilhoso ouvi-lo dizer como eu era importante para ele e esperava que pudesse ser sempre assim; no entanto, eu sabia que ele iria sair-se bem mesmo sem a
minha presena. Havia poucos jovens da sua idade com as mesmas capacidades no que tocava a desafios ou a responsabilidades. Os nossos professores gostavam bastante
quando ele se oferecia para fazer alguma coisa, porque sabiam que no tinham que vigi-lo como faziam com a maioria dos rapazes adolescentes.
- Vais sair-te muito bem, Luke. Tenho a certeza disso. Quem me dera poder estar l para ouvir - suspirei, e os meus olhos diziam-lhe exactamente o quanto eu o desejava.
- Ele farta-se de repetir o discurso para as rvores, nas traseiras l de casa, mas ainda no ouvi aplausos - interrompeu a Fanny.
O Luke franziu a testa, zangado. Estava a ficar impaciente com ela e eu tambm.
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Bem, vou dizer-te uma coisa, Annie. Se aqueles peneirentos de Winnerrow no aplaudirem o Luke de p... - Me, j lhe pedi...
- Ele est preocupado, porque acha que no vou portar-me bem e vou dar queles emproados mais motivos para falarem de mim - explicou ela.
Comeou a andar de um lado para o outro e a sua voz aumentava de tom,  medida que se entusiasmava.
- Luke, vai buscar-me aquela cadeira; essa mesma onde a enfermeira da Annie estava a chocar ovos.
Olhei rapidamente para a porta, para ver se Mrs. Broadfeeld j havia regressado e ouvido os comentrios. Aparentemente, tinha decidido ausentar-se at que a minha
tia se fosse embora.
O Luke foi buscar-lhe a cadeira e ela sentou-se, tirando o chapu com cuidado e colocando-o aos ps da minha cama. Tinha o cabelo cuidadosamente apanhado. Achei
que havia algo diferente nela: uma expresso nova e mais sria nos seus olhos azuis. Fitou-me com ateno por um momento, apertando os lbios, e depois pegou na
minha mo.
- Annie, querida. Tenho pensado muito ultimamente. Alis no tenho feito outra coisa. No , Luke?
- Realmente no tem feito outra coisa - disse o Luke com sarcasmo.
A tia Fanny reparou no modo como olhvamos um para o outro.
- Estou a falar a srio.
- Est bem, tia Fanny. Estou a ouvir. Continue. Cruzei os braos sob o peito e recostei-me nas almofadas.
As minhas pernas ainda pareciam dois apndices mortos. Tinha de mud-las de posio, de um lado para o outro, com as mos, e Mrs. Broadfield tinha de fazer-lhes
uma massagem duas vezes por dia e exercit-las com movimentos para cima e para baixo.
- Decidi que vou mudar-me para a Casa Hasbrouck enquanto ests a recuperar, s para ter a certeza que est tudo bem controlado e que aqueles criados esto a fazer
o seu servio, que  para isso que so pagos. vou ocupar um dos quartos de hspedes. H l bastantes, e sempre que o Luke vier da faculdade para fazer uma visita
pode ocupar um dos outros.
- vou comear as aulas este Vero - explicou ele. - Harvard tem um programa especial de frias, no qual posso tomar parte, e a minha bolsa de estudos completa tambm
cobre esse programa.
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- Isso  ptimo, Luke. Mas, tia Fanny, j contou ao Drake os seus planos?
- No acho que tenha de pedir licena ao Drake para fazer seja o que for. Tenho certos direitos e obrigaes. O meu advogado est a estudar a papelada dos testamentos.
A tua me era boa para mim e eu sinto que tenho uma obrigao para com ela. Ningum vai convencer-me do contrrio, nem o Drake, nem muito menos o Tony Tatterton.
- Em todo o caso, no vejo por que razo o Tony seria contra, tia Fanny.
- Bem, o Drake ainda est a acabar o curso e, como ningum me diz que no sou a parente mais velha, vou fazer o que for melhor para a minha famlia. O Drake vai
estar fora; tu vais estar fora; algum vai ter de tomar conta de tudo. Tenho a certeza de que a Heaven havia de querer que fosse eu.
- No me importo que se mude com o Luke para a Casa Hasbrouck, tia Fanny. Agradeo-lhe o que quer fazer.
- Ento, obrigada, querida Annie. s amorosa. No  amorosa, Luke?
- Sim - anuiu o Luke, olhando para mim do mesmo modo como no dia em que me contara o que a tia Fanny fizera com a carta da sua admisso a Harvard.
Senti-me corar e desviei rapidamente o olhar para a tia Fanny.
- S queria que fosses para a tua casa para recuperar, Annie, em vez de ires viver para aquela casa enorme, no meio de estranhos. Podia tratar de ti to bem como
essa enfermeira carrancuda que o Tony Tatterton contratou. At aposto em como ela tambm  cara. Seja como for, a tua me nunca foi to feliz como quando vivia em
Winnerrow. Quero dizer, quando ficou mais velha e rica. Pelo menos,  o que eu acho.
- Porqu, tia Fanny?
Perguntei-me at que ponto ela estaria a par do passado misterioso.
- Ela nunca gostou daqueles peneirentos da cidade comentou, rapidamente. - E tambm passou um mau bocado com aquela luntica da av dela. Alis, o Tony tambm. Toda
a gente baralhava toda a gente, at que ningum j no sabia quem era. No sei se sabes, mas ela matou-se declarou pura e simplesmente, lanando-me um olhar desdenhoso.
- Julguei que tinha sido um acidente, tia Fanny.
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- Acidente, uma... No, no foi acidente. Acho que uma noite ela simplesmente se cansou de ser trancada como uma doida e tomou demasiados comprimidos para dormir.
No se pode dizer que tenha sido um acidente.
- Mas se ela no sabia o que fazia, ou quem era...
- A Annie tem razo, me. Pode ter sido um acidente.
- Talvez, mas no fez bem nenhum  tua me ter de viver naquela casa enorme com toda aquela loucura. E no me parece que ela quisesse ser enterrada naquele cemitrio
de luxo. Se calhar at preferia os Willies, ali fora, nos bosques, ao lado da sua me verdadeira.
O Luke e eu trocmos um rpido olhar. Ele sabia que eu tinha ido muitas vezes sozinha visitar aquela campa simples nos Willies e ficava a olhar a lpide, que dizia
apenas: "Angel, Esposa Adorada de Thomas Luke Casteel."
- Claro que o teu paizinho devia querer o monumento e tudo.
- A tia viu-o?
Olhei para o Luke rapidamente. Ele moveu a cabea e mordeu o lbio inferior.
- Pois, eu e o Luke passmos pelo cemitrio da famlia Tatterton  vinda para c e parmos para prestar homenagem.
- Estiveste em Farthy, Luke?
- Bem, foi nos jardins e no chegmos a entrar na casa. O cemitrio tem um acesso prprio e fica a alguma distncia.
- De qualquer maneira, ningum nos convidou, Annie. E do stio onde estvamos, a manso parecia fria e deserta comentou ela, abraando-me, como se s a lembrana
lhe causasse um arrepio.
- Tambm no pudemos ver grande coisa, me - disse o Luke, olhando para ela com censura.
- Parecia um daqueles velhos castelos da Europa - insistiu ela. -  por isso que eu preferia que ficasses num stio onde eu pudesse tomar conta de ti, em vez de
estares enfiada naquela manso velha. Se calhar, est assombrada. Provavelmente foi por isso que a tua bisav ficou prulas.
- Oh, me - resmungou o Luke.
- Bem, o Logan disse-me uma vez que a Jillian... Era esse o seu nome, Jillian! Disse-me que ela afirmava ver os entes queridos que j tinham morrido - murmurou.
O Luke desviou o olhar. Qualquer referncia ao meu pai e  sua me causava-lhe sempre embarao. Soltei uma pequena gargalhada ridcula, para desanuviar o ambiente.
- No precisa de preocupar-se com isso, tia Fanny.
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O Tony Tatterton vai mandar fazer obras em Farthy para torn-la bastante confortvel para mim - disse eu. - Ele tem uma srie de planos...
- Ah, pois.
Olhou noutra direco, como se no quisesse que eu lesse o que estava escrito nos seus olhos.
- Tia Fanny, sabe a razo por que a minha me no queria nem ouvir falar nele?
Abanou a cabea, sem tirar os olhos do cho.
- Isso era um assunto entre o teu paizinho, a tua me e ele. Aconteceu tudo muito antes da audincia pela posse do Drake, e nessa altura eu e a tua me no nos dvamos
muito bem. Por isso, ela no me contou tudo e eu no perguntei. Depois de termos feito as pazes, ela quis manter as recordaes desagradveis enterradas e eu tambm
nunca puxei pelo assunto. Mas tenho a certeza de que ela devia ter as suas razes... Por isso, talvez fosse melhor pensares duas vezes no que vais fazer - acrescentou
ela, e os seus olhos tornaram-se mais pequenos. Franziu os lbios.
- Mas, tia Fanny, o Drake acha o Tony uma maravilha e ele tem feito tanto por mim. Tambm prometeu ao Drake um emprego durante o Vero e  um emprego importante.
- Ora, v mas  se ficas com os olhos bem abertos enquanto estiveres nesse castelo, e se alguma coisa te aborrecer, essa enfermeira ou outra coisa qualquer, s tens
 que ligar para a tua tia Fanny, que eu vou buscar-te num abrir e fechar de olhos e trazer-te para onde tu realmente pertences, ouviste?
A tia Fanny era engraada, e as ideias eram, por vezes, estranhas; contudo, no consegui deixar de ficar a pensar se ela no teria razo acerca de Tony Tatterton.
Haveria alguma outra razo para ele fazer tudo aquilo? A tia Fanny teria de facto razo sobre o surto de loucura que corria na famlia? Decidi esperar para ver o
que aconteceria. Pelo menos, sentia-me em segurana, porque o Drake e o Luke estavam ali, prximo de Boston. Na realidade, ficaria at mais prxima do Luke se ficasse
em Farthy. Afinal voltaramos a ficar perto um do outro, quando eu chegara a pensar que, se ele fosse para Harvard, isso iria separar-nos para sempre.
- Obrigada, tia Fanny, mas acho que vou ficar bem. Alm disso, agora preciso de toda a espcie de cuidados mdicos.
- Ela tem razo, me.
- Eu sei que ela precisa de cuidados especiais. S pensei
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que. De qualquer maneira, sabes onde encontrar-me. Ora ento, muito bem.
Voltou a endireitar-se, tentando parecer-se com a minha me quando tratava de negcios.
- Parece que os teus pais nunca mudaram aquela parte do testamento, que deixava entregue a gesto dos dinheiros ao Tony Tatterton. Ento, parece-me que ele vai tomar
conta da fbrica e do resto.
- E o Drake tambm  um dos interessados. Talvez um dia mais tarde ele venha a assumir tudo sozinho.
- No  que o meu pai ia ficar orgulhoso! - disse ela, radiante.
Abanou a cabea e tirou um leno da mala para enxugar os olhos.
- Tu e o Luke so a nica famlia que eu tenho, Annie, e s quero o melhor para vocs os dois. vou tentar portar-me bem e ser uma boa me e uma boa tia. Juro.
Pude perceber que ela tentava convencer-se a si prpria, tanto como a mim.
- Obrigada, tia Fanny - afirmei, grata pelas suas intenes, as quais receava que fosse muito difcil manter.
Beijmo-nos na face. Os olhos dela brilhavam com as lgrimas. Fiquei triste com isso, mas fiz um esforo para tambm conter as lgrimas. Endireitou-se de novo e
enfiou o leno dentro da mala.
- Agora vou at quela cantina pinoca tomar um caf. Prometi ao Luke que vos deixava sozinhos um bocado, apesar de eu no saber que raio de segredos so esses que
tm de manter afastados de mim.
Lanou um olhar suspeito ao Luke, e este corou.
- No so segredos, me. Eu disse-lhe.
- Est bem, est bem. Estou de volta dentro de dez minutos.
Levantou-se, apertou a minha mo e saiu. Assim que ela saiu a porta, o Luke aproximou-se mais da minha cama. Estiquei-me e tomei a sua mo entre as minhas.
- Como tens realmente passado, Annie?
- Tem sido duro, Luke, principalmente quando estou acordada e consigo pensar e lembrar-me. No fao outra coisa se no chorar.
Suspirei e comecei outra vez a chorar e a soluar violentamente quando o Luke se sentou na cama, ao meu lado, e me consolou, amparando-me com os seus braos firmes.
Ficmos assim por muito tempo, at que o meu corao ficou mais forte e as minhas lgrimas cessaram.
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- Quem me dera poder fazer mais alguma coisa por ti Baixou os olhos e de repente olhou para cima.
- Sonhei que tinha ido para a universidade... Tornava-me mdico e podia tratar de ti para fazer-te ficar outra vez bem rapidamente.
- Darias um mdico maravilhoso, Luke - comentei, enquanto os meus soluos diminuam.
- Quem me dera j ser um agora. Os seus olhos fitaram os meus.
- Toda a gente tem sido maravilhosa - insisti. - O Drake vem ver-me todos os dias e o Tony tem realmente feito muito por ns.
Ele abanou a cabea.
- Seja como for, finalmente vou para Farthy. S gostava que fosse por outros motivos.
- Eu vou visitar-te, Annie, se me deixarem.
- Claro que vo deixar - assegurei-lhe.
- vou l assim que tiver a minha primeira oportunidade. E se ainda estiveres na cadeira de rodas, vou empurrar-te por todo o lado e vamos ver todos aqueles lugares
com que sonhmos. At podemos ir ao parque e...
- Talvez me possas levar at junto dos seus tmulos, Luke, se eu no for l antes de me visitares - sugeri eu, solenemente.
- Oh, gostaria muito, Annie. Quero dizer...
- Talvez eu mesma possa andar sozinha na cadeira em breve, de modo a podermos separar-nos e tentarmos encontrar-nos, tal como nos nossos sonhos - acrescentei, rapidamente.
Parecia-me errado transformar Farthy num lugar triste, principalmente depois de termos imaginado coisas to fantsticas sobre aquele lugar nos nossos sonhos.
- Sim, e iremos at  grande piscina e aos courts de tnis...
- E ainda vais ser o meu prncipe? - provoquei-o eu.
- Oh, agora mais do que nunca. Levantou-se e assumiu uma pose principesca.
- Minha senhora - declarou, abrindo os braos com um movimento largo. - Dais-me permisso para vos empurrar a cadeira atravs dos jardins, esta manh? Iremos ao
terrao, onde nos sentaremos at o Sol se pr, conversaremos e beberemos juleps1 de menta.
1 No original, juleps: bebida consumida nos Estados Unidos, feita de usque, acar, gelo modo e hortel. (N. da T.)
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- Depois disso, prometeis sentar-vos comigo na sala de concertos, para ouvirmos um recital de piano, prncipe Luke?
- Os vossos desejos para mim so ordens, senhora minha - declarou, ajoelhando-se ao lado da cama, pegando na minha mo e levando-a aos lbios. Beijou os meus dedos
e levantou-se. Os seus olhos turvaram-se,  medida que se ia lembrando de outra fantasia.
- Ou ento podemos voltar a ser aristocratas sulistas sugeriu ele.
- E vestirmo-nos bem para recepes elegantes? - perguntei a sorrir.
- Claro. Eu uso um smoking e tu vens a deslizar pela longa escadaria, parecendo a Scarlet O'Hara em E Tudo o Vento Levou, com o teu vestido a arrastar pelo cho.
E ento dirs...
- Direi: "Luke Casteel, que bom v-lo."
- Annie, est cada vez mais bonita - declamou ele, imitando o Clark Gable no filme. - Mas devo evitar os galanteios. Conheo a maneira como manipula os homens com
a sua beleza estonteante.
- Oh, consigo, no, Luke. Nunca o manipularia.
- Oh, Annie, mas no h ningum que eu mais gostasse... que me manipulasse - declamou, com tal sinceridade nos seus olhos que fiquei sem fala por um momento.
- No  muito simptico da sua parte dar-me a entender que sabe que eu o estou a fazer, Luke Casteel - respondi finalmente, com voz ofegante.
Ambos nos rimos, e depois levantei os olhos.
- Luke, h outra coisa que eu preciso de ver. Algo que eu quero muito ver agora.
- O que ? - perguntou ele com os seus olhos de safira a cintilar.
- Uma casa... uma casa de campo que fica do outro lado do parque.  uma coisa que eu sinto que tenho de ver.  algo que eu sinto que tenho de fazer.
- Ento vamos faz-lo juntos - acrescentou ele, confiante.
- Espero que sim, Luke. - Apertei-lhe a mo com entusiasmo. - Promete-me, Luke, por favor.
- Todas as promessas que te fao, Annie, so verdadeiras - disse ele com voz rouca, parecendo mais maduro e determinado do que alguma vez me lembro de o ter visto.
Por um momento, os nossos olhos ficaram colados e eu vi
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o seu amor por mim como um lago tpido e lmpido, suficientemente grande para se poder nadar nele. Nesse instante, Mrs. Broadfield regressou, interrompendo abruptamente
aquele momento como um vento gelado.
- Est na hora de mudar a ligadura da tua cabea - comunicou ela.
- Espera l fora s um instante, Luke.
- vou ver onde est a minha me. A esta hora  bem capaz de estar a virar este lugar do avesso.
A Fanny e o Luke regressaram depois do almoo e ficaram durante mais um bocado e, antes de sarem, eu e o Luke combinmos uma hora para ele me telefonar no dia seguinte,
para ler-me a verso final do seu discurso.
- Acrescentei-lhe mais umas coisas - esclareceu ele.
- Uma coisa que quero que sejas a primeira a ouvir.
Ao fim da tarde, o Tony e o Drake chegaram.
- J soube que a tua tia esteve aqui - disse o Tony assim que entrou a porta.
-  verdade.
Virei-me logo para o Drake. Estava muito bem vestido, um fato de seda s riscas brancas e pretas, tal como os que o Tony costumava usar. Achei que ele parecia muito
mais velho, mais maduro e bem sucedido.
- Drake, a tia Fanny quer mudar-se para a Casa Hasbrouck, a fim de tomar conta das coisas. Eu concordei.
- O qu? S um momento, Annie.
- Ento, ento - interveio o Tony. - Tanto quanto sei,  uma casa grande.
Reparei no olhar que ele lanara ao Drake; era um olhar que dizia: "No faas nada que possa perturbar a Annie." O fogo nos olhos do Drake apagou-se rapidamente.
Encolheu os ombros.
- Isso  verdade. Afinal no me parece assim to m ideia. De qualquer modo,  s por uns tempos. Eu vou estar demasiado ocupado e tu vais estar em Farthinggale,
por isso ela no vai incomodar-nos.
- Ela est a tentar fazer alguma coisa de til, Drake. Tentei defender a Fanny e quis muito acreditar no que ela tinha de melhor.
- A tia Fanny quer voltar a ter uma famlia. Acredito nela, e no tive coragem para dizer-lhe que no. Muito menos agora.
Ele acenou com a cabea.
- Foi muito amvel da tua parte, Annie - disse o Tony.
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Pensar nas necessidades das outras pessoas, quando tu prpria precisas de tanta coisa. Vai ser uma lufada de ar fresco ter uma pessoa como tu em Farthinggale. Vais
dar calor humano quele lugar, como j no existia desde... desde os tempos em que a tua me l vivia.
"E agora - acrescentou ele muito depressa -, tenho uma surpresa. O doutor Malisoff disse-me que podes ter alta no final da semana, continuar a recuperao e comear
a terapia em Farthinggale. No  ptimo?
- Oh, sim. Mal posso esperar para sair daqui! - exclamei.
Tanto o Tony como o Drake se riram. Alguns segundos antes, o Drake lanara um olhar ao Tony para ver se ele se ria primeiro. Fiquei abismada com a rapidez com que
o Drake se tornava um seguidor do Tony. Como o Drake era diferente quando estava com o Tony Tatterton! Nunca o tinha visto fazer tanta cerimnia com ningum!
O Tony pegou na minha mo.
- Constou-me que tens sido uma doente que colabora muitssimo. Mistress Broadfield fala de ti com muito entusiasmo - acrescentou ele, olhando para ela.
Em vez de simular um dos seus sorrisos, ela limitou-se a olhar para mim e a abanar a cabea, e os seus olhos denotavam uma admirao e carinho genunos.
- Obrigada - disse eu, sorrindo para a enfermeira.
- No entanto, Annie, tens estado a esconder de mim uma coisa muito importante - salientou o Tony.
- A esconder?
- O Drake contou-me que s uma artista muito talentosa.
- Oh, Drake. Foste exagerar a minha habilidade?
- S disse a verdade, Annie: que tu s boa - declarou ele, confiante na sua opinio.
- S estou a aprender - disse eu para o Tony.
No queria que ele ficasse demasiado desiludido quando visse o meu trabalho.
- Bem, vou procurar um dos melhores professores de arte da cidade e vou mand-lo a Farthinggale para te dar aulas. No vou deixar que te aborreas. Prometo-te isso.
Precisamos de um novo retrato da manso e no me ocorre ningum melhor do que tu para faz-lo, Annie.
- Mas, Tony, ainda no viu o que sou capaz de fazer.
- Acho que sei do que tu s capaz - afirmou ele, e o seu olhar agudo e penetrante fixou-se em mim, numa profunda considerao.
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Manteve-se pensativo, com um olhar parado, enquanto eu o fitava e perguntava a mim prpria o que julgaria ele que eu sabia. Que teria ele visto em mim, que eu prpria
no conseguia ver?
- Mais uma surpresa.
O Tony meteu a mo no bolso e retirou um pequeno estojo de jias. Peguei nele e abri-o devagar para depois contemplar um magnfico anel com uma prola, engastada
em ouro.
- Fartei-me de vasculhar entre as coisas da tua av, at encontrar o que achei que iria ficar melhor na tua mo.
Tirou o anel da caixa e pegou na minha mo esquerda para enfiar o anel no meu dedo. No pareceu ficar surpreendido por ele me servir na perfeio.
- Oh, Tony,  lindo - exclamei, maravilhada.
E, de facto, era! A prola era enorme e estava incrustada em ouro rosado.
Levantei a mo e mantive-a no ar, de modo a que o Drake pudesse ver. Este abanou a cabea, em sinal de apreo.
- Lindo - concordou.
- A seu tempo, tudo o que tenho e tudo o que era da tua av ser teu, Annie.
- Obrigado, Tony, mas j me deu tanto e fez tanta coisa por mim que no sei como agradecer-lhe.
- Apenas vem para Farthinggale e recupera l. Ser um agradecimento maior do que jamais esperei receber.
Estive quase para perguntar-lhe porqu, mas uma vez mais disse comigo mesma que todas as perguntas e, espero bem, todas as respostas, seriam reveladas na Manso
Farthinggale. De repente, pareceu-me correcto que os mistrios do passado da minha me fossem desvendados por mim no lugar onde tinham nascido para ela.
No dia seguinte,  hora combinada, o Luke telefonou-me para me ler a parte nova do seu discurso.
- Toda a gente em Winnerrow conhece a tragdia da nossa famlia, Annie. Quando olharem para mim, depois de o reitor me apresentar como orador oficial, isso vai estar
presente nos olhos deles. Por isso, fartei-me de pensar na Heaven, na maneira como ela desejaria que eu reagisse e o que ela quereria que eu dissesse.
Fez uma pausa e continuou.
- Annie, tu sabes que a tua me era um modelo de inspirao para mim. Talvez fosse a maior inspirao da minha
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vida, porque nasceu num ambiente pobre e difcil e lutou para sair dele, mais ou menos sozinha, combatendo contra tantas dificuldades e saindo delas com dignidade
e beleza. Ela tambm nunca me fez sentir deslocado na tua casa e sei como deve ter sido doloroso para ela ver-me ali.
- Oh, Luke, ela nunca...
- No, Annie, era perfeitamente natural que ela se sentisse assim. Eu compreendia e... - A sua voz quase fraquejou. - E amava-a por isso. Amava-a mesmo. Deus me
perdoe, mas amava-a mais do que  minha prpria me.
- Acho que ela tinha conhecimento disso, Luke.
- Eu sei que tinha. De qualquer maneira - prosseguiu, levantando a voz -, decidi acrescentar este pargrafo. Ests pronta?
- O meu ouvido est colado ao telefone, Luke. Visionei-o do outro lado da linha, na sua postura direita,
com o rosto muito srio, enquanto pegava no discurso e lia.
- A Bblia diz-nos que h uma altura para tudo na vida. Um tempo para nascer e um tempo para morrer; uma poca de luz e uma poca de trevas. Hoje,  um dia feliz,
um dia maravilhoso, um dia em tempo de luz. Para a minha famlia, contudo,  uma poca de trevas. No entanto, tenho a certeza de que a minha tia e o meu... o meu
pai quereriam que eu me mantivesse numa poca de luz, para iluminar as trevas e pensar apenas no que este dia significa para a minha famlia. Significa esperana
e oportunidade. Significa que outro descendente de Toby Casteel e da sua adorada esposa Annie emergiu da pobreza dos Willies para tornar-se no melhor que as suas
capacidades lhe permitem. Portanto, dedico este dia  memria de Logan e Heaven Stonewall. Obrigado.
As minhas lgrimas jorravam. No conseguia manter o telefone encostado ao ouvido. Deixei cair o auscultador no colo e chorei sem parar. O Luke chamou por mim:
- Annie? Annie? Oh, Annie, no queria que chorasses tanto. Annie?
Mrs. Broadfield, que apenas estava  entrada da porta a falar com a enfermeira daquele piso, entrou de rompante.
- O que foi? - perguntou ela.
Respirei fundo vrias vezes antes de conseguir dissipar a agonia e a tristeza, de modo a poder falar. Ento peguei de novo no auscultador.
- Luke, desculpa.  lindo. Eles iriam ter tanto orgulho de ti, mas achas - disse eu ofegante -, achas que devias dizer...
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- Meu pai? Sim, Annie. Principalmente neste dia, quero afastar qualquer engano e orgulhar-me de ser quem sou Achas que ele se importaria?
- Oh, no. S estava a pensar em ti e no que vir depois.
- O que vem depois no interessa. vou para a faculdade e, francamente, neste caso concordo com a minha me... No me importa o que os hipcritas de Winnerrow possam
pensar.
- S gostaria de poder estar ao teu lado, Luke.
- Tu vais estar ao meu lado, Annie. Eu sinto isso. Comecei a chorar outra vez. Escondi a cara entre as mos.
Mrs. Broadfield avanou com o rosto alterado pela raiva.
- Agora vais ter de parar com isso! - exclamou ela.
- Desliga esse telefone. Essa chamada est a ser demasiado perturbadora.
Agarrou no telefone antes que eu tivesse oportunidade de pegar-lhe outra vez.
- Daqui fala Mistress Broadfield - disse ela. - Lamento, mas vai ter de terminar a conversa. A Annie est muito fraca para este tipo de esforo emocional.
- Por favor, d-me o telefone, Mistress Broadfield exigi eu.
- Ento, acaba com essa conversa - ordenou. - Ainda ficas mais doente.
- Eu fico calma. Prometo. Devolveu-me o telefone com relutncia.
- Desculpa - disse o Luke imediatamente. - No queria...
- No faz mal, Luke. Eu estou bem. vou ser forte. Estou a chorar, porque tambm estou feliz. Estou feliz por ti.
- Fica feliz por ns dois, Annie.
- vou tentar.
- Telefono-te logo a seguir  cerimnia do final de curso para contar-te como correu tudo.
- No te esqueas.
- Mais depressa me esqueceria de respirar - zombou ele.
- Boa sorte, Luke. - Chorei de novo e entreguei o telefone a Mrs. Broadfield, a qual o desligou rapidamente.
Deixei-me cair de encontro s almofadas.
- No tens conscincia do teu estado, Annie - comeou ela a dizer. - No foste atingida apenas fisicamente, mas
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tambm emocionalmente. Esse tipo de coisas pode atrasar a recuperao por vrios meses.
As lgrimas e a agonia fizeram com que o meu corao parecesse um tijolo no meu peito. De repente, senti muita dificuldade em respirar. Debati-me, ofeguei e estiquei-me.
Senti o sangue desaparecer do meu rosto e as minhas faces ficarem frias. O quarto comeou a andar  roda. A ltima coisa de que me lembro foi de Mrs. Broadfield
a gritar:
- Rpido!
Depois as trevas abateram-se sobre mim outra vez.

8 ORDENS MDICAS

Senti-me como se estivessse a cair num tnel comprido e escuro, mas,  medida que caa, comecei a ver uma luz ao fundo do tnel. Estava a aproximar-me cada vez mais
e, em breve comecei a ouvir vozes. Ao princpio soaram-me como muitas pessoas a murmurar; depois os seus murmrios aumentaram de tom, at que pareceram mais como
centenas de moscas zumbindo  volta do vidro de uma janela, no final de um dia quente e peganhento de Vero. Depois, o zumbido transformou-se em palavras e eu sa
do fundo do tnel para a clara luz do dia.
Pisquei os olhos repetidamente.
Realmente havia uma luz muito forte apontada  minha cara.
- Ela est a vir a si - disse algum e uma cabea desviou-se da luz e afastou-a, de modo que o brilho da luz foi incidir noutro lado. Olhei para os olhos de avel,
preocupados, do Dr. Malisoff.
- Ora viva, como te sentes, Annie?
Os meus lbios estavam to secos que eu julguei que podia arranhar a lngua, se a passasse por eles. Engoli em seco.
- Que aconteceu?
Voltei a piscar os olhos e virei-me para ver Mrs. Broadfield ao p do lavatrio a conversar com o Dr. Carson, o assistente do Dr. Malisoff. Ela tambm estava a abanar
a cabea e a gesticular com excitao,  medida que falava. Aparentemente, estava a descrever o que me havia acontecido. Nunca a tinha visto assim to animada.
- Bem, Annie, em parte a culpa  minha. Deveria ter-te contado como ests emocionalmente fraca. Parece que concentrmos a nossa ateno apenas nos teus problemas
fsicos, quando, na verdade, tambm tens complicaes emocionais e mentais. As tuas leses so bastante mais profundas do que parecem,  primeira vista.
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Retirou o pano frio da minha testa e entregou-o a mrs. Broadfield. O Dr. Malisoff no saiu da minha cabeceira. Sentou-se e tomou a minha mo esquerda entre as suas.
- Lembras-te que eu me ri quando me perguntaste se no te tinha acontecido mais nada?
Eu acenei afirmativamente com a cabea.
- Pois bem, no deveria ter rido. Deveria ter-te contado que tambm sofreste danos emocionais e psquicos. Talvez, nessa altura, se pudesse ter feito mais alguma
coisa para evitar que acontecesse uma coisa destas.
- Mas o que foi que aconteceu? S me lembro de sentir um peso no peito e...
- Desmaiaste. Tenso emocional. O facto, Annie,  que no te apercebeste de como estavas fraca, porque te sentias relativamente confortvel e bem tratada. Mas a
verdade  que ficaste incapacitada de vrias maneiras e, uma delas  emocionalmente. Tal como a pele do teu corpo foi arrancada e ferida, o mesmo aconteceu com a
pele que reveste os teus sentimentos e pensamentos. Certamente que j ouviste a expresso: "Ele tem uma crosta grossa." No  verdade?
Fiz um sinal afirmativo com a cabea.
- Bem, isso no  to idiota como parece. Ns protegemos as nossas emoes e as nossas mentes de muitas maneiras, e a tua proteco foi seriamente danificada. Por
isso, ests mais facilmente susceptvel de te perturbares; ests mais vulnervel e exposta. Compreendes?
- Acho que sim.
- ptimo.
- Agora a nossa maior preocupao  evitar que a tua recuperao fsica seja dificultada e at mesmo impedida, se continuares a sofrer emocionalmente. Uma parte
de ti est presa  outra parte. Uma pessoa no pode ser fisicamente saudvel, se estiver psquica e emocionalmente doente. Foi a que me descuidei um pouco. Devia
ter-te protegido mais, pelo menos at ficares mais forte, at que a tua pele emocionalmente voltasse a ficar mais grossa.  isso que vamos ter de fazer agora.
- Que significa isso?
No pude evitar sentir medo. Julgava que estava bem emocionalmente. Quem poderia ter sobrevivido quela tragdia? Quem poderia ter prosseguido normalmente ao ter
no s perdido os pais, como tambm encontrar-se paraltica e ver a sua vida completamente virada do avesso? Apeteceu-me passar o resto do dia a chorar e a lamentar-me,
mas
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mantive as minhas lgrimas trancadas no meu corao, para que as outras pessoas no se sentissem constantemente incomodadas na minha presena.
E, no entanto, ali estava o mdico a dizer-me que eu me encontrava num estado de runa emocional. Era como se eu olhasse para o espelho e apenas me visse arruinada
e destroada. Estremeci s de pensar nisso.
- Bem, Mistress Broadfield contou-me sobre as tuas visitas e os teus telefonemas.
Ele piscou os olhos, de modo que se formaram rugas e pregas sobre a cana do nariz. Depois abanou a cabea.
- Temos de reduzir esse tipo de coisas por uns tempos, se quisermos proteger-te. Sei que, ao princpio, no vais gostar mas, pelo menos s por uns tempos, vais confiar
em ns e deixar-nos fazer o que for melhor para a tua recuperao total e para que retomes a tua vida normal o mais depressa possvel?
- No tive assim tantas visitas... Foi s o Tony, o Drake, a minha tia e o Luke. E foi s ele quem me telefonou protestei.
Ele voltou-se para Mrs. Broadfield, que abanou a cabea como se eu estivesse a balbuciar como uma louca.
- Bem, o que est em causa no  o nmero de pessoas que te visita ou te telefona, mas sim o que essas visitas e telefonemas podem fazer-te - explicou o Dr. Malisoff
com determinao. - No entanto, tens muita sorte. Tens um lugar para onde ir fazer a tua recuperao, e que vai ser to bom como qualquer hospital. Vais estar instalada
num cenrio bonito, sossegado, isolado e protegido. O teu corpo e a tua mente tero assim uma oportunidade de curar-se mais rapidamente do que se estivesses exposta
aos problemas e sentimentos das outras pessoas.
Deu umas palmadinhas na minha mo e levantou-se.
- Posso contar com a tua confiana e a tua colaborao, Annie?
- Sim - anu eu numa voz to sumida que mais parecia a voz de uma criana.
Talvez ele tivesse razo; talvez eu tivesse voltado a ser uma criana. Havia regressado a uma altura em que as coisas mais insignificantes me faziam chorar e me
enchiam o corao de sofrimento... S que naquele momento no tinha o meu pai nem a minha me a quem pedir conforto e consolo.
- ptimo.
- Quer isto dizer que agora vou ter de ficar mais tempo no hospital?
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- Veremos.
- Como est ela? - ouvi o Tony perguntar.
Surgiu de repente  entrada da porta. Levantei a cabea para poder v-lo. Tinha a cara vermelha, o seu cabelo grisalho e sedoso estava em desalinho, o seu fato assertoado,
azul-escuro, estava vincado e amarrotado. Parecia que tinha vindo a correr.
- Agora ela est bem - sossegou-o o Dr. Malisoff.
- No havia necessidade de vir a correr, Mister Tatterton. Ele desviou rapidamente o seu olhar na direco de Mrs. Broadfield, que estava ocupada com panos e toalhas.
- Graas a Deus - disse o Tony, dirigindo-se apressadamente para a cabeceira da minha cama. Ficou a olhar para mim.
- Pensei... Bem, o que foi que aconteceu?
- Oh, apenas um caso de esgotamento emocional. Eu e a Annie j falmos bastante sobre isso e ela compreende o que tem de fazer agora, no  verdade, Annie?
Acenei com a cabea afirmativamente. Voltou a dar-me umas palmadinhas na mo e preparou-se para sair do quarto.
- S um momento - chamou-o o Tony e foi atrs do mdico.
Ele e o mdico saram juntos. S conseguia ouvi-los a murmurar no corredor. Mrs. Broadfield veio at  minha cama, endireitou-me o cobertor e sacudiu-me a almofada.
O seu ar era austero e frio e os seus olhos fixos, enormes e redondos.
- Ningum vai censur-la, pois no? - perguntei, ao pensar que ela estava preocupada com isso.
- A mim? Porque iria algum censurar-me? Eu no podia proibir as tuas visitas, nem impedir os teus telefonemas.
- Eu s pensei que...
- Oh, no, Annie. Agora acho que toda a gente concorda comigo - declarou.
Um sorriso aberto e astuto de auto-satisfao desenhou-se no seu rosto, fazendo com que ela se parecesse mais com um gato arrogante, instalado num sof confortvel,
pronto para fazer uma sesta.
Alguns instantes mais tarde, o Tony voltou a entrar no meu quarto e aproximou-se da minha cama.
- Sentes-te realmente melhor agora?
- Oh, sim, Tony.
Parecia to preocupado, com os olhos azuis turvos e rugas mais profundas na sua testa.
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- Tambm eu fui descuidado. Devia ter percebido...
- Agora ningum pode andar a a culpar-se, nem a lanar culpas aos outros. J passou - afirmei eu. - Por favor, vamos esquecer isso.
- Oh, mas ns no vamos esquecer. O mdico contou-me tudo o que te disse. J concordei com ele. Vai haver novas ordens.
- Novas ordens?
Fez um sinal a Mrs. Broadfield e ela dirigiu-se logo ao meu telefone e desligou-o da parede.
- O meu telefone! - protestei.
- No h telefonemas por uns tempos, Annie. So ordens do mdico.
- Mas o Luke ficou de telefonar-me aps a cerimnia da escola para me contar como foi o seu discurso - gritei, consternada.
- Assim que sair deste quarto, Annie, vou j falar com as telefonistas e vou mand-las passar todas as tuas chamadas para o meu gabinete e, ou eu ou o Drake iremos
atend-las. Trago-te imediatamente todas as novidades e notcias.  uma promessa, e tu sabes que eu cumpro sempre as minhas promessas, no  verdade?
Desviei o olhar. O Luke ia sentir-se to mal; iria culpar-se e era to importante para ele que falssemos depois do discurso. Senti as lgrimas irromperem de novo
e o meu corao palpitante depressa se transformou num tambor colossal dentro do meu peito. Contudo, lembrei-me das palavras do Dr. Malisoff. Tinha de deixar crescer
a pele grossa ou iria atrasar a minha recuperao. Apenas por uns tempos tinha de fazer alguns sacrifcios.
- Estamos todos a tentar fazer o melhor para ti, Annie, tal como recomendado pelos melhores e mais caros mdicos e enfermeiras. Acredita em mim, por favor.
- Eu acredito, Tony. Estou apenas com pena do Luke. O Tony olhou para mim com uma profunda afeio e simpatia.
- Eu digo-lhe. vou mandar-lhe um telegrama teu agora mesmo a desejar-lhe boa sorte. No achas que isso vai anim-lo?
- Oh, sim, Tony. Que boa ideia - concordei, entusiasmada.
- E... e vou telefonar-lhe pessoalmente a contar-lhe que ests bem, mas que o mdico deu novas ordens agora e que, por uns tempos, tens de ficar sossegada e sem
ser incomodada - informou ele.
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- Diga-lhe, por favor, para ele no se sentir culpado por me ter telefonado.
- Claro que direi e se eu achar que ele no acredita em mim, digo ao mdico para telefonar-lhe tambm - ofereceu-se ele com um sorriso amvel.
-  capaz de fazer isso?
- Annie - disse ele, ficando de repente muito srio -, fao tudo o que estiver ao meu alcance para poderes voltar a andar e seres feliz de novo. Sei que isso vai
ser difcil, porque perdeste as pessoas que mais amavas na vida, mas tudo o que eu te peo  uma oportunidade de substitu-los, nem que seja s um pouco. Deixas-me
tentar?
- Sim - respondi eu, suavemente, impressionada com a intensidade do seu olhar e a determinao da sua voz.
Seria esta mesma voz que a minha me ouvira a implorar-lhe o seu perdo? Como pudera rejeit-lo?
- Obrigado. E agora vou deixar-te descansar, mas volto esta tarde - prometeu.
Inclinou-se para a frente e beijou-me na testa.
- O Drake tambm est ansioso por saber notcias tuas.
- D-lhe saudades minhas.
- Darei. Ele est a sair-se extraordinariamente bem. Vai dar um bom gestor, porque possui autoconfiana e ambio. Em alguns aspectos, faz-me lembrar um pouco eu
prprio, quando tinha a sua idade - acrescentou o Tony, com uma nota de orgulho na voz.
Mrs. Broadfield acompanhou o Tony at  porta, fechando-a devagarinho assim que ele saiu.
No podia receber mais telefonemas, nem visitas. "Mas era s por uns tempos", pensei, "e em breve estarei em Farthy." Talvez a magia que eu e o Luke acreditvamos
haver naquele lugar resultasse em mim e acelerasse a minha recuperao.
Devido ao que eu julguei serem ordens do mdico, Mrs. Broadfield transformou-se numa fortaleza. At mesmo as "senhoras cor-de-rosa" tinham de passar por ela para
chegarem at mim. Agora, a porta do meu quarto estava fechada a maior parte do tempo. Detestava toda aquela proteco. Sempre que me deixavam sozinha, chorava pelos
meus pais. Quando Mrs. Broadfield me encontrava debulhada em lgrimas, repreendia-me e avisava-me sobre o perigo de outro colapso emocional. Mas eu no podia evitar.
S conseguia ver o lindo sorriso da minha me; um sorriso que nunca mais voltaria a ver. S conseguia ouvir as gargalhadas extremamente
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calorosas do meu pai; um riso que eu nunca mais voltaria a ouvir.
Tal como havia prometido, no dia seguinte, o Tony veio ao hospital logo aps ter falado com o Luke. Escutei enquanto ele relatava a descrio do Luke sobre a cerimnia
do final do curso.
- O tempo estava magnfico. No havia uma nica nuvem no cu. Ele disse que a assistncia fez um profundo silncio quando o apresentaram e ele tomou o seu lugar
na tribuna. Quis ter a certeza de que eu te contava que, quando terminou o discurso, a assistncia aplaudiu de p. - O Tony sorriu. - Disse que a sua me foi a primeira
a dar um salto, mas toda a gente lhe seguiu o exemplo depois. E todos perguntaram por ti.
- Oh, Tony, sinto-me to triste por ele no poder telefonar-me - disse eu e soltei um gemido.
- No, no. Ele compreende perfeitamente.  um bom rapaz e s est preocupado com o teu bem-estar. Insistiu repetidas vezes para te dizer que no te preocupasses
com ele. Deves apenas recuperar o mais depressa possvel.
Ento, o rosto do Tony iluminou-se como um farol, e ele assumiu a postura de quem ia fazer uma comunicao.
- E agora, as palavras por que estavas  espera: o doutor Malisoff assinou a tua alta. vou levar-te para Farthy amanh de manh.
- Verdade?
A notcia deixou-me entusiasmada, mas ao mesmo tempo ansiosa e triste. Finalmente, ia conhecer a Manso Farthinggale, o lugar que eu havia sonhado conhecer durante
toda a minha vida, o meu castelo de conto de fadas. Agora, porm, sentia-me sob o manto da consternao. No eram os meus pais que me levavam l e eu no iria subir
aquela escadaria alta e ampla e no ia passar atravs da arcada da porta da frente. Seria transportada e entraria em Farthinggale como uma rf invlida.
- Porqu essa cara to triste? O sorriso dele desvaneceu-se.
- Estava s a pensar nos meus pais e como seria maravilhoso se fssemos a Farthinggale todos juntos.
-  verdade.
Os seus olhos adquiriram outra vez aquela expresso vtrea e distante.
- Isso teria sido maravilhoso. Seja como for - insistiu ele, regressando rapidamente  realidade -, mandei fazer
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para ti uma cadeira de rodas muito confortvel. Vai chegar esta tarde e Mistress Broadfield vai ajudar-te a te habituares a ela.
- Obrigada, Tony. Obrigada por tudo o que tem feito.
- J te disse como podes agradecer-me: melhora rapidamente.
- vou tentar.
- Ento, amanh vais comear a tua viagem de volta  felicidade e  sade.
Inclinou-se para a frente e beijou-me no rosto; porm, fez uma pausa e fechou os olhos antes de os seus lbios tocarem a minha pele. E ento inspirou profundamente.
- J vejo que ests a usar o perfume de jasmim. Bem, em Farthy, temos litros desse perfume...
Beijou-me, e os seus lbios demoraram-se mais tempo do que eu esperava. Endireitou-se e olhou para baixo, para mim, com o olhar mais intenso que eu alguma vez j
vira.
- H muita coisa que te aguarda em Farthy e muitas dessas coisas vais herd-las e apreci-las.
- Mal posso esperar para ver.
Aproximadamente uma hora depois de ele ter sado, entregaram a cadeira de rodas. O Tony mandara embrulharem-na com uma larga fita cor-de-rosa. Mrs. Broadfield arrancou-a
imediatamente e desembrulhou-a. Tinha braos e rodas cromados, que brilhavam. O assento e o encosto eram de macio couro castanho e o apoio para os braos era em
camura. At mesmo o stio para pr os ps era almofadado.
- Mister Tatterton deve t-la mandado fazer por encomenda - comentou Mrs. Broadfield. - Nunca vi nenhuma igual.
Empurrou a cadeira ao longo da cama, e eu tive a primeira sensao de como era ser levantada da cama, de manh, para me colocarem na cadeira.
Primeiro, ela elevou a cabeceira da cama at eu ficar sentada. Depois, deu a volta e destapou-me. Levantou as minhas pernas e virou-me, de modo a que as pernas ficassem
penduradas num dos lados da cama. Estavam bambas e mal faziam parte do meu corpo, apesar de eu no sentir dor, nem qualquer outra coisa.
Depois de me ter voltado, Mrs. Broadfield deu a volta, segurou-me por debaixo dos braos e ergueu-me, de modo a que eu pudesse deslizar da cama para a cadeira, cujo
brao direito estava dobrado, para permitir que eu me sentasse. Fiquei embaraada. Senti-me como uma criana. Detestava estar dependente dos outros, mas no podia
fazer nada.
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Uma vez na cadeira, ela voltou a colocar o brao direito no lugar e ajustou o assento para os ps, de maneira a que os meus ps ficassem colocados em segurana.
- Esta pequena alavanca aqui  para travar a cadeira e impedi-la de rolar. No tens de fazer muita fora para a movimentares. Faz apenas movimentos suaves e lentos
e deixa-te deslizar para a frente. Carrega nesse aro de metal quando quiseres voltar  direita, ou este outro quando quiseres virar  esquerda. Vamos, agora vais
praticar - ordenou, e eu deixei-me rolar pelo quarto.
Como eu desejei que o Drake ou o Luke tambm ali estivessem. Ansiava pelo seu apoio. O Drake diria que eu parecia uma rapariguinha num comboio de brinquedo ou no
meu primeiro triciclo. O Luke tambm iria procurar dizer algo engraado; s os olhos revelariam a sua profunda tristeza. Mrs. Broadfield observava-me, dando-me mais
conselhos, e depois decidiu que j chegava para o primeiro dia. Empurrou a cadeira at  cama e inverteu a ordem dos movimentos para voltar a colocar-me na cama.
Depois afastou a cadeira e saiu para ir tratar do meu jantar.
Fiquei ali deitada a fitar a cadeira, tomando conscincia de que ela e eu tnhamos de nos tornar boas amigas. Apesar de o Tony se ter dado ao trabalho de fazer com
que ela se parecesse com uma cadeira vulgar, no podia ocultar o seu verdadeiro objectivo. Eu era uma invlida, uma aleijada, condenada a depender dos outros e de
auxlios mecnicos. Todo o dinheiro e toda a ajuda mais cara do mundo no podiam mudar isso. S eu poderia mudar a situao; e estava decidida a faz-lo.
No dia seguinte, havia tanta excitao  minha volta que Mrs. Broadfield quase fechou a porta do meu quarto para me isolar at  hora da partida. Algumas enfermeiras
de servio, que muitas vezes tinham vindo ver-me para conversar ou pedir uma revista emprestada, apareceram para despedir-se e desejar-me boa sorte. Alguns maqueiros
e pessoal auxiliar tambm vieram ao meu quarto. E a minha "senhora cor-de-rosa" fez questo em chegar o mais cedo possvel.
Na noite anterior, o Tony havia trazido uma caixa, contendo um vestido cor de malva. Apesar de parecer novinho em folha, reparei que era um modelo que se usara h
cerca de vinte cinco ou trinta anos.
- Era da tua me - explicou ele. - Comprei-o quando ela foi para Winterhaven. Tu vestes mais ou menos o tamanho que ela vestia naquela altura. Gostas?
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-  um lindo vestido, Tony. No  exactamente o gnero de coisa que as raparigas usam hoje em dia, mas uma vez que foi da minha me...
- Ela ficava linda com ele e, alm do mais, Annie, no vais querer ser uma escrava das modas... Uma coisa bonita  intemporal. A maioria das raparigas, hoje em dia,
no percebe isso; so vtimas da moda, da publicidade, das tendncias passageiras. Estou certo de que herdaste o bom senso da tua me e aprecias um estilo que seja
eterno.
No sabia que dizer. A minha me queria que eu parecesse bonita, mas sempre me deixara escolher a minha prpria roupa. Nunca tentara impor-me os seus gostos, e o
meu pai gostava de ver-me com camisolas e jeans. s vezes chamava-me "Miss Be-Bop"1.
No entanto, achava que o Tony tinha razo. Eu gostava de arranjar-me bem, mais do que a maioria das raparigas da minha idade. Isso era algo que eu havia herdado
da minha me.
- Trouxe-o para o usares amanh, que  um dia especial: o dia em que vais deixar o hospital e voltar para Farthy.
- Voltar?
- Quero dizer, voltar comigo para Farthy - corrigiu ele, rapidamente. - Alm disso, ao usares uma coisa que era da tua me, isso vai trazer-te boa sorte.
No precisou de convencer-me. Na manh seguinte, Mrs. Broadfield ajudou-me a pr o vestido e empurrou a cadeira at ao espelho que havia por cima do lavatrio do
meu quarto. No conseguia ver da cintura para baixo, mas o que vi foi suficiente para convencer-me de que, com aquele vestido, me parecia muito com a minha me.
Mrs. Broadfield foi gentil ao ajudar-me a pentear e, assim, escovei o cabelo do modo como a minha me usava quando era muito nova, tal como eu havia visto em algumas
fotografias. Apesar de o cabelo dela ser um pouco mais escuro do que o meu, ambas tnhamos a mesma textura fina e, quando usvamos o cabelo com penteados semelhantes,
parecamos quase gmeas.
Quando o Tony chegou, o seu rosto iluminou-se ao ver-me com o vestido. Podia quase sentir os seus olhos a devorar-me. Contemplou-me durante tanto tempo sem dizer
uma palavra que comecei a sentir-me pouco  vontade.
1 Be-Bop: estilo de msica originria dos Estados Unidos.  uma das variedades da msica de jazz, que se apresenta cheia de dissonncias. (N. da T.)
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- Estou pronta, Tony - declarei, para quebrar o encanto que se tinha abatido sobre o Tony, fosse ele qual fosse
Os seus olhos despertaram de repente.
- Sim, sim, Annie, vamos.
Estava radiante, como eu ainda nunca o tinha visto. Parecia anos mais novo, talvez porque estivesse vestido com um fato leve de Vero, azul-claro, que fazia realar
o azul dos seus olhos. A palidez, que eu algumas vezes vira  volta dos seus olhos, desaparecera. As suas faces estavam rosadas e o seu cabelo parecia mais espesso
e brilhante do que nunca. O Tony seguia ao meu lado, enquanto Mrs. Broadfield ia empurrando a cadeira para fora do quarto do hospital, ao longo do corredor e at
ao elevador. Mais uma vez, as enfermeiras do piso desejaram-me boa sorte e acenaram  minha passagem.
O meu corao martelava nos meus ouvidos. O eco daquele terrvel acidente na estrada de Winnerrow tinha-se desvanecido um pouco; porm, o som da voz do meu pai,
a chamar pelo meu nome, ainda estava presente.
Olhei para trs, para o cho do hospital,  medida que as portas do elevador se fechavam. As enfermeiras e os mdicos haviam regressado aos seus afazeres. Eu era
apenas mais um nome a ser retirado dos grficos; um processo para ser arquivado. Mesmo antes de as portas se fecharem, lembrei-me de uma coisa.
- Os meus cartes! Deixmo-los na parede!
- Cartes? Ah, os teus cartes de desejos de melhoras. No te preocupes. vou mand-los levar para Farthy - prometeu o Tony.
Fiquei ainda mais triste ao pensar que me esquecera deles. O carto to engraado do Luke e o lindo carto do Drake... De repente, verifiquei que no trazia comigo
nada de Winnerrow e nada do Luke. Nem sequer estava a usar a pulseira, que era o meu amuleto.
As portas do elevador voltaram a abrir-se e eu fui conduzida at  limusina.
- Annie, este  o meu motorista, o Miles. Ele conheceu muito bem a tua me - disse o Tony, lanando um olhar ao Miles.
- Muito prazer em conhec-la, menina e estou muito satisfeito por ter sado do hospital - disse o Miles e levou os dedos ao bon.
Vi nos seus olhos e nos seus lbios um sorriso de apreo e felicidade. Fiquei com a certeza de que lhe fizera recordar a minha me.
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- Obrigada, Miles.
Abriu a porta de trs. Mrs. Broadfield encarregou-se de meter-me dentro do carro. O Tony insistiu em ajudar. Primeiro, entrou no carro e pegou-me dos braos de Mrs.
Broadfield. Apertou-me com fora de encontro ao peito, enquanto me puxava, com cuidado, para o banco do carro. Os seus lbios roaram o meu rosto e ele agarrou-me
bem junto a si. Fiquei surpreendida com a fora com que ele me apertava e julguei que no fosse mais largar-me. Mas largou, e depois mandou o Miles dobrar a cadeira
e p-la no porta-bagagens. Mrs. Broadfield veio sentar-se junto de ns, no banco traseiro; o Miles ps o carro a trabalhar e iniciou-se a minha viagem para a Manso
Farthinggale; uma viagem que eu certamente nunca mais esqueceria.

SEGUNDA PARTE

9 NO LIMIAR

O Tony e Mrs. Broadfield sentaram-se no sumptuoso banco traseiro de camura, para que eu pudesse olhar a paisagem atravs da janela. O dia estava desconcertantemente
nublado; de sbito, um raio de sol espreitou atravs das nuvens sombrias e eu vi um pedao de cu de um azul muito suave, que me fez lembrar os dias preguiosos
de Vero em Winnerrow. Talvez Deus, afinal, fosse privilegiar-me com a Sua luz.
Quando olhei para trs, reparei como era enorme o hospital de Boston, principalmente se comparado com o nosso pequeno hospital de Winnerrow. Atravessmos os portes
e percorremos parte do centro de Boston, antes de entrarmos na estrada principal que nos levaria  Manso Farthinggale. As filas de casas desapareceram e surgiram
bosques e extensos relvados verdes, onde se vislumbravam apenas umas casas aqui e ali, ao longo do caminho.
- Ests confortvel? - perguntou o Tony.
Ajustou a almofada que Mrs. Broadfield havia entalado entre as minhas costas e o assento do banco.
- Sim.
Por agora, contentava-me em olhar atravs da janela, contemplando a paisagem passar a correr,  medida que seguamos pela auto-estrada, que nos levaria  Manso
Farthinggale.
- Lembro-me do dia em que eu e a Jillian fomos buscar, pela primeira vez, a tua me ao aeroporto para lev-la para Farthy. Era como tu: parecia to jovem e inocente,
com uns olhos abertos, curiosos e vidos. Percebi que ela estava nervosa. A Jillian, a tua bisav, no tinha conscincia de que a Heaven vinha para ficar connosco
para sempre. Julgava que era apenas uma curta visita.
Riu-se.
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- A Jillian preocupava-se muito em parecer jovem e a ser considerada como tal, por isso pediu... no, ela exigiu... que a tua me lhe chamasse Jillian e nunca av.
- A minha me nunca gostou muito disso.
- Ela no era dissimulada. Era uma jovem muito sensata e bonita, mesmo quando era mais nova.
O Tony olhou em silncio atravs da janela, perdido nos seus pensamentos. Depois suspirou e despertou do seu sonho.
- Estamos quase a chegar. Olha para a direita e procura um intervalo entre as rvores. A primeira apario da Manso Farthinggale  uma panormica para recordar.
- Quantos anos tem Farthy? - perguntei.
- Foi construda por um antepassado meu em 1850, mas no deixes que a idade te engane.  um lugar grandioso, to luxuoso como qualquer manso dos nossos dias. Muitos
artistas de cinema e empresrios j me fizeram vrias ofertas.
- Era capaz de vend-la?
- Por dinheiro nenhum deste mundo.  uma parte integrante de mim, tal como... como o meu prprio nome. Quando eu era rapaz, no havia no mundo uma casa to boa como
aquela em que eu vivia. Quando tinha sete anos, mandaram-me para Eton1, porque o meu pai achava que os Ingleses percebiam mais de disciplina do que as nossas escolas
particulares. No deixei nunca de sentir muitas saudades de casa, desde o dia em que cheguei at ao dia que me fui embora. s vezes, fechava os olhos e fingia que
podia sentir o cheiro da resina, dos abetos, dos pinheiros e o aroma salgado do mar.
Fechou os olhos, como se estivesse a sentir o ar perfumado de Farthinggale ali mesmo, dentro da limusina, a qual cheirava apenas a couro.
Senti o carro abrandar e depois cortar para uma estrada particular; em seguida, ali estavam eles, assomando  nossa frente: os mticos portes de ferro forjado,
com letras desenhadas, nas quais se lia MANSO FARTHINGGALE. Duendes, fadas e gnomos espreitavam por entre as folhas de ferro.
-  quase to grande como eu e o Luke sonhmos suspirei.
- Perdo?
1 Eton: colgio fundado, em 1440, por Henrique VI.  o mais clebre estabelecimento de ensino secundrio de Inglaterra, frequentado apenas por rapazes, pertencentes
s classes sociais mais elevadas. (N. da T.)
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- Eu e o Luke costumvamos brincar a um jogo de fantasia, imaginando como seria Farthinggale.
- Ests quase a sab-lo e em primeira mo.
O caminho parecia interminvel, e finalmente uma casa enorme, feita de pedra cinzenta, surgiu de repente. Realmente parecia um castelo. O telhado vermelho elevava-se
por sobre as rvores e avistavam-se depois os torrees e pequenas pontes vermelhas... exactamente iguais ao quadro que o Luke me dera.
No entanto,  medida que olhava os terrenos de perto, via que havia muita coisa diferente do que imaginramos acerca de Farthy nos nossos sonhos e fantasias. Infelizmente,
a descrio do Drake era a mais precisa.
Os jardins estavam descuidados e cobertos de vegetao; os arbustos no estavam aparados e os canteiros de flores encontravam-se cobertos de ervas daninhas.
A casa era to empolgante, em tamanho, como eu e o Luke havamos sonhado, mas parecia que no vivia ali ningum h muitos anos. Por todo o lado, a madeira parecia
estar a descascar-se e a estalar. A casa parecia sinistra e fria; as janelas eram escuras e as cortinas encontravam-se cerradas, como as plpebras de uma velha moribunda.
Quando o sol escapava por entre as pesadas nuvens, a fachada da casa adquiria uma aparncia desoladora.
De repente, senti um arrepio e fiquei apreensiva e desesperadamente s. Os meus braos envolveram o meu corpo. Ali, naquele lugar iria precisar de todo o calor que
pudesse encontrar.
Por outro lado, o Tony sorria abertamente, com o rosto cheio de excitao. No mostrou o menor sinal de embarao pelo estado de degradao e abandono da propriedade.
Era como se nem desse por isso. Olhei para Mrs. Broadfield para ver se ela estava to admirada como eu; porm, ali estava sentada com uma cara impenetrvel.
- Farthy estende-se por vrios hectares - explicou ele com orgulho. -  uma das terras mais ricas da regio, e temos a nossa praia privativa. Quando estiveres em
condies, hei-de levar-te para conheceres os estbulos, a piscina e o balnerio, os courts de tnis, o terrao... enfim, tudo - prometeu ele. - E deves pensar em
tudo isto como sendo teu. Nunca te consideres como uma hspede nesta casa. s mais do que isso, muito mais - proferiu ele, enquanto o Miles parava o carro.
Mrs. Broadfield saiu rapidamente e deu a volta, ficando 
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espera que o Miles tirasse a cadeira de rodas do porta-bagagens. Olhei para a escadaria e para as arcadas da porta. At mesmo essas haviam perdido a sua grandiosidade.
A madeira estava lascada no lado direito, como se algum animal gigantesco a tivesse arranhado com as garras, tentando penetrar na casa. Como podia o Tony entrar
e sair por aquela porta todos os dias, sem mandar arranj-la?
- C ests tu! - exclamou o Tony. - Ests mesmo aqui! Ento, que achas?
- Eu... - gaguejei, sem saber que dizer.
Estava desiludida, muito desiludida por ver que a manso dos meus sonhos estava a cair aos bocados.
- Eu sei que a casa precisa de uns pequenos arranjos interveio o Tony -, e  o que vou mandar fazer imediatamente. Agora tenho uma razo para faz-lo.
Os seus olhos fixaram-se em mim solenemente. O meu corao bateu alvoroado no meu peito. Algo dentro de mim, qualquer coisa que eu no sabia descrever, deu o alarme.
-  um stio magnfico e, assim que o mandar arranjar, aposto em como vai ficar como era, quando o... quando o Tony era criana - disse eu, no querendo que ele
reparasse na minha agitao.
- Exactamente.  assim mesmo que eu quero que ela fique. Oh, eu sabia que irias compreender, Annie. Estou to feliz por estares aqui.
Mrs. Broadfield abriu-me a porta. Ela e o Miles trataram de preparar a cadeira. Ela esticou-se para fazer-me sair do carro.
- Oh, deixe-me ajudar - insistiu o Tony e deu a volta rapidamente.
Mrs. Broadfield recuou. O Tony esticou-se e agarrou-me pela cintura com o brao esquerdo e meteu o brao direito por debaixo das minhas coxas. Depois, com muito
cuidado, deu um passo atrs, levantando-me, e tirou-me do carro como se eu fosse... estive para dizer... uma criana. Porm, havia algo na maneira como ele me segurava
e me sorria, que me levou, em vez disso, a pensar numa noiva; uma noiva prestes a ser levada ao colo e a transpor o limiar da porta da sua nova casa.
- Mister Tatterton? - chamou o Miles, que, tal como eu, tambm estava a pensar quando o Tony iria resolver-se a sentar-me na cadeira.
- O que ? Ah, sim, vamos a isso.
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Colocou-me cuidadosamente na cadeira, e depois ele e o Miles levantaram-me, com a cadeira e tudo, transportando-me pelas escadas acima at  porta.  entrada, parado
como uma esttua, estava um homem grisalho, alto e curvado, com olhos cinzento-escuros e pele baa, cheio de rugas e pregas na testa e no pescoo.
- Este  o Curtis, o meu fiel mordomo - comunicou o Tony.
- Seja bem-vinda - saudou o Curtis, fazendo uma ligeira vnia e desviando-se, de modo a permitir que me empurrassem a cadeira para dentro daquela casa enorme.
Trouxeram-me at ao vestbulo, coberto por um tapete chins, o qual j tinha visto os seus melhores dias h muitos anos. Em alguns stios havia at buracos, atravs
dos quais surgia o cho de madeira de carvalho. Um nico lustre distribua uma fraca iluminao pelas paredes de pedra. Precisava de, pelo menos, meia dzia de lmpadas,
mas s tinha uma. Retratos de antepassados alinhavam-se nas paredes: rostos amarelados e severos de homens e mulheres de Nova Inglaterra1. Os rostos das mulheres
eram atormentados, como se os seus sorrisos lhes tivessem sido arrancados a ferros; os homens faziam grandes esforos para parecerem srios, importantes e slidos
como a rocha, sobre a qual haviam construI do a sua imponente casa.
- A seu tempo mostro-te a casa toda - prometeu o Tony -, mas por agora vamos recolher-te confortavelmente aos teus aposentos. Estou certo de que ests cansada, depois
de tudo o que passaste, e mesmo uma viagem to curta como a que acabamos de fazer pode fatigar-te.
- Estou demasiado excitada para estar cansada, Tony. No se preocupe comigo.
- Oh, mas  isso exactamente o que pretendo fazer de hoje em diante: preocupar-me contigo. s a minha maior prioridade.
Continuou a empurrar a cadeira ao longo da casa.
- O meu escritrio  j aqui; s te deixo dar uma curta vista de olhos, porque ele no  prprio para uns olhos femininos. Precisa de uma boa limpeza - confessou,
ajoelhando-se, de tal modo que os seus lbios tocaram no lbulo da minha orelha.
1 Nova Inglaterra: nome dado aos seis estados americanos, que correspondem s colnias inglesas fundadas no sculo xvII: Maine, New Hampshire, Vermont, Massachusetts,
Rhode Island e Connecticut. (N. da T.)
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Apesar de no termos entrado naquela sala, soube que ele no havia exagerado. O nico candeeiro, num dos cantos, iluminava palidamente a grande secretria de mogno
e as cadeiras de couro negro. Os livros, nas estantes de pinho escuro, parecia estarem cheios de p. Raios de sol trespassavam as cortinas das janelas do fundo,
denunciando as partculas de p como faria um holofote. O p bailava por ali, livre e arrogantemente. Quando teria sido a ltima vez que algum passara por ali um
pano de p ou um aspirador? Nem sei responder. A secretria do Tony estava amontoada de papis. Como seria ele capaz de encontrar alguma coisa?
- Agora que aqui ests, vou com certeza mandar limpar tudo. Tenho de pr tudo isto em ordem. Neste momento, nem me passaria pela cabea levar-te atravs deste santurio
em desordem, por causa do p e do lixo que, eventualmente, esta casa possa ter. Os homens - acrescentou ele, ajoelhando-se outra vez -, quando vivem ss, tm tendncia
a ignorar as coisas mais refinadas. Mas isso vai acabar... Graas a Deus vai acabar - murmurou ele e afastou-me dali.
Pelo menos, a escadaria no me desapontou. Era tal e qual como havamos sonhado... Comprida, elegante e com degraus de mrmore e um corrimo de mogno brilhante.
S olhar para ela foi um incentivo suficiente para desejar ficar boa outra vez, para que pudesse deslizar por aqueles degraus como uma princesa, tal como eu e o
Luke havamos previsto. Usaria um vestido comprido vaporoso; os meus pulsos e o meu pescoo estariam cobertos de jias e o meu cabelo estaria preso com travesses
engastados de jias. Oh, como eu desejava que o Luke estivesse ali comigo para ver.
- Sim, infelizmente a escada  um obstculo para ti agora, mas espero que no o seja por muito tempo.
Dirigimo-nos em direco a ela; quando voltei a olhar para a minha direita, vi uma grande sala de estar com um piano majestoso e havia pinturas nas paredes e no
tecto!
- Oh, espere. Que sala de estar magnfica! O que so aquelas pinturas?
Ele riu-se e levou-me at  entrada. Era uma sala enorme, com cortinas de cetim, j fora de moda e que em tempos tinham sido brancas. Agora, com o tempo, estavam
cinzentas e sujas. Uma parte da moblia, o sof de veludo, a poltrona e a cadeira estofada, estava coberta com um plstico, que tambm denunciava o p. As mesas
de mrmore, o imponente piano, as jarras... tudo tinha um ar faustoso e elegante, mas, ao mesmo tempo, decadente e desesperadamente necessitado de limpeza e polimento.
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As pinturas desmaiadas nas paredes e no tecto eram primorosas; tratava-se de representaes de contos de fadas: bosques sombrios, rasgados por raios de sol; caminhos
sinuosos que conduziam a cordilheiras obscuras, coroadas de castelos e, por cima, um cu pintado com pssaros a voar e um homem viajando num tapete mgico. Havia
outro castelo misterioso no ar, meio encoberto pelas nuvens. No entanto, toda a luz havia desaparecido daquela cena de contos de fadas; tinha sido enegrecida e entristecida
pelos anos de desleixo. Eram cenas que davam a sensao lgubre e enlutada de sonhos h muito tempo mortos. Estremeci.
- Foi a tua bisav que fez tudo isso, Annie. Agora j sabes de quem herdaste o talento para as artes. Ela foi uma conhecida ilustradora de livros para crianas.
- A srio?
- Sim - disse ele, e os seus olhos adquiriram uma expresso distante. - Na verdade, foi assim que a conheci. Um dia, quando eu tinha vinte anos, cheguei a casa,
vindo de jogar tnis e, nesta escada, depararam-se-me as pernas mais esculturais que j tinha visto. Quando essa criatura fantstica desceu a escada e lhe vi o rosto,
pareceu-me irreal. Ela tinha vindo com o decorador e sugerira essas pinturas murais. "Cenas de contos de fadas para o rei dos fabricantes de brinquedos", foi assim
que ela disse, e eu apaixonei-me completamente pela ideia. - Pestanejou. - Tambm me forneceu um motivo para que ela pudesse voltar.
- Que histria bonita e romntica - exclamei. Depois fitei aquele piano majestoso.
- Quem toca? - perguntei, intrigada.
- Perdo?
- Sabe tocar piano, Tony?
- Eu? No. H muitos anos, o meu irmo costumava tocar - afirmou.
Olhei para trs, porque a sua voz tinha enfraquecido.
- Chamava-se Troy - disse ele -, e devido  nossa diferena de idades e ao facto de os nossos pais terem morrido quando ele tinha apenas dois anos, fui para ele
mais um pai do que um irmo. Ele adorava tocar, especialmente Chopin. Morreu h muitos anos.
- A minha me adorava ouvir Chopin.
- Oh?
- E h uma casa de campo da Fbrica de Brinquedos Tatterton que ela tem... Que ela tinha - corrigi. - Toca um excerto de um nocturno de Chopin quando se levanta
o telhado.
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- A srio? Disseste uma casa de campo em miniatura?
- Sim, e tambm tem os jardins.
Voltei-me para ele, porque no me respondeu. Estava ao lado da minha cadeira, de modo a poder ver a sala comigo. De repente, os seus olhos distantes fixaram-se em
mim e o seu rosto alterou-se. Os seus olhos estreitaram-se e os seus lbios tremiam um pouco.
- Tony?
- Oh, desculpa. Estava a sonhar acordado. Estava a lembrar-me do meu irmo - acrescentou ele e voltou a sorrir.
- Tem de contar-me mais coisas sobre ele. Est bem?
- Claro.
- Estou ansiosa por que me conte tudo, Tony - disse eu, sentindo que finalmente chegara a hora de saber. - Quero saber tudo acerca da minha famlia, da minha bisav,
da minha av e do que se lembrar da minha me, do tempo em que ela vivia aqui.
- Se eu fizer isso, vais cansar-te de mim.
- No. Quero saber tudo. E, Tony - acrescentei, com a minha maior determinao nos olhos -, quero finalmente saber o que foi que fez com que a minha me deixasse
de querer falar consigo e de v-lo. Promete que me conta tudo, por muito doloroso que possa ser?
- Prometo, e j sabes que cumpro sempre as minhas promessas. Mas, por favor, por uns tempos vamos evitar os assuntos desagradveis para que possas recuperar-te totalmente.
- Eu espero, desde que me prometa.
- ptimo - disse ele alegremente -, para a frente e para cima.
Mrs. Broadfield tinha subido as escadas  nossa frente para preparar o meu quarto. O Miles aguardava pacientemente atrs de ns. O Tony fez-lhe sinal e ele veio
pegar na cadeira. Depois, caminhando com cuidado, fazendo-me sentir como uma rainha viva que regressa aos seus aposentos no palcio, transportaram-me atravs da
esplndida escadaria de mrmore.
- Eu dou tanto trabalho - lamentei, vendo o esforo no rosto de ambos, quando inicimos a subida do ltimo lano de escadas.
- Que disparate. Eu e o Miles precisamos de fazer exerccio, no  verdade, Miles?
- No  trabalho nenhum, Miss Annie. Sempre que precisar.
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Pousaram-me no cho e olhei para os compridos corredores, que pareciam estender-se por quilmetros em ambas as direces. O Tony virou-me para o lado esquerdo.
- Tenho uma ptima surpresa para ti. O quarto que vais ocupar - disse ele enquanto empurrava a cadeira ao longo do corredor - era da tua av e mais tarde foi da
tua me. E agora - disse ele, virando-me para uma porta dupla -,  teu!
Ps a sua mo sobre a minha.
- Aconteceu como eu sempre soube no fundo do meu corao.
Virei-me rapidamente para olhar para ele. Os seus olhos estavam presos nos meus e parecia enviarem mensagens silenciosas. O Tony parecia to determinado, to satisfeito
consigo mesmo que, por um momento, senti medo. s vezes tinha a sensao de que o Tony planeara toda a minha vida h muito tempo.
O meu corao agitou-se como as asas de um canrio confuso e inseguro, sem saber se deveria ou no entrar na sua gaiola dourada.  verdade que o canrio seria bem
tratado, mimado, alimentado e amado, mas tambm sabia que, assim que entrasse na gaiola, aquela portinha seria fechada e ele olharia o mundo atravs daquelas grades
douradas para sempre.
Que deveria ele fazer? Que deveria eu ter feito?
Como se tivesse pressentido os meus temores, o Tony apressou-se a continuar a empurrar a cadeira.

10 O QUARTO DA MINHA ME

Tony empurrou a minha cadeira, atravs de duas portas duplas e largas, at  primeira sala da suite de dois aposentos. A luz do Sol, que passava atravs daquelas
transparncias de marfim, era enevoada, fraca e dava quela saleta uma atmosfera desusada e irreal. Tal como a sala de estar l de baixo, aquela sala parecia mais
um museu do que um lugar para ser habitado. As paredes estavam cobertas por um tecido de seda delicada e cor de marfim, subtilmente trabalhado em desenhos orientais
em plidos tons de verde, lils e azul.
Uma criada, com um uniforme esverdeado e um avental debruado a renda, estava a retirar as coberturas de plstico dos dois pequenos sofs, os quais eram forrados
com o mesmo tecido que revestia as paredes. Ajeitou as duas almofadas de um azul suave, a condizer com o tapete chins. Depois de ter tido Mrs. Avery como nossa
criada durante tantos anos, quando pensava em criadas, achava que elas deviam ser sempre mulheres de idade e, por isso, fiquei admirada por ver uma mulher to jovem
a trabalhar em Farthy. No parecia ter mais de trinta anos. O Tony apresentou-a.
- Esta  a Millie Thomas, a tua criada pessoal.
Ela voltou-se e sorriu-me afectuosamente. Era uma mulher com um rosto modesto, olhos castanhos pouco interessantes, um queixo redondo e faces gordas. Foi isso que
eu imaginei, porque ela fora amaldioada com um corpo rechonchudo, um peito pequeno e umas ancas to largas que a faziam parecer um campanrio de igreja. Estava
condenada a ser empregada domstica, sempre a limpar e a polir a casa dos outros.
- Muito prazer em conhec-la, Miss Annie. - Fez uma pequena reverncia e virou-se para o Tony. - O quarto" de dormir j est pronto e s tenho de tirar e guardar
estas coberturas.
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- Muito bem. Obrigado, Millie. Vamos ento ver o teu quarto - disse o Tony, empurrando a minha cadeira ao longo da sala; parmos mesmo  entrada, para que eu pudesse
apreciar tudo. Podia ouvir Mrs. Broadfield a lavar as bacias na casa de banho e a arrumar as coisas.
Enquanto eu examinava o quarto devagar, tentei imaginar a primeira vez que a minha me o vira. Ela tinha vivido com o Cal e a Kitty Dennison, o casal que pagara
quinhentos dlares por ela ao seu pai.
E comecei a pensar como ela teria vivido numa cabana nos Willies, mais pobre do que um pedinte, vivendo depois com esse casal estranho, os Dennison e depois, de
repente, chegando quela manso, onde lhe haviam oferecido aquela magnfica suite de dois quartos. Devia ter parado  entrada, tal como eu agora, e olhado com olhos
encantados e atnitos para tudo o que estava defronte dela: uma bonita cama de quatro colunas, com um dossel em arco, de renda cor de marfim e seda azul, uma poltrona
de cetim azul, lustres de cristal, uma longa mesa de toilette com um espelho de parede e trs cadeiras a condizer com o sof e a poltrona da sala.
O quarto parecia estar como a minha me o devia ter deixado no dia em que partira. Havia molduras de fotografias em prata, em cima da mesa de toilette, algumas de
p, outras viradas para baixo. Tambm havia uma escova de cabelo. Um par de chinelos de veludo cor de vinho estava metido debaixo da cadeira em frente da mesa, chinelos
esses que condiziam com o roupo que o Tony me levara ao hospital. Seria um roupo novo, como eu pensara, ou t-lo-ia tirado de algum daqueles armrios?
Detectei um ligeiro odor a mofo, como se as portas e as janelas tivessem sido mantidas fechadas durante anos. Tinham colocado flores frescas por toda a parte para
animar aquele cenrio do passado.
Os armrios estavam cheios de roupa, alguma em sacos de plstico e outra que parecia ter acabado de ser pendurada. Tambm vi as dzias e dzias de pares de sapatos.
O Tony reparou que eu estava espantada a olhar para aquela roupa toda.
- Algumas dessas coisas pertenceram  tua me e outras  tua av. Elas vestiam quase a mesma medida. A tua medida. No precisas de mandar buscar nada. Tens um enorme
guarda-roupa aqui  tua espera.
- Mas, Tony, algumas dessas coisas j esto fora de moda.
135
- Vais ficar surpreendida. Reparei que muitos dos estilos antigos voltaram a estar na moda. E, j agora, porque irias desperdiar tudo isto?
Mrs. Broadfield saiu da casa de banho e dobrou o cobertor da cama.
- Era para mandar trazer para aqui uma cama vulgar de hospital - explicou o Tony -, mas achei que esta seria mais confortvel e agradvel. Temos mais almofadas de
reserva, uma mesa de hospital e uma almofada com braos almofadados para quando quiseres sentar-te e ler um pouco.
- Eu no quero ir j para a cama - protestei. - Por favor, leve-me at s janelas para eu poder ver a vista, Tony.
- Ela devia descansar um pouco - aconselhou Mrs. Broadfield. - Mister Tatterton no comprende como  cansativo deixar um hospital e fazer uma viagem destas...?
- S mais uns momentos, por favor - implorei.
- Deixe-me s mostrar-lhe a vista.
Mrs. Broadfield cruzou os braos sob o seu pesado busto e recuou,  espera. O Tony levou-me at s janelas e abriu as cortinas para trs, para que eu pudesse contemplar
os jardins. De onde eu estava, e olhando para a minha esquerda, podia ver o parque. Mesmo com a luz do final da manh, os caminhos e os canais pareciam escuros,
misteriosos e perigosos. Se olhasse para a direita, via a estrada que tinha acesso  casa e  entrada de Farthinggale.  distncia, distingui aquilo que devia ser
o cemitrio da famlia e vi o que, certamente, era o jazigo dos meus pais.
Por um momento no consegui falar. A dor e o luto apossaram-se de mim e senti-me perdida, indefesa e paralisada pela dor. Depois, afastando as recordaes, respirei
fundo e inclinei-me para a frente para poder ver com mais clareza. O Tony viu o que me tinha chamado a ateno.
- Dentro de um ou dois dias, levo-te l - sussurrou ele.
- Devia ter ido logo l.
- Temos de preocupar-nos com a tua fora emocional. So ordens mdicas - lembrou-me ele. - Mas prometo levar-te l em breve.
Deu-me uma palmadinha na mo para me sossegar e endireitou-se.
- Acho que estou cansada - confessei, e recostei-me na cadeira, fechando os olhos e respirando fundo. Duas lgrimas deslizaram das minhas plpebras e caram, como
gotas de chuva morna, escorrendo pelo meu rosto, contornando a minha boca. O Tony tirou o leno do bolso e enxugou-mas.
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Balbuciei um agradecimento, e ele virou a minha cadeira e trouxe-me at  cama. Ajudou Mrs. Broadfield a colocar-me em cima da cama.
- Agora vou vestir-lhe a camisa de noite, Mister Tatterton.
- ptimo. Voltarei daqui a umas horas para ver como esto as coisas. Descansa bastante, Annie.
Beijou-me no rosto e saiu, fechando as portas do quarto silenciosamente.
Mesmo antes de as portas se fecharem, olhei de relance para o seu rosto. Estava beatificamente feliz. Os seus olhos eram ardentes e brilhantes, como as pontas azuis
das chamas de gs. Ocupar-se de mim seria ento uma realizao to grande na sua vida? Como era irnico que a desgraa de uma pessoa desse oportunidade a outra de
reconquistar a felicidade.
Contudo, no consegui odi-lo por isso. No era por culpa sua que eu estava ali e, de qualquer maneira, ia culp-lo de qu? De fornecer-me o melhor e mais caro tratamento
mdico? De pr a sua casa e os seus criados  minha disposio para ajudarem na minha recuperao? De fazer tudo o que estava ao seu alcance para aliviar a minha
dor e a minha agonia?
Se calhar era eu que devia ter pena dele. Ali estava ele: um homem solitrio e destroado, que vivia sozinho numa manso cheia de recordaes e tudo o que podia
traz-lo de volta  vida era a minha prpria desgraa e infelicidade. Se no tivesse acontecido uma tragdia na nossa famlia, eu no estaria ali e ele no poderia
fazer tudo o que estava a fazer. Certamente que um dia ele compreenderia isso e voltaria a ficar infeliz.
Mrs. Broadfield comeou a despir-me.
- Posso faz-lo sozinha - protestei.
- Muito bem. Faze o que puderes fazer sozinha e eu ajudo-te no resto.
Ela afastou-se para ir buscar uma das minhas camisas de noite.
- Quero a azul - disse eu, recusando de propsito a que ela havia escolhido.
Sem fazer qualquer comentrio, pousou a verde e foi buscar a azul. Eu sabia que estava a ser petulante, mas no conseguia evit-lo. Sentia-me revoltada com o meu
estado.
Desapertei o vestido e tentei tir-lo por cima da cabea; porm, quando me haviam colocado em cima da cama, ficara
. 137
sentada em cima da saia do vestido. Ento, tive de deitar-me de lado e puxar o vestido desajeitadamente, gemendo e debatendo-me de uma maneira que tive a certeza
me fazia parecer pattica. Mrs. Broadfield lmitou-se a ficar  parte, observando-me,  espera de que eu a chamasse para me ajudar. Mas eu era teimosa e determinada
e continuava a virar e a torcer a parte de cima do meu corpo, at que consegui puxar o vestido acima da cintura e pass-lo por cima do peito. Por um momento, senti-me
ridcula, porque no era capaz de pux-lo acima do meu rosto. Alm disso, j estava a ficar exausta com o esforo despendido. Tive de retomar o flego e nem podia
acreditar na dor que sentia nos braos. Estava bastante mais fraca do que supunha.
Por fim, senti Mrs. Broadfield a agarrar no vestido e a completar a tarefa. Eu no disse nada. Enfiou a camisa de noite por cima da minha cabea e puxou-a para baixo,
depois de eu ter metido os braos nos buracos das mangas.
- Precisas de ir  casa de banho? - perguntou ela.
Disse que no com a cabea. Ento, pousou a minha cabea na almofada e tapou-me com o cobertor, aconchegando-o confortavelmente  volta da cama.
- Depois de fazeres a tua sesta, trago-te o almoo.
- Onde vai dormir, Mistress Broadfield?
- Mister Tatterton arranjou-me um quarto aqui em frente, mas vou passar a maior parte do tempo na tua saleta e deixo as portas do teu quarto abertas.
- Deve ser um emprego muito aborrecido - comentei, esperando com isto encoraj-la a revelar-me mais coisas sobre si e sobre os seus sentimentos.
H mais de duas semanas que passava com ela praticamente todos os momentos em que estava acordada, mas no sabia um nico pormenor sobre a sua vida.
-  o meu trabalho e gosto de faz-lo.
Nem sorriu depois de dizer isto, como o teria feito a maior parte das pessoas. Disse-o como se aquilo fosse uma coisa que deveria ser imediatamente bvia para mim.
- Eu compreendo, mas ainda assim...
- No  todos os dias que tenho de tratar de uma doente num ambiente to luxuoso - acrescentou ela. - Esta casa parece ser muito interessante e com uns jardins muito
bonitos. Estou certa de que no me aborrecerei. No te preocupes com isso. Preocupa-te em fazer tudo o que precisas para ficar boa depressa.
- J aqui esteve alguma vez? - perguntei.
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- No. No havia motivos para isso. Mister Tatterton contratou-me atravs de uma agncia.
- Mas os jardins... o edifcio...
- Que tm eles?
- No lhe parece que esto bastante degradados?
- Isso no  da minha conta - respondeu ela, rispidamente.
- No est surpreendida?
O que eu realmente quis dizer, foi "desiludida", mas receei que ela me julgasse uma pessoa muito mimada e ingrata.
- Imagino que seja precisa uma enorme despesa para manter um lugar como este, Annie. Alm do mais, como j te disse, no tenho nada com isso. A tua sade e a tua
recuperao so as minhas nicas preocupaes. Tambm devias concentrar-te principalmente nessa ideia e deixares de preocupar-te com o modo como a propriedade 
conservada. E agora vais tentar descansar, ou no?
- Sim - disse eu, sentindo-me fraca.
Ela era uma boa enfermeira e muito eficiente tambm, talvez at uma enfermeira demasiado experiente para casos como o meu; mas eu sentia a falta de algum que fosse
afectuoso e simptico comigo. Tinha saudades da minha me; poder ser capaz de correr para ela sempre que tinha um problema, mesmo que fosse apenas um pressentimento
errado. Sentia saudades de mergulhar no carinho dos seus olhos e na suavidade da sua voz; sentia saudades de ter algum que me amasse tanto ou mais do que  prpria
vida. Sentia, principalmente, falta da sua sabedoria; uma sabedoria que eu sabia ser fruto de anos de dureza e experincias difceis.
- Os tempos difceis so como grandes tempestades que maltratam uma rvore - costumava dizer-lhe a sua av dos Willies, a mesma de quem eu herdara o nome. - Se fores
esperta,  a essa rvore que te seguras.
Doa-me saber que j no tinha ningum a quem me agarrar e apoiar. O Drake j estava demasiado embrenhado no seu novo e excitante mundo de negcios. O Luke estava
na faculdade e certamente muito ocupado com os seus novos interesses e responsabilidades. Quanto ao Tony, ainda no tinha bem a certeza. Ele era to bom para mim
e... contudo, contudo, havia qualquer coisa que me ensombrava os pensamentos. Porque teria a mam sido to dura com ele?
- Volto daqui a umas horas - comunicou-me Mrs. Broadfield. - Se tiveres sede, h um copo com gua fresca aqui mesmo, na mesa-de-cabeceira. Consegues alcan-lo?
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- Sim.
- Muito bem. At j.
Apagou as luzes, correu cuidadosamente as cortinas e saiu do quarto.
Agora que eu estava sozinha, sentei-me na cama para estudar o quarto com mais ateno. Que teria sentido a minha me na primeira noite que aqui passara? Tinha vindo
viver com pessoas que nunca havia visto, pessoas estranhas para ela, muito embora fossem seus parentes. De um modo muito real, ambas tnhamos vindo aqui parar como
rfs: de certa maneira, ela tinha ficado rf de pai, pois este vendera-a e afastara-a da famlia; e eu tinha ficado rf pela prpria morte; a morte invejosa que
me roubara os meus pais.
E a minha me sabia quase to pouco dos antecedentes da famlia como eu. Devia ter estudado Farthy como um explorador; examinado tudo para descobrir quem realmente
era. S que ela no estava  merc de enfermeiras e criados, limitada apenas a camas e cadeiras de rodas. Pelo menos, ela podia explorar.
Oh, mal podia esperar para ficar outra vez boa; poder andar e estar inteira. Mal podia esperar pelo Luke para que viesse explorar comigo os nossos sonhos de infncia.
Luke... Como eu sentia saudades dele e como precisava do seu conforto. H j alguns dias que no tinha notcias dele, por causa do que havia sucedido no hospital.
Certamente que, em breve, teria notcias dele. Voltei-me para olhar para a mesa-de-cabeceira.
No tinha telefone!
No havia um telefone. Como podia ele ligar-me? Um acesso de calor e de pnico percorreu o meu peito.
- Mistress Broadfield! - chamei. - Mistress Broadfield!
Seria que ela se fora embora, pensando que eu tinha adormecido?
- Mistress Broadfieldl
Ouvi os seus passos apressados e da a um momento ela entrou.
- Que se passa? Acendeu as luzes.
- Mistress Broadfield, no h um telefone neste quarto.
- Meu Deus, ento foi por isso que gritaste desta maneira?
Levou as palmas das mos ao peito.
- Diga ao Tony para vir aqui, por favor.
140
- Ora, Annie, disse-te para dormires um pouco e tu disseste...
- No vou dormir sem falar com o Tony - insisti.
Cruzei os braos debaixo do peito, como a tia Fanny tantas vezes fazia quando teimava em que as coisas fossem feitas como ela queria.
- Se insistires em agir assim, vais retardar o teu restabelecimento durante vrios meses. Talvez at nunca venhas a recuperar.
- No quero saber. Quero falar com o Tony.
- Muito bem.
Girou nos calcanhares e saiu do quarto. Muito pouco tempo depois, ouvi o Tony aproximar-se; fiz um esforo para sentar-me.
- Que se passa, Annie? - perguntou ele, com uma expresso alarmada nos olhos.
- Tony, no h um telefone neste quarto. No posso telefonar a ningum e tambm ningum pode telefonar-me. No hospital, estava tudo muito certo. Compreendi tudo,
porque passei por um mau bocado, mas agora vou ficar aqui por uns tempos; preciso de ter o meu prprio telefone.
Os ombros e o rosto do Tony aliviaram-se. Lanou um rpido olhar a Mistress Broadfield, a qual estava de p ao seu lado, numa postura rgida de aborrecimento.
- Oh, claro que vais ter um, mas a seu tempo. Falei com o mdico sobre isso, mesmo antes de te trazermos para aqui. Ele ordenou que o teu repouso dure mais um tempo,
e depois deixaremos que te inteires aos poucos de tudo. Na verdade, ele vem c pessoalmente depois de amanh para nos dar um parecer sobre a tua recuperao e informar-nos
de como havemos de proceder.
- Mas tenho a certeza de que falar com pessoas como o Luke ou o Drake, ou alguns dos meus melhores amigos...
- O Drake vem visitar-te hoje e, se o Luke quiser vir mais tarde, pode vir. Estou apenas a seguir as ordens do mdico, Annie. Se o no fizesse e te acontecesse alguma
coisa, sentiria que a culpa era inteiramente minha.
Olhei para ele, estarrecida. Tinha as mos estendidas, quase como se estivesse a suplicar-me para fazer o que fosse melhor para mim. Senti-me envergonhada e desviei
os meus olhos na direco das janelas.
- Desculpe. Eu s... Estou num lugar desconhecido e...
- Oh, por favor, no consideres este lugar como desconhecido. Esta tambm  a casa dos teus antepassados.
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- Dos meus antepassados?
- A tua bisav viveu aqui, assim como a tua av e a tua me. Muito em breve, vais sentir-te em casa. Prometo.
- Desculpe - repeti e voltei a enterrar a cabea na almofada. - Agora vou fazer a minha sesta. Podem apagar as luzes.
Ele aproximou-se da minha cama e aconchegou o cobertor.
- Dorme bem.
Depois de ele sair, olhei na direco da ombreira da porta e vi a silhueta de Mrs. Broadfield desenhada pela luz do corredor. Parecia uma sentinela de guarda. Supus
que ela estava  espera de que eu fizesse o que me haviam mandado.
Estava cansada, derrotada e perdida e, portanto, fechei os olhos e pensei na minha me e na primeira vez que ela teria fechado os olhos e pousado a cabea na almofada
daquela cama. Teria ela tambm pensado na sua me dentro daquele quarto e da sua vida em Farthy? Haveria tantos mistrios no passado da sua me como eu sentia que
havia no meu? Era como se eu tivesse herdado os receios da minha av e os da mam.
Naturalmente que a minha av Leigh devia ter-se sentido deslocada e sozinha quando viera para Farthy pela primeira vez, trazida pela mo da sua me, a minha bisav
Jillian. Nesse tempo, tudo devia ter parecido mais novo e menos degradado ali, em Farthy. As cores eram mais vivas, os tapetes e as cortinas limpos e novos, os corredores
lustrosos e as janelas lavadas. Havia ali muitos criados, jardineiros, governantas, mas ainda assim, pelo que ouvira dizer, a minha av Leigh fora arrancada s suas
razes e trazida pelo pai para viver uma nova vida ali em Farhtinggale com o seu padrasto, Tony Tatterton. Tambm ela tinha adormecido ao som do mar e sentido a
brisa do mar que se infiltrava atravs das janelas, atravessando as persianas.
E depois, muitos anos mais tarde, a sua filha, a minha me, tambm viera ali parar, dormindo ao som das mesmas coisas e sentindo-se, talvez, igualmente sozinha.
com o tempo, aquela casa enorme tornara-se para ambas, o seu lar, tal como podia acontecer comigo tambm. De uma certa maneira, Tony Tatterton tinha razo. No devia
sentir-me uma estranha em Farthy. Grande parte do meu passado residia aqui. No entanto, todas as perguntas sem resposta, os mistrios sinuosos, as sombras escuras,
que me rodeavam naquela casa, se tornavam to confusos...
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Talvez que com o passar dos dias, cada sombra e cada mistrio desaparecesse, at que Farthy inundasse outra vez de luz o caminho que outrora a minha av Leigh e
a minha me haviam percorrido.
" engraado", pensei, "mas  como se estivesse no meio de um labirinto, tentando encontrar o caminho de regresso."
Mas, de regresso para onde?
De regresso para qu?
Adormeci a contar perguntas, em vez de carneiros.

11 DRAKE

Acordei com o som de risos no corredor e reconheci a voz do Drake. Ele nunca saberia como eu me sentira aliviada com aquele som: era algo familiar, algo que pertencia
 minha casa. O riso parou e ento ouvi passos. Pouco depois, apareceu, trazendo-me o almoo numa bandeja de prata macia. Acendeu as luzes e entrou no quarto.
- Oh, Drake!
- Annie, vim de Boston de propsito para servir-te o almoo.
Riu-se e trouxe a bandeja at  mesa que me chegava  cama. Depois, beijou-me e abraou-me com fora por alguns segundos. As lgrimas comearam a aflorar aos meus
olhos, mas eram lgrimas de felicidade, e as lgrimas de felicidade no queimavam; apenas turvavam a minha vista e faziam-me fungar.
- Oh, Drake, estou to feliz por ver-te.
- Ests bem, no ests? - perguntou ele, recuando e mirando-me com preocupao.
Achei que o Drake era um homem muito atraente, com a sua pele bronzeada e olhos cor de bano. Como ele parecia maduro e adulto, como se eu tivesse dormido anos,
como uma criana, tal como o Rip Van Winkle1, e acordasse, percebendo que tudo tinha mudado durante a noite. Seria que o Luke tambm pareceria to adulto e afastado
de mim?
O Drake usava um fato assertoado de seda, azul-claro, idntico aos fatos que o Tony usava. O seu cabelo estava
1 Rip Van Winkle: heri de um conto de Washington Irving, escritor norte-americano, escrito em 1820. Essa personagem dormiu durante vinte anos. (N. da T.)
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mais curto e penteado liso, para trs, como o do Tony. "Se o tivesse encontrado na rua", pensei, "talvez no o tivesse reconhecido."
- Estou bem, Drake. Tu pareces um... um banqueiro. Ele riu-se.
- Apenas um homem de negcios. Temos de adquirir estilo, Annie. As pessoas respeitam isso.  uma coisa que aprendemos depressa. Ento, conta-me tudo sobre a tua
chegada aqui, mas enquanto comes.
Empurrou a mesa por cima da cama e ajudou-me a ajustar as almofadas de modo a poder sentar-me. Lancei um olhar  porta e ele reparou.
- Oh, dei uma folga  tua enfermeira e disse-lhe que te dava o almoo.
- Onde est o Tony?
- Est no seu gabinete, a tentar arrumar os papis espalhados em cima da secretria. Diz ele que tem de lhe dar um aspecto apresentvel para quando um dia o fores
visitar e o fores ver trabalhar. Diz que  uma coisa que a tua av costumava fazer.
- Drake - murmurei, fazendo uma pausa entre duas colheres de sopa quente -,  exactamente como descreveste na tua carta e no teu telefonema... Tudo parece como se
no tivesse sido cuidado durante anos.
- E no foi.
- Mas, Drake, o Tony no parece ver as coisas dessa maneira. No reparaste?
Durante um momento, ele desviou os olhos e pensou.
- Ele no consegue ver a casa como ela est agora. Suponho que  demasiado doloroso para ele. Lembra-se de como isto era... uma propriedade magnfica.
- Mas...
- D-lhe tempo, Annie. Ele  como um homem que tivesse estado em coma durante muitos anos e s agora comeasse a acordar.
- Ele  simptico, muito atencioso e tudo o mais... Mas s vezes mete-me medo.
Pronto, dissera-o em voz alta.
- Oh, porqu, Annie?  um homem de idade inofensivo, que perdeu tudo o que realmente teve importncia na sua vida: a famlia. Acima de tudo deves ter pena dele.
- E tenho. S que...
- O qu? Tens tudo o que queres. Os mdicos vm ver-te e no o contrrio. O Tony disse aos mdicos que receitassem
145
qualquer tratamento, encomendassem qualquer mquina ou artifcio teraputico, sem olharem a despesas. s tratada por uma enfermeira especializada e tens um exrcito
de criados para te servirem. O Tony at contratou uma criada suplementar e mais dois jardineiros. Est a fazer tudo por ti.
- Eu sei.
Contemplei as fotografias nas molduras de prata.
- Acho que tenho muitas saudades da mam e do pap.
- Oh,  claro. - Sentou-se e tomou a minha mo entre as suas. - Pobre Annie, tambm eu sinto a falta deles. s vezes, quando tenho um intervalo durante uma ou duas
horas, acho que talvez fosse melhor telefonar  Heaven... e depois lembro-me de tudo o que aconteceu.
- No paro de desejar que tudo isto seja um sonho, Drake; vou acordar e tu vens da faculdade para ver-me.
Ele abanou a cabea. Depois inclinou-se para a frente e beijou-me carinhosamente no rosto, to prximo dos meus lbios que os cantos das nossas bocas se tocaram.
Pareceu ficar embaraado. Percebi que ele usava uma gua-de-colnia diferente, um perfume que eu reconheci como sendo o mesmo que o Tony usava.
- Ento - disse ele rapidamente -, se no comeres, vo culpar-me e nunca mais me deixam trazer-te outra refeio.
Tomei mais umas colheres de sopa e comi um pouco da sanduche.
- Tens visto ou falado com o Luke? Soubeste do maravilhoso discurso que ele fez, no soubeste? - perguntei.
- Sim. O Mark Downing contou-me. Ele estava em Boston e foi visitar-me. Disse que todos ficaram chocados quando o Luke se referiu ao Logan como seu pai, muito embora
todos soubessem da verdade.
- Estou to orgulhosa dele. Tu no ests? Ele acenou afirmativamente com a cabea.
- Mas, Drake, no tornaste a falar com ele depois disso? Telefonaste-lhe para lhe dar os parabns, no telefonaste?
- Muito sinceramente, Annie, eu no tinha muita disposio para dar os parabns fosse a quem fosse. Tenho-me mantido to ocupado quanto posso, para no ter de pensar
nas coisas.
Acenei a cabea suavemente, compreendendo o que ele dizia sentir.
- Portanto, no tens falado mesmo com ele?
- Falei com ele de passagem, ontem, depois de ele ter chegado a Harvard.
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- Ele chegou a Harvard! Oh, ento est prximo e pode vir visitar-me ou telefonar ao Tony. Quem sabe se no telefonou j...
Os olhos do Drake escureceram e as linhas  volta da sua boca contraram-se.
- Tens de dar-lhe tempo para que se instale. A chegada a uma universidade  sempre muito difcil. H montanhas de coisas para fazer: impressos para preencher, providncias
a tomar. Ele estava to entusiasmado com tudo aquilo e tem feito muitos amigos no seu edifcio. Os edifcios agora so mistos, no sei se sabes. Alguns dos seus
novos amigos vo ser raparigas. Tens de preparar-te para o dia em que ele arranjar uma namorada a srio.
O meu corao enfraqueceu. Uma namorada a srio? Algum que tomasse o meu lugar como a pessoa a quem ele confiava os seus pensamentos mais ntimos e secretos; al
gum que partilhasse com ele os seus sonhos... E esse algum no seria eu! No fundo do meu corao, sabia que isso iria acontecer um dia, mas no daria ouvidos s
vozes que me murmuravam avisos, e agora o Drake estava a dizer-me, na sua" maneira indiferente, que o Luke iria apaixonar-se por outra pessoa e viveria feliz para
sempre com outra pessoa. E ainda mais: talvez o meu estado acelerasse esse processo, j que eu no estaria l com ele para apoi-lo. Estaria presa ali, aleijada
e sozinha.
Desviei o olhar rapidamente, de modo a que o Drake no pudesse ler-me os pensamentos.
- Oh, mas claro que assim que ele tiver um tempo livre, tenho a certeza...
- Sabes uma coisa - disse o Drake. Mostrou-se to ansioso em mudar de assunto que me fez ficar nervosa. - Agora que j no vais poder viajar para a Europa, tambm
devias pensar na tua educao. Acho que devamos arranjar um professor particular para poderes preparar-te para um ou dois exames de admisso, enquanto ests a recuperar.
E isso, desde que os mdicos estejam de acordo, claro. - Olhou  sua volta. - De outro modo, s capaz de aborrecer-te terrivelmente.
-  uma boa ideia.
- vou falar com o Tony sobre isso.
- Porque no tratas tu do assunto, Drake? Fala com algumas pessoas em Harvard. Faze com que me arranjem um professor de uma das disciplinas que o Luke est a frequentar.
Assim, quando ele vier ver-me, podemos estudar juntos.
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Achei que tambm poderia ser menos aborrecido para o Luke quando ele viesse ali.
- vou ver o que posso fazer. No deves subestimar o poder e a influncia de um homem como o Tony.  verdade que ele se manteve afastado das coisas por uns tempos,
permitindo que os gerentes tomassem conta do seu imprio de brinquedos, mas onde quer que eu v em Boston - acrescentou ele, sorrindo e endireitando as costas e
os ombros com orgulho -, toda a gente j ouviu falar nos Tatterton. S o facto de mencionar esse nome faz abrir portas e pr as pessoas numa roda-viva, tratando-me
como se fosse eu prprio o milionrio.
O Drake continuou, como um carro de corrida descendo uma colina:
- A sua sabedoria  produto da experincia e no apenas dos livros. Ele sabe quem consultar; como lidar com as pessoas; o que dizer, especialmente quando se trata
de negcios. - O Drake riu-se. - Aposto em como ele  um ptimo jogador de pquer.
- Isso  maravilhoso, Drake. Ainda bem que ests satisfeito com ele. Mas, dize-me uma coisa - pedi eu, pousando o resto da sanduche -, ele alguma vez fala da minha
me e das coisas que aconteceram entre eles?
- Oh, no. E nem eu pergunto. Se o nome da Heaven vem  baila, o seu rosto ilumina-se e s fala de coisas alegres e maravilhosas. Talvez seja melhor deixarmos as
coisas como esto. Para qu ir buscar mais infelicidade? Pensa desta maneira, Annie - acrescentou ele rapidamente. - Que benefcios pode isso trazer e a quem?
- Neste momento, no estou interessada em nada disso, Drake. Mas no posso ficar nesta casa sem saber de nada. s vezes - disse eu, baixando os olhos -, sinto que
tra a mam ao deixar que o Tony faa tudo isto por mim.
- Oh, Annie, que disparate. Se h coisa que a Heaven mais quisesse, essa coisa seria que tu tivesses o melhor tratamento possvel para recuperares. Nunca se oporia
a nada que fosse bom para ti. Ela amava-te muito.
- Espero que tenhas razo, Drake.
- Eu sei que tenho. Achas que se fosse o contrrio... Se fosse o Tony a precisar da ajuda da Heaven, ela lhe viraria as costas?
- No sei. H muito tempo que ela o havia riscado da sua vida. Preciso de saber porqu. No vs que a mam...
- Ora muito bem... - A voz do Tony ribombou como um trovo. - Como vai a nossa doente?
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Entrou to de repente que perguntei a mim prpria se no teria estado na sala ao lado, a ouvir a nossa conversa. O Drake no pareceu ficar preocupado. Levantou-se
imediatamente e sorriu, radiante. Era evidente o quanto ele verdadeiramente admirava e respeitava o Tony.
- Ela est muito bem, Tony - respondeu o Drake, muito depressa. - No podia haver melhor lugar para ela recuperar.
- Que maravilha. Dormiste bem, Annie?
- Sim. Obrigada, Tony.
- Por favor, no me agradeas. Sou eu que devo agradecer-te. No sabes o que a tua presena aqui em Farthy tem feito, mesmo sendo h to pouco tempo. Esta casa adquiriu
uma nova alegria. Tudo parece vivo e animado outra vez. At os meus criados mais antigos... O Curtis, o mordomo, o Ryse Williams, o cozinheiro, andam por a como
se fossem vrios anos mais novos, s por saberem da tua presena nesta casa.
- Gostaria de conhecer o Rye Whiskey - disse eu, utilizando a alcunha pela qual conhecia o cozinheiro.
Lembro-me de que era uma da poucas pessoas em Farthy sobre quem a mam gostava de falar.
- vou mand-lo c acima, assim que puder.
- E gostaria de explorar a casa. Talvez o Drake queira empurrar a minha cadeira por a.
- Oh, gostaria muito, Annie, mas tenho de voltar para Boston antes que a bolsa feche.
- De qualquer maneira, hoje ainda  um pouco cedo para exploraes - disse o Tony. - Espera um ou dois dias, para ficares mais forte, e depois eu mesmo levo-te a
dar uma volta por a e conto-te toda a histria e o romance associados a cada recanto e esconderijo.
- Mas estou cansada de estar s sentada na cama - resmunguei.
- Mistress Broadfield j planeou tudo por ti, Annie. Tens de fazer fisioterapia, tomar um banho quente e...
Amuei e fiz beicinho.
- Se o Tony prometeu que vai dar uma volta contigo,  porque vai - murmurou o Drake.
Mantive a cabea baixa, mas ergui os olhos para o Drake. Vi um sorriso desenhar-se nos seus lbios, da mesma maneira como eu o apanhava tantas vezes a olhar para
mim em Winnerrow. Aquele olhar familiar aqueceu-me o corao.
- Agora estou a portar-me mal. Toda a gente a tentar ajudar-me e eu a comportar-me como uma fedelha mimada.
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- Mas uma fedelha linda - disse o Tony. - Por isso, ests perdoada.
- Vs como ele  um homem encantador? - insistiu o Drake.
- Estou a ver. Oh, Tony, o Luke j telefonou? O Drake disse-me que ele est em Harvard desde ontem.
- Ainda no. Assim que ele telefonar, dou-lhe o teu recado.
- Diga-lhe s para ele vir quando puder.
- Perfeitamente.
O Tony bateu as palmas para pr fim quela conversa.
- Bem,  melhor deixarmos Mistress Broadfield comear. No quero atrapalhar a tua recuperao.
- Desculpe-me, Mister Tatterton - disse Millie Thomas, a criada. Encontrava-se timidamente  entrada da porta. - Mas eu s vim ver se j posso levar a bandeja de
Miss Annie.
- Eu j acabei de comer.
Ela entrou a correr para ir busc-la.
- Obrigada, Millie. - Ela sorriu. - Sempre que estiveres livre, vem visitar-me.
- Oh!
O seu sobrolho franziu-se ligeiramente, como se uma patroa calma e simptica a deixasse pouco  vontade; porm, os nossos criados na Casa Hasbrouck sempre haviam
sido tratados como se fossem da famlia. A Millie olhou logo para o Tony.
- Sim, Miss Annie.
- E, por favor, Millie, chama-me apenas Annie.
Ela apressou-se a sair do quarto com passos silenciosos.
- Espero que esta se adapte ao trabalho - murmurou o Tony depois de a Millie sair. - Arranjei-a  pressa, atravs de uma agncia.
- Parece muito simptica, Tony.
-  o que veremos.
-  melhor eu ir andando - disse o Drake. - Volto daqui a um ou dois dias, Annie. Queres que te traga alguma coisa?
- H umas coisas em Winnerrow que eu quero, Drake. Quando vais at l?
- To depressa no vou, Annie, mas acho que podamos mandar vir o que tu quiseres.
Procurou o olhar do Tony,  procura de uma confirmao.
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- Mas...  claro.
- Posso at telefonar  tia Fanny. De certeza que ela vai querer vir at c para me ver.
- Tenho a certeza de que o Drake  capaz de conseguir arranjar um dia para estar fora - decidiu o Tony. -  um assunto suficientemente importante.
- Faze uma lista do que quiseres, Annie, e eu trago-tas quando voltar.
- Obrigada, Drake.
- At breve.
Deu-me um pequeno belisco no rosto e saiu do quarto.
O Tony ficou ali a olhar para mim. De repente, a expresso do seu olhar alterou-se. Os seus olhos azuis ficaram mais brilhantes e a sua cara iluminou-se, como se
tivesse acabado de encontrar uma coisa que julgava ter perdido. Havia uma expresso estranha nos seus olhos quando se virou na direco das janelas.
- Bem, agora podemos abrir estas cortinas. O cu limpou e est um dia magnfico.
Abriu as cortinas de uma s vez, e olhou para baixo. -As flores esto a desabrochar em toda a parte. Amanh vou mandar encher a piscina. Sei como gostas de nadar.
- Nadar?
Interroguei-me sobre quem lhe teria dito que eu gostava de nadar e como poderia ele encher a piscina no dia seguinte. Parecia precisar de ser arranjada e reparada
primeiro.
- Tambm tenho de mandar tratar do Scuttles. Sei que vais querer montar aquele pnei.
- Scuttles? - Que nome engraado para um cavalo. Acha mesmo que os mdicos vo autorizar-me a montar, Tony?
Ele no respondeu e continuou a olhar para baixo.
- Tony?
Deu uma volta, como se s agora tivesse dado conta de que estava ali.
- Oh, estava a sonhar acordado. bom, vou dizer a Mistress Broadfield que pode comear - disse ele.
Bateu as palmas e encaminhou-se para fora do quarto.
Pouco depois, Mistress Broadfield entrou e obrigou-me a fazer alguns exerccios teraputicos e deu-me uma massagem nas pernas. Embora ela me levantasse as pernas
e as movesse de um lado para o outro, no senti nada: nem dor, nem sofrimento, tal como o Dr. Malisoff me havia avisado. Senti apenas uma ligeira sensao nos dedos
dos ps, mas talvez at mesmo isso fosse fruto da minha imaginao.
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- Vejo os seus dedos tocarem-me, mas no os sinto, Mistress Broadfield.
Ela acenou com a cabea e continuou o seu trabalho, como se eu fosse um pedao de barro que ela estivesse a moldar.
Depois disso, ajudou-me a sentar na cadeira de rodas, para poder praticar um pouco sozinha a andar nela, enquanto me preparava um banho quente. Quando foi para a
casa de banho, dirigi a cadeira na direco da janela e olhei para baixo, tal como o Tony havia feito.
Flores a desabrochar? Os canteiros estavam cobertos de ervas daninhas e relva. Estava tudo com um aspecto desolador e no cuidado como ele afirmara. Talvez estivesse
a referir-se ao facto de tencionar mandar fazer alguma coisa agora, mas devia ter estado realmente a sonhar. Scuttles... Montar a cavalo. Abanei a cabea. Era estranho,
como se o Tony vivesse numa outra poca e me tomasse por outra pessoa.
- Agora deixa-me arranjar-te para o teu banho, Annie pediu Mistress Broadfield, surgindo por detrs de mim. Estava de tal maneira mergulhada nos meus pensamentos,
que o som da sua voz me fez dar um salto. Pousou a mo to suavemente no meu ombro que depressa me descontra. Ela sabia ser meiga quando queria.
- Ests bem?
- Sim, sim, s estava a pensar. Mistress Broadfield, acha que posso montar a cavalo nos tempos mais prximos?
- Montar a cavalo...?
Ela riu-se. Acho que foi a primeira vez que a vi rir.
- Eu s desejo que dentro em breve possas sentar-te e levantar-te dessa cadeira. Quem foi que te ps essa ideia na cabea?
Olhei para ela.
- Ningum - respondi.
- Bem, fico satisfeita por pensares de uma maneira positiva. Isso ajuda.
Empurrou a minha cadeira at  casa de banho e ajudou-me a tirar a camisa de noite. Depois, levou-me at  banheira, cheia de gua quente. No hospital, tanto os
mdicos como as enfermeiras e Mrs. Broadfield esquadrinhavam e exploravam todo o meu corpo e eu nem me importava com isso. O pudor parecera-me ridculo e despropositado.
Que interessava quem me via nua? Eu estava mais morta do que viva.
Porm, naquele momento, com mais foras, mais consciente
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de mim, corei. A ltima vez que me tinham ajudado a tomar banho ainda era uma criana. Mrs. Broadfield segurou-me por baixo dos braos e iou-me para dentro da banheira.
- Est muito quente.
- Tem de ser assim, Annie.
Quando me instalei em segurana, afrouxou um pouco os braos, mas manteve as mos nos meus ombros. Debaixo daquela gua quente e borbulhante, as minhas pernas pareciam
feitas de chumbo. Ainda no conseguia senti-las. Aqueles dedos fortes, musculosos,  fora de passar horas a fio a fazer massagens e a levantar doentes, esfregaram
os meus ombros delgados e a nuca.
- Descontrai-te - disse ela. - Fecha os olhos e descontrai-te.
Fiz o que ela me mandou e recostei-me. O vapor encheu-me os pulmes e fez tal nevoeiro que eu e Mrs. Broadfield parecamos estar a milhas de distncia. Deixei-me
levar at a uma terra de fantasia, onde se tocava uma msica suave. Senti-me inebriada com a minha falta de energia. Ouvi-a mergulhar uma esponja na gua borbulhante
e depois senti-a lev-la aos meus braos.
- Eu posso fazer isso.
- Descontrai-te. Foi para isto que Mister Tatterton me contratou.
Era difcil descontrair-me enquanto outra pessoa esfregava o meu corpo. Ela movimentava devagar a esponja macia sobre os meus braos e debaixo deles. Lavou-me o
pescoo e os ombros e fez-me inclinar para a frente, de modo a poder lavar-me parte das costas.
- No te sabe bem, Annie?
Limitei-me a acenar com a cabea, mantendo os olhos fechados. Era mais fcil para mim assim. Sempre que os abria, via Mrs. Broadfield dobrada sobre a banheira, com
o rosto contrado e enrgico, como um tcnico qualificado preocupado com cada pormenor da sua obra.
- Tens um corpo jovem, bonito e firme, Annie. Forte, tambm. Vais recuperar, se colaborares e seguires o tratamento  risca.
O vapor quente fazia formar gotas de gua, alinhadas na sua testa e em todo o seu rosto balofo. Pareciam pequenas prolas. O seu rosto estava afogueado, quase to
vermelho como o de uma pessoa que tivesse adormecido ao sol.
Mergulhou os braos na gua o mais fundo que pde para
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alcanar as minhas pernas e coxas, lavando-as e dando-lhes massagens. Finalmente recostou-se, parecendo estar com dificuldades em respirar. Reparou como eu olhei
para ela, com um ar zombeteiro, e rapidamente se ps de p para limpar os braos.
- Deixa-te ficar a molhada durante mais um pouco ordenou e foi at ao quarto.
Fiz tudo o que pude para ajud-la a tirar-me da banheira. Enxuguei a parte de cima do corpo, enquanto ela limpava os meus ps e as pernas. Depois, ajudou-me a vestir
outra camisa de noite e levou-me de novo para a cama. Quis ficar na cadeira de rodas, embora o banho quente me tivesse fatigado
- S um bocadinho - disse ela. - Eu volto j para te ajudar a meter na cama, para poderes fazer uma curta sesta antes do jantar..,.
Esperei que ela sasse do quarto e dirigi-me a janela. O Sol j estava a pr-se muito abaixo do nvel da manso, de modo que o edifcio projectava uma enorme sombra
escura no cho e no relvado. Contudo, ainda parecia estar quente. Tinha-me aproximado da janela, porque queria ver de novo o cemitrio da famlia Tatterton. Ainda
l no tinha ido, mas s de ver o jazigo dos meus pais, achava que me fazia sentir mais prxima deles.
De repente, vi aparecer um homem, como que surgido do nada. Devia ter estado escondido na sombra. Encostei-me  janela o mais que pude e olhei aquele vulto, que
parecia to pequeno devido  distncia. Ao princpio, pensei que podia ser o Luke, mas,  medida que os meus olhos se fixavam mais atentamente, percebi que se tratava
de um homem mais alto e mais magro.
Aproximou-se do jazigo e contemplou-o durante um tempo infinito. Depois, deixou-se cair de joelhos. Pude v-lo baixar a cabea e, apesar de eu estar demasiado longe
para ter a certeza, at julguei ver o seu corpo estremecer com os soluos.,.
Quem seria ele? No era o Tony, embora houvesse algo na constituio do seu corpo bastante semelhante.
Seria um dos empregados que ainda se lembrava bem da minha me?
Pisquei os olhos, pois estes estavam a ficar cansados e a comear a chorar, devido a estar a fixar a vista to intensamente. Depois, recostei-me e limpei-os com
as costas da mo.
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Quando me inclinei para a frente outra vez, para olhar para o cemitrio e para o jazigo, o homem havia desaparecido. Foi como se ele se tivesse desvanecido no ar,
sumindo como uma bolha.
Recostei-me, porque o que me ocorreu fez-me estremecer e gelar.
Teria imaginado tudo aquilo?
Frustrada e exausta, afastei-me da janela.

12 FANTASMAS DENTRO DE CASA

O Tony foi dar comigo a dormir na cadeira de rodas, ao p da janela. Acordei ao senti-lo empurrar a cadeira at  cama.
- Oh, no queria acordar-te. Estavas to bonita, como uma princesa adormecida. Eu estava prestes a ser o prncipe e a beijar-te para despertares - disse ele, afectuosamente
e com os olhos brilhantes.
- No posso crer que tenha adormecido to rapidamente. Que horas so?
Nuvens escuras e pesadas pairavam no cu, tapando o sol, tornando-se assim difcil estabelecer as horas.
- No estejas preocupada. Estou convencido de que o teu cansao se deve  terapia e ao banho quente que Mistress Broadfield te deu - explicou ele, num tom paternal
e reconfortante. - Tudo isto vai extenuar-te ao princpio. Tens de lembrar-te de que ainda no ests suficientemente forte.  por isso que os mdicos esto to empenhados
em que tu tenhas um perodo de descanso pacfico e tranquilo, para tentares recuperar. Pelo menos, agora de incio.
Compreendi, pela maneira como ele apertava os lbios, que aquilo era um sinal para me lembrar, e era tambm um leve castigo pelo acesso de fria que tivera quando
descobrira que no tinha telefone.
- Eu sei. Mas s vezes no consigo deixar de ficar muito impaciente e frustrada - disse eu, como desculpa.
O seu rosto iluminou-se instantaneamente.
- Claro que tens de sentir-te assim. E por que no te sentirias? Toda a gente compreende. Tens de recuperar devagar, em pequenas doses, melhorando um pouco todos
os dias. Mistress Broadfield diz que, quando os doentes tentam apressar as coisas, atrasam o seu restabelecimento.
- O mais estranho  que no me sinto assim to fraca -
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exclamei. -  como se eu conseguisse voltar a andar imediatamente, se me forassem a isso. Pelo menos,  o que sinto de vez em quando.
Ele abanou a cabea, em sinal de compreenso.
- Os teus pressentimentos enganam-te. O doutor Malisoff disse-me que isso podia acontecer.  de se esperar. A mente no quer enfrentar os limites do corpo.
Quis provar-lhe que tanto ele como Mrs. Broadfield e os mdicos estavam enganados. Por isso, no lhe pedi ajuda para sair da cadeira e ir para a cama. As minhas
mos vacilavam nos braos da cadeira enquanto eu tentava erguer-me. Mas mesmo suportando todo o meu peso apenas na parte de cima do corpo, fui incapaz de erguer-me
muito alto e ca novamente na cadeira, com o corao a bater violentamente com o esforo. Senti uma dor aguda mesmo no meio da testa e gemi.
-  como eu disse. Parece que podes fazer tudo o que estavas habituada a fazer, mas no podes.  a maneira que a mente encontra para tentar negar o que aconteceu.
- Pareceu ausente por um momento. - E, s vezes, at as pessoas mais inteligentes, com as mentes mais fortes, se recusam a acreditar que os seus corpos... que o
que a realidade lhes diz  verdade. Inventam, fingem, fantasiam, fazem qualquer coisa para evitar ouvir as palavras que temem - explicou ele, e a sua voz transformou-se
quase num sussurro.
Olhei para o Tony. Tinha falado to apaixonadamente e com tanta veemncia que me senti subjugada. S consegui abanar a cabea. Depois, ele virou-se para mim e o
seu rosto voltou a alterar-se, e vi um olhar de terna compaixo nos seus olhos. Inclinou-se sobre mim. O seu rosto ficou muito prximo do meu; os nossos lbios quase
se tocaram e ele enfiou as mos por baixo dos meus braos para levantar o meu corpo da cadeira e iar-me para a cama. Durante um longo momento, segurou-me, abraando-me,
com o rosto colado ao meu. Julguei ouvi-lo murmurar o nome da mam, mas ento colocou-me cuidadosamente em cima da cama e eu ca de encontro  almofada.
- Espero no ter sido demasiado bruto. - Encontrava-se ainda inclinado sobre mim e o seu rosto muito prximo do meu.
- No, Tony.
Sabia que era injusto e at mesmo uma tolice pensar nisso; porm, detestei o meu corpo por me trair e me deixar dependente da caridade e da bondade dos outros.
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- Talvez devesses fazer uma sesta antes do jantar aconselhou ele.
No precisei da sugesto. As minhas plpebras estavam to pesadas, que sentia uma grande dificuldade em mant-las abertas. Sempre que olhava para cima, parecia-me
que o Tony se inclinava cada vez mais sobre mim. Sabia que no era possvel sentir nada da cintura para baixo, mas tive a sensao de que as suas mos estavam a
acariciar as minhas pernas. Lutei para me manter acordada, para confirmar ou negar o que eu estava a ver, mas adormeci rapidamente, como se estivesse sob o efeito
de um sedativo. A ltima coisa que julgo recordar foi a sensao dos lbios do Tony a percorrerem o meu rosto em direco aos meus lbios.
Acordei com o barulho que Millie Thomas fez ao colocar a bandeja com o meu jantar na mesa ao lado da minha cama. Aparentemente, tinha dormido durante uma tempestade
de Vero, porque era capaz de sentir o cheiro fresco e hmido da chuva, apesar de, agora, o cu estar apenas em parte encoberto.
Quando me lembrei do Tony a ajudar-me a ir para a cama e pensei na imagem das suas mos nas minhas pernas e os seus lbios to prximos dos meus, achei que no devia
ter passado de um sonho. De qualquer maneira, parecia-me ser uma lembrana to etrea e vaga.
- No foi minha inteno acord-la, Miss Annie - disse ela timidamente.
Pisquei os olhos repetidamente e fitei-a. Tinha os braos apertados de encontro ao corpo e as mos sobrepostas na cintura, e mais parecia uma penitente. Era como
uma das pessoas dos Willies, a quem o reverendo Wise havia pregado um sermo. Ele era sempre mais severo com essas pessoas do que com as pessoas distintas de Winnerrow.
- No tem importncia, Millie. Seja como for, j devia estar acordada. Choveu, no foi?
- Oh, como o diabo, Miss Annie!
- Por favor, no me chames Miss Annie. Chama-me apenas Annie. - Ela abanou ligeiramente a cabea. - De onde s tu, Millie?
- Oh, de Boston.
- Sabes onde fica Harvard?
- Claro, Miss... claro, Annie.
- O meu tio Drake anda l e tambm tenho l um... um primo. Chama-se Luke.
Sorriu-me mais calorosamente e ajustou a almofada atrs
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de mim, de modo a eu poder sentar-me. Ergui-me para poder comer e ela levou-me a mesa at  cama.
- No conheo ningum que tenha andado em Harvard.
- H quanto tempo trabalhas como criada, Millie?
- H cinco anos. Antes disso, tomava conta de gado em Filene, mas no gostava tanto desse trabalho como gosto de ser criada.
- Porque gostas de trabalhar como criada?
- Porque podemos trabalhar em casas bonitas. No so todas to grandes como esta, claro, mas so bonitas. E tambm se conhece pessoas com mais instruo. Era o que
a minha me sempre dizia. Ela tambm foi criada durante muitos anos. Agora est num lar.
- Oh, sinto muito.
- No faz mal. Ela  feliz. Sinto muito por si, Annie. Soube da sua tragdia. Esta manh todos os criados estavam a falar da sua me; isto , aqueles que se lembram
dela.
- Ests a referir-te ao Rye Whiskeyl Ela riu-se.
- Quando o jardineiro lhe chamou assim, julguei que estava a pedir uma bebida.
- A minha me tambm lhe chamava assim. Mas agora me lembro: quando voltares para a cozinha, diz ao Rye Whiskey para vir c acima. Quero v-lo e  agora. O Tony
ficou de mand-lo c, mas deve ter-se esquecido. Fazes-me esse favor?
- Oh, claro que fao. vou j l abaixo. Quer mais alguma coisa para comer com o seu jantar?
- No, tudo isto parece estar ptimo.
- Ento  melhor comeres, antes que esfrie - declarou Mrs. Broadfield, quando entrou no quarto e se dirigiu  casa de banho, trazendo uma braada de toalhas brancas
e limpas. - No te pedi para trazeres estas toalhas para cima? disse ela  porta da casa de banho.
A Millie corou.
- Ia fazer isso agora, minha senhora, assim que servisse o jantar a Miss Annie.
Mrs. Broadfield resmungou e prosseguiu na direco da casa de banho. A Millie saiu apressadamente.
- No te esqueas do Rye Whiskey - disse-lhe baixinho.
1 Trocadilho relacionado com a alcunha da personagem. Nos Estados Unidos, Rye Whiskey  um tipo de usque feito com centeio. (N. da T.)
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- No me esqueo.
Mrs. Broadfield apareceu e parou junto  minha cama para examinar a refeio. Franziu o sobrolho ao ver o pequeno pedao de bolo de chocolate.
- Eu disse claramente quele cozinheiro para no pr sobremesas pesadas nesta bandeja. Apenas gelatina, por enquanto.
- No faz mal. Eu no como o bolo.
- Ah, pois no comes - disse ela e esticou-se para retir-lo da bandeja. - vou mandar que te tragam a gelatina.
- No  assim to importante.
- Cumprir as minhas ordens  uma coisa importante murmurou ela.
Depois, atirou os ombros para trs como um general e saiu do quarto em passo de marcha. "Pobre Rye Whiskey", pensei. Ainda no o tinha conhecido e agora, por minha
causa, estava metido num sarilho. Terminei a refeio, comendo mais por necessidade do que por prazer, mastigando e engolindo tudo ao acaso. Cada pedao de frango
grelhado sabia-me a pedra. A culpa no era da comida, a qual fora preparada cuidadosamente. Era eu que estava demasiado cansada e deprimida para me importar.
Assim que acabei, ouvi bater  porta. Espreitei e vi um homem negro, j idoso, que calculei que fosse o Rye Whiskey. Ainda usava o seu avental de cozinha e trazia
um pratinho com gelatina.
- Entre - convidei eu, e ele aproximou-se devagar.  medida que se aproximava, reparei que os seus olhos eram grandes, com a parte branca  volta das pupilas to
negras e brilhantes como as velas nas abboras durante o Halloween1. O que ele viu em mim, obviamente tirou-lhe a respirao.
- Voc deve ser o... o Rye Whiskey.
- E a menina tem de ser a Annie, a filha da Heaven. Quando a vi ali da entrada, julguei que estava a ver um fantasma. Tambm no seria a primeira vez que via uma
coisa dessas nesta casa.
1 Halloween: - festividade celebrada principalmente na Esccia e nos Estados Unidos.  chamado o dia das bruxas e comemora-se na vspera do dia de Todos os Santos,
em 31 de Outubro.  uma festa de crianas, as quais se mascaram, normalmente, com trajes macabros e vo de porta em porta, pedindo doces. A quem no der, eles pregam
uma partida Trick or Treat. (N. da T.)
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Inclinou a cabea para murmurar alguma orao e depois olhou para cima, e o seu rosto era o retrato da tristeza e da preocupao. Sabia que ele tinha estado ali
desde sempre e, portanto, presenciara tudo: a viagem que a minha av fizera at ali; a loucura da minha bisav Jillian e a sua subsequente morte; a chegada da minha
me e a separao eventualmente infeliz de Tony Tatterton e agora a minha trgica chegada.
O seu cabelo fino era to branco como a neve; tinha um rosto extraordinariamente suave, sem rugas, e parecia muito activo para um homem que eu calculava ter perto
de oitenta anos, se no fosse mais.
- A minha me falava muitas vezes de si com carinho, Rye.
- Fico feliz em saber isso, menina Annie, porque eu gostava muito da sua mezinha.
O seu sorriso alargou-se e ele abanou a cabea vrias vezes, como se o seu pescoo estivesse preso por um cordel. Lanou um olhar  bandeja.
- A comida estava boa?
- Oh, estava muito saborosa, Rye. S que agora no tenho muita vontade de comer.
- Ora, o velho Rye Whiskey vai mudar isso.
Os seus olhos franziram-se num sorriso, e voltou a abanar a cabea.
- Ento, como se est a dar por aqui, Miss Annie?
- Tem sido difcil, Rye.
Achei curioso, mas senti-me mais  vontade ao ser honesta com ele desde o princpio. Talvez fosse por causa da maneira como a minha me sempre falara dele.
- Oh, imagino que seja. - Ele apoiou-se nos calcanhares. - Ainda me lembro da primeira vez que a sua mezinha foi  cozinha para conhecer-me. Lembro-me como se fosse
ontem. Tal como a menina, ela era muito parecida com a me dela. Ia at l  cozinha e ficava a ver-me cozinhar durante horas, sentada num banco, com a cabea apoiada
na mo, e bombardeava-me com toda a espcie de perguntas sobre os Tatterton. Era to curiosa como um gatinho dentro de um cesto de roupa.
- Que queria ela saber?
- Ora, tudo de que eu pudesse lembrar-me sobre esta famlia: tios, tias, o pai e o av de Mister Tatterton. Queria saber tudo sobre as pessoas que estavam nos quadros
das paredes. Claro que, como em qualquer outra famlia, h coisas que as pessoas decentes no comentam.
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Tive vontade de perguntar-lhe que coisas eram essas, mas contive-me, aguardando pela altura certa. O Rye bateu com as mos nas coxas e suspirou.
- Ento, h alguma coisa em especial que possa fazer por si? - perguntou, mudando rapidamente de assunto.
- Gosto de frango frito. O meu cozinheiro em Winnerrow faz uma massa...
- Ah, faz!... Bem, isso  porque ainda no provou o meu frango, minha filha. Fao-lhe isso ainda esta semana. A no ser que a sua enfermeira no autorize. - Olhou
para trs a fim de se certificar de que Mrs. Broadfield no estava ali. - Ela foi  cozinha com uma data de proibies e exigncias. Fez com que o meu ajudante,
o Roger, ficasse to nervoso como o diabo em dia de domingo.
- No vejo por que razo um frango frito possa fazer mal, Rye - disse eu, desviando o olhar na direco da janela. - Farthy era um lugar muito mais bonito quando
a minha me aqui vivia, no era?
- E como! Quando as flores desabrochavam, isto aqui parecia as portas do cu.
- Por que razo Mister Tatterton deixou que tudo se degradasse?
Ele desviou o olhar rapidamente. Reparei que a minha pergunta o pusera nervoso; isso, porm, s fez agravar a minha curiosidade acerca da resposta.
- Mister Tatterton passou por um mau bocado, Miss Annie, mas mudou muito desde que a menina chegou. Quase voltou a ser o que era: est sempre a falar em mandar arranjar
isto ou aquilo. As coisas esto a voltar  vida normal aqui, o que  bom para ns e mau para os fantasmas - sussurrou ele.
- Fantasmas?
- Bem, como qualquer casa grande, na qual viveu tanta gente, os espritos vagueiam por aqui, Miss Annie. - Abanou a cabea para dar mais nfase s suas palavras.
- Mas no sou eu quem vai desafi-los, nem to-pouco Mister Tatterton. Vivemos com eles lado a lado e nem eles nos incomodam, nem ns a eles.
Vi que ele estava a falar a srio.
- H aqui mais criados que ainda sejam do tempo em que a minha me c viveu, Rye?
- Oh, no, Miss Annie. Sou s eu, o Curtis e o Miles. Todas as criadas e ajudantes se foram embora; a maior parte deles morreu.
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- Trabalha aqui um homem alto e magro, muito mais novo do que o Curtis?
Ele pensou por um momento e depois abanou a cabea.
- H jardineiros, mas todos eles so baixos e fortes. Voltei a perguntar a mim prpria quem seria o homem junto ao tmulo dos meus pais. O Rye continuou a olhar
para mim, com um sorriso simptico estampado no rosto.
- Estes ltimos anos foram difceis para si, Rye, devido ao estado de Mister Tatterton?
- No, no foram difceis. Tristes, talvez, mas no difceis. Claro que, depois do jantar, eu fico no meu quarto e deixo a casa aos espritos. Agora - disse ele
a sorrir -, eles vo retirar-se e voltar para os seus tmulos, porque voltmos a ter luz e vida. Os espritos odeiam gente nova a passear-se por aqui. F-los ficar
nervosos, porque os jovens tm sempre muita energia e alegria.
- Ouviu realmente esses espritos aqui em casa, Rye? Inclinei a cabea e sorri, mas ele no me correspondeu.
- Ouvi, sim... Ouo muitos, durante a noite. H um esprito muito infeliz que vagueia nos corredores e vai procurando de quarto em quarto.
- Procura o qu?
- No sei, Miss Annie. Eu no falo com ele, nem ele comigo. Mas j o tenho ouvido a passear por aqui e tenho ouvido a msica.
- Msica?
- Msica de piano. Msica suave.
- Alguma vez perguntou a Mister Tatterton o que isso era?
- No, Miss Annie. Nem precisei. Vi nos olhos dele.
- Viu o qu?
- Que ele tambm tinha ouvido e visto o mesmo que eu. Mas esquea tudo isso, Miss Annie. Veja se melhora e fica forte depressa. O velho Rye agora vai tratar de cozinhar
com esmero, agora que tem algum para quem cozinhar.
Pensei por um momento.
- Rye, h aqui algum cavalo chamado Scuttles?
- Scuttles, Miss Annie? Agora no h aqui cavalos. J h muito tempo que no os h. Scuttles?
Os seus olhos andavam de um lado para o outro, enquanto pensava, perscrutando a sua memria. Vi quando ele parou de pensar ao lembrar-se de alguma coisa.
- Scuttles, era esse o nome que Miss Jillian dava ao seu pnei. Quando era criana, viveu num rancho de cavalos. Lembro-me de ela estar sempre a falar naquele pnei.
Mas
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nunca aqui tivemos nenhum chamado Scuttles. O cavalo dela chamava-se Abdulla Bar. Era um animal diablico - acrescentou ele e os seus olhos brilharam de medo.
- Porque diz isso, Rye?
- No deixava que ningum o montasse. S Miss Jillian... Por isso, Mister Tatterton no deixava ningum aproximar-se dele, excepto naquela ocasio terrvel - disse
ele subitamente.
- Que ocasio terrvel, Rye?
- Oh, no  altura para falar de coisas tristes, Miss Annie. J basta ter de suportar o seu prprio sofrimento.
- Por favor, Rye. No quero perguntar a Mister Tatterton, mas preciso de saber.
Ele olhou para trs e aproximou-se mais da cama. Abanou a cabea e baixou os olhos.
- Foi Mister Troy, o irmo dele, Miss Annie. Um dia ele resolveu saltar para a garupa daquele garanho e foi at ao mar. S um cavalo diablico faria isso. Qualquer
outro cavalo teria recusado ir.
- Ento foi isso que o Drake quis dizer, quando me contou que ele se tinha suicidado. Montou o cavalo da minha bisav, foi at ao mar e...
- E afogou-se, Miss Annie. Parece que esta casa tem mais sofrimento do que pode suportar, no lhe parece Miss Annie? - E abanou a cabea. - s vezes  difcil sobreviver
at se chegar a velho. Somos perseguidos pelas ms recordaes e ouvimos muitos espritos solitrios.
- Mas porque fez ele uma coisa dessas, Rye?
- Oh, no fao ideia - respondeu de imediato. Achei at que fora depressa de mais. - O Troy era um jovem muito atraente e talentoso tambm. Era ele que fazia grande
parte dos brinquedos, no sei se sabia. S que para mim no eram brinquedos. Eram mais obras de arte, - Abanou a cabea e sorriu com a lembrana. - Casas e pessoas
em miniatura, algumas delas feitas dentro de caixas de msica.
- Caixas de msica?
- Lindas melodias... como a msica suave de um piano.
- Chopin - murmurei.
A recordao da casinha de msica da minha me fez o meu corao bater mais forte, inundando-me de tristeza.
- Que se passa, Miss Annie?
Desviei os olhos rapidamente, porque no queria que ele visse as minhas lgrimas.
- Estava s a pensar num compositor.
- Ah. Bem,  melhor voltarmos para a cozinha e ver o que o Roger est a fazer. Ele  o meu... Como se diz? Ah,
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aprendiz... O velho Rye no pode continuar naquela cozinha para sempre e Mister Tatterton precisa de um bom cozinheiro quando eu for chamado  presena do Senhor.
Claro que por agora, nem penso nisso, Miss Annie - disse ele, com um sorriso aberto. Riu-se.
- Oh, quase me esquecia da sua gelatina. Colocou o prato na minha bandeja.
- Sinto muito por no poder comer o seu bolo de chocolate, Rye. Devia estar uma delcia.
- Ah, pois, ela levou-o logo para baixo outra vez. Olhou para trs e inclinou-se na minha direco.
- Claro que eu vou arranjar maneira de lhe trazer uma fatia s escondidas. Espere s um pouco.
- Obrigada, Rye. E, por favor, volte outra vez para visitar-me.
- Claro que sim.
- Ento o que  isto? - perguntou o Tony, aparecendo de repente  entrada da porta. - O chefe de cozinha veio saber como se saiu a sua comida?
- Algum tinha que c vir trazer a gelatina e eu achei que esta era uma altura to boa como outra qualquer para vir cumprimentar a menina, Mister Tatterton.
Voltou-se para mim e acenou.
- Agora tenho de voltar para a minha cozinha.
- Obrigada, Rye - agradeci-lhe eu quando ele se preparava para sair.
O Tony ficou a v-lo desaparecer e depois virou-se para mim.
- Porque no foi a Millie a trazer a gelatina? - perguntou ele em voz bem alta.
- Porque eu pedi  Millie que o mandasse c acima.
- Oh?
Os seus olhos azuis estreitaram-se.
- Espero no ter feito mal - afirmei rapidamente. O Tony parecia aborrecido.
- Ia dizer-lhe que viesse ver-te depois do jantar. No tem importncia - acrescentou, e a expresso dos seus olhos amenizou-se. - Ele ainda continua a ser um dos
melhores cozinheiros da costa leste. Desafio quem quer que seja a fazer um Yorkshire pudding1 melhor do que o dele.
1 Yorkshire pudding: prato tpico do Norte de Inglaterra, mais propriamente da regio de Yorkshire. Consiste num pudim feito de uma massa de farinha e ovos que 
servido como entrada ou acompanhamento de carne assada, especialmente de carne de vaca. (N. da T.)
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-  tal e qual como a minha me o descreveu. J deve ter mais de oitenta anos, no ?
- Quem sabe? Ele no sabe exactamente a sua data de nascimento, ou ento mente-nos sobre a sua idade. bom, como ests? Sentes-te um pouco mais forte?
- Estou cansada do tratamento e sinto-me frustrada. Quero sair e dar uma volta pela manso e pela propriedade.
- Bem, talvez Mistress Broadfield concorde com um pequeno passeio neste corredor, amanh ao fim da manh. O mdico vem a depois de amanh.
- O Luke telefonou? - perguntei, esperanada.
- Ainda no.
- No compreendo por que razo ainda no ligou. Senti um aperto no meu corao. Seria que os vaticnios do Drake j estavam a realizar-se?
- Tenho a certeza de que ele s est a dar um tempo para te instalares e integrares.
O Tony trouxe uma cadeira para junto da minha cama. Quando se sentou, traou as pernas e passou os dedos meticulosamente pelo vinco bem acentuado das suas calas
cinzentas.
- Esta atitude no  nada dele. Somos muito unidos expliquei. - Sabia que nascemos no mesmo dia?
- A srio?  extraordinrio!
O meu aniversrio e o do Luke era um marco to importante na minha vida que parecia incrvel que o Tony no soubesse nada acerca dessa coincidncia. "Como o meu
pai e a minha me o afastaram to completamente das suas vidas", pensei. Interroguei-me sobre se ele saberia que o Luke e eu ramos meios-irmos.
-  verdade. E desde ento o nosso relacionamento tem sido semelhante ao que a minha me tinha com o seu irmo tom, aquele que morreu tragicamente no acidente do
circo.
- Ah, sim.
Voltou a olhar para mim com a mesma intensidade. Fitou-me to insistentemente que eu quase podia sentir os seus olhos perfurarem-me a alma.
- A tua me passou um mau bocado nessa altura, mas era uma mulher forte, tal como eu tenho a certeza de que tambm tu sers. "O que no me destri, fortalece-me",
costumava dizer-me o meu pai. Tinha ido buscar esta expresso a um filsofo alemo, de que no me recordo agora o nome.
O Tony continuou com as suas lembranas, adquirindo uma postura rgida, a qual era a que provavelmente recordava ser a do seu pai.
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- "Anthony", dizia ele, "tens de aprender com os erros que cometeres na vida, ou ento a prpria vida encarregar-se- de derrotar-te." - Descontraiu-se e sorriu.
- Claro que quando ele me deu este conselho, eu no devia ter mais de cinco ou seis anos mas, por estranho que parea, marcou-me muito.
- Os Tatterton so uma famlia fascinante, Tony.
- Oh, tenho a certeza de que alguns dos meus parentes so bastante aborrecidos. Nem conheo metade dos meus primos. So pessoas esquisitas. E a famlia do lado da
Jillian tambm no era muito melhor. Tanto as suas duas irms, como o seu irmo, j morreram h algum tempo. Na verdade, s soube quando li a necrologia no jornal.
Uma vez que a Jillian morreu...
Os seus olhos pareciam ter ficado vtreos ao perder-se nas suas lembranas.
- Fale-me sobre o seu irmo, Tony. Por favor - acrescentei muito depressa, ao ver o seu rosto endurecer e os seus olhos a dizer que no.
- Realmente devia deixar-te descansar.
- S um bocadinho. Conte-me s um bocadinho. Talvez porque ele j no existisse naquela casa, ou talvez porque eu s tivesse sabido de algumas coisas, aqui e ali,
o Troy surgia na minha mente como uma pessoa misteriosa.
- Por favor - pedi eu.
Os seus olhos suavizaram-se e um sorriso trmulo desenhou-se-lhe nos lbios. Depois, curvou-se e surpreendeu-me ao afagar o meu cabelo como a mam tantas vezes fazia.
- Quando imploras dessa maneira, lembras-me tanto a Leigh quando era pequena, ao pedir-me que a levasse aqui ou ali, para mostrar-lhe isto ou aquilo. Ela invadia
o meu gabinete, interrompendo o que eu estivesse a fazer, mesmo que fosse importante, e ento pedia-me para lev-la a andar de barco ou montar a cavalo. E mesmo
que eu estivesse muito ocupado, tal como agora, sempre cedia. Os homens da famlia Tatterton estragam as suas mulheres com mimo, mas acrescentou ele com os olhos
a cintilar - gostam de faz-lo.
- E quanto ao Troy?
Seria que ele divagava de propsito, ou era algo que no conseguia evitar?
- O Troy... Bem, tal como te disse, ele era muito mais novo do que eu. Quando era criana, passava grande parte do tempo doente. Receio t-lo considerado como uma
pedra no meu sapato. Compreende, a nossa me morreu quando
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ele era muito pequeno e pouco tempo depois morreu o nosso pai. O Troy cresceu a considerar-me mais como seu pai do que como seu irmo mais velho. No entanto, era
um jovem muito inteligente e formou-se apenas com dezoito anos.
- S com dezoito anos! - exclamei atnita. - E depois que fez ele?
- Trabalhou no negcio da famlia. Era um artista talentoso e desenhou muitos dos nossos brinquedos mais famosos. E a tens tudo - concluiu ele, pretendendo pr
fim  sua narrativa sobre o Troy.
- Mas por que razo se suicidou ele, Tony?
Os seus suaves olhos azuis endureceram, como se se tivessem instantaneamente transformado em gelo.
- Ele no se suicidou... Foi um acidente, um trgico acidente. Quem disse que foi suicdio? Foi a tua me que te contou isso?
- No. Ela nunca se referiu a ele - respondi, engolindo em seco.
Parecia to zangado... Os seus lbios estavam to finos e apertados que se formou uma linha branca  sua volta. Aquela mudana no seu rosto assustou-me, e acho que
ele percebeu isso, porque depressa suavizou o seu olhar. Na verdade, parecia muito triste e muito perturbado.
- O Troy era um homem melanclico, muito sensvel e sincero, e estava convencido de que no ia viver muito tempo. Tinha uma viso muito fatalista da vida. Independentemente
do que eu fizesse, no conseguia modific-lo. No gosto de falar sobre ele, porque... porque me sinto, de certa maneira, responsvel, no sei se me entendes. No
fui capaz de ajud-lo, por muito que tivesse tentado.
- Sinto muito, Tony. No era minha inteno causar-lhe nenhum desgosto.
Percebi que ele no era capaz de aceitar a ideia de que o seu irmo se matara. Era cruel da minha parte tentar faz-lo ver isso.
- Eu sei que no farias nada que me magoasse. s demasiado doce, demasiado pura. - De repente, sorriu-me mais calorosamente. - Mas no vamos falar de coisas tristes,
por favor. Em todo o caso, nem que seja por um instante, vamos concentrar-nos em coisas bonitas, agradveis, esperanosas e milagrosas. Est bem?
- Est bem - concordei.
- E agora, se estiveres de acordo, fiz uma lista de livros que acho que devias ler e vou mandar traz-los ao teu quarto.
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Tambm encomendei uma televiso, que deve chegar amanh. Posso ler o guia da programao e sublinhar alguns dos melhores programas para ti - acrescentou ele.
"Que estranho", pensei. Como pensaria ele que eu fora educada? Eu  que sabia que livros havia de ler e que programas de televiso devia ver. A minha me elogiava
muitas vezes os meus gostos literrios. O Tony agia como se pensasse que eu era alguma analfabeta que precisasse de orientao e instruo. Mas no quis protestar
para no o ofender. Parecia estar to feliz por fazer tudo aquilo.
- E ainda tenho de fazer a tal lista de coisas que quero que o Drake traga de Winnerrow - lembrei-lhe eu.
- Claro. Ele vem c amanh  tarde. Recapitulando, queres mais alguma coisa?
Abanei a cabea.
- Ento, est bem. Tenho de ir trabalhar. At amanh. Dorme bem, Heaven.
- Heaven?
- Oh, desculpa. Estava a pensar na tua me e depois eu...
- No tem importncia, Tony. No me importo se se enganar de vez em quando e me chamar Heaven. Eu adorava a minha me.
As lgrimas surgiram to depressa que foi como se estivessem s  espera de uma oportunidade para aparecerem.
- Ento, agora fui eu que te fiz ficar triste outra vez.
- No, a culpa no  sua.
- Pobre Annie.
Inclinou-se para a frente e beijou-me docemente no rosto, demorando os seus lbios na minha face. Respirou fundo, como se quisesse beber o perfume do meu cabelo.
Depois, endireitou-se abruptamente, percebendo que estava a demorar demasiado tempo para me dar um simples beijo de boas-noites.
- Boa noite - disse ele e saiu do quarto. Descansei a cabea na almofada e pensei em algumas das coisas que tinha descoberto. O Rye estava coberto de razo. Aquela
casa tinha tido mais do que a sua quota-parte de tragdia. Seria assim com todas as grandes famlias ricas e poderosas, que tinham tanto e, contudo, sofriam tanto?
Haveria uma maldio sobre os Tatterton e sobre todos os que estivessem em contacto ntimo com eles? Talvez o Rye Whiskey no estivesse to enganado acerca dos espritos
que perambulavam por ali. Talvez o homem que eu vira  distncia, visitando o tmulo dos meus pais, fosse um deles.
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Se calhar, o Drake tinha razo: talvez eu devesse deixar as coisas tristes de lado. No entanto, sabia que no conseguiria. Havia coisas que eu, simplesmente, precisava
de saber. Elas faziam-me comicho e, como qualquer vulgar comicho, era preciso coar.
Nesse momento, uma das coisas que me aborrecia, era o silncio do Luke. No era do seu feitio estar afastado durante tanto tempo. Era to frustrante no poder telefonar-lhe,
nem mesmo para saber em que alojamento se encontrava.
A Millie veio buscar a bandeja do meu jantar e tive uma ideia.
- Millie, importas-te de ver se na gaveta dessa secretria h uma caneta, papel de carta e um sobrescrito, por favor?
- Sim, Annie.
Ela fez o que eu lhe pedi e encontrou o papel de carta e a caneta.
-  um papel perfumado - comentou ela, levando a folha de papel ao nariz e inalando o seu perfume. - Ainda cheira muito bem.
- Isso no importa. Eu s quero escrever uma carta. Por favor, volta daqui a um quarto de hora para vires busc-la e depois vais ao correio p-la para mim.
- com certeza.
Ela saiu com a bandeja, e utilizei a mesa do jantar para escrever a minha carta para o Luke.
"Querido Luke,
Sei que falaste com o Tony depois do final do curso e fiquei muito feliz ao saber o acolhimento que o teu discurso recebeu. Tu mereces. S gostaria de l ter estado
e que os meus pais tambm pudessem ter estado presentes.
O Drake tem-me visitado aqui em Farthy e contou-me sobre a tua chegada a Harvard. Os mdicos querem que eu continue o meu descanso e recuperao, por isso no tenho
telefone por enquanto. Se assim no fosse, tentaria telefonar-te, em vez de mandar-te esta carta. vou pedir que siga em correio especial, para que assim possas receb-la
mais depressa.
Estou ansiosa por saber notcias tuas e por te ver. J estou a fazer planos acerca das nossas exploraes em Farthy.
Por favor, telefona-me, ou vem ver-me logo que possas.
Muitas saudades da Annie."
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Enderecei a carta a Luke Toby Casteel, Alojamentos, Universidade de Harvard e escrevi "Correio Especial" no fundo do sobrescrito. Quando a Millie regressou, chamei-a
junto da minha cama para lhe dar instrues precisas.
- Leva a carta a Mister Tatterton, por favor, e pede-lhe que complete a morada de Harvard, para mandar a carta logo de manh.
-  para j, Annie - disse ela.
Vi-a afastar-se e pensei que o Luke responderia imediatamente quando recebesse a carta. Confiante de que ele estaria ao p de mim dentro de um ou dois dias, deitei
a cabea na almofada e fechei os olhos. Abri-os ligeiramente quando Mrs. Broadfield entrou. Mediu-me a tenso e verificou-me o pulso, aconchegou o cobertor e depois
apagou a luz.
Como j no havia sol e o cu estava outra vez nublado, a escurido caiu sobre mim como uma pesada cortina. Era a minha segunda noite em Farthy; porm, ao contrrio
da primeira, j tinha um motivo para prestar mais ateno: os espritos do Rye Whiskey. Talvez fosse um sonho, devido ao tom dramtico com que ele falara; mas, a
certa altura, durante a noite, ouvi o som suave de um piano a tocar uma valsa de Chopin.
Seria apenas a necessidade desesperada de recordar, de ver o sorriso suave que a minha me exibia ao olhar para mim enquanto escovava o meu cabelo? Ou seria que
o Rye Whiskey tinha razo? Haveria ali um esprito que vagueava pela casa, procurando sem cessar?
Talvez estivesse a procurar-me. Talvez fosse de mim que ele havia sempre estado  espera.

13 O HOMEM MISTERIOSO

Mrs. Broadfield abriu as cortinas com tanta violncia que a luz da manh surpreendeu-me como o estrondo de uma bomba. Ela tinha o ar de quem j estava a p h horas,
mas eu achava que esse era o seu ar habitual.
- Deves levantar-te cedo, Annie - afirmou ela, sem sequer olhar para mim.
Falava enquanto andava pelo quarto a preparar as coisas: a desdobrar a minha cadeira de rodas; tirando um roupo do armrio e indo buscar os meus chinelos.
- Agora que demoras mais um pouco a arranjar-te, precisas de mais tempo. Dentro em breve, vais conseguir ser tu a sair da cama sozinha e a sentar-te na cadeira para
ires  casa de banho e tomar o pequeno-almoo, mas tens de praticar, tal como um atleta faz o seu treino. Compreendes? perguntou ela, fazendo finalmente uma pausa
para olhar para mim.
Ergui-me, recostei-me na almofada e abanei a cabea.
- Ento, agora vamos tirar-te da cama, lavar-te e vestir-te uma camisa de noite lavada.
Ainda estava tonta, devido ao sono profundo daquela noite, e limitei-me a corcordar com um aceno de cabea. Calmamente, como se ambas estivssemos a representar
uma mmica, ela ajudou-me a sair da cama e a sentar-me na cadeira. Levou-me at  casa de banho e despiu-me a camisa de noite. Eu mesma lavei a cara e ela trouxe-me
outra camisa de dormir. Depois, voltou a levar-me para o quarto e deixou-me junto da janela.
- vou buscar o teu pequeno-almoo - disse ela, preparando-se para sair.
- Porque no  a Millie a traz-lo?
Estava ansiosa por saber se ela tinha dado a minha carta ao Tony para a enviar pelo correio. Mrs. Broadfield parou  entrada da porta e voltou para trs.
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- A Millie foi despedida ontem  noite - comunicou ela e saiu antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
Despedida? Mas porqu? Eu tinha simpatizado com ela e achara at que podia ser uma boa companhia para mim. Era to amvel e simptica. Que poderia ela ter feito
para ser despedida to depressa? Quando o Tony veio ver-me, quis imediatamente saber a razo.
- Tony, Mistress Broadfield acabou de dizer-me que despediu a Millie. Porqu?
Ele abanou a cabea e apertou os lbios.
- Era uma incompetente. S fez asneiras desde o dia em que chegou. Estava  espera de que ela melhorasse, mas parecia pior cada vez mais. A Jillian no a teria tolerado
mais do que um dia. Havias de ter visto os criados excelentes que costumvamos ter: to profissionais, to...
- Mas, Tony, ela era to simptica - protestei.
- Oh, era simptica, mas no o suficiente. Seja como for, tambm descobri que as suas referncias no eram verdadeiras. Ela no ia aguentar-se como criada por muito
mais tempo. Daria mais como empregada de mesa. Mas no te aborreas... Um dos meus empregados j est a procurar outra pessoa.
Mrs. Broadfield chegou com o meu tabuleiro e pousou-o.
- Bem, vou-me embora - disse o Tony. - vou deixar-te tomar o pequeno-almoo.
- Tony, espere! Ontem  noite eu dei  Annie uma carta para lhe entregar e enviar ao Luke.
Ele sorriu, zombeteiro.
- Carta? Ela no me deu carta nenhuma.
- Mas, Tony...
- Chamei-a por volta das sete e meia e paguei-lhe mais duas semanas de ordenado, mas ela no se referiu a nenhuma carta.
- No compreendo.
- Porque no?  como te disse: era uma incompetente. Provavelmente guardou-a no bolso do avental e esqueceu-se. Sinceramente, no sei o que se passa na cabea dos
jovens hoje em dia; parece estarem sempre no mundo da lua. No admira que seja to difcil encontrar gente capaz.
- Era uma carta para o Luke! - gritei.
- Os teus ovos esto a esfriar - exclamou Mrs. Broadfeld.
- Desculpa - replicou o Tony. - Escreve outra carta hoje e, desta vez, trato eu do assunto pessoalmente. Est
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bem assim? Volto esta tarde para te levar a fazer uma pequena visita a este andar. Isto , se Mistress Broadfield aprovar acrescentou ele, olhando na direco dela.
Ela no respondeu.
O Tony saiu antes que eu pudesse dizer mais qualquer coisa sobre o assunto da carta e, quando olhei para Mrs. Broadfield, ela exibia a sua mscara de aborrecimento.
- Temos de fazer o tratamento matinal, Annie, e depois tens de descansar, ou no me parece que possas dar nenhum passeio. Agora, toma o pequeno-almoo, por favor.
- No tenho fome.
- Tens de comer para ganhar foras. A tua terapia  como um treino para um atleta e, tal como ele no consegue ser produtivo sem a energia alimentar, contigo  exactamente
a mesma coisa. S que - prosseguiu ela, erguendo os ombros e endireitando-se para dar nfase ao seu ponto de vista -, em vez de simplesmente perderes uma partida
de tnis ou um jogo de futebol, vais permanecer invlida.
Levantei o garfo e comecei a comer. "Abenoado seja o Rye Whiskey", pensei enquanto mastigava e engolia. Ele tinha o dom de fazer maravilhas dos alimentos mais simples.
A sesso do meu tratamento matinal comeou da mesma maneira do dia anterior; desta vez, porm, houve algo diferente. Tive a certeza de sentir os dedos de Mrs. Broadfield
nas minhas coxas. Era uma sensao pungente, como se estivessem a espetar alfinetes na minha pele e eu gritei.
- O que foi? - perguntou ela, olhando para cima com impacincia.
- Senti qualquer coisa... Picou-me.
- Isso  s a tua imaginao - declarou ela e recomeou. Voltei a sentir a picada.
- Eu sinto qualquer coisa... Sinto mesmo! - protestei. Ela parou e levantou-se.
- Isso  aquilo a que chamamos dor histrica. O teu estado mental  pior do que eu pensava. At isso tambm te est a acontecer agora.
- Mas o mdico disse...
- Eu sei o que o mdico disse. No achas que j trabalhei com mdicos suficientes?
- Sim, mas...
- Tenta apenas descontrair-te enquanto eu massajo as tuas pernas e, quando julgares que sentiste alguma coisa, controla-te.
- Mas...
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Ela recomeou. Continuava a sentir a dor; apenas fiz uma careta e sufoquei os meus gemidos. O esforo cansou-me, e tive de fazer uma sesta antes do almoo. Mrs.
Broadfield trouxe-me o almoo e disse-me que o Tony havia telefonado e voltaria dentro de pouco tempo para me levar a dar uma pequena volta naquele andar. Achei
engraado como uma coisa to simples se tornara uma grande expectativa, tal como a aproximao de uma data especial, uma festa ou um baile. Nesse momento, levarem-me
de cadeira de rodas para fora do quarto era to excitante como uma viagem pelo campo. Como a minha vida tinha mudado! Quantas coisas eu sempre tomara como certas!
Um dos jardineiros chegou e instalou a minha televiso. Tinha controlo remoto; por isso, podia manobr-lo da cama. Era um homem forte e o rosto parecia couro curtido,
devido s muitas horas de trabalho debaixo do sol; tinha a pele estalada e criara rugas profundas na testa e at no queixo. Disse que se chamava Parson.
- Trabalha aqui h muito tempo, Parson?
- - Oh, no. H pouco mais de uma semana.
- E gosta?
A princpio, julguei que ele no tinha ouvido a minha pergunta; s depois percebi que ele estava a pensar que resposta havia de dar.
- Suponho que deve ter muito trabalho - acrescentei, para encoraj-lo a responder.
Parou o seu trabalho de ligar todos aqueles fios e olhou para mim.
- Hum, h muito trabalho, mas sempre que comeo a fazer uma coisa, Mister Tatterton muda de ideias e manda-me fazer outra.
- Muda de ideias?
O homem abanou a cabea.
- Eu no sei. Fui contratado para consertar a piscina, por isso comecei a misturar cimento, mas, mal tinha comeado, surgiu Mister Tatterton e perguntou-me o que
eu estava a fazer. Disse-lhe o que estava a fazer e ele olhou para a piscina e depois para mim, como se estivesse doido. Depois contou-me que o pai dele lhe dissera
para nunca consertar nada, a no ser que estivesse estragado. "Ha?" disse eu. "As sebes tm de ser aparadas ao longo dos caminhos do parque", disse-me ele e mandou-me
fazer isso. Entretanto, todo o cimento que eu tinha preparado endureceu e j no pode ser utilizado. Mas ele paga bem.
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Encolheu os ombros e voltou a dedicar-se ao aparelho de televiso.
- Mas... E ento a piscina?
- No perguntei. Fao o que me mandam. Ora pronto, j deve estar a funcionar bem.
Ligou o aparelho, sintonizou os canais e afinou-o.
- Quer o televisor ligado?
- Agora no. Obrigada, Parson.
- De nada.
- Parson, como  o... o labirinto?
- Como ? - Encolheu os ombros. - No sei. Tranquilo, eu acho. Quando se est l mesmo no meio, quero dizer. No se consegue ouvir grande coisa c fora e, contudo...
acho que  por ser to sossegado, comeamos a ouvir coisas.
Ele riu-se de si prprio.
- Que quer dizer com isso?
- Umas duas vezes julguei ouvir algum a caminhar ali perto, por isso gritei, mas no estava l ningum. Ontem, ao fim do dia, tenho a certeza de que ouvi passos.
Ento levantei-me e percorri vrios corredores... E o que acha que aconteceu?
- O qu?
- Perdi-me, foi o que foi. - Riu-se com gosto. - Levei quase meia hora para voltar ao stio onde estava a trabalhar.
- E quanto aos passos?
- No os ouvi mais. Bem, tenho de ir andando.
- Obrigada - disse eu.
Depois de ele sair, olhei pela janela. O cu estava to azul como os olhos da mam, quando ela se sentia radiante e feliz. Achei que os meus olhos agora deviam estar
cinzentos, to enfadonhos como o azul desbotado de uma blusa velha. No entanto, l fora, o mundo cintilava de vida e de luz; a relva era de um verde profundo e parecia
fresca e viosa. As rvores estavam em flor, e as pequenas nuvens fofas pareciam limpas e macias como almofadas apetecveis.
Tordos e pardais esvoaavam de ramo em ramo, animados com a perspectiva de uma tarde quente e maravilhosa. Trocaria, de bom grado, o meu lugar com um deles e tornar-me-ia
um mero pssaro; ao menos, seria uma criatura que podia movimentar-se de um lado para o outro  vontade e podia apreciar o que a vida tinha de melhor para lhe dar.
A mam e o pap haviam morrido, o Luke estava, aparentemente, incomunicvel, e eu encontrava-me encerrada naquela casa velha, e as nicas coisas que me aguardavam
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eram tratamentos, banhos quentes, remdios e mdicos, e nem eu, nem ningum podia dizer por quanto tempo essa situao iria durar.
Afastei aquele sentimento de autopiedade quando vi o Rolls-Royce do Tony a aproximar-se. No momento em que o carro parou prximo do cemitrio, cheguei-me  janela
o mais prximo que pude. Vi-o sair do carro e dirigir-se ao jazigo dos meus pais. Ajoelhou-se diante dele e baixou a cabea. Permaneceu nessa posio durante muito
tempo e depois, de repente, apareceu de novo o homem misterioso, surgido do bosque. O Tony no parecera ouvi-lo, nem v-lo aproximar-se.
O vulto ficou de p ao seu lado e depois encostou a cabea no ombro do Tony. Observei e esperei, com o corao subitamente a bater com violncia; o Tony, porm,
no levantou a cabea. Passado mais um bocado, o homem afastou-se dele e regressou  escurido do bosque. Em seguida, o Tony levantou-se e voltou para o carro.
Foi como se eu conhecesse o homem que tinha estado ao lado do Tony. Mal podia esperar que este chegasse. Dirigi a cadeira at  entrada do meu quarto e fiquei a
olhar para a porta.
Passaram-se quase duas horas at que o Tony foi ao meu quarto. Estava ansiosa por fazer-lhe perguntas sobre o homem no cemitrio. Quis cham-lo, mas achei que a
minha curiosidade era demasiado banal para que se justificasse uma vinda imediata do Tony l acima. No parava de dizer a mim mesma que ele no tardaria em chegar;
s que o relgio continuava a fazer tiquetaque e ele no vinha. O Roland costumava dizer-me mais ou menos isto, quando eu estava impaciente: "A gua, que se vigia
sem parar numa panela, nunca ferve."
Tentei concentrar o pensamento em outras coisas e dei uma vista de olhos pelos livros que o Tony havia mandado ao meu quarto. Eram romances de autores que eu nunca
tinha ouvido falar. Escritores do sculo xix, como por exemplo, William Dean Howells. Alguns deles eram considerados como "obras de uma poca"; outros como "romances
de costumes". Era como se o Tony quisesse que eu vivesse numa poca passada e distante.
Finalmente, apareceu. Logo de imediato, j quase louca de curiosidade, interroguei-o sobre o homem no cemitrio.
- Qual homem?
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Tony continuou a sorrir, mas o calor com que o fez ao princpio desapareceu momentaneamente.
- Vi-o ficar ao seu lado quando esteve junto ao tmulo dos meus pais.
Permaneceu ali, parado,  entrada da porta, piscando os olhos como se quisesse focar uma imagem ntida do mundo real. Depois, respirou fundo e avanou, novamente
com o seu sorriso afectuoso.
- Oh, estou sempre a esquecer-me de que podes ver o cemitrio da famlia atravs da tua janela. - Encolheu os ombros. - Era apenas um dos jardineiros. Para te ser
franco, eu estava to absorto pela dor, naquele momento, que no me lembro qual deles era, ou o que ele queria.
- Jardineiro? Mas... o Rye Whskey disse...
- Seja como for - interrompeu o Tony com voz desafinada e batendo as palmas -, est na hora do teu primeiro passeio em Farthy. Mistress Broadfield diz que mereces.
Ests pronta?
Olhei outra vez pela janela, na direco do cemitrio e do bosque. Nuvens, to compridas e esguias como os dedos de uma bruxa, tapavam o sol, lanando sombra por
sobre o tmulo dos meus pais.
- Eu devia ir ao cemitrio, Tony.
- Assim que o mdico autorizar. Quem sabe, j amanh. Entretanto, vou mostrar-te uma coisa especial aqui perto.
Veio at junto da minha cadeira e agarrou nas pegas. Porque no me dizia ele a verdade sobre aquele homem? Seria que ele tinha receio de que isso me perturbasse?
Como conseguiria fazer com que ele me contasse a verdade? Talvez o Rye soubesse. Tinha de arranjar uma maneira para que o Tony no descobrisse que eu havia andado
a fazer perguntas.
Senti o seu bafo quente na minha testa, e ele depositou um beijo carinhoso no meu cabelo. A suavidade daquela carcia apanhou-me um pouco de surpresa. Tambm ele
deve ter percebido isso nos meus olhos.
-  to bom e to maravilhoso que aqui estejas e poder fazer-te recuar no tempo comigo.
- Mas eu sou uma invlida, Tony. Sou uma pessoa doente e aleijada.
No me pareceu que ele me tivesse escutado.
- Poder reconquistar belas recordaes e recuperar a felicidade outra vez. Poucos homens tm essa oportunidade, uma vez que a tenham perdido.
Comeou a empurrar a cadeira para fora do quarto.
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Onde vamos?
-A primeira coisa que eu quero que tu vejas so os aposentos que eu mandei preparar para os teus pais, quando eles vieram a Farthy para a cerimnia do seu casamento.
Estavam to apaixonados... Como  natural estarem todos os recm-casados...
Muitas vezes tentei imaginar o pap e a mam em jovens, comeando a descobrir-se mutuamente. Sabia que eles se tinham conhecido quando o pap se mudara para Winnerrow.
A mam contara-me que se apaixonaram assim que se viram pela primeira vez.
Contudo, ela nunca me contara nada sobre boas lembranas de Farthy. Estava certa de que teria havido alguma. Por isso, ouvi atentamente, enquanto o Tony empurrava
a cadeira e contava como eles se riam e se abraavam; como o meu pai ficara entusiasmado ao conhecer Farthinggale, e como o Tony tinha gostado de lhe mostrar a propriedade.
- Quando vi a tua me pela primeira vez, nem pude acreditar, ao ver como ela era parecida com a sua prpria me - acrescentou ele, ao sairmos do quarto e ao entrarmos
no enorme corredor. - Tal como tu, minha querida. s vezes, quando fecho os olhos e te oio falar, julgo que voltei atrs no tempo e estou a ouvir a Heaven. Mas
quando abro os olhos, por um momento, fico confuso e no tenho a certeza. Ser que todos estes anos, desde que ela me deixou, consistiram simplesmente num pesadelo?
Poderei voltar  poca mais feliz da minha vida? Quando queremos muito uma coisa e se rezarmos fervorosamente por ela, ser que o nosso sonho se transformar em
realidade?
Ele continuou suavemente e cheio de esperana.
- s vezes, todas vocs se confundem na minha cabea...  como se no fossem trs pessoas distintas, mas apenas uma nica mulher. A Leigh, a Heaven e agora tu...
So to parecidas na voz, no comportamento e no aspecto fsico. So como irms gmeas, em vez de mes e filhas.
No gostei do modo como ele nos confundia. Era como se eu no fosse uma s pessoa, com personalidade, pensamentos e sentimentos prprios. Claro que eu gostava de
ser parecida com a mam, mas queria ser eu prpria; ser a Annie e no a Leigh; a Annie, a filha da Heaven e no uma ssia. Porque teimaria o Tony em ignorar esse
facto? No compreenderia ele como era importante para todas as pessoas sentirem-se elas prprias? Como reagiria, se as pessoas se referissem a ele como: " mais
um Tatterton, como todos os
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outros"? Decidi que mais tarde falaria sobre esse assunto. Eu no era a nica que podia aprender coisas novas.
Voltei a centrar a minha ateno na visita  casa. No tinha prestado muita ateno quela parte superior da casa, quando me haviam trazido para cima, para o meu
quarto, no dia em que chegara. Reparava agora como o tapete do corredor estava extremamente gasto e desfiado. Grande parte dos lustres do tecto tinham as lmpadas
fundidas e havia teias de aranha agarradas aos mveis. Os cortinados das poucas janelas estavam corridos, de modo que o corredor era escuro, principalmente naquela
parte, por onde o Tony ia empurrando a minha cadeira.
- Toda esta parte da casa est desocupada h anos. No incio, estes aposentos pertenciam aos meus bisavs, mas, em homenagem aos teus pais, mandei-os decorar e mobilar
de novo. Eu sabia o que agradava  tua me e tinha tudo pronto quando ela chegou. Havias de ter visto a surpresa estampada no seu rosto quando abri estas portas
duplas.
Ele riu-se; foi, contudo, um riso agudo e estranho; o riso de algum que se ria de coisas que mais ningum podia partilhar; o riso de algum que estava encerrado
no seu prprio mundo particular. Quando me recostei na cadeira e virei a cabea para olhar para ele, reparei como estava completamente alheado nas suas prprias
recordaes.
Seria que ele no era capaz de ver como o corredor estava gasto e degradado? No sentiria ele aquele odor a mofo?
- J ningum anda por estes corredores. No permito que ningum entre nestes quartos - acrescentou, como se tivesse lido o meu pensamento e adivinhado que eu estranhara
o facto de no mandar as criadas l acima para limpar o p e encerar.
Quando atravessmos a zona que ele disse estar interdita, parecia que estvamos a entrar num lugar ainda mais sombrio. Enormes teias de aranha, solidificadas com
o p, pendiam entre o tecto do corredor e as paredes. Perguntei a mim prpria se ele j teria regressado do seu mundo de recordaes. Parou em frente a duas grandes
portas duplas, feitas de slida madeira de nogueira. Cada uma delas tinha, na parte da frente, compridas e estreitas manchas de gua. Algumas dessas manchas pareciam
recentes.
O Tony tirou um molho de chaves do bolso do casaco. Quando destrancou as portas e se virou para mim, o seu rosto adquiriu um brilho estranho, e os olhos estavam
inundados de excitao. "Deve ter sido assim que ele estava no dia
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em que fez a surpresa aos meus pais, quando lhes mostrou estes aposentos", pensei. Seriam as suas recordaes to vivas que podia recuar no tempo e comportar-se
como se tudo estivesse a acontecer naquele momento pela primeira vez?
- Os aposentos de Mister e Mistress Logan Stonewall anunciou ele, como se eles estivessem vivos ali ao p de mim.
Abriu as portas de par em par, e estas rangeram nos gonzos, como que a murmurar avisos. Sem ser capaz de esperar que ele voltasse atrs para empurrar a cadeira,
eu prpria movimentei a cadeira para a frente e, para minha completa surpresa e total espanto, aos meus olhos surgiu uma suite de dois aposentos impecavelmente tratada:
limpa, polida e cintilante, por detrs daquelas velhas portas enganadoras, naquela zona aparentemente deserta daquela enorme casa. Era como se tivssemos realmente
transposto uma fronteira invisvel do tempo e reentrado no passado.
O Tony riu-se de novo, desta vez da expresso do meu rosto.
- Lindo, no achas?
Por toda a parte havia a cor preferida da minha me: a cor de vinho. Os mveis, de estilo rstico francs, eram forrados com tecido daquela cor, condizendo com as
cores do grande tapete persa. As paredes estavam forradas com um tecido estampado com flores, que condizia com o vermelho e o branco dos estofos e do tapete. Por
cima das duas grandes janelas pendiam reposteiros de seda antiga, e por detrs destes havia cortinas transparentes. Mas tudo aquilo parecia ser novinho em folha.
O Tony confirmou os meus pensamentos.
- Tudo isto foi substitudo e restaurado como era antes.  este o aspecto que a sala de estar tinha, quando os teus pais aqui entraram pela primeira vez.
- Tudo novo? - perguntei atnita, e ele acenou com a cabea. - Mas... porqu?
- Porqu? Porqu? - Ele olhou em volta como se a resposta fosse bvia. - Porque, quem sabe se um dia tu e o teu marido vm morar para aqui. De qualquer modo - prosseguiu
rapidamente -, sinto-me melhor em fazer as coisas voltarem ao que eram antigamente, no tempo em que todos ramos mais felizes. E se eu tenho dinheiro para isso,
porque no? Eu disse-te que ia fazer a Manso Farthinggale voltar ao que era nos seus dias mais esplendorosos.
Abanei a cabea. Podiam dizer que esta era a maneira de
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um homem idoso e muito rico satisfazer os seus caprichos. Mas para qu reviver uma recordao dolorosa? Durante todos aqueles anos, a mam recusara-se a ter qualquer
contacto com ele; o Tony, porm, agarrara-se s recordaes dela e do pap, no permitindo que o tempo as apagasse. Porqu?
- Receio no ter compreendido ainda, Tony. Porque era assim to importante mant-lo... tal como era? - prossegui.
O seu rosto endureceu.
- Eu disse-te. Tenho meios que o permitem.
- Mas tambm tem meios para fazer muitas outras coisas. Para qu continuar a viver no passado?
- Para mim, o passado  mais importante do que o futuro - respondeu ele quase rispidamente. - Quando tiveres a minha idade, vais compreender como as boas recordaes
so valiosas.
- Mas com a situao embaraosa entre o Tony e a mam, julguei que isso fosse doloroso para si. Ela desapareceu da sua vida; ela...
- No! - Parecia furioso. - No - repetiu, mais calmo. Depois sorriu. - No vs que, ao fazer tudo isto - e estendeu os braos -, mantive a Heaven como ela... sempre
foi para mim. Enganei o destino. - Riu-se, e o seu riso era agudo e oco. - Esse, minha querida,  o verdadeiro poder da grande riqueza.
Limitei-me a olhar espantada para ele. O Tony olhou para mim e retirou aquele olhar desvairado do rosto.
- Mas agora vem ver o quarto. Vem ver o que eu fiz aqui.
O Tony avanou e abriu as portas do quarto. Relutante, fiz uma tentativa e avancei com a cadeira at  entrada e olhei l para dentro. At mesmo a grande cama de
casal parecia perdida naquele quarto enorme. Tive dificuldade em mover a cadeira sobre a carpete bege, macia e espessa que cobria o cho. Era como se estivesse a
rolar sobre rebuado. Era evidente que tambm a carpete era nova.
Toda a roupa de cama era nova. A colcha condizia com o dossel de damasco e as almofadas tambm eram cor de ferrugem. Voltei  direita e olhei para a mesa de toilette
de mrmore branco, colocada ao meio de uma bancada de mrmore, que ocupava praticamente todo o comprimento do quarto. Sob a bancada, havia gavetas embutidas em madeira,
no tom da bancada de mrmore. Sobre a bancada havia uma parede espelhada, e os cantos do espelho eram engastados em ouro.
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Qualquer coisa sobre a mesa de toilette chamou a minha ateno; por isso, aproximei-me mais. Ali estava uma escova de cabelo ainda com fios de cabelo agarrados;
fios de cabelo de um louro prateado. Peguei na escova e examinei-a.
- Era da Heaven - murmurou o Tony ao meu ouvido.
Ela tinha o cabelo como a Leigh e arranjava-o como se a Leigh regressasse atravs dela. No entendes? - perguntou ele, com os olhos esbugalhados, desvairados e brilhantes.
O meu corao comeou a bater descompassado,  medida que ele continuava.
- O cabelo ...  o cabelo da Leigh. No era apenas o cabelo pintado da Heaven... A Leigh ia regressar. Eu...
Viu o meu olhar de espanto e encolheu os ombros. Tirou a escova da minha mo e passou suavemente com as pontas dos dedos sobre os fios de cabelo.
- Ela ficava to bonita com aquele cabelo; aquela cor era a mais apropriada para ela.
- Eu preferia o seu cabelo mais escuro - disse eu, mas ele no pareceu ouvir-me.
Olhou durante mais um tempo para a escova e depois voltou a p-la na mesa, como se esta fizesse parte de alguma valiosa coleco de museu. Ao olhar para a bancada
e para a mesinha de toilette, reparei em outros acessrios pessoais: ganchos de cabelo, rolos, pentes, at mesmo lenos de papel amarrotados, os quais estavam amarelecidos
pelo tempo. Algumas dessas coisas eram objectos muito pessoais.
- Porque teria a minha me deixado estas coisas aqui? Voltei-me, porque ele no me respondeu imediatamente;
vi-o a fitar-me, com a boca contrada por um sorriso estranho.
- Tony? - Ele continuou a fitar-me. - Tony, que se passa?
Virei a cadeira completamente para poder olh-lo com ateno. Isso f-lo sair do seu torpor.
- Oh, desculpa. Ver-te a sentada na tua cadeira... Foi como se estivesse a ver a Heaven sentada na sua mesa de toilette, vestida com a sua camisa de noite, escovando
o cabelo antes de preparar-se para dormir.
"Que estranho", pensei. Por que razo estaria ele no quarto da mam a v-la fazer os preparativos para ir dormir? Isso era mais uma coisa que um marido faria com
a sua mulher e no o que um av por afinidade faria com a sua "neta". Falava da mam como se ela fosse a Jillian, a mulher que havia perdido. Era assustador. Talvez
ele estivesse a perder
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o juzo, e eu tinha a pouca sorte de estar ali, exactamente quando tudo isso estava a comear a acontecer.
- Costumava v-la a preparar-se para dormir? No consegui evitar aquela pergunta.
- Oh, no. Eu vinha at aqui, batia  porta e enquanto estava  porta, ela respondia s minhas perguntas ou ia conversando,  medida que continuava a escovar o cabelo
respondeu ele rapidamente.
Na minha opinio fora uma resposta rpida de mais. Respondera-me com o tom de voz de um homem culpado de alguma coisa.
- Oh... Mas, Tony, por que razo a minha me deixou aqui tantas coisas, depois de se ir embora de Farthy?
A bancada ainda estava pejada de coisas suas: os seus ps de maquilhagem; os frascos de perfume e gua-de-colnia e as latas de laca para o cabelo.
- Ela tinha as coisas em duplicado, por isso no tinha de levar muita coisa quando ia a Winnerrow...
Novamente, aquela rapidez de resposta fez-me duvidar da verdade das suas palavras.
- Parece mais que ela fugiu daqui, Tony - repliquei, para que ele soubesse que a sua explicao no me tinha convencido, e aproximei-me dele. - Por que razo ela
partiu to repentinamente, Tony? No pode contar-me isso agora?
- Mas, Annie, por favor...
- No, Tony, tenho de dizer-lhe que agradeo muito tudo o que tem feito por mim e pelo Drake, mas fico preocupada por saber como as coisas estavam entre si e a minha
me. s vezes, sinto que est a esconder-me alguma coisa, alguma coisa muito desagradvel, que pode fazer-me afastar com o medo.
- Mas no deves pensar...
- No sei quanto tempo mais aguento ficar aqui sem saber da verdade, por muito horrvel ou dolorosa que seja insisti.
O seu olhar agudo e penetrante pousou em mim, com uma profunda considerao. Piscou os olhos quando tomou uma rpida deciso, e depois abanou a cabea.
- Est bem. Talvez tenhas razo. Talvez seja a altura certa. Hoje pareces-me mais forte e sinto-me realmente mal com o ressentimento existente entre mim e a tua
me. Tambm no quero que haja um muro de segredos entre ns dois, Annie. Farei tudo o que puder para evit-lo.
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- Ento, conte-me tudo.
- vou contar.
Puxou a cadeira da mesinha de toilette e sentou-se  minha frente. Aquele momento pareceu-me uma eternidade. Manteve-se com as mos elegantes e bem tratadas apoiadas
no queixo, sem dizer nada. Finalmente, baixou as mos e olhou  sua volta.
- Este  o lugar certo para confessar... Nos aposentos dela...
Olhou para baixo e depois para mim. Os seus olhos eram to tristes como os de um cachorrinho sem me; um cachorrinho que ansiava ser acariciado e amado. Respirei
fundo e esperei que ele comeasse.

14 A CONFISSO DE TONY

- Annie - comeou ele e os seus olhos pareciam dois berlindes de gelo azul -, no te peo que me perdoes pelo que eu fiz. Tudo o que peo,  que tentes compreender
as razes por que agi assim e como me senti mal depois, principalmente aps a Heaven ter descoberto tudo e passar a odiar-me por isso.
Fez uma pausa, esperando uma resposta da minha parte; eu, porm, no disse nada. Talvez estivesse  espera de alguma palavra de encorajamento, antes de comear a
falar, mas eu s conseguia pensar nas coisas terrveis que iria ouvir. Coisas to terrveis, que provavelmente pediria - melhor, exigiria - que me levassem para
longe da Manso Farthinggale.
Compreendi que o Tony tinha razo num ponto: aquele era o stio ideal para eu ouvir a sua histria. Ainda havia roupa da minha me pendurada nos armrios e, pelo
seu aspecto, no me admiraria que o Tony as tivesse mandado limpar e passar a ferro. Tudo aquilo fazia parte da sua obsesso em manter vivo o passado; manter alegres
as suas lembranas. Eu tinha a certeza de que me cheirava ao odor familiar do jasmim e, apesar de saber que devia estar a imaginar coisas, pensei at ouvir uma melodia
de Chopin ser tocada numa caixa de msica.
- Annie, no podes imaginar o que eu passei depois que o meu irmo morreu. Sempre esperei que ele ultrapassasse todo aquele fatalismo e depresso e encontrasse algum
a quem amar. Eu queria que ele casasse e tivesse filhos e, ento voltaria a haver pequenos Tatterton a rir e a percorrer estes longos corredores. Haveria herdeiros,
e a linha de sucesso da famlia estaria assegurada.
- Porque no teve filhos com a Jillian, Tony?
A pergunta parecia-me bvia e natural; no entanto, pude
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ver, pela reaco nos seus olhos e pela maneira como apertou os lbios, que isso lhe trouxera uma grande angstia. Abanou ligeiramente a cabea.
- A Jillian j no era nova quando casei com ela, e era uma mulher muito vaidosa, que achava que, depois de ter tido a Leigh, perdera parte da sua beleza. Afirmava
que tinha de lutar para readquirir a sua bela silhueta. Em resumo, a Jillian no quis ter outro filho. Claro que eu lhe implorei que pensasse na famlia Tatterton
e no meu desejo em ter um herdeiro.
- E que respondeu ela?
- A Jillian era como uma criana, Annie. No concebia a hiptese da sua prpria morte; nem conseguia encarar o envelhecimento. Para ela, esse problema simplesmente
no existia.
"Nos primeiros tempos, ela afastava-me com o pretexto de que devia ser o Troy a ter herdeiros. Depois de ele morrer... Bem, nessa altura era tarde de mais para a
Jillian.
- Mas que tem isso a ver com a recusa da minha me em voltar a v-lo?
- Isto s serviu de introduo, Annie, para que possas entender os meus motivos para tudo aquilo que fiz. Nessa altura, o Troy j tinha morrido. A Jillian estava...
Bem, a Jillian estava to perdida em si mesma que se encaminhava a passos largos para o mundo da insanidade em que permaneceu at morrer.
E ele prosseguiu:
- Quando a Heaven chegou aqui, no podes imaginar como o meu corao se alegrou quando olhei para ela, a neta da Jillian. Nessa altura, o Troy j estava numa fase
adiantada de depresso: vivia sozinho e estava convencido de que iria morrer em breve. A Jillian estava fechada no seu mundo, no seu regime de tratamento de beleza.
A Heaven era esperta, viva e ansiosa por aprender e tornar-se algum. Como sabes, matriculei-a num colgio particular carssimo, enchi-a de roupa cara e assegurei-me
de que ela tinha tudo o que queria. Sempre que queria voltar a Winnerrow para tentar que a famlia Casteel se mantivesse unida, eu dava-lhe dinheiro.
Inclinou-se para a frente, na minha direco, e baixou a voz, como se no quisesse que os seus antepassados o ouvissem.
- Eu at teria permitido que ela trouxesse toda a sua famlia para c, desde que aqui se mantivesse e se tornasse minha herdeira. No podes imaginar o desgosto que
tive quando
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ela decidiu voltar para Winnerrow e ser professora. No podia acreditar que ela desistisse de tudo isto por um lugar de professora numa cidade de provncia, onde
as pessoas nem sequer gostavam dela... Onde a olhavam com desprezo e lhe chamavam "a escumalha dos Casteel".
- Era o sonho da vida dela, ajudar aquelas crianas, tal como a sua professora a tinha ajudado - afirmei eu. - Lembro-me de como ela tinha orgulho do que conseguira
fazer enquanto professora.
- Sim, sim, eu sei. Inclusive, fiz mal em depreci-lo. Percebi isso tarde de mais. Seja como for, depois de eu saber que ela ia casar com o teu pai, entrei em pnico.
"Isto vai decididamente mant-la afastada de Farthinggale para sempre", pensei. Ela casaria e montaria uma casa modesta em Winnerrow e... - Engoliu em seco. - E
faria as pazes com o seu pai, o Luke Casteel, e voltaria a ficar solidamente enraizada naquele mundo.
Fez uma pausa e continuou.
- Consegues entender o que eu senti? - suplicou ele.
- Tudo isto acabaria junto comigo... os Brinquedos Tatterton, Farthy e tudo o resto. De que servira isto? As noites que eu passei a caminhar ao longo destes corredores
escuros, sentindo, pousados em mim, os olhos zangados dos meus antepassados, os quais me contemplavam dos retratos. Comecei a desprezar o eco dos meus prprios passos,
a odiar o rosto que eu olhava nos espelhos, a desejar nunca ter nascido um Tatterton. E ento, um dia pensei que podia haver uma maneira de trazer a Heaven e o seu
mundo para Farthy. Quando soube do noivado da Heaven e do Logan, entrei em contacto com ele para discutirmos o seu futuro. Percebi que ele era um homem inteligente,
perceptivo, ambicioso e impetuoso. Ofereci-lhe um cargo importante na minha companhia e pedi-lhe que me autorizasse a efectuar aqui a cerimnia do seu casamento
com a Heaven.
- Eu sei. J vi as fotografias. Deve ter sido uma coisa maravilhosa.
- Nunca mais houve uma festa igual. Foi nesse dia, mesmo antes da festa, que sugeri  Heaven e ao Logan a ideia de se associarem  minha empresa e construrem uma
fbrica em Winnerrow. A tua me concordou e depois mostrei-lhes os seus aposentos.
Parou de falar, contemplou a recordao da sua vitria e depois prosseguiu.
- Ela ficou subjugada. Tinha voltado a conquist-la. Tinha usado todos os meios de que dispunha para isso.
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- Mas, Tony, por que razo o odiava ela?
Ele olhou para baixo e revirou as mos no seu colo, como se estivesse  procura de cicatrizes.
- Ficou a odiar-me por causa de um pormenor adicional que usei para tornar o meu plano mais seguro.
E levantou os olhos.
- E o que era, Tony?
A minha voz era tnue e estava quase sem respirao.
- Tive medo do relacionamento que ela podia desenvolver com o Luke Casteel. Eu sabia o quanto ela o amava e queria que ele tambm a amasse. Depois de todos aqueles
anos afastados um do outro, ela iria perdoar-lhe por t-la vendido a ela e aos seus irmos e irms, iria convid-lo a ele e  sua mais recente mulher, Stacie, para
o casamento em Winnerrow. E eu sabia que o Luke iria. Tinha a certeza de que, uma vez que ela fizesse as pazes com ele, no precisaria mais de mim: nem o meu dinheiro,
nem a fbrica, nada faria a menor diferena. Senti que tinha de pr cobro a isso.
- Que foi que fez? - perguntei, na expectativa.
- Pelas conversas que eu tinha tido com a Heaven, sabia que o Luke sempre sonhara em possuir o seu prprio circo. Nessa altura, ele trabalhava para um homem chamado
Windenbarron. Comprei-lhe o circo e ofereci-o ao Luke por um dlar.
- Um dlar!
- Um dlar e uma condio... Ele no iria ao casamento e nunca mais teria qualquer contacto com a Heaven. Caso contrrio, perderia o circo.
Olhei para ele, atnita; muito embora no conseguisse dizer uma palavra, no pude evitar o turbilho de ideias que surgiram no meu pensamento. Um dlar! O Tony tinha
sido como o diabo, que compra a alma de um homem depois de tent-lo com tudo o que ele sonhou ter, mas fazendo-o renunciar s coisas que deveriam ter sido as mais
valiosas para si. Senti-me agoniada, enojada e to fraca, como se tivesse acabado de saber que o meu prprio pai me tinha trocado por um circo, apenas por um dlar!
O silncio entre ns pareceu eterno. Como eu desejei poder levantar-me e fugir daquele quarto, para longe daquelas terrveis revelaes. Que espcie de homem era
o Luke Casteel? Agradeci aos cus pelo facto de o "meu" Luke no ter herdado aquelas caractersticas. Pelo menos, o Luke que eu conhecia e amava.
- O Luke concordou? - perguntei por fim, sabendo perfeitamente qual seria a resposta.
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- Sim e cumpriu o seu acordo at ao dia em que ele e a sua mulher foram mortos. Foi s nessa altura que... A Heaven descobriu o que eu tinha feito. Tentei explicar-lhe,
tal como estou a fazer agora. Implorei-lhe que me perdoasse, mas ela ficou to enfurecida que partiu imediatamente de Farthinggale e nunca mais voltou.
Ele baixou a cabea.
- Ela transformou-me num homem destroado, perseguido pela culpa, deambulando sozinho por esta casa enorme, reflectindo nos meus actos egostas. Depois do tempo
que considerei suficiente para as feridas sararem, tentei convencer a Heaven a falar comigo, a responder aos meus telefonemas, e s minhas cartas, mas ela nunca
mais quis nada comigo, e nada do que eu pudesse fazer iria mudar essa situao. Refugiei-me nas sombras e  l que tenho estado at agora.
Olhou para baixo e depois ergueu o olhar rapidamente.
- Mas o que me manteve vivo foi saber da vossa vida em Winnerrow. Tinha informadores que me traziam notcias sobre o teu crescimento e a tua transformao nesta
linda jovem que s hoje. Tambm me traziam relatrios sobre o xito da Fbrica de Brinquedos dos Willies e da vida maravilhosa da Heaven e do Logan, em Winnerrow,
onde se tornaram respeitados e invejados. Eu... eu no resisti  tentao de ver-te e saber mais coisas a teu respeito.
E continuou:
- Muitas vezes brinquei com a ideia de aparecer por l, arriscando-me a ser pura e simplesmente expulso da vossa casa. At planeei ir at Winnerrow disfarado e
observar-te  distncia.
A maneira como ele pronunciara estas palavras fez-me pensar se, de facto, no o teria feito alguma vez.
- No imaginas o que foi, para mim, viver todos estes solitrios e ridos anos, sabendo apenas pormenores da tua vida e da da Heaven atravs de histrias - insistiu
ele.
Vi lgrimas nos seus olhos e percebi como estava a ser profundamente sincero. Durante todos aqueles anos, esperara que, ou eu, ou a mam, aparecssemos em Farthinggale.
Como ele tinha ansiado por esse momento. S consegui sentir pena do seu sofrimento desesperado.
- Oh, Annie, no julgues que eu no daria tudo o que tenho para poder voltar atrs no tempo e mudar tudo o que fiz, mas no pude. Por favor... Por favor, no me
odeies por isso. D-me a oportunidade de corrigir o meu erro ao ajudar-te a ficar boa e completamente restabelecida.
190
Tomou as minhas mos entre as suas, e os seus olhos imploravam, suplicavam para que eu o aceitasse. Desviei o olhar e respirei fundo. O meu corao martelava. Pensei
que seria capaz de desmaiar outra vez, se no voltasse j para a cama.
- Quero voltar para o meu quarto, Tony. Preciso de descansar e de pensar.
Abanou a cabea pensativa e resignadamente.
- Tambm no te censuro por me odiares.
- Eu no o odeio, Tony. Acredito que esteja arrependido pelo que fez, mas agora tambm compreendo por que razo a minha me ficava to triste quando se tocava no
nome do seu pai e porque ficava to aborrecida quando se falava de Farthinggale e se tocava no seu nome. O Luke morreu antes de haver uma oportunidade de ambos se
reconciliarem, depois de tantos anos de desavenas. Ao contrrio de si, Tony, o meu av nunca teve a hiptese de pedir perdo.
- Eu sei e esse facto vai acompanhar-me at ao inferno. Ao dizer isto, limpou uma lgrima do seu rosto. "Perdoa-me, mam", pensei, "mas neste momento no consigo
deixar de sentir pena dele tambm."
- Deixe-me descansar um pouco, Tony. O Drake vem visitar-me esta tarde, para trazer-me as coisas que eu queria de Winnerrow, no  verdade?
- Sim.
O Tony levantou-se e deu a volta por detrs da minha cadeira. Ouvi-o respirar fundo e suspirar. Depois, comeou a empurrar a minha cadeira para fora daqueles aposentos,
para fora do passado, de volta ao presente.
Depois de levar-me at ao quarto, Tony mandou Mrs. Broadfield imediatamente para cima, e ela ajudou-me a meter-me na cama.
- Volto j - disse ela, depois de eu estar instalada -, para comearmos o teu tratamento.
- Hoje no quero fazer tratamento - respondi.
- Claro que queres. No se pode falhar nem um dia. Temos de adquirir um ritmo de que o teu corpo aprenda a depender - explicou ela. - Agora, descansa um pouco que
eu j volto para fazermos os nossos exerccios. As tuas pernas precisam de uma massagem para obrigar o sangue a circular atravs dos msculos. No queres que as
tuas pernas apodream e caiam, pois no? - perguntou ela, sorrindo de novo, mas desta vez como se fosse uma bruxa perversa.
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Deu meia volta e depois saiu, antes que eu pudesse responder; contudo, aquela imagem grotesca ficou guardada na minha memria.
Quando ela voltou, tornei-me uma espcie de massa nas suas mos. Durante aquele instante em que esperei por ela, pensei na minha me, ao descobrir que o Tony tinha
subornado o seu pai, para este se manter afastado de si e do seu casamento. Lembrei-me de como os seus olhos costumavam ficar tristes e distantes sempre que falava
do av Luke. Como era triste que lhe tenham negado a oportunidade de falar com ele mais uma vez, de modo a poderem perdoar-se mutuamente.
No entanto, na minha opinio, a culpa no era inteiramente do Tony. Luke Casteel concordara com as condies impostas. Mostrara-se disposto a rejeitar a minha me
para ficar com o seu precioso circo. Quando a minha me descobriu a verdade, esse facto deve ter-lhe ocorrido, o que fez com que tudo se tornasse ainda mais insuportvel
de aguentar. Eu compreendia como ela devia estar furiosa. Uma vez que o av Luke j no estava vivo, fora forada a centrar toda a sua raiva apenas no Tony.
No entanto, quando eu imaginava o Tony tal como ele se havia descrito, solitrio naquela grande casa, arrependido do que fizera e incapaz de obter o perdo da minha
me, no conseguia deixar de sentir pena dele tambm. Talvez se a mam o tivesse visto naquele momento pudesse comover-se. Ela era uma pessoa demasiado compreensiva
e carinhosa para voltar as costas a uma alma perturbada.
Decidi que no queria partir da Manso Farthinggale. Ia dar ao Tony uma oportunidade de demonstrar o seu arrependimento. Partir seria castig-lo ainda mais, quem
sabe at empurr-lo para uma escolha semelhante  que o seu irmo Troy havia feito.
Todos esses pensamentos me atravessaram o esprito, enquanto Mrs. Broadfield massajava as minhas coxas e os meus msculos inertes. As sensaes de picadas fizeram-se
sentir mais fortemente, mas no lhe disse nada. Achei melhor esperar pelo mdico.
Ela levantava-me e voltava-me constantemente. Quando olhei para baixo, vi as suas mos fortes apertarem e esfregarem a minha carne, at que a pele plida ficou carmesim.
Quando os seus dedos chegaram s minhas ndegas, numa altura em que eu estava de barriga para baixo, senti-os... no senti nenhuma dor, apenas os senti. Aquela presso
chegava at a ser aborrecida.
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- Sinto os seus dedos, mas no sinto qualquer dor, Mistress Broadfield..- Ah, sim? Ela continuou a carregar ainda com mais fora.
- Sim. Isso no  importante?
- Pode ser. vou pr isso no meu relatrio. Continuou a esfregar sem parar.
- Ainda no chega? - perguntei por fim.
Voltou-se para mim, como se eu lhe tivesse batido, e puxou imediatamente a minha camisa de noite para baixo, de modo a cobrir-me as pernas at aos tornozelos. O
seu rosto estava vermelho devido ao esforo despendido, e os seus olhos pareciam to pequenos como os de um rato. Nesse preciso momento ouvimos vozes no corredor.
O Drake e o Tony aproximavam-se. Tapei-me apressadamente e encostei-me para saud-los. O Drake sorriu-me, radiante, quando me viu. Retribu-lhe o sorriso, mas o
meu era fugaz e apertado. Sabia que o Luke teria notado que algo me perturbava. O Drake nem se apercebeu.
- Ol, Annie.
Beijou-me no rosto e o Tony ficou atrs dele, aos ps da cama.
- Vim por causa da tua lista. Devia ter trazido um camio?
Riu-se e virou-se para o Tony, que j se tinha restabelecido por completo e voltado  sua usual postura distinta.
- No quero muita coisa, Drake. No vou ficar aqui para sempre - declarei.
Vi o Tony estremecer, e o Drake abanou a cabea com entusiasmo.
- Claro.  isso mesmo. Tens de ser optimista.
- Estou l em baixo - disse o Tony, de repente. - Fiquem  vontade por um momento.
- No vou demorar-me - respondeu o Drake. - Tenho que fazer.
- Aqui est a lista, Drake.
Retirei-a debaixo de uma das minhas almofadas. Guardara-a a, porque de vez em quando lembrava-me de mais qualquer coisa e no queria ter de incomodar Mrs. Broadfield
com pedidos interminveis de papel e caneta,
- Mistress Avery vai ajudar-te a encontrar tudo - disse-lhe eu.
Acenou com a cabea, ainda a examinar a lista.
- As duas pulseiras da sorte? So as nicas jias que queres?
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- No preciso de mais nenhumas, Drake. Para ir aonde?
- Sei l. Talvez haja uma altura em que precises de vestir um fato de cerimnia, ou qualquer outra coisa. Se eu vir mais alguma coisa que ache que possas querer,
trago.
Dobrou o papel e meteu-o no bolso interior do casaco. Finalmente, reparou na expresso perturbada dos meus olhos.
- Passa-se alguma coisa, no  verdade, Annie?
- Oh, Drake. Comecei a chorar.
- Annie, oh, Annie.
Sentou-se na cama e abraou-me o melhor que pde.
- Que se passa? J soubeste do Luke?
- O Luke? - Senti imediatamente um n na garganta.
- Que se passa com o Luke? Drake... dize-me.
O meu corao comeou a bater descompassado.
- Bem, eu ia contar-te, para que no te preocupasses e entendesses a razo por que ele ainda no te telefonou ou contactou, mas...
- O qu!
Formou-se uma sensao de terror na boca do meu estmago.
- Calma, Annie. No aconteceu nada de mal com ele. Depois de te ter visto ontem, achei melhor ir at Harvard para saber o que ele andava a fazer. Demorei um bocado
a localiz-lo. Encontrei-o na sala de recreio do alojamento... em grandes intimidades com uma colega.
O Drake desviou o olhar para que eu no lhe pudesse ler o resto dos pensamentos.
- Que queres dizer com isso, Drake? No compreendo. No consegui combater a fraqueza que me dominava. Era difcil falar, mas no queria que o Drake percebesse como
era difcil.
- Bem sei que ele arranjou uma namorada depressa de mais e, na verdade, estava bastante envolvido com ela.
- Uma namorada? Mas ele no perguntou por mim? indaguei, esperanada, quase como uma orao.
- Oh, sim, e depois prometeu que telefonava hoje ao Tony. Quando vnhamos a subir a escada, perguntei-lhe sobre isso, mas... o Luke ainda no tinha telefonado. Suponho
que o far mais tarde. Ainda h pouco - acrescentou ele, olhando na direco da porta -, achei que o Tony pode ter mandado algum a Harvard para tentar descobrir
o Luke e, quem quer que l tenha ido, trouxe a mesma informao, a qual o Tony fazia meno de te comunicar.
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No.
Virei as costas. O meu corao parecia um pedao de cimento. O Luke, ocupado com uma outra namorada, esqueceu-se de mim? Tinha perdido o pap e a mam e, agora...
agora tambm estava prestes a perder o Luke? Isso no podia estar a acontecer; no podia ser verdade. "Se o Luke estava concentrado em outros assuntos, s podia
ser porque eu estava doente e longe dele", pensei. Quando eu recuperasse, ganhasse novas foras e voltasse, ele perderia o interesse pela sua colega. No podia conhecer
mais ningum que fosse capaz de partilhar as coisas com ele, como eu. Assim que conseguisse andar e ele voltasse a ver-me, as nossas vidas voltariam a ser como antes.
Eu rezava para que assim fosse. Estava resolvida que tinha de ser assim.
- Sei o que ests a pensar, Annie, mas no entendes como pode ser excitante, para uma pessoa como o Luke, que sempre viveu enfiado numa cidade insignificante, encontrar-se
de repente num lugar como Harvard e conhecer pessoas diferentes e muito mais sofisticadas. Ficou deslumbrado, tal como qualquer outra pessoa ficaria. No podes censur-lo
por isso - acrescentou o Drake.
Acenei com a cabea.
- Eu sei. S que... S que sinto muitas saudades dele. No podia dizer ao Drake como realmente me sentia, e
no queria que ele o percebesse nos meus olhos.
- Bem, se ele no telefonar nem aparecer em breve, eu prprio o arrastarei at aqui.
- Oh no, Drake. Ele tem de vir por si, por ser essa a sua vontade e no porque  uma obrigao. No quero que ele me ache um fardo!
Acho que isso seria o mais terrvel de tudo. Sentir-me como um fardo para ele, em vez de algum que ele amava e com quem queria estar.
- Claro. Desculpa - disse o Drake e desviou o olhar.
- Pobre Drake. No quis gritar contigo. Desculpa. Parecia que o Drake era tudo o que restava agora da minha famlia... O Drake e o Tony Tatterton.
- Oh, no faz mal. Mas agora dize-me, Annie: porque estavas to perturbada h pouco, se no era por causa do Luke?
- Ajuda-me a sentar, Drake - pedi.
Ele foi buscar a minha almofada de recosto e arranjou-a de modo a eu ficar confortvel. Depois, voltou a sentar-se na cama, ao meu lado.
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- Drake, obriguei o Tony a contar-me por que razo ele e a mam se zangaram.
O Drake abanou a cabea, com o olhar fixo e um ligeiro sorriso nos lbios.
- Eu sabia que... que acabarias por faz-lo. No h ningum que te demova, Annie. s muito parecida com a tua me. E ento? Que esqueleto terrvel desenterraste
dos armrios de Farthy?
Contei-lhe tudo, tentando ser justa com o Tony, ao explicar as razes que ele me tinha apresentado.  medida que eu falava, o rosto do Drake ia ficando mais sombrio.
Sombras profundas e escuras desenharam-se em redor dos seus olhos. Quando terminei, virou as costas e ficou em silncio durante um bom bocado.
- Claro - comeou ele -, no me lembro muito bem do meu pai. S tinha cinco anos quando ele e a minha me morreram, mas lembro-me de que tinha um brinquedo da Fbrica
Tatterton: uma linda bomba de incndio que a Heaven me oferecera e sempre que o meu pai me via a brincar com aquilo, ficava triste.
O Drake continuou a recordar.
- "Sabes quem te deu isso?", perguntava ele. "A Heaven", respondia eu. Claro que no me lembrava de quem ela era ou como era, mas aquele nome estava gravado na minha
memria, porque ele respondia sempre: "Sim, a Heaven, a tua irm." E depois sorria. No h dvida de que o Tony fez uma coisa horrvel, mas tens razo ao dizer que
a culpa tambm foi do meu pai, ao sacrificar a filha para poder ter o seu prprio circo. Acho que chegou a hora de perdoar ao Tony, Annie. Eu amava a Heaven quase
tanto como tu e no acho que ela nos iria odiar por isso.
As lgrimas que me escorriam pelas faces pareciam queimar-me. Limitei-me a concordar com um aceno de cabea. Ele limpou-me as lgrimas e abraou-me.
- E agora - disse ele, levantando-se rapidamente -,  melhor eu ir andando. Quero ver se estou de volta amanh ao fim do dia. Trago-te tudo pessoalmente.
- Por favor, manda cumprimentos meus a Mistress Avery, ao Roland e ao Gerald e, Drake... promete-me que no vais discutir com a tia Fanny. Promete-me, Drake.
- Est bem, eu prometo. vou fazer de conta que ela no est l, mesmo que esteja.
- E dize-lhe que pode vir visitar-me aqui em Farthy.
- Claro.
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Ele sorriu maliciosamente.
E no sejas desagradvel com o Luke.
Certo, meu general.
Fez-me uma continncia a brincar. Por favor, tem cuidado, Drake.
- vou ter, Annie. J no temos praticamente ningum. Agora somos quase s ns os dois.
- Oh, Drake.
Abraou-me e depois saiu. Apesar de as portas estarem abertas, foi como se ele as tivesse fechado e eu ficasse ali trancada. O silncio que se seguiu aos seus passos
era pesado e deprimente. Arrepiada, puxei o cobertor at ao pescoo e fiquei a olhar para o tecto alto.
"O Luke tem outra namorada", pensei e, apesar de tentar afastar essa imagem do meu pensamento, no fui capaz. Via-o, com uma linda estudante universitria, sentado
na cantina a conversar. Via-o passear pelas instalaes da faculdade com ela, de mos dadas e via-o beij-la e abra-la do modo como eu sempre sonhei que ele fosse,
um dia, abraar-me e beijar-me.
Tudo aquilo que eu amava estava a desaparecer. O mundo que eu sempre tinha conhecido e amado parecia consumir-se num fogo de dor e tragdia. Tudo tinha ficado carbonizado,
at as minhas preciosas magnlias. Eu era como uma avezinha, exausta de um longo voo, procurando desesperadamente um lugar seguro para pousar. Mas todos os ramos
tinham ardido.
Fechei os olhos e sonhei com o pap, com os braos estendidos, esperando acolher-me. Porm, quando me abraava, os seus braos eram feitos de ar.
- No! No! - gritei.
Acordei aos gritos e o Tony estava ao meu lado.
- Tive um pesadelo horrvel - ofeguei eu,  espera que ele quisesse que eu o contasse.
-  muito natural, Annie. - Sentou-se na minha cama e inclinou-se para a frente, de modo a poder afagar-me o cabelo. - Depois de tudo o que passaste. Mas, quando
acordares, vais estar sempre aqui, em segurana ao p de mim.
Continuava a acariciar-me docemente o cabelo,  medida que ia falando.
- Em breve, o mundo vai parecer-te mais animado e alegre. Tenho grandes planos para ti. H tantas coisas boas que quero fazer, mudanas que  preciso fazer. Esta
casa vai voltar a ter vida e tu vais ser o centro de tudo. Tal como uma princesa - acrescentou ele.
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Nesse momento, no consegui deixar de pensar no Luke e nas nossas fantasias. Essa recordao trouxe um sorriso ao meu rosto; um sorriso que o Tony atribuiu como
sendo mrito seu.
- Ests a ver, agora sentes-te melhor. V l - acrescentou, inclinando-se sobre a mesa-de-cabeceira para agarrar um dos meus sedativos. - Mistress Broadfield diz
que tens de tomar um destes.
Deu-me o comprimido e deitou um pouco de gua num copo. Tomei-o, obedientemente. Depois de voltar a colocar o copo em cima da mesa, curvou-se sobre mim e beijou-me
na testa.
- Agora fecha novamente os olhos e tenta ficar calma at adormeceres. - Levantou-se. - O sono, s por si, j  um remdio, sabias? - explicou ele, falando obviamente
de uma experincia pessoal. - Vejo-te mais tarde. J ests melhor agora?
- Sim, Tony.
- ptimo.
Fiquei a v-lo sair. Talvez tivesse sido um pouco mais tarde, ou at mesmo a meio da noite... J no conseguia distinguir, porque o sedativo tinha confundido e baralhado
a noo de tempo e lugar... Mas, fosse quando fosse, julguei ter aberto os olhos e visto,  entrada da minha porta, um vulto escuro, magro e encoberto pelas sombras.
Aproximou-se da minha cama, e, por alguma razo, no tive medo. Senti-o afagar o meu cabelo com ternura e depois inclinar-se para me beijar na testa. Isso fez-me
sentir segura e fechei os olhos. S voltei a abri-los quando acordei ao som da voz do Dr. Malisoff.

15 TAL COMO A MAM

- bom dia, Annie. Como te sentes?
O Dr. Malisoff sentou-se na cama e o Tony deixou-se ficar alguns passos atrs dele, parecendo um pai ansioso, balanando-se ora num p ora no outro, com as mos
apertadas atrs das costas. Mrs. Broadfield surgiu, apressada, vinda da saleta, com um instrumento para medir a tenso arterial e entregou-o ao mdico. Fiz um grande
esforo para sentar-me. Tinha dormido profundamente, mas no me sentia repousada, e a parte de baixo das costas estava rgida.
- Estou um pouco cansada - confessei.
Na verdade, sentia-me exausta, aniquilada, mas tambm queria que o mdico autorizasse os telefonemas e as visitas.
- Ha... ha.
Enrolou a braadeira de medir a tenso  volta do meu brao.
- Ela tem comido bem, Mistress Broadfield? - perguntou ele, desviando de mim os seus olhos de mdico. Pareciam pequenos microscpios focados no meu rosto.
- No to bem como eu gostaria, senhor doutor - respondeu Mrs. Broadfield, como uma garota na escola que faz queixa de outra.
O mdico assumiu uma expresso de censura e abanou a cabea.
- Ainda no tive muito apetite - defendi-me eu.
- Eu sei, mas tens de obrigar-te a recuperar as foras para a luta... Ests descontrada, Annie? No pareces muito.
Olhei de relance para o Tony, o qual desviou os olhos, sentindo alguma culpa.
- Estou a fazer o possvel.
- Ela no tem tido visitas, pois no? - perguntou o Dr. Malisoff a Mrs. Broadfield.
- Tenho tentado mant-la em sossego - afirmou, sem responder de facto  pergunta.
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Porque tomaria ela tudo como sendo to pessoal? Seria que ela tinha medo de ser despedida to rapidamente como a Millie?
- Entendo.
O mdico examinou as minhas pernas, testou os meus reflexos e sensaes; olhou dentro dos meus olhos com um pequeno instrumento com uma luz e depois abanou a cabea.
- Na prxima vez que vier visitar-te, quero ver mais progressos, Annie. Quero que te concentres mais na tua recuperao.
- Mas eu estou concentrada! - protestei. - Que mais posso fazer? No tenho telefone. As nicas coisas que posso fazer so ler e ver televiso. As nicas pessoas
que me tm visitado so o Tony, o Drake e o Rye Whiskey, o cozinheiro.
No pude evitar o tom agudo da minha voz.
- Eu sei que te encontras num estado emocional muito grave - declarou o mdico suavemente, sem dvida tentando manter-me calma -, mas a razo que te trouxe a esta
casa foi para que tivesses um ambiente sereno e que contribua para o teu restabelecimento.
- Mas que fiz eu de errado?
- O que precisamos agora  de uma atitude mental, Annie. A terapia, os medicamentos, nada disso vai resultar, a no ser que te esforces para isso. Pensa na tua sade.
Pensa em voltar a andar. Concentra-te apenas nisso e colabora inteiramente com Mistress Broadfield, est bem?
Acenei com a cabea e ele sorriu, com o seu bigode ruivo encaracolado nas pontas. No lhe contei sobre a dor e a sensao que tinha sentido nas pernas, porque havia
uma coisa muito importante a fazer, antes de pensar s em mim.
- Senhor doutor... - Levantei a parte superior do meu corpo, comprimindo as mos de encontro  cama. - Quero que me levem ao tmulo dos meus pais. J me sinto com
foras para isso e no posso concentrar-me em melhorar antes de l ir.
No era minha inteno parecer teimosa e petulante, mas acreditava que isso fosse verdade.
Ele contemplou-me pensativamente por um momento e depois olhou para o Tony. Vi a maneira como os seus olhares se cruzaram e detectei um ligeiro aceno de cabea no
mdico.
- Muito bem - disse ele. - Descansas mais um dia, e depois Mister Tatterton vai tratar de tudo, mas quero que te tragam logo para c e que tomes um sedativo em seguida
-
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ordenou o mdico, depois de voltar a lanar um olhar ao
Tony.
Obrigada, senhor doutor.
E v se fazes um esforo para comeres. Ficarias surpreendida se soubesses de quanta energia precisa um corpo em convalescena.
vou tentar.
Na prxima semana, Annie, quero ver esses dedos dos ps a mexer e quero que te rias das ccegas que sentires quando te mexer nos ps, percebeste?
Apontou-me o seu dedo indicador, como um pai que castiga a filha.
- Sim.
Sorri e deitei-me. Ele saudou-me e depois saiu juntamente com Mrs. Broadfield e o Tony. Ouvi os trs falarem baixinho sobre mim,  porta do quarto. Conferenciaram
durante tanto tempo que at pensei que eles iam levar-me de novo para o hospital. O Tony foi o primeiro a regressar. Dirigiu-se directamente  minha cama e tomou
a minha mo entre as suas.
- Estou zangado comigo mesmo - explicou. - Sinto-me bastante responsvel pelo fraco parecer do mdico. Ontem no deveria ter deixado que me convencesses a contar-te
aquelas histrias tristes e trgicas nos antigos aposentos dos teus pais.
- No se culpe - insisti.
No entanto, agora estava com medo de que eles os trs tivessem mudado de opinio sobre a cerimnia do dia seguinte ao estarem a conferenciar ali na minha saleta.
- Tony, sempre vai levar-me ao tmulo dos meus pais amanh?
- Como o mdico aprovou, claro que sim. vou comear j a tratar de todos os preparativos para o servio religioso.
- Vai convidar o Drake e o Luke? Quero que eles estejam l comigo.
- vou fazer os possveis. O Drake deve voltar hoje de Winnerrow, pela hora do jantar - informou, sorrindo.
- O Luke... No sei se...
- Mas, Tony, no deve ter muita dificuldade em encontrar o Luke - exclamei.
Como podia ele insinuar uma coisa daquelas. E, contudo, se o Luke estivesse ocupado com... com alguma nova amiga? No seria possvel entrar em contacto com ele e
dar-lhe-iam o recado tarde de mais. Eu queria-o perto de mim. Precisava dele.
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- O Drake... No teve qualquer dificuldade em encontr-lo...
- No me parece que haja problema - replicou o Tony.
- A minha secretria vai j tratar disso.
- Obrigada, Tony. Obrigada.
Continuou a agarrar-me na mo, mesmo quando eu me recostei na almofada. Fechei os olhos. At mesmo aquela ligeira excitao me fazia sentir fraca e cansada. Achei
que se calhar eles tinham razo em querer proteger-me. Estava a pensar que ia descansar mais um pouco; porm, Mrs. Broadfield nem me deixou dormir.
- Est na hora de ela se levantar e tomar o pequeno-almoo - declarou ela para o Tony.
Ele concordou com um aceno de cabea e largou a minha mo.
- Volto no princpio da tarde. Espero que passes uma boa manh.
A minha manh foi igual ao que sempre era, com a excepo de que naquele dia fizera um esforo para comer o pequeno-almoo at ao fim. No queria que Mrs. Broadfield
nem ningum arranjassem um pretexto para eu no ir ao tmulo dos meus pais no dia seguinte. E se o Tony conseguisse entrar em contacto com o Luke e ele viesse? No
poderia deixar que cancelassem tudo, ou ento tambm ele j no viria ali. De certeza que o proibiriam de ver-me, se eu no estivesse em condies de assistir 
cerimnia religiosa junto ao tmulo dos meus pais. S a ideia de perder uma oportunidade de finalmente poder ver o Luke, dava-me uma estranha sensao de pnico.
Tive de acalmar-me antes que Mrs. Broadfield se apercebesse de alguma coisa.
Depois do pequeno-almoo, Mrs. Broadfield procedeu ao meu tratamento matinal. Senti os seus dedos percorrerem-me as pernas, mas no disse nada, com medo de que ela
usasse esse argumento para cancelar a cerimnia do dia seguinte. Engolia repetidamente em seco para disfarar qualquer dor que sentisse e fazia uma expresso o mais
indiferente possvel. Passei o resto da manh na cama, a ver televiso. O Tony voltou depois do almoo, refeio essa que tambm comi at ao fim.
- Falou com o Luke? - perguntei-lhe assim que ele entrou a porta.
- No, mas deixei recado no seu alojamento. Tenho a certeza de que ele ligar mais tarde, ou ento vem directamente ter aqui amanh. Vai ser um velho amigo meu,
o reverendo
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Crter, que vai efectuar a cerimnia. Marquei-a para as duas horas.
Mas, Tony, devia ter continuado a insistir at falar com ele! Tente outra vez, por favor, Tony - supliquei.
- Eu tenho algum que vai continuar a tentar, se eu no conseguir. No te preocupes, minha querida. Por favor, no te aflijas com isso.
- Est bem - prometi.
O Tony parecia surpreendentemente falador. O facto devia-se, quase de certeza,  minha deciso de no partir, aps a sua confisso.
- Se calhar ests preocupada com o que vais vestir amanh, no  verdade? - perguntou ele, ignorando, por completo o meu ar de preocupao.
- O que vestir?
- No podias ter mais e melhor por onde escolher continuou ele e abriu a porta do armrio, o qual continha imensos fatos. - H aqui tanta coisa... A Heaven nem teve
ocasio de usar tudo isto. E o mais maravilhoso  que tudo te serve!
"Claro - continuou ele, tirando um vestido de uma das prateleiras -, algumas destas coisas eram as suas preferidas. Lembro-me de que, uma vez, usou este vestido
para ir a um funeral.
Segurou um vestido preto de algodo, de mangas e saia compridas, e depois afagou-o carinhosamente, como se ainda a estivesse a ver vestida com ele.
Em seguida, virou-se para mim, com aquela expresso distante nos olhos, como se estivesse a recordar alguma coisa.
- Toda a gente olhou hipnotizada para ela, quando a Heaven entrou na igreja e desceu a nave lateral. At o reverendo Crter estava deslumbrado. Pude v-lo perguntar
a si prprio: "Ser que entrou um anjo na igreja para assistir  cerimnia religiosa?" - O Tony riu-se e abanou a cabea.
- Tal como  sua me, o preto realava-lhe a beleza. Sorriu. - Tenho a certeza de que vai acontecer o mesmo contigo.
- No estou preocupada com o meu aspecto, Tony. No vou fazer isto por causa das outras pessoas.
- Oh, eu sei, mas honras a memria da tua me e da tua av se usares esse fato.
Ps o vestido em cima da cama e afastou-se um pouco, com um olhar hipnotizado, fixo no vestido. Depois, olhou para mim.
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- Sabes, Annie, se pintasses o teu cabelo de louro-prateado, serias a imagem perfeita da tua av.
Olhou em volta rapidamente e fixou o olhar numa das molduras de prata que havia em cima da mesa de toilette.
- Espera. vou mostrar-te o que quero dizer. - Foi buscar a fotografia e trouxe-ma. - Vs?
Era uma fotografia da minha av Leigh, quando ela tinha mais ou menos a minha idade, e tive de admitir que a semelhana entre ns era enorme e tambm seria maior
se eu tivesse o cabelo mais claro.
- No vais sequer pensar em fazer o que te pedi? S por brincadeira. Quem sabe se no te divertes um pouco enquanto ests to limitada a este quarto... Mando chamar
o melhor cabeleireiro das redondezas para vir c fazer isso. Que me dizes?
- Pintar o meu cabelo de louro-prateado? Tony, no est a falar a srio, pois no?
- O mais possvel. No podia falar mais a srio. Imagina a surpresa de todos os que viessem visitar-te.
- No sei.
Quase me ri, mas depois olhei para a fotografia da minha av. Havia algo de fascinante no seu rosto... Os olhos, o nariz e o queixo eram muito parecidos com os da
mam e com os meus tambm. Perguntei a mim prpria se teria sido por isso que a mam pintara o cabelo.
- Tambm h muitas fotografias da tua me quando ela tinha o cabelo claro - disse o Tony, como se adivinhasse o que eu estava a pensar.
Trouxe-me outra moldura de prata. Era uma fotografia da mam quando ela e o pap haviam chegado ali, depois do seu casamento. Estavam l em baixo, na praia privativa.
Coloquei as duas fotografias lado a lado.
- Interessante, no achas?
- Sim.
- Quando queres que te mande o cabeleireiro?
- Tony, eu no disse que ia faz-lo. No sei...
- Repara como a tua av e a tua me ficavam lindas com o cabelo claro. Que te parece?
Os seus olhos ardiam de excitao.
- No sei. Talvez...
- Todo este tratamento, os remdios e a solido podem ser muito aborrecidos. - Olhou em volta. - Oh, deixa-me fazer isso - implorou o Tony. - Deixa-me contratar
o cabeleireiro. Deves sentir-te bonita. Deves sentir-te outra vez como uma linda jovem e no como uma invlida.
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Sorri com a sua exuberncia. Seria agradvel sentir-me bonita de novo. Olhei para as fotografias. Calculei que ter a mesma cor de cabelo que a minha me usava quando
tinha a minha idade me faria voltar a sentir junto dela. Parecia estar to feliz ali na praia. E a minha av Leigh tinha qualquer coisa de selvagem e bonito na sua
aparncia. O cabelo claro ficava bem com o seu tom de pele, mas... ficaria bem com o meu?
Ento? Que me dizes? - persistiu ele, curvando-se sobre mim na expectativa.
- Oh, Tony, realmente no sei. Nunca pensei em pintar o meu cabelo de outra cor. O resultado pode ser pavoroso.
- Se no te ficar bem, volto a trazer o cabeleireiro para pr o teu cabelo na cor original.
- Talvez depois da cerimnia religiosa, Tony. No quero preocupar-me muito comigo neste momento. Obrigada.
Devolvi-lhe as fotografias. Ele ficou desiludido, mas acenou com a cabea em sinal de compreenso.
- E quanto a este vestido?
- O Drake deve trazer-me algo apropriado. Inclu na lista um vestido preto dos meus.
- Mas no vais, ao menos, experiment-lo?
Percebi o quanto isso era importante para o Tony e comecei a imaginar como eu ficaria com ele vestido.
- Eu experimento.
- vou j mandar Mistress Broadfield ajudar-te. Depois de o vestires, chama-me - acrescentou ele, saindo a correr, antes que eu tivesse tempo de dizer alguma coisa.
A minha inteno no era dizer que experimentaria o vestido j. Contudo, ele parecia ter ficado to excitado como uma criana na manh do dia de Natal. No fui capaz
de negar-lhe esse prazer. Passado pouco tempo apareceu Mrs. Broadfield. No parecia muito satisfeita.
- Se estiver ocupada com alguma coisa, no  preciso fazermos isso agora, Mistress Broadfield.
- Se estivesse ocupada, no estaria aqui.
Pegou no vestido que estava em cima da cama e olhou para ele durante um momento. Depois, encolheu os ombros e deu a volta  cama, para ajudar-me a sentar e a despir
a camisa de noite. Aps ter-me enfiado o vestido, ajudou-me a sentar na cadeira de rodas, para que eu pudesse olhar-me no enorme espelho de parede.
Uma vez que eu estava sentada, era difcil dizer ao certo como me ficava aquele vestido. Contudo, achei que me fazia
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parecer mais velha. Desde o acidente que eu no me tinha preocupado muito em arranjar o cabelo, e agora que vestia outra coisa para alm da camisa de dormir tive
maior conscincia de como estava com um aspecto horroroso. O meu cabelo tinha um ar sujo, peganhento e oleoso. O vestido preto realava a palidez do meu rosto e
a fadiga nos meus olhos. Quando me vi ao espelho, quase desatei a chorar.
Mrs. Broadfield desviou-se para o lado, com os braos cruzados, a observar-me como uma aborrecida empregada de uma loja. Ajudar-me a experimentar um vestido... Certamente
que no fazia parte daquilo que ela considerava como sendo os seus deveres de enfermeira. No ouvi o Tony quando ele entrou novamente no meu quarto. Ficou apenas
 entrada da porta a contemplar-me. Passado um momento, senti os seus olhos pousados em mim e virei-me para ele. O seu rosto estava extasiado e contorcido num estranho
sorriso que, ultimamente, eu lhe via com uma frequncia cada vez maior. Mrs. Broadfield no disse nada, simplesmente saiu do quarto.
- Oh, Tony, tenho um aspecto horrvel e nem me apercebi disso. O meu cabelo est um nojo. Ningum me disse nada, nem o Drake, nem o Tony, nem os criados, nem ningum.
- Ests linda. Tens uma beleza que no desaparece, nem com o tempo, nem com a doena. Ela  imortal. Eu sabia que este era o vestido certo para ti. Eu sabia! Vais
us-lo, no vais?
- No sei, Tony. No gosto de me ver com nada. Por isso, julgo que no vai fazer grande diferena.
- Claro que faz diferena. Tenho a certeza de que a tua me est a sorrir l do cu e a pensar como a sua filha se tornou to bonita.
- Mas o meu cabelo - repeti, levantando uma madeixa isolada para depois deix-la cair com nojo.
- Eu disse-te... Deixa-me mandar buscar j o cabeleireiro. Repara como te sentes mal com o teu aspecto. Eu no sou mdico, mas sei que, se no nos sentirmos bem
connosco, no podemos melhorar. Na verdade, podemos at adoecer cada vez mais.
Como ele era persistente! No entanto, aquilo que dizia... fazia sentido. Estava errada ao preocupar-me com o meu aspecto numa altura como aquela? Nesse momento,
o Tony disse uma coisa que me convenceu.
- O Luke ainda no te viu desde que saste do hospital.
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Tenho a certeza de que ele est  espera de ver que melhoraste um pouco.
Pensei no Luke, rodeado por belas adolescentes; raparigas saudveis e felizes, que podiam andar, rir e fazer com ele coisas divertidas. Talvez ele tivesse adiado
visitar-me por no conseguir suportar ver-me naquele estado. Mas eu surpreend-lo-ia; pareceria mais forte, melhor, e estaria realmente melhor.
- Est bem, Tony, mande chamar o cabeleireiro, mas no estou a dizer com isto que vou deixar que ele me pinte j o cabelo. Acho que, por hoje, s quero lav-lo e
arranj-lo.
- Como quiseres. - Recuou. - Como esse vestido te fica bem. Vais us-lo, no vais? Pois devias - disse ele, acenando a cabea, com olhos brilhantes -, j que ele
pertencia  tua me.
Mais uma vez pronunciara as palavras mgicas.
- Eu vou us-lo, Tony.
- ptimo. Bem, agora tenho de tratar de uns assuntos. Esse cabeleireiro vem c, nem que para isso eu tenha de ir busc-lo pessoalmente. - Aproximou-se de mim. -
Obrigado, Annie, por me teres dado uma oportunidade, depois de tudo o que te contei. s, na verdade, uma pessoa doce e maravilhosa. - Beijou-me com suavidade no
rosto. - At j!
Saiu apressadamente.
Durante um longo momento, limitei-me a ficar sentada a olhar-me no espelho de parede. Em Winnerrow, a mam tinha vrios vestidos pretos e julgo que um deles era
at muito semelhante quele. Talvez fosse por isso que, quando olhei para o espelho, senti como se a alma dela se tivesse fundido com a minha. Vi os seus olhos nos
meus olhos; o sorriso que ela costumava mostrar, era agora o meu. Era como focar uma mquina fotogrfica, centrar a imagem, para que a fotografia ficasse ntida
e explcita.
O meu corao batia descompassado com a dor que sentia ao perceber que ela nunca mais viria para o p de mim, enquanto eu me arranjava para alguma festa ou para
ir para a escola; nunca mais ia sentir a sua mo afagar os meus ombros ou o meu cabelo; nunca mais me daria um conselho ou um beijo no rosto. Usar aquele vestido
e ficar cada vez mais parecida com ela apenas serviu para reavivar essa verdade dolorida com maior intensidade.
Afastei a cadeira de rodas do espelho e dirigi-me  mesa de toilette para ir buscar um leno de papel. Enquanto enxugava os olhos, olhei para as outras fotografias.
E houve uma
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em especial que me chamou a ateno. Era uma fotografia da mam a fazer uma pose ridcula ao p dos estbulos. Talvez tivesse sido o pap a tir-la; mas o que chamou
a minha ateno foi o Tony, que se encontrava num plano secundrio. Estava a olhar para ela com aquela mesma expresso com que olhava para mim e com aquele sorriso
contorcido.
Examinei-a por alguns momentos e depois olhei para algumas das outras fotografias. De entre elas, sobressaa uma da minha av Leigh. Pu-la ao lado da da minha me,
aquela junto aos estbulos, e percebi o que havia de significativo nas duas fotografias. A minha av tambm estava nos estbulos; estava a fazer uma pose semelhante
 da minha me e usava a mesma roupa de montar. Quando pnhamos as duas fotografias ao lado uma da outra, a minha me e a minha av pareciam duas irms.
Talvez fosse essa a razo daquele sorriso do Tony. Tambm deveria ter-me feito sorrir, mas no fez.
- Vais tirar esse vestido, ou queres ficar o dia todo com ele? - perguntou Mrs. Broadfield rispidamente.
Virei-me para trs e vi-a de p  entrada da porta, com as mos na cintura. Acho que, se ela estava contrariada com as ordens do Tony, no deveria descarregar em
cima de mim. Levantei a cabea orgulhosamente e os meus olhos lanavam fascas. J no estava disposta a continuar a representar aquele papel de humilde e desamparada,
e adoptei uma atitude agressiva.
- Claro que no - respondi. - vou despi-lo e p-lo de lado para vestir amanh.
Os olhos dela arregalaram-se de espanto com o tom da minha voz e deixou descair as mos da cintura.
- Muito bem. De qualquer modo, est na hora do teu tratamento de hidromassagem.
Dirigiu-se  casa de banho para preparar o banho de gua quente. Dessa vez, quando ela me meteu l dentro, pareceu-me que a gua estava simplesmente a escaldar.
Gritei de dor; ela no ficou nada preocupada. Comecei a ver a minha pele a ficar muito vermelha debaixo de gua. Sustive a respirao e tentei levantar-me, mas ela
empurrou-me para baixo, pelos ombros, mantendo-me imersa naquela gua a ferver.
- Tens de desenvolver uma tolerncia ao calor - explicou ela, depois de eu ter protestado mais uma vez.
Em seguida, ligou os jactos que faziam a gua borbulhar e agitar-se. Gotas de gua quente saltavam-me para os seios e para o pescoo; algumas delas chegavam-me 
cara e at
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picavam. Deixou-me ali, agarrada aos lados da banheira, enquanto foi preparar os cremes para a massagem. olhei para baixo, para as minhas pernas e para os meus ps
e fiz o que o mdico me aconselhara: pensar na recuperao... recuperao... recuperao. Tinha de sair daquela situao o mais depressa possvel. Olhei para os
dedos dos ps e pensei em tentar mex-los. De repente, vi o dedo grande estremecer.
Mistress Broadfield]
Ela no respondeu, pensando que eu queria sair da gua quente.
- Mistress Broadfield, venha c ver - gritei. Depois de eu ter gritado outra vez, veio ver o que se passava.
- J te disse. Tens de...
- No, no,  o dedo grande do meu p. O dedo grande do meu p direito mexeu-se.
Olhou para baixo, para dentro de gua.
- Mexe-o outra vez.
Tentei, mas no aconteceu nada.
- Mas ele mexeu. Eu vi. Juro que vi! Ela abanou a cabea.
- O que tu viste foi a ondulao da gua. Isso fez-te ter a impresso de que o dedo do p se mexeu.
- No, ele mexeu mesmo. Juro.
- Ha... ha. Muito bem.
Rodou nos calcanhares e afastou-se para preparar a minha massagem.
Sentindo-me desanimada e exausta com o calor e o esforo, encostei a cabea, fechei os olhos e esperei que ela decidisse quanto ao final do banho. Por fim, regressou
e ajudou-me a sair da banheira, A minha pele estava to vermelha como se eu tivesse adormecido na praia, em pleno ms de Julho, e sentia-me to mole como massa que
cozeu tempo de mais. Deitou-me de barriga para baixo nas toalhas, em cima da cama. Fechei os olhos enquanto ela exercitava as suas mos fortes no meu corpo, comeando
na minha nuca e descrevendo crculos suaves ao longo das costas e das ndegas.
De repente, abri os olhos, quando ouvi a voz do Tony. "Meu Deus", pensei, "estou completamente nua em cima desta cama!" Tentei voltar-me para puxar uma toalha e
tapar-me, mas no consegui mexer-me com a rapidez suficiente, e Mrs. Broadfield tambm no fez muito para ajudar-me.
- Desculpa...
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Apenas consegui v-lo pelo canto do meu olho direito
- S passei por aqui para dizer que o cabeleireiro vem s trs horas. Desculpa - disse outra vez e saiu.
- Mistress Broadfield, porque no fechou a porta quando comeou a fazer isto? - perguntei.
- Isso  o que me preocupa menos.
- Mas no a mim. Ainda me resta algum pudor, no sei se sabe. O Tony  um homem.
- Eu sei muito bem o que Mister Tatterton ! Muito obrigada pela informao. Desculpa... - Arrependeu-se passado um bocado. - Para a prxima vez vou certificar-me
de que fechei a porta.
- Faa isso, por favor.
Mesmo depois de ela me ter esfregado com o creme e de me ter vestido uma camisa de noite lavada, a minha pele ainda latejava com a temperatura da gua do banho.
S depois de ter acordado, aps uma curta sesta, senti algum alvio. Mrs. Broadfield trouxe-me um sumo, e um pouco mais tarde voltou para dizer-me que o cabeleireiro
tinha chegado. Ajudou-me a sentar na cadeira de rodas, no momento em que o Tony chegou, acompanhado pelo cabeleireiro. Era um homem alto e magro, de cabelo louro
encaracolado e sobrancelhas to finas, que eram praticamente invisveis. Tinha uma pele muito clara e os lbios de um rosa-vivo. Pensei que qualquer mulher era capaz
de vender a alma para ter uns suaves olhos verdes como os dele.
O Tony apresentou-o como sendo Ren e imediatamente acrescentou que ele era francs. No entanto, tive a impresso de que ele apenas teria razes francesas, mas nascera
ali, na Amrica. O seu sotaque pareceu-me algo artificial e propositado, algo que talvez ele tornasse um pouco afectado para impressionar os seus clientes. Depois
de terminar o trabalho, provavelmente falava como qualquer outro americano.
- Ah, mademoiselle.
Recuou um pouco e inclinou a cabea, primeiro para a direita e depois para a esquerda, abanando-a enquanto deliberava o que fazer com o meu cabelo. Deu um passo
em frente e pegou nas madeixas do meu cabelo, agitando-as na palma da sua mo e abanando a cabea.
- Abundante e grosso - disse ele -, mas infelizmente descuidado, n'est-ce pas?
Voltou-se para o Tony como que a obter uma confirmao e o Tony concordou um um aceno de cabea.
- No se preocupe, mademoiselle. O Ren vai fazer funcionar
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a sua magia. Em pouco tempo vou fazer um milagre,
certo?
- S quero lav-lo e arranj-lo - disse eu.
Pardonnez-moil - Olhou para o Tony. - Mas eu
pensei... a cor.
- O Ren  um especialista, Annie. Ouve primeiro a sua opinio.
- Iria animar beaucoup o seu rosto, mademoiselle afirmou ele, afastando-se para olhar-me de novo. - Nada difcil - - Sacudiu a cabea, convencendo-se a si prprio.
- Entregue-se nas minhas mos, mademoiselle.
Esticou as palmas das mos, como se eu pudesse ver algo de invulgar nos seus dedos finos e suaves.
Mirei-me no espelho de parede,  minha direita. "Talvez eu devesse entregar-me nas mos deste persumvel especialista em beleza", pensei.
- Muito bem, faa o que achar que deve.
- Trs bien.
Esfregou as mos. O Tony estava radiante. Fechei os olhos-, encostei-me na cadeira enquanto ele me conduzia ao lavatrio e o cabeleireiro dava incio ao seu trabalho.
Ao olhar para o espelho, vi o rosto da mam em lugar do meu. A mudana na cor do cabelo tinha tido um efeito mgico: transformou-me no mesmo rosto que me contemplava
atravs de todos aqueles retratos antigos. Foi como se o cabeleireiro tivesse sido uma espcie de ilusionista, fazendo-me recuar no tempo, fazendo o que eu sabia
ser o que o Tony desejava que acontecesse: recuar nos anos at aos tempos em que ele era a pessoa mais feliz de Farthy. O meu rosto tinha um novo ar. Ren havia
pintado o meu cabelo de um louro-prateado e tinha-o arranjado como o que a mam usava naquela fotografia junto aos estbulos. Na verdade, antes de retirar-se, o
Tony tinha-lhe dado a fotografia para ele se guiar no seu trabalho.
Perguntei a mim prpria como o Luke iria reagir. Ele tinha visto as fotografias antigas da mam e sempre me dissera que achava que ela tinha uma beleza estonteante.
Sentiria ele a mesma coisa quando me visse? E depois, quando estivssemos sozinhos, iria ele pegar na minha mo e sussurrar-me os seus verdadeiros sentimentos? Na
minha imaginao carinhosa e acolhedora, eu conseguia ouvir as suas palavras:
"Annie, quando te vi pela primeira vez, com o cabelo igual ao da tua me, soube que, por maior que fosse a proibio,
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tinha de exprimir-te os meus verdadeiros sentimentos. Era preciso que soubesses como  intenso o meu amor por ti. Oh, Annie, no posso neg-lo. No posso."
Pronunciei na minha mente, vezes sem conta, aquelas palavras que eu tanto desejava ouvir e depois abri os olhos e mirei-me no espelho novamente. Se ao menos mudar
a cor do meu cabelo pudesse contribuir para tudo isso...
- Annie, s tu?
O Drake entrou no quarto trazendo duas malas cheias com roupa minha e sapatos. Pousou-as aos ps da cama e ficou a olhar para mim, com um sorriso estranho. Larguei
o espelho de mo e examinei o seu rosto de perto, para ver a sua autntica reaco.
- Achas que pareo ridcula?
- No, ridcula no, apenas... diferente. Lembras-me algum.
- A minha me, quando ela te foi buscar pela primeira vez - recordei eu.
- Sim.
Os seus olhos iluminaram-se com a recordao.
- Sim - repetiu ele com excitao. - Exactamente. Olha, fica-te muito bem.
E como se ele se tivesse finalmente convencido de que era de facto eu, avanou e veio dar-me um beijo.
- A srio. Gosto de ver-te assim.
- No sei. Sinto-me... to diferente. E, contudo, no posso acreditar que a mam se sentisse realmente bem com esta cor de cabelo.  como se eu estivesse a fazer-me
passar por algum que no sou. De certeza que ela deve ter-se sentido do mesmo modo.
O Drake encolheu os ombros.
- Mudou logo o cabelo assim que ela e o Logan voltaram para Winnerrow e compraram a Casa Hasbrouck. Talvez tenhas razo.
- O Tony convenceu-me de que assim voltaria a sentir-me como uma jovem. Estava a ficar muito deprimida com o meu aspecto. Mas j chega de falar de mim. Conta-me
sobre a tua viagem a Winnerrow. Quem encontraste l? Que disseram os criados? Como estava a casa e a tia Fanny?
- Ena... Calma.
Ele riu-se. Mordi o lbio para me manter calada e recostei-me com impacincia.
- Ento, vejamos... Winnerrow. Fingiu que estava a tentar lembrar-se.
212
- Ora, no me arrelies, Drake. No sabes o que  estar aqui encerrada.
O seu sorriso diablico evaporou-se instantaneamente e seus olhos tornaram-se suaves e carinhosos.
- Pobre Annie. Estou a ser cruel. Prometo que virei aqui mais vezes para levar-te a passear por a. Mas, voltando a Winnerrow. Assim que entrei na casa, os criados
quase me atropelaram ao quererem saber de ti. Mistress Avery comeou logo a chorar, claro; at mesmo o Roland estava quase a chorar. O Gerald foi o nico que conseguiu
manter o lbio superior rgido, mas isso  porque...
- O seu lbio superior  rgido - disse em coro com ele. Tratava-se de uma piada que ns fazamos nas costas do Gerald.
- Oh, tenho saudades deles... de todos eles.
- Vi alguns dos teus amigos da escola, no centro comercial. Estavam todos ansiosos por saber notcias tuas e todos eles mandaram saudades.
- E a tia Fanny? Que tal estava a tia Fanny?
- Bem... - Abanou a cabea. - Estava esquisita... Encontrei-a sentada a ler. Sim, a ler. E estava vestida de uma maneira bastante conservadora, com uma blusa branca
de algodo, de manga comprida, e uma saia comprida e larga. Tinha o cabelo escovado a direito e apanhado atrs. Na verdade, nem a reconheci e perguntei ao Gerald
quem era a pessoa sentada no terrao.
- No terrao!
- Sim.
- A ler? O qu?
- Ouve bem isto: Emily Post. Quando me aproximei, olhou para cima e disse: "Oh, Drake, que bom ver-te." Estendeu-me a mo e no me deixou larg-la at que a beijei
no rosto. Acho que foi a primeira vez que lhe dei um beijo. Na verdade, at tive uma conversa quase inteligente com a Fanny. A morte dos teus pais teve nela um efeito
dramtico. Est determinada a melhorar a sua imagem. Diz ela que... Como foi que ela disse? Ah! Tem de prestar um tributo  memria da Heaven. Imaginas uma coisa
destas? No entanto, tenho de atribuir-lhe algum mrito. A casa estava imaculada e, pelo que os criados me disseram, ela no tem andado por a a cirandar com nenhum
dos seus jovens namorados. Na realidade, tem vivido como uma freira.
- Perguntou por mim?
- Claro.
213
- Ela vem visitar-me?
- Ela queria vir, mas tive medo de fazer alguma coisa sem que o Tony me dissesse que o mdico autorizava.
- Mas ela  minha tia. No posso ser mantida como uma prisioneira numa cela solitria!
Lamuriei-me, talvez com demasiada nfase. O Drake, coitado, parecia ter ficado completamente arrasado com a minha exploso.
- Desculpa, Drake. A culpa no  tua. Tenho a certeza de que s fizeste o que achaste correcto.
- De qualquer maneira, Annie, esta situao no pode durar muito mais tempo. J ests com muito melhor aspecto. Agora que j me acostumei mais a ver-te assim, acho
que esse penteado te favorece. Quando entrei por aquela porta, julguei que o Tony tinha posto uma artista de cinema de quinta categoria neste quarto, durante a minha
ausncia.
- Oh, Drake.
- No, ests bastante melhor do que quando eu vim aqui pela ltima vez. Estou a falar a srio.
- Espero que tenhas razo, Drake.
Olhei para baixo e depois lembrei-me da cerimnia religiosa do dia seguinte.
- Falaste com o Tony antes de subires? Ele contou-te sobre a cerimnia de amanh?
- Sim, claro. vou estar ao teu lado.
- E o Luke? O Luke j telefonou? - perguntei, esperanosa.
- Ests a dizer-me que ainda no telefonou? - O Drake abanou a cabea. - Ele disse  Fanny que ia telefonar. O grande egosta...
- Oh, Drake, no acredito que o Luke seja capaz de uma coisa dessas. Por favor, telefona-lhe tu. O Tony falou para o alojamento e deixou recado e instrues sobre
a cerimnia religiosa de amanh, mas certifica-te de que o Luke recebe o recado, est bem? Talvez algum no alojamento lhe esteja a pregar uma partida e a esconder
os recados - acrescentei, desesperada.
E se aquilo que o Drake estava a insinuar fosse verdade? Era um facto que as pessoas mudavam quando saam de casa. Talvez todas as presses e sofrimentos da sua
vida em Winnerrow houvessem finalmente prevalecido... Talvez se tivesse decidido a abandonar os laos que o prendiam quela vida, incluindo eu!
Pedi a Deus para que isso no acontecesse. O mundo no podia ser assim to cruel.
214
- Claro. vou tentar entrar em contacto com ele mais tarde. Bem - prosseguiu levantando-se e dirigindo-se s malas. eaqui esto as coisas que querias.
J no tenho criada para ajudar-me a arrumar as coisas. O Tony despediu a Millie.
- J soube. No h problema. Eu penduro-te as coisas. Ao dizer isto foi arranjar espao no armrio para guardar aquilo que trouxera.
- Olha para isto. Estas coisas eram todas da Heaven?
- E da minha av Leigh, tambm, O Tony no deitou nada fora.
- Algumas destas coisas parecem novas.
- Eu sei. Amanh vou usar um dos vestidos da minha me: aquele preto que a Florence Farthinggale1 deixou pendurado naquele canto.
- Florence Farthinggale? - Riu-se. - Essa  boa. Pelos vistos, vocs no formam aquilo a que se pode chamar uma calorosa relao doente-enfermeira, pois no?
- Desde que eu me comporte como uma massa de barro, damo-nos perfeitamente - trocei, com sarcasmo, e ele riu-se outra vez. - Seja como for, esse foi o vestido que
o Tony escolheu.
- No me digas!
Olhou rapidamente para o vestido e, em seguida, terminou de pendurar os meus fatos. Depois de ter acabado, voltou para o p da minha cama e sentou-se ao meu lado.
Vasculhou nos bolsos e tirou as duas pulseiras da sorte.
- Aqui esto elas.
- Oh, obrigada, Drake.
- E como vais us-las? As duas no mesmo pulso?
- vou altern-las. Nos dias em que o Luke vier, uso a que ele me deu - afirmei eu, e passei as pontas dos dedos suavemente sobre ela, como se estivesse a fazer esse
gesto, passando os dedos pelo rosto do Luke.
- Sempre a mesma diplomata. - O Drake sorriu. - No faz mal. Eu no me importo. - Fitou-me com uns olhos mais intensos do que nunca. - Quando olho para ti agora,
realmente parece que estou a ver a Heaven. Vejo o rosto carinhoso e afectuoso que se encostava ao meu, quando eu era
1 Trocadilho com o nome de Florence Nightinggale, enfermeira inglesa do sculo xix, que revolucionou o conceito de enfermagem, melhorando a sua imagem e a noo
do seu desempenho em relao aos doentes. (N. da T.)
215
pequeno, tinha medo e me sentia sozinho e, abandonado. Vejo o amor daqueles olhos azuis, que me davam conforto sempre que mais precisava. Nunca te disse como me
sinto bem quando estou contigo, Annie.
- Serei sempre tua amiga, Drake. Afinal de contas, sou tua sobrinha.
Recordar-lhe o nosso parentesco f-lo estremecer.
- Eu sei.
Curvou-se e beijou-me o rosto, demorando-se a faz-lo como o Tony tantas vezes fazia. Depois endireitou-se.
- bom,  melhor ir andando. Tenho de adiantar uns assuntos no escritrio, para poder tirar a maior parte do dia de folga amanh.
Levantou-se.
- Drake, no te esqueas do Luke - gritei.
- Certo. Oh, trouxe-te mais uma coisa - anunciou, procurando no bolso interior do casaco. - Achei que... algum dia, por qualquer razo, talvez quisesses vestir um
vestido de cerimnia. Quem sabe? O Tony pode querer dar uma festa quando estiveres totalmente recuperada e pronta para ires embora... Seja como for, trouxe isto
comigo.
Tirou do bolso o estojo negro que continha o colar de diamantes e os brincos a condizer, aqueles que haviam pertencido  minha bisav Jillian.
- Oh, Drake, no devias ter trazido isso.  demasiado valioso.
- E depois? Este lugar no  exactamente uma espelunca, e eu sabia o significado que o colar tem para ti. De certeza que s o facto de o teres perto de ti vai trazer-te
algum conforto... No vai? - perguntou ele, esperanoso.
Sorri e concordei com um aceno de cabea.
- Sim, acho que sim. Desculpa. Obrigada por pensares em mim, Drake. Sei que, s vezes, pareo egosta e incompreensiva.
- Oh, no, Annie, s a pessoa mais abnegada que eu conheo. Quando penso em ti, penso numa... pessoa pura e linda, como a luz brilhante de uma vela.
Mais uma vez ele me olhou intensamente. No consegui dizer nada. As suas palavras fizeram-me sentir um n na garganta e puseram o meu corao a bater com mais fora.
- Bem - disse ele por fim, colocando o estojo preto ao meu lado, em cima da cama -,  melhor ir andando. Vemo-nos amanh, logo depois do almoo.
- Boa noite, Drake. E obrigada por tudo o que fizeste por mim.
216
Ests a brincar, Annie. No h nada que eu no faa por ti. Lembra-te disso.
Atirou-me um beijo nas pontas dos dedos e depois saiu pressadamente, assumindo o porte de um executivo ocupado, cheio de problemas para resolver. Recostei-me na
almofada da cadeira e contemplei o estojo negro das jias. Depois,
abri-o e retirei o colar de diamantes. Como cintilava! A recordao do dia do meu aniversrio acorreu ao meu pensamento e lembrei-me do rosto da mam quando me entregara
aquele colar. Os seus olhos estavam cheios de orgulho e amor.
Apertei o colar de encontro ao peito e pensei sentir o seu calor; um calor transmitido para ela pela sua av e depois dela para mim. No me apercebi de que estava
a chorar, at que as lgrimas me escorreram pelo rosto e me salpicaram o pescoo e o peito como gotas mornas de chuva de Vero. Engolindo a custo, voltei a colocar
o colar no estojo e fechei-o. O Drake tinha razo. Era reconfortante t-lo perto de mim.
Limpei o rosto com as costas da mo e olhei para as duas pulseiras da sorte, que estavam em cima da cama. Depois, peguei na mais pequena, mas a mais valiosa para
mim, e pu-la no pulso. Ver-me com ela fez-me sorrir.
O Drake tinha dito que... a tia Fanny estava no terrao? No meu lugar mgico e do Luke? Esses dias de fantasia pareciam agora to longnquos. Talvez se eu l voltasse
e se me levassem at ao terrao, pudesse apoiar-me no brao do Luke e, de repente, voltasse a andar. O mdico ia rir-se se eu lhe sugerisse essa hiptese; no entanto,
eu sabia que, s vezes, um pouco de "faz de conta" podia ser verdadeiramente mgico. O Luke acreditava nisso e, quando duas pessoas acreditam fortemente numa coisa,
ela pode tornar-se realidade.
Luke... Como eu precisava do seu conforto, do seu sorriso, da sua confiana optimista. Mais do que isso, ansiava pelos seus lbios colados ao meu rosto e lembrei-me
de todas as vezes que nos beijramos, mesmo quando ainda ramos crianas.
Enquanto pensava nele, abraava-me a mim mesma, imaginando-o ao meu lado, entrelaando os seus dedos no meu cabelo, com os seus olhos to prximos dos meus, ao olharmos
um para o outro com desejo, atormentados pelo nosso desejo e, ao mesmo tempo, pelo nosso amor proibido.
Pensar nele dessa maneira aqueceu o meu corpo e f-lo sentir-se vivo de novo. "Logicamente, se estas vises do Luke a amar-me tm um efeito to bom, no podem ser
de todo
217
ms", pensei. com o Luke ao meu lado, eu seria capaz de superar aquela tragdia. O destino tinha colocado montanhas enormes e sempre presentes no meu caminho; porm
eu ia fazer o que o Luke sempre me aconselhara: iria deliberadamente ao encontro das mais altas.
- E isto, Annie,  porque - ouvi ele murmurar -, a vista  sempre melhor. Dirige-te s mais altas.
Agora, era o Luke que parecia ser a montanha mais alta de todas...
Levantei os olhos e contemplei o meu quarto vazio. Ouvia pessoas a falar e a andar l em baixo. O Drake estava a despedir-se de algum. Fechou-se uma porta. Uma
rajada de vento assobiou atravs de umas persianas. E depois tudo ficou calmo outra vez.
"Oh, Luke", pensei, "que razes podem ser essas tuas para no moveres cus e terra para vires ver-me?"

16 INVLIDA!

- Tenho uma ptima surpresa para ti - anunciou o Tony.
Pela maneira como ele estava de p, junto  porta, desviado para o lado, julguei que a surpresa no podia ser outra coisa se no a chegada do Luke; mas era outra
coisa.
- Tens de sair do quarto para veres. De qualquer maneira, est na hora de irmos andando para o cemitrio.
Virei-me para Mrs. Broadfield, que estava a dobrar as toalhas que utilizara para a minha massagem. O seu rosto estava inalterado, como uma mscara impvida. No entanto,
tive a impresso de que ela sabia o que era a surpresa.
- Sair?
Acenou com a cabea e comeou a empurrar a cadeira em direco  porta. Eu usava o vestido preto da minha me e a pulseira da sorte que o Luke me oferecera. Ren,
o cabeleireiro, voltou ao fim da manh para pentear-me. Mrs. Broadfield no reduziu a minha terapia matinal por causa da cerimnia religiosa que ia ser efectuada
junto ao tmulo dos meus pais. No entanto, talvez ela tivesse razo acerca da minha crescente resistncia ao tratamento, ou ento era eu que estava decidida a no
ficar cansada por causa disso.
O Tony recuou, dando a entender que eu devia prosseguir. Lancei um olhar a Mrs. Broadfield para ver se ela tambm vinha connosco, mas ela continuou no meu quarto,
a fazer o seu trabalho, no parecendo interessada em mais nada. O Tony ajudou-me a virar  esquerda e a percorrer o corredor. Em seguida, vi Parson, o jardineiro
que me instalara o televisor, e outro homem tambm vestido com um fato-macaco. Ambos estavam parados ao cimo das escadas. Olhei intrigada para trs, e o Tony estava
a empurrar a minha cadeira, com um sorriso algo felino no rosto.
E depois vi a surpresa que ele tinha para mim.
219
Tinha mandado instalar um elevador, de modo a eu poder deslocar-me at ao topo da escadaria, deslizar para uma cadeira, carregar num boto e descer devagar at ao
primeiro andar.
- Agora vai ser muito fcil transportar-te pelas escadas disse o Tony. - E, muito em breve, tenho a certeza de que j estars a movimentar-te sozinha de um andar
para o outro. J est outra cadeira de rodas  tua espera l em baixo.
Olhei para aquele mecanismo por um momento. Percebi que o Tony ficara desiludido com a minha reaco; porm, no pude evit-la. Coisas como aquela apenas vinham
confirmar o meu estado de invalidez e insinuar que a minha recuperao ainda estava muito longe.
- Mas, Tony - protestei eu -, em breve vou voltar a andar! Teve esta despesa enorme para nada!
- Oh, ests preocupada com isso? No h problema. Isso  um contrato de arrendamento que fiz. Usamos este elevador durante o tempo que precisarmos e depois pronto.
Quanto  outra cadeira, asseguro-te que no foi assim to cara. E agora - acrescentou ele, batendo as palmas -, est na hora da nossa viagem experimental, no 
verdade? Isto , contigo como passageira. Eu j experimentei e ele aguentou perfeitamente com o meu peso. Por isso, contigo no vai haver qualquer problema.
Olhei para trs, para ver se Mrs. Broadfield tinha vindo assistir quilo, mas ela ainda no havia sado do meu quarto. Vista daquela posio, sentada na cadeira
de rodas, a escadaria parecia horrivelmente ngreme e comprida.
- Deixa-te deslizar ao longo da cadeira mecnica - indicou o Tony. - Levanta o brao da tua cadeira de rodas e deixa-te deslizar at  cadeira do elevador. A ideia
 deixar que tu o faas sozinha.
O medo comeou a invadir-me como uma grande sinfonia sombria que se espalhava pelo meu sangue. Senti um suor frio escorrer na minha nuca. E quase que me via a cair,
aos tombos, por aquela enorme escadaria de mrmore, e esborrachar-me l em baixo.
O Parson e o outro homem olhavam-me com simpatia e preocupao. Sorri o mais corajosamente que fui capaz e comecei a deslizar a cadeira de rodas ao longo do elevador.
Lutei para conseguir soltar o brao da minha cadeira. Pareceu-me estar um pouco preso, mas ningum se ofereceu para ajudar-me. Calculei que isso tambm fizesse parte
do ensaio, para ver se eu conseguia fazer tudo sozinha. Por fim, consegui
220
soltar o brao da cadeira e comecei a empurrar-me para a cadeira mecnica.
- Quando estiver em segurana l dentro, menina disse o homem ao lado do Parson -, amarre-se com este cinto de segurana, tal como se faz num automvel.
S mencionar a palavra "automvel" fez o meu corao bater mais depressa. O meu peito ficou to apertado que pensei que no era capaz de respirar. Onde estava Mrs.
Broadfield? Por que razo aquilo no era suficientemente importante para ela estar ao meu lado?
- Oh, Tony, no sei se vou ser capaz - lamentei-me.
- Claro que vais. No queres ser capaz de ir at l abaixo ao meu escritrio? Quem sabe se no poders ir at  sala de jantar e ocupares o lugar que pertenceu 
tua me. E certamente vais querer dar uma volta pelos jardins.
- Quando estiver preparada, menina - disse o homem -, carregue nesse boto vermelho, no brao direito da cadeira, e vai comear a descer. O boto preto  para fazer
subir a cadeira.
-Vai - animou-me o Tony.
Carreguei no boto vermelho a medo e fechei os olhos.
"Dirige-te s mais altas", dizia-me o Luke no meu esprito. "Tu s capaz, Annie. Tu e eu somos especiais. Ultrapassamos os obstculos maiores e mais difceis que
o destino coloca  nossa frente. Ns somos capazes. Tenta com mais determinao e vais conseguir."
Como eu gostava que fosse ele a encorajar-me e a segurar a minha mo. com o Luke ao meu lado, no teria medo e seria capaz de tentar tudo, se isso significasse um
retorno  sade e  recuperao das foras.
A cadeira avanava aos solavancos, iniciando uma descida lenta ao longo da escadaria. Os trs homens seguiam-me de perto,  medida que eu descia, com a cadeira a
chiar ligeiramente.
- No  fantstico? - perguntou o Tony.
Abri os olhos e acenei com a cabea, em sinal de concordncia. A cadeira abanou ligeiramente mas, se no fosse isso, sentia-me realmente segura e era agradvel deslizar
pelas escadas, sem ser um fardo para ningum.
- Como se sabe quando  a altura certa para parar?
- Oh, ela foi regulada para isso, menina - disse o homem.
E, assim que a cadeira chegou ao fundo da escadaria, parou suavemente e com grande segurana. O Parson tinha trazido a minha cadeira de rodas e montou-a junto ao
elevador.
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Precisamente nesse momento, o Drake apareceu  entrada, de onde tinha estado a ver todo aquele acontecimento, a aplaudir e a incitar.
- Viva a astronauta Annie!
- Drake Ormand Casteel, como pudeste estar aqui escondido em baixo, em vez de estares ao p de mim, quando eu precisava de apoio? - queixei-me.
- Foi de propsito - explicou o Drake. - O Tony queria que fizesses esta experincia sem ningum a assistir, para que possas tornar-te independente muito mais depressa.
- Vocs so dois conspiradores - censurei, a brincar. Intimamente, estava muito orgulhosa de mim e satisfeita pelo facto de o Tony me ter obrigado a fazer aquilo
praticamente sozinha. Olhei para trs do Drake.
- Mas onde est o Luke? Ele tambm est escondido?
O rosto do Drake adquiriu uma expresso de aborrecimento. Olhou para o Tony, cujo rosto parecia duro como granito, e os olhos pareciam duas safiras frias e azul-escuras.
- Ele foi a um piquenique organizado para todos os caloiros.
- Piquenique? - Olhei para o Tony. - Mas eu pensei que lhe tinha deixado recado sobre a cerimnia religiosa, Tony.
- E deixei, com a pessoa que me atendeu no alojamento. Pelo menos foi o que a minha secretria fez. Disse-me que havia muito barulho de fundo e parecia que estavam
a ter uma grande festa.
- No lhe telefonaste ontem, Drake, depois de teres sado daqui?
Senti um peso no corao, como se este se estivesse a afundar num buraco vazio, oco e frio, em lugar do seu habitual recanto aconchegado. Como era possvel o Luke
no estar ali? Como podia ele no ter respondido aos recados?
- Telefonei hoje de manh cedo, mas j tinham sado todos.
- No compreendo.
- Provavelmente no passa de um mal-entendido - sugeriu o Drake. - Se calhar ele nunca chegou a receber o recado e saiu sem saber da cerimnia.
- Mas como pode ter havido um mal-entendido? Isto no  uma partida de caloiros. Quem quer que tenha tomado nota do recado, deve ter-se apercebido de que era um
assunto muito srio. No seria to descuidado ao ponto de esquecer-se ou perder a mensagem. Ningum pode ser assim to insensvel.
222
Ele no est aqui - disse o Drake suavemente.
Mas ele havia de querer estar! - gritei. - ...  uma cerimnia fnebre pelo seu pai tambm!
Senti que estava a descontrolar-me. Tudo estava a descontrolar-me. Tudo estava a acontecer comigo ao mesmo tempo: o acidente, a morte dos meus pais, os meus ferimentos,
a ausncia do Luke. Tive uma enorme vontade de gritar sem parar.
- No compreendo! - repeti, com uma voz aguda. Tanto o Tony como o Drake pareciam impressionados.
A expresso nos seus rostos fez-me tentar controlar-me. No queria transformar-me numa histrica e causar um adiamento da cerimnia. Isso era demasiado importante
para mim. O Parson e o tcnico responsvel pela cadeira mecnica do elevador desculparam-se rapidamente e saram.
Tentei recompor-me firmemente na cadeira de rodas.
- Eu estou bem. - Limpei os olhos com as costas da mo. - Estou bem - menti. - O Luke s teria de fazer uma viagem...
- Drake, porque no levas a Annie at  porta e esperas que eu diga ao Miles para ir a ter com a limusina? - ouvi o Tony dizer.
Deu-me uma palmadinha na mo e saiu apressadamente. O Drake empurrou a minha cadeira at  porta da rua. Assim que ele a abriu, Mrs. Broadfield surgiu ao meu lado,
to silenciosa e rapidamente como um fantasma.
O Drake levou-me para fora e o sol inundava o alpendre e os degraus. O dia no reflectia o meu estado de esprito, triste e trgico. Era como se at mesmo a Natureza
se recusasse a prestar ateno aos sentimentos. Em vez de nuvens carregadas e cinzentas, o cu azul estava salpicado de tufos de algodo branco e fofo. A brisa,
que passou pelo meu rosto e fez o meu cabelo esvoaar sobre a testa, era suave e morna. Por toda a parte havia pssaros a voar e a chilrear. O aroma forte e fresco
dos campos acabados de ceifar perfumava o ar.
Tudo  minha volta respirava vida e felicidade, em vez de morte e tristeza. Ao ver um dia to alegre e maravilhoso, senti-me cada vez mais solitria. Ningum seria
capaz de compreender porqu, a no ser o Luke. Se ao menos ele estivesse ali, naquele momento, a segurar-me a mo. Olharamos um para o outro e ele abanaria a cabea
sabiamente. Os seus dedos entrelaar-se-iam nos meus e eu no me sentiria como se o mundo inteiro estivesse a conspirar para tornar a
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minha dor ainda mais aguda. Seria capaz de lutar. A necessidade e o desejo de me tornar a sentir parte integrante de tudo aquilo seriam esmagadores. Mais do que
tudo, ele quereria voltar a andar.
Tentei desesperadamente arranjar essa disposio e as foras necessrias, mesmo sem a presena do Luke e, assim, firmei as mos nos braos da cadeira e quis que
os meus ps fizessem presso contra o seu encosto; os msculos das minhas pernas, porm, ainda no se encontravam muito receptivos. Senti apenas um ligeiro formigueiro
percorrer-me a barriga das pernas e as coxas. Desiludida, recostei-me de novo.
O Miles trouxe a limusina o mais prximo que conseguiu dos degraus. Ele e o Tony saram do carro, no momento em que chegou o reverendo Crter. Era um homem alto
e magro, de feies austeras e o cabelo louro j estava grisalho. O Tony apertou-lhe a mo e falou com ele durante um momento; em seguida, o Tony e o Miles subiram
os degraus.
- Esta  a minha bisneta, Annie.
- Deus te abenoe, minha querida - disse o reverendo depois de ter tomado a minha mo entre as suas. - s uma criana forte e corajosa.
- Obrigada.
O Tony fez sinal ao Miles e ao Drake para me trazerem pelas escadas at ao carro, com a cadeira e tudo. Vi o Rye Whiskey  espera, vestindo um velho fato preto.
O seu cabelo fino e grisalho estava esticado e penteado para trs. O seu sorriso e os seus olhos suaves, reconfortantes e carinhosos, aqueceram o meu corao gelado.
Atravessmos o enorme porto e virmos  direita, em direco ao cemitrio da famlia Tatterton.  medida que nos amos aproximando do grande jazigo de mrmore,
o meu corao doa e sentia-o como se fosse um pequeno punho cada vez mais apertado, at no poder apertar-se mais. Deixei escapar um pequeno grito; o Drake pegou-me
na mo e apertou-a suavemente. Quando o carro parou, o Drake abriu a porta e ajudou-me a preparar-me para me sentar na cadeira. Ele e o Miles tiraram-me do carro
e sentaram-me na cadeira com cuidado. Depois, o Drake voltou a cadeira e eu dei de caras com aquela grande pedra que dizia:
STONEWALL
LOGAN ROBERT AMADO ESPOSO
HEAVEN LEIGH AMADA ESPOSA
Olhei, estarrecida, com medo e descrena da realidade da
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morte dos meus pais, a qual nunca estivera to viva como naquele momento; contudo o meu corpo no enfraqueceu, nem murchou como uma flor delicada. Eu estava to
rgida e fria como a pedra que contemplava.
O reverendo subiu ao monumento, abriu a Bblia e iniciou a cerimnia. Quando comecei a ouvir as suas palavras, o meu crebro desviou-as para um qualquer arquivo
na biblioteca da minha memria. Via a sua boca mexer-se e ele virar as pginas do livro, mas no ouvi uma nica palavra.
Em vez disso, ouvi as palavras que eu sabia ser as que a mam diria se pudesse estar ao meu lado agora.
- Annie - diria ela -, tens de voltar a ficar forte. Tu consegues ficar bem outra vez. No deves tornar-te uma criatura fraca e dependente, definhando nas sombras
de Farthy. Se o fizeres, vais murchar e morrer como uma flor afastada da luz do Sol.
- Minha Annie - continuaria o pap -, quem me dera podermos estar a ao teu lado para te dar o amor e o apoio que sempre te demos pela vida fora, mas isso no 
possvel. Eu sei que tu tens a fora necessria para te recompores uma vez mais e continuares o trabalho que eu e a tua me comemos a fazer em Winnerrow.
- Estamos contigo, Annie. Fazemos parte de ti.
- Mam - murmurei.
No entanto, no podia negar a realidade do que significava tudo aquilo. Significava o fim do mundo, tal como eu o conhecera. Tivera de ir at ali para me despedir
da mam e do pap, mas tambm estava a despedir-me de mim como rapariguinha. Adeus s caixas de msica e ao riso da famlia toda junta e unida, ansiosos por nos
vermos todos os dias. Adeus aos abraos e beijos e s palavras de encorajamento. Adeus ao abrao reconfortante da mam, sempre que o mundo parecia duro, cruel ou
frio. Adeus s gargalhadas do pap, ecoando pela casa e afastando as preocupaes que s vezes surgiam nas nossas vidas.
Adeus aos jantares de domingo, quando todos conversvamos  mesa. Adeus aos feriados. s reunies de famlia  volta da rvore de Natal, para abrirmos os presentes,
e  deliciosa ceia de Natal. Adeus aos jantares de Aco de Graas1, em que a famlia e os amigos comiam com gosto. Adeus
1 Dia de Aco de Graas: Thanksgiving Day  um feriado oficial nos Estados Unidos, celebrado na quarta quinta-feira do ms de Novembro. Normalmente, as famlias
juntam-se para um jantar especial e costumam comer peru. (N. da T.)
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s msicas cantadas  volta do piano e aos jogos de charadas. Adeus ao procurar os ovos da Pscoa e ao mastigar coelhos de chocolate. Adeus aos passeios de domingo
e s frias na praia.
Adeus a ficar a p at tarde na noite de Ano Novo, s para dar um beijo  mam e ao pap e desejar-lhes um feliz Ano Novo. Adeus a todas as razes para ter frias.
Adeus a todos os presentes e lindas prendas embrulhadas com fitas e surpresas. Adeus a tudo o que tornava a vida deliciosa, excitante e calorosa.
Abanei a cabea descrente. Eu era como o fantasma de mim mesma, vazia, desprovida de sentimentos e vagueando ao acaso. At mesmo as palavras finais do reverendo
pareceram ocas e levadas pelo vento.
- Por favor, acompanhem-me no salmo: "O Senhor  o meu pastor, e nada..."
Enterrei o rosto nas mos e senti a mo do Drake no meu ombro. Assim que terminou o salmo e o reverendo fechou a Bblia, o Drake voltou a minha cadeira na direco
da limusina. Recostei-me e fechei os olhos.
- Vamos lev-la para cima e met-la imediatamente na cama - murmurou o Tony.
Empurraram a cadeira mais depressa, o Miles abriu a porta do carro, e ele e o Drake sentaram-me no banco de trs. Eu estava to mole como um leno de papel hmido.
Senti o Tony esgueirar-se para o meu lado e a limusina comear a andar.
Abri os olhos, tencionando olhar para trs, para o tmulo, uma ltima vez, antes de sarmos do cemitrio, mas algo na floresta ali prximo desviou a minha ateno.
Foi um movimento rpido; um vulto envolto em sombras que ganhavam vida aproximou-se da luz do Sol,  medida que esta se refugiava nas sombras protectoras da floresta.
Era ele! Aquele vulto alto e magro que eu havia visto da janela do meu quarto!
Tal como um convidado que todos se esqueceram de convidar, ele apareceu, ao fundo, para partilhar aquela cerimnia de luto. Surgiu, silenciosa e discretamente, e
depois desapareceu, com grande rapidez. Na realidade, parecia que mais ningum, alm de mim, tinha dado pela sua presena.
Tomei um sedativo e descansei. Acordei ao fim da tarde. A manso estava silenciosa, e o calmante provocou-me um sono to profundo que levei alguns momentos a perceber
onde
226
me encontrava e o que tinha acontecido. No incio, tudo no parecia passar de um sonho, como um longo pesadelo; Porm, ao ver a minha cadeira de rodas, os remdios,
as toalhas e os cremes alinhados na mesa de toilette, tive a prova de que tudo isso, infelizmente, no era sonho nenhum.
Quando olhei para as janelas, vi que as nuvens fofas se tinham dissipado e dado lugar a um extenso lenol cinzento, tornando a tarde triste e escura, uma consequncia
natural da cerimnia da manh. Fiz um esforo para sentar-me, peguei num jarro de plstico azul, que estava em cima da mesa-de-cabeceira, e deitei um pouco de gua
num copo. O silncio  minha volta era intrigante. Onde estava Mrs. Broadfield? O Tony? Seria que o Drake j teria regressado a Boston?
Toquei a pequena campainha que estava pendurada numa das colunas da cama e esperei. No veio ningum. Toquei outra vez, desta vez um pouco mais alto e durante mais
tempo. Continuou a no aparecer ningum. Seria que eles estavam  espera de que eu dormisse durante mais tempo? " muito provvel", pensei, "mas agora estou com
fome." Tinha dormido durante a hora do almoo e j estvamos prximo da hora do jantar.
- Mistress Broadfield? - chamei.
Era estranho que ela no estivesse mesmo ali ao p da porta. Vinha sempre a correr quando eu chamava. O silncio persistente era frustrante. Eu estava presa a uma
cama e sempre dependente dos outros... Isso irritava-me. Movida por essa frustrao e pela raiva, inclinei-me para a frente e estiquei-me at conseguir agarrar o
brao da minha cadeira de rodas. Eles iam ver! E por que diabo haviam deixado a cadeira to longe da cama? Fiquei a pensar nisso. Era como se Mrs. Broadfield me
quisesse encurralada.
Puxei a cadeira at junto da cama e desarmei o brao direito. Nunca tinha feito isso, mas tive a certeza de que o conseguiria. Deslizei at  beira da cama e tive
de arrastar as pernas como dois pesos de chumbo.
Travei as rodas da cadeira para que ela no se mexesse, respirei fundo e arrastei-me para fora da cama.
Primeiro, fiquei do lado esquerdo da cadeira; depois, virei o corpo, de modo a ficar de costas. Em seguida, apoiei-me nos braos da cadeira, erguendo devagar o meu
corpo inerte, at que fiquei sentada. Encorajada por esse xito, percebi que podia levantar as pernas ao agarr-las por debaixo das coxas. Os meus ps bamboleavam
de forma ridcula l em baixo. Virei-os na direco do encosto dos ps, e por fim
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recostei-me exausta. Mas tinha conseguido! Eu no era to indefesa como todos eles me queriam fazer crer! Fechei os olhos e esperei que o bater acelerado do meu
corao acalmasse.
Mais uma vez tentei captar alguns rudos; s consegui ouvir um profundo silncio. Inspirei profundamente e destravei as rodas, de modo a poder avanar at  entrada
da porta. Uma vez a, parei e olhei em volta, na sala de estar. No havia sinal de Mrs. Broadfield: nem revistas abertas, nem livros, nem nada.
Desloquei-me atravs da sala de estar at ao corredor. Ali fora, o ar estava mais fresco; as luzes ainda estavam fracas e as sombras eram longas e escuras. Comecei
por virar  esquerda para me dirigir  escadaria, onde eu contava parar e chamar por algum; de sbito, senti-me tentada a explorar por minha conta e a utilizar
a minha recm-adquirida mobilidade para aventuras. Onde seria o quarto do Tony? No seria por aquele lado? Talvez ele l estivesse. Quem sabe se as actividades daquela
manh tambm o tinham extenuado. Usando esse argumento como desculpa para acalmar o meu corao assustado, continuei a avanar. De vez em quando, parava para escutar,
mas no ouvia nada.
Continuei, at que cheguei a uma porta dupla, que estava aberta. Pude ver que o estilo daqueles aposentos era muito semelhante ao do meu quarto. Havia um nico candeeiro
aceso mas, quando avancei a cadeira e entrei, no vi ningum.
- Tony? Est a algum?
De quem seriam aqueles aposentos? No parecia serem do Tony. Havia ali algo de feminino. Depois, senti o forte aroma de jasmim. A minha curiosidade era como um man,
muito mais forte do que a prudncia, e impulsionava-me e empurrava-me para a frente, para a segunda entrada, para a porta do quarto.
Avancei at l e parei. Em cima da cadeira, diante da mesa de toilette em mrmore branco, havia um forro em tecido cor de marfim ornamentado de renda cor de pssego.
A prpria mesa estava coberta de ps e cremes para a pele, loes, e uma quantidade enorme de frascos de perfume. No entanto, o que chamou principalmente a minha
ateno foi um espao oval de parede vazia. O vidro do espelho, que deveria ter estado ali, havia sido retirado. Porqu?
Quando virei  esquerda, vi que o mesmo se passava com o espelho de parede e com os espelhos dos armrios. S restava
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o caixilho. Agora que estava cheia de curiosidade, avancei um pouco mais e vi os chinelos vermelhos de cetim ao lado da enorme cama de dossel; uma cama que era quase
o dobro da minha. Em cima da cama havia sido colocado um vestido de baile armado, cor de cereja, com mangas de balo e gola de folhos. A colcha estava dobrada e
puxada para trs, como se algum tivesse acabado de levantar-se da cama.
Mais para a direita, reparei que as gavetas da cmoda tinham sido deixadas abertas. Dava ideia que algum entrara no quarto e remexera naquelas gavetas, procurando
desesperadamente qualquer objecto valioso que estivesse escondido. Roupa interior e meias pendiam dos cantos das gavetas.
Sobre as gavetas e em cima das mesas havia estojos de jias, abertos. Vi colares cintilantes, adereos de brincos, pulseiras de diamantes e esmeraldas, espalhados
ao acaso por toda a parte. Senti que estava, decididamente, a intrometer-me na privacidade de algum e comecei a fazer meno de retirar-me. De repente, esbarrei
numa parede. Quando me voltei, dei de caras com Mrs. Broadfield, que exibia uns olhos furiosos.
O seu rosto estava em brasa. Parecia que ela tinha vindo a correr para ali a grande velocidade. O seu cabelo, normalmente penteado de uma maneira irrepreensvel,
estava em desalinho e tinha umas madeixas cadas, como cordas partidas de um piano. Uma vez que eu estava sentada e, portanto, num plano inferior, quando olhei para
cima, achei que as suas narinas pareciam maiores, como as de um touro. O seu peito mexia-se devido  respirao pesada, levantando e baixando de encontro ao seu
uniforme branco de enfermeira, impecavelmente limpo. Parecia que os botes iam saltar, e que ela ia explodir mesmo ali,  minha frente. Comecei a deslocar-me; ela
agarrou o brao da cadeira, evitando que eu fizesse mais algum movimento.
- Que julgas tu que ests a fazer? - perguntou, com uma voz rouca e ameaadora.
- A fazer?
- Fui ao teu quarto e descobri que no estavas na cama, e a cadeira de rodas tinha desaparecido. - Respirou fundo e levou a mo ao pescoo. - Chamei-te, pois sabia
que no podias estar l em baixo e depois comecei  procura no corredor, mas nunca pensei que tivesses vindo para este lado. No podia imaginar... Tive a certeza
de que te tinha acontecido alguma coisa num dos quartos.
- Eu estou ptima.
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- O teu lugar no  aqui! - exclamou ela, pondo-se atrs de mim e comeando a empurrar a cadeira rapidamente. - Mister Tatterton deu ordens especficas para ningum
vir at aqui. Vai dizer que a culpa  minha e pensar que fui eu que te trouxe - disse ela, saindo dos aposentos e olhando com cuidado para todos os lados, antes
de prosseguir.
Achei que ela estava a ser ridcula, fazendo-me esgueirar s escondidas para os meus aposentos.
- De certeza que o Tony no se importa que eu tenha vindo para este lado do corredor - exclamei, mas ela no abrandou.
Era bvio que estava aterrada, com medo de perder o emprego.
- Se ele descobrir, eu digo-lhe que a responsabilidade  toda minha, Mistress Broadfield.
- Isso no importa. Eu sou responsvel por ti. Saio por alguns momentos para dar uma voltinha e apanhar um pouco de ar fresco, e v o que acontece. Tu acordas, arrastas-te
at  cadeira de rodas e vais dar uma volta pela casa.
- Mas o Tony vai importar-se com isso?
- Talvez haja partes da casa que j no so seguras... soalhos a ceder, ou qualquer coisa no gnero. Como queres que saiba? Ele disse-me o que queria. Pareceu-me
bastante normal. Quem iria imaginar que farias uma coisa destas? Valha-me Deus!
Tomou rapidamente a direco do meu quarto.
- vou perguntar-lhe quando ele vier ver-me.
- No te atrevas a tocar no assunto. Talvez ele no venha a descobrir e isso no tenha importncia nenhuma.
Parou junto  minha cama e recuou, olhando para mim e abanando a cabea.
- H mais algum a viver aqui, no h? Quem ?
- Mais algum?
- Para alm do Tony, dos criados, de si e de mim. Aquele quarto tem sido utilizado.
- No h ningum que eu visse. Ests a ver! Ests a comear a imaginar coisas, a inventar histrias. Mister Tatterton vai ficar furioso. No digas nem mais uma palavra
sobre este assunto - avisou ela, e os seus olhos estavam apertados e frios. - Se eu tiver problemas por causa disto... ambas vamos sofrer - acrescentou, em ntido
tom de ameaa. - No vou perder o emprego s porque uma rapariga invlida viola as normas.
Rapariga invlida! Nunca ningum me tinha rotulado assim.
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A raiva invadiu-me at que fiquei com os olhos rasos de lgrimas. A maneira como ela pronunciara a palavra "invlida" fez-me sentir abaixo da condio humana. Eu
no era uma invlida!
- Eu chamei-a - declarei. - Tinha fome, mas no estava aqui ningum. Mesmo depois de me ter sentado na cadeira de rodas, chamei por si.
- S fiz um curto intervalo. No me demorava nada. Se ao menos tivesses sido mais paciente.
- Paciente! - exclamei.
Desta vez, quando os meus olhos encontraram os dela, no os desviei. A minha revolta surgiu como um fogo gigante. Colei o meu olhar ao dela, transbordando de raiva.
Recuou como se eu lhe tivesse batido. O seu rosto tornou-se horrivelmente vivo; a sua boca mexia-se como que a tentar encontrar a forma correcta para pronunciar
as palavras certas; os seus olhos tornaram-se maiores e depois diminuram de tamanho. As veias nas suas tmporas ficaram salientes, no fino contorno da sua forma
de teia, em contraste com a pele fina e gretada. Avanou alguns passos na minha direco.
- Sim, paciente - repetiu ela, desdenhosamente. - Foste muito mimada. J tive outras doentes como tu: raparigas ricas que foram mal acostumadas, a quem lhes davam
tudo o que queriam, quando lhes apetecia. No sabem o que  lutar e fazer sacrifcios, viver com dificuldades e suportar a dor e as adversidades.
Continuou, agora com o rosto distorcido num sorriso perverso.
- Mas digo-te uma coisa: as pessoas ricas, mimadas e mal acostumadas so fracas e no tm a fora necessria para lutar contra as contrariedades, quando elas aparecem...
Por isso, permanecem aleijadas... so invlidas, encurraladas na sua prpria riqueza e luxo, idiotas.
Apertou as mos e esfregou-as to vigorosamente como se tivesse estado l fora ao frio. E prosseguiu:
- So como barro para moldar, incapazes de conseguirem adaptar-se a alguma coisa. Oh, continuam suaves e bonitas, mas so como... - Deitou um olhar  cmoda. - Como
lingerie de seda, que d prazer tocar e usar e depois pr de lado.
- Eu no sou assim. No sou! - gritei.
Ela voltou a sorrir, desta vez como se estivesse a falar com uma perfeita idiota.
- No s? Ento porque no s capaz de ouvir as minhas
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ordens e fazer o que te mando, em vez de lutares contra mim a cada passo?
- Mas eu oio. Eu s me sinto...
As palavras ficaram presas na minha garganta. Pensei que iria sufocar.
- Sim?
- Solitria! Perdi os meus pais e os meus amigos e estou... estou...
Ela acenou com a cabea, encorajando-me a diz-lo. No queria diz-lo! No ia diz-lo!
- Invlida?
- NO!
- Sim,  o que tu s! E vais ficar invlida, se no ouvires o que te digo.  isso que queres?
- A senhora no  Deus! - protestei, rispidamente. No consegui ocultar a minha frustrao.
- No, eu nunca disse que era Deus. - O seu tom calmo e profissional irritou-me ainda mais. - Mas sou uma enfermeira experiente, treinada para tratar de pessoas
como tu. E de que vai servir todo este treino se a doente  teimosa, mimada e se recusa a cumprir ordens?
Continuou o seu discurso.
- Achas que estou a ser cruel? Talvez seja o que parece, mas se assim , estou a ser cruel apenas para o teu bem. No ouviste o que eu disse... As raparigas ricas
e mimadas como tu so fracas. No tm coragem quando as dificuldades aparecem. Tens de fortalecer-te, aprender a lidar com a tua solido, formar uma carapaa  tua
volta... uma capa sobre as tuas feridas, de modo a poderes lutar. Caso contrrio, ficars mole, e a desgraa que te tornou invlida vai continuar presa a ti.  isso
que queres que acontea? - interrogou ela.
O meu corao batia alvoroado, porque ela parecia ter de facto razo. Eu no estava encurralada pelos meus problemas fsicos; estava encurralada pelas suas palavras.
- Eu j lhe disse... - insisti, baixando a cabea, derrotada. - Tive fome e senti-me abandonada. No ouvi ningum e ningum respondeu aos meus apelos... nem o Tony,
nem o Drake e nem a senhora.
- Est bem, vou l abaixo ver se o teu jantar j est pronto.
- Se o Drake ainda c estiver, mande-o c acima - implorei.
- Ele no est c. Teve que regressar a Boston.
- Ento, onde est o Tony?
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No sei. J me chega o trabalho que tenho a tomar conta de ti - resmungou ela e saiu do quarto. Fiquei ali sentada por alguns instantes a olhar para o vazio, Para
o rasto deixado pela sua presena fria. Ela podia ser uma boa enfermeira, at mesmo uma ptima enfermeira, nensei, mas eu no gostava dela. Apesar de tudo o que
o Tony fizera por mim, os mdicos, os aparelhos e o tratamento particular, desejei poder sair dali. Talvez a minha tia Fanny tivesse razo; talvez eu estivesse bem
melhor a recuperar entre as pessoas que eu amava e que me amavam.
Tive de admitir que me agarrara  oportunidade de vir para Farthy, no s porque sempre tivera um desejo secreto de ir l, mas tambm pela mesma razo do Drake;
a falta de vontade de voltar para a Casa Hasbrouck e para Winnerrow. No tivera coragem de voltar para l e olhar para o quarto dos meus pais; ver a sua roupa e
os seus objectos; acordar todas as manhs  espera de ouvir os passos do pap e do seu afectuoso "bom dia, princesa". Sabia que continuaria a desejar que a mam
viesse falar comigo sobre este ou aquele assunto.
No, a vinda para Farthy viera adiar a realidade inevitvel que eu precisava de enfrentar. J no tinha a certeza de ter tomado a deciso correcta. Talvez que, com
a tia Fanny presente, animando-me no seu modo inimitvel, fazendo intrigas sobre a vida das pessoas ricas de Winnerrow e rindo sobre o modo como elas a tratavam,
eu pudesse melhorar, mesmo sem todo aquele equipamento especial e enfermeira particular.
Desejei que o Luke j tivesse vindo ver-me e, assim, eu e ele teramos falado sobre esse assunto. No adiantava falar com o Drake sobre isso. Encontrava-se to fascinado
pelo Tony e pelos negcios que estava cego para todos os problemas e defeitos de Farthy. Naquele momento, estava quase to cego como o Tony, mesmo no que dizia respeito
aos locais em runas de Farthinggale.
"Tenho de entrar em contacto com o Luke", pensei. "Tenho de v-lo! Preciso de v-lo!"
Dirigi a cadeira de rodas at  secretria e encontrei mais papel de carta. Ento, escrevi outra carta ao Luke e, desta vez, dei-me ao luxo de parecer desesperada.
"Querido Luke,
Parece que se deram confuses sucessivas, que evitaram que viesses visitar-me aqui, em Farthy. Os recados no so entregues, ou talvez sejam algo confusos.
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Preciso de ver-te imediatamente. Aconteceram muitas coisas desde a minha chegada aqui a Farthy. Acho que j estou um pouco mais forte, mas ainda no tive nenhum
progresso significativo com as pernas, apesar da terapia.
Na verdade, no tenho a certeza se devo continuar aqui por muito mais tempo e quero falar contigo sobre isso. Por favor, vem ver-me. No precisas de autorizao
especial. Vem no mesmo dia em que receberes esta carta.
Saudades da Annie."
Meti a carta num sobrescrito e selei-a imediatamente. Depois, pus a mesma morada da primeira carta que lhe escrevera: aquela que a Millie Thomas no chegara a entregar
ao Tony.
- Queres ficar na cadeira de rodas para jantar, ou preferes voltar para a cama? - perguntou Mrs. Broadfield, mal regressou com o tabuleiro do meu jantar.
- Fico na cadeira de rodas.
Pousou o tabuleiro para ir buscar a mesinha que encaixava nos braos da cadeira. Depois, montou-a e trouxe-me o tabuleiro. Levantei a cobertura de prata e olhei
para um simples peito de galinha cozida com ervilhas e cenouras e uma fatia de po com manteiga. Parecia comida de hospital.
- Foi o Rye Whiskey que fez isto?
- Mandei o ajudante preparar, seguindo as minhas instrues precisas.
- Tem um aspecto... asqueroso.
- Julguei que tinhas fome.
- E tenho, mas estava  espera de uma coisa diferente... Qualquer coisa feita pelo Rye. Tudo o que ele faz,  especial.
- Ele tem utilizado muitos condimentos e feito a tua comida de uma maneira demasiado extica.
- Mas eu gosto assim. Agora como de tudo... E no era isso o que o doutor Malisoff queria? - protestei.
- Ele tambm quer que comas coisas fceis de digerir. Tendo em conta o teu estado...
Pousei a tampa do prato com estrondo. Tive um arremesso de orgulho. "Tambm sei pr gelo nas minhas palavras", pensei. Recostei-me, cruzei os braos sobre o peito.
- Quero algo feito pelo Rye. No vou comer isto.
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Ela olhou-me estarrecida. Sabia que ela estava a estoirar de raiva; porm, manteve os olhos lmpidos, calmos e ilegveis. Inclusive, mostrou um ligeiro sorriso fechado
nos lbios.
Muito bem. - Retirou a bandeja. - Talvez no tenhas tanta fome como pensas.
- Eu tenho fome. Mande o Rye preparar-me qualquer coisa.
- J te prepararam uma coisa e no a queres comer disse ela, sublinhando um facto simples e bvio.
- Posso estar invlida, mas ainda posso apreciar a comida. Por favor, pea ao Tony para vir aqui - ordenei.
- Nem te apercebes de como ests a comportar-te, Annie. S estou a tentar fazer o que  melhor para ti.
- At agora ainda no tive problema em digerir nada do que o Rye cozinhou.
- Muito bem - anuiu ela, mais complacente. - Se tens de comer alguma coisa feita por ele, vou pedir-lhe que trate da galinha.
- E tambm quero que ele trate dos legumes e das batatas. E quero um pouco do seu po caseiro.
- Mais tarde no te queixes se tiveres problemas de estmago - salientou ela, antes de sair.
Tinha de ter sempre a ltima palavra. Contudo, agora, eu percebera como agir para ela fazer o que queria: bastava mandar chamar o Tony.
O Tony chegou antes de Mrs. Broadfield regressar com a comida.
- Ento, como te sentes?
- Cansada, mas com fome. Estou  espera que Mistress Broadfield venha trazer-me qualquer coisa feita pelo Rye. No quero ser desagradvel, mas no gostei do que
ela me trouxe.
Contei-lhe, porque pensei que ela podia ir fazer queixa de mim mais tarde e mostrar apenas o seu lado da histria.
- No te preocupes com isso - acalmou-me ele. - Tu no incomodas. Tenho a certeza de que o Rye no se importa de cozinhar o dia todo para ti.
- No, eu sei que ele no se importa.
- Pareces irritada.
Fiquei uns momentos sem responder e depois virei-me para ele abruptamente.
- Tony, eu sei que Mistress Broadfield  uma boa profissional e que eu tenho muita sorte em ter uma enfermeira
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com experincia em problemas como o meu e que ela tambm  fisioterapeuta... Mas ela tambm consegue ser bastante aborrecida.
- vou falar com ela - prometeu o Tony.
Os seus olhos eram doces e amveis e acreditei que ele soubesse do que eu estava a falar.
- A minha maior preocupao  fazer com que sejas feliz, Annie. Tudo o resto  secundrio. Sabes isso, no sabes?
- Sim, Tony. Realmente estou-lhe muito grata por tudo o que tem feito por mim.
Senti-me mais calma. Ento, lembrei-me da carta que tinha no colo.
- Tony, escrevi outra carta para o Luke. Importa-se de envi-la... por correio especial, para que ele a receba imediatamente.
- Claro.
Pegou na carta e p-la rapidamente no bolso do casaco.
- Deixa-me ir para baixo, para ver se te trazem a comida. No posso admitir que passes fome na minha casa.
- No tem importncia. Eu posso esperar.
- Seja como for, vou tratar disso. E vou falar com Mistress Broadfield.
- No quero causar nenhum problema.
- Que disparate. J te disse. Tu ests em primeiro lugar.  assim que eu quero - assegurou-me ele, e rodou nos calcanhares.
- Oh, Tony...
- Sim? - perguntou, virando-se para trs, junto  porta.
- Vive aqui mais algum? Uma mulher talvez?
- Uma mulher? Queres dizer, algum alm de Mistress Broadfield?
Os seus olhos azuis estreitaram-se.
- Sim. Hoje sa com a cadeira e fui at uns outros aposentos, muito parecidos com estes e...
- Oh!... - Recuou alguns passos. - Ests a dizer que foste at aos aposentos da Jillian?
- Da Jillian?
"Mas a Jillian j morreu h tanto tempo", pensei. "Aqueles aposentos parece que ainda hoje esto a ser utilizados..."
- Sim. Devo ter deixado a porta aberta. Normalmente no gosto que ningum l entre - repreendeu ele, no tom de voz mais duro e spero que j lhe ouvira.
- Desculpe. Eu...
- No tem importncia - replicou, muito depressa.
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No h nenhum problema. Mantive o quarto tal como estava no dia em que ela morreu. Tem sido muito difcil aceitar o facto da sua morte.
Porque desapareceram os espelhos todos?
- Isso j fazia parte da sua loucura, perto do fim da vida. Seja como for, no h aqui mais ningum - repetiu com veemncia.
Depois, soltou uma gargalhada forada.
- No me digas que tambm tu andas a ver os fantasmas
do Rye?
Abanou a cabea e empertigou-se.
Seria outro quarto mantido como um museu? O Tony movimentar-se-ia de um momento para outro no passado, mantendo vivas as suas lembranas, ao alimentar a iluso de
que a Jillian ainda estava ali? Pude compreender a razo que fazia com que um homem solitrio se agarrasse a recordaes, fotografias, cartas, coisas que tinham
um significado especial e carinhoso para si. Mas manter o quarto dela tal como estava no dia em que morrera... Isso era sinistro. Um arrepio percorreu o meu corpo
e, pela primeira vez, comecei a pensar se j no estaria na hora de exigir que me levassem de regresso a Winnerrow.
Pouco tempo depois, Mrs. Broadfield voltou com um novo tabuleiro de comida. Desta vez, trouxe-me um pouco do famoso frango frito do Rye, das suas fantsticas batatas
com natas e legumes cozidos ao vapor, que pareciam frescos e cheiravam que era uma delcia. Eu tinha tanta fome e tudo tinha to bom aspecto que devorei a comida.
Mrs. Broadfield afastou-se um pouco, com uma expresso impenetrvel no rosto, mas uns olhos frios. Era como se ela estivesse a usar uma mscara e s os seus olhos
sobressassem nessa cara de granito. Foi para a sala de estar e regressou pouco depois de eu ter acabado de comer.
- Estava uma delcia - declarei.
- Queres que te ajude a voltar para a cama?
- No. Acho que vou ficar aqui sentada na cadeira a ver um pouco de televiso.
Pegou na bandeja e saiu. Agarrei no controlo remoto e liguei a televiso. Sintonizei um canal que estava a passar um filme que eu nunca tinha visto, e recostei-me.
Apenas alguns minutos mais tarde, uma dor horrvel parecia perfurar-me o abdome. Gemi e carreguei com as mos na barriga. A dor passou, e eu endireitei-me, respirando
fundo. Porm, depois regressou e desta vez com muito mais violncia, dilacerando-me o estmago e espalhando-se pelo meu peito.
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Ouvi o meu estmago borbulhar. Eu sabia que podia acontecer-me um percalo a todo o momento.
- Mistress Broadfield! - chamei. - Mistress Broadfield - gritei.
Ela no respondeu. Comecei a rodar a cadeira at  entrada da porta.
- Mistress Broadfield!
Estava a acontecer. O meu corpo estava a revoltar-se.
- Oh, no! Mistress Broadfield!
Quando ela chegou, eu estava contorcida com dores na cadeira e toda suja.
Deixou-se ficar  entrada da porta, com as mos na cintura e um sorriso acentuado e gelado de auto-satisfao estampado no seu rosto de pedra.
- No digas que eu no te avisei - disse ela, abanando a cabea.
Completamente dobrada na cadeira, s consegui gemer e implorar que ela me ajudasse.

17 A VINGANA DE MRS. BROADFIELD

Mrs. Broadfield empurrou rapidamente a minha cadeira at  casa de banho. Comeou por encher a banheira e depois despiu-me toda, tirando-me a roupa com brutalidade.
Senti-me como uma banana madura nas mos de um macaco esfomeado. Se ela pudesse arrancar-me a pele, acho que no teria hesitado em faz-lo. Manteve-se calada durante
todo o tempo; contudo, pude ler nos seus olhos furiosos a expresso repetida: "Eu bem te avisei." Gemi, ainda agarrada ao estmago.
- Sinto-me como se tivesse algum c dentro a acender fsforos - chorei.
No entanto, as minhas queixas no a comoveram. Limpou-me com algumas toalhas e depois levantou-me e arrancou-me da cadeira de rodas e atirou-me literalmente para
dentro da gua quente. Era uma mulher muito forte para o seu tamanho.
Assim que mergulhei na gua, ela fechou a torneira e eu deixei-me escorregar cada vez mais para baixo, at que a gua me chegou ao pescoo. Embora estivesse to
quente como de costume, a gua pareceu trazer-me algum alvio. Fechei os olhos e deitei-me para trs, continuando a choramingar baixinho.
Abri os olhos assim que ouvi a voz do Tony. Tinha escutado o barulho e viera a correr em meu auxlio.
- Que se passa? - perguntou ele da sala de estar.
- Feche a porta da casa de banho! - implorei. Mrs. Broadfield sorriu com malcia.
- Deixa-te ficar a sentada, de molho - ordenou ela e saiu da casa de banho, fechando firmemente a porta atrs de si.
Mesmo assim consegui ouvir o que diziam.
- Aconteceu alguma coisa  Annie, Mistress Broadfield?
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- Pedi-lhe que no comesse aquelas refeies condimentadas e exticas que o seu chefe de cozinha s vezes faz. At mandei o outro cozinheiro preparar algo adequado
e nutritivo, mas ela foi teimosa e insistiu em comer a comida do seu cozinheiro, por isso tive de voltar  cozinha e mand-lo preparar qualquer coisa.
- Eu sei, mas...
- O estmago dela est sensvel, como quase todo o seu corpo. Tentei explicar-lhe, mas ela tem muita pressa em recuperar e, como a maioria das adolescentes, no
quer ouvir os conselhos das pessoas mais velhas e com experincia.
- Acha que devo mandar chamar o mdico? - perguntou o Tony ansiosamente.
- No, eu trato do assunto. Ela vai sentir-se mal durante um bocado, mas no h necessidade de chamar o mdico.
- H alguma coisa que eu possa fazer?
"Deus abenoe o Tony", pensei. Parecia to preocupado, e a sua voz estava cheia de cuidados e simpatia, em contraste com o tom spero e indiferente de Mrs. Broadfield.
- No. Eu lavo-a, dou-lhe um remdio e ponho-a confortvel. Ela deve sentir-se melhor de manh, mas o seu estmago ficou ainda mais frgil. O que o senhor pode fazer
 falar com o seu chefe de cozinha e dizer-lhe para passar a preparar a comida conforme eu lhe mandar.
- Est bem.
Ouvi o Tony sair, e pouco depois Mrs. Broadfield voltou  casa de banho. Debruou-se sobre mim. As minhas lgrimas misturavam-se com as gotinhas de vapor que escorriam
pelas minhas faces avermelhadas. Subitamente, o seu rosto de pedra suavizou-se e, como uma figura de cera que se aproximasse demasiado do calor, os seus lbios curvaram-se,
os cantos da boca alargaram-se, o seu rosto balofo murchou e os seus olhos inundaram-se de simpatia.
- Pobre criana. Se ao menos me tivesses escutado... Evitarias uma dor desnecessria para aumentar o sofrimento desse teu corpo j de si to massacrado.
Ajoelhou-se ao meu lado e pegou numa toalha para limpar as minhas lgrimas.
- Fecha os olhos e descansa mais um pouco. Daqui a nada, j te tiro daqui. Vamos secar-te, vestir-te uma camisa de noite limpa e refrescante e dar-te uma coisa para
aliviar as tuas clicas abdominais. Depois, vais dormir como um beb.
- No compreendo... Nada do que comi at agora me fez este efeito.
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Baixou a toalha at ao meu pescoo e ombros, limpando a minha pele em crculos suaves, to delicadamente como se estivesse a limpar a mais fina porcelana.
Agora ests nas minhas mos. Deixa-me fazer o meu trabalho e vais recuperar como deves, Annie. Deixas-me trabalhar, que  para isso que me pagam?
Concordei com um aceno de cabea, agora com os olhos fechados. A dor tinha abrandado um pouco, embora o meu estmago ainda estivesse ameaador e com clicas. Mrs.
Broadfield passou os dedos pelos meus seios e pressionou a palma da mo de encontro ao meu abdome. Quando abri os olhos, vi o seu rosto to prximo do meu que quase
podia contar os poros da sua pele; via os plos nas suas narinas e as gretas dos seus lbios.
- Ainda est muito activo neste ponto - murmurou ela. Olhou para mim, mas com uma expresso distante.
- J posso sair da gua?
- O qu? Oh... sim, sim.
Levantou-se rapidamente e alcanou as toalhas. Depois, ajudou-me a sair da banheira e enxugou-me o corpo. Aps ter-me vestido uma camisa de dormir lavada, ajudou-me
a voltar para a cama e deu-me duas colheres cheias de um lquido cinzento e espesso. Momentos mais tarde, o barulho no estmago cessou e depois ela deu-me um comprimido
para dormir.
Fiz o que me mandaram... Fechei os olhos e adormeci, ansiosa pelo alvio que o sono traria. Antes de adormecer, abri os olhos uma vez e vi-a ao meu lado, olhando
para mim como um gato que encurralou um rato num canto e aguardava pacientemente a sua presa, apreciando a tortura que podia infligir ao seu parceiro pattito e
mais fraco.
"Amanh sentir-me-ei melhor", pensei, "e amanh o Luke receber a minha carta e vir ver-me." Tinha sonhado com ele. No meu sonho, ele era um cavaleiro montado num
cavalo branco. Vinha a galope atravs dos portes altos de Farthy, pronto a invadir a manso e precipitar-se pelas escadas at ao meu quarto. Abriu as portas de
par em par, veio at junto da minha cama e abraou-me. Estava to feliz por v-lo que pus de lado todo o ressentimento e beijei-o nos lbios sem reservas. A minha
camisa de noite escorregou pelos ombros e ele encostou os lbios ao meu peito nu, fechando os olhos e inalando como se eu fosse uma rosa.
- Oh, Luke - gemi. - Como esperei por ti! Como te desejei!
241
- Minha Annie.
Ele acariciou-me com doura, fazendo o meu corpo vibrar com cada beijo, at que os arrepios alcanaram as minhas pernas e lhes deram vida e uma fora renovada.
- Preciso de levar-te para longe daqui, para podermos ser livres e amantes para sempre.
Tomou-me nos braos e levou-me para fora do quarto e desceu a escadaria. Eu continuava seminua, mas no me importei. Ps-me em cima do seu cavalo e foi-se embora,
para longe de Farthy. No meu sonho, olhei para trs uma nica vez e, quando o fiz, vi o Tony a espreitar por uma das janelas, com o rosto desfigurado pelo desgosto.
S que tambm havia um vulto, envolto em sombras, atrs dele. No lhe vi o rosto, mas sent-me triste por deix-lo. Voltei-me para trs como que a cham-lo, mas
nisto acordei.
Fiquei na cama durante toda a manh seguinte e parte da tarde. Mrs. Broadfield decidiu que no faramos tratamento naquele dia. Mandou o Rye Whiskey preparar um
caldo de aveia para o pequeno-almoo e s me deixou beber ch muito doce e comer torradas com compota durante o resto do dia. Mais ou menos a meio da tarde, senti-me
com foras suficientes para sentar-me na cadeira de rodas. Pouco depois das duas horas, o Rye apareceu, ainda com o avental. Mrs. Broadfield tinha ido dar uma volta.
Ele entrou, com um olhar tmido e cheio de remorsos. Percebi imediatamente que se sentia responsvel pelo que me tinha acontecido.
- Como se sente, Miss Annie?
- Muito melhor, Rye. Agora, no vai pensar que a culpa  sua. No podia imaginar o que iria ou no perturbar a minha digesto. Nada do que me preparou at agora
me fez mal - salientei, abrindo os olhos com nfase.
Ele acenou com a cabea, meditativo. Percebi que estava preocupado com alguma coisa.
- Era nisso que eu estava a pensar, Miss Annie. No pus nada na comida que no tenha posto antes.
- A culpa foi minha - frisei. - No deveria ter mandado Mistress Broadfield para trs com a comida que o seu ajudante preparou.
- Nem queira saber. Ela veio a correr at  cozinha, a deitar fumo pelas ventas e atirou com a bandeja. Dei um salto com o susto. Depois mandou-me preparar o meu
frango especial, com legumes e batatas. Como era isso o que eu ia
242
servir a Mister Tatterton, disse-lhe que j estava pronto. Ela grunhiu e eu preparei a travessa.
- E que aconteceu depois?
- Nada. Dei-lhe a bandeja para ela trazer para cima, porque ainda no temos criada, e ela levou-a. S que me esqueci do po e fui atrs dela. Apanheia-a, porque
ela parou na sala de jantar para misturar um remdio e...
- Remdio? Que remdio? O Rye encolheu os ombros.
- Ela s me disse que era um remdio para ajudar a digesto.
- Nunca tomei nada disso antes.
- Dei-lhe o po e ela subiu para o seu quarto, e a nica coisa de que me lembro  da agitao de Mister Tatterton, porque a comida lhe tinha feito mal. Ele veio
ter comigo por causa disso e eu disse-lhe que passava a fazer tudo o que a enfermeira me mandasse. E foi isto. Mas, agora, sente-se melhor?
- Sim, Rye. Tem a certeza de que ela ps um remdio na minha comida?
- Nas batatas. Estava a mistur-lo quando eu sa da cozinha. "Espero que no tenha estragado o sabor", pensei, mas tive medo de lhe dizer isso. Ela deve ser uma
boa enfermeira, porque  capaz de afastar de si a doena.
- Quando quer... - disse eu, intencionalmente. Aquilo no fora nenhum remdio. Vingara-se de mim,
porque eu insistira em mandar a comida para trs e a desafiara. "Meu Deus", pensei, "estou nas mos de uma pessoa sdica, vingativa e execrvel." Toda aquela dor,
aquele mal-estar e embarao fora obra sua!
- Ou ento tambm  capaz de atrair a doena - acrescentei, acenando a cabea, com conhecimento de causa.
O Rye compreendeu.
- Miss Annie... - Ele virou-se para trs, na direco da porta, para ter a certeza de que no vinha l ningum.
- Talvez agora j esteja melhor e seja prefervel ir para sua casa.
- O qu? - Sorri, confusa. - Quer que v para minha casa?
-  melhor eu voltar para a minha cozinha. Fico contente por se sentir melhor, Miss Annie.
Apressou-se a sair antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa; porm, no tive dvidas de que ele sabia muito mais sobre o que se passava em Farthy.
243
O Tony s apareceu por volta da hora do jantar. Serviram-me a refeio que na vspera havia recusado: peito de galinha cozida, ervilhas e cenouras e um pur de batata
desenxabido. Mrs. Broadfield sorriu abertamente quando me trouxe o tabuleiro e o colocou na mesinha de armar. Ficou ali perto a ver-me comer, s para ter a certeza
de que eu conseguia voltar a ingerir alimentos slidos, como ela mesma dissera.
- Ps alguma coisa nesta comida para ajudar a minha digesto? - perguntei.
O seu sorriso evaporou-se.
- Como? O qu, por exemplo?
- No sei... como o que ps na comida que me trouxe pela segunda vez, ontem  noite - disse eu, olhando-a de frente.
- O qu? Quem te disse uma coisa dessas?
No parecia zangada; parecia antes divertida, como se estivesse a falar com uma perfeita idiota. O sorriso apertado e cnico que se desenhara nos seus lbios irritou-me.
- O Rye contou-me - atirei-lhe  cara. - Veio aqui ver-me para saber como eu estava e disse-me que depois de levar a bandeja da comida da cozinha a viu pr uma coisa
qualquer na comida, coisa essa que a senhora disse ser um remdio.
- Mas que histria! - Riu-se, com um riso agudo e arrepiante. - Porque inventaria ele uma coisa dessas? S a insinuao chega a ser ridcula.
- Mas a senhora fez isso - insisti, num tom acusador.
- Minha querida menina, ele est  a tentar encobrir a sua prpria culpa pelo que te aconteceu. No dia em que aqui chegmos, fui ter com ele e disse-lhe claramente
que suprimisse todas as comidas condimentadas da tua dieta. Deves lembrar-te de que lhe disse para no te dar doces muito pesados, mas, mesmo assim, ele mandou-te
aquele bolo de chocolate. Das duas uma: ou ele  teimoso, ou  estpido. Tenho a certeza de que Mister Tatterton ficou bastante zangado com ele e  at bem capaz
de o ter despedido.
- Despedir o Rye?
Foi a minha vez de rir e faz-la sentir-se ridcula.
- A senhora nem faz ideia dos anos que eles j esto juntos. O Rye  como se fosse uma pessoa da famlia e vai continuar aqui at morrer. E quanto a ele sentir-se
culpado, isso  ainda mais ridculo. O Rye  um excelente cozinheiro. As pessoas no adoecem com a comida que ele faz. - Continuei a desafi-la.
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Os meus olhos trespassavam-na. Ela abanou a cabea e desviou o olhar. Isso veio confirmar as minhas suspeitas.
Seja como for, Mister Tatterton ficou aborrecido com ele E agora  melhor acabares de comer antes que a comida esfrie- O ideal  ela ainda estar quente quando chegar
ao estmago.
Rodou nos calcanhares e saiu do quarto.
Pouco tempo depois, chegou o Tony.
- Como te sentes, Annie? Hoje j chamei Mistress Broadfield duas vezes e ela disse-me que ests a reagir muito bem.
- Ela tem andado a mentir-lhe - afirmei, bruscamente. Decidi que toda aquela situao tinha de acabar, ou ento ir-me-ia embora dali imediatamente.
- O qu? A mentir?
- Eu no adoeci por causa de nenhuma comida condimentada, Tony. A comida no estava demasiado apurada. Estava envenenada! - declarei.
Por um momento ficou a olhar para mim com os olhos esbugalhados.
- Envenenada? Compreendes bem o que ests a dizer? Talvez estejas apenas...
- No, Tony, oia. Se realmente gosta de mim, escute-me - insisti.
Isso tocou-o, e ele aproximou-se de mim.
- Mistress Broadfield  uma enfermeira competente, pelo menos tecnicamente, mas no  uma pessoa boa e detesta gente rica. Acha que as pessoas ricas, especialmente
as mais jovens, so mimadas e fracas. Havia de ver a cara dela quando fala nesse assunto. Fica ainda mais feia, mais horrvel, mais medonha e monstruosa.
- No fazia a mnima ideia - disse ele, espantado.
- Sim, e ela no suporta que a desafiem. At mesmo se eu lhe perguntar o que est a fazer, fica enraivecida. Quando eu exigi que me trouxesse a comida saborosa do
Rye e desafiei a sua autoridade, ela decidiu dar-me uma lio. O Rye esteve aqui para pedir-me desculpa e disse-me que ela tinha misturado qualquer coisa na minha
comida. Ela afirmou que era um remdio, mas eu no tomo remdios com a comida, Tony. Tenho a certeza disso. Ela provocou esta cena dolorosa e constrangedora s para
me dar uma lio - repeti.
A minha raiva e a minha fria iluminaram o meu rosto vermelho de irritao.
O Tony acenou com a cabea.
- Entendo. Bem, acho que est na hora de pormos um fim nos seus servios, no te parece?
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- Sim, Tony. No fico aqui nem mais um dia com aquela mulher.
- No te preocupes com isso. Nem tens de preocupar-te. vou despedi-la hoje mesmo. Vamos gastar mais um tempo a procurar uma substituta adequada, mas estou certo
de que a encontraremos muito rapidamente - acrescentou ele, com confiana.
- Obrigada, Tony. No quis causar nenhum problema, mas...
- Que disparate. Se no te sentes bem, nem tens confiana na tua enfermeira, no podes melhorar. E, decididamente, no quero aqui uma pessoa to sdica como essa
mulher parece ser. De qualquer maneira - prosseguiu -, esquece tudo isso agora. Eu vou tratar desse problema. bom, agora vamos mudar de assunto e centrar a nossa
ateno em outras coisas mais alegres e animadas. - Olhou em volta. - Tambm sei que outras coisas esto erradas. Ests demasiado tempo aqui sentada ou deitada a
matutar na tua doena. Olha para este quarto...  uma rplica de um quarto de hospital... cadeiras de rodas, canadianas, remdios, tabuleiros especiais e bacias...
Muito deprimente - comentou, abanando a cabea. - Mas eu tenho o remdio mgico para ti.
Os seus olhos azuis faiscaram de alegria, como os olhos de um rapazinho traquina.
- Remdio mgico! O que ?
Levantou a mo como que a indicar-me que eu devia ser paciente. Em seguida, saiu do meu quarto. Pouco depois, o Parson apareceu, trazendo uma enorme caixa de papelo.
Pousou-a no cho, perto da janela e virou-se para o Tony.
- Est bem aqui, Mister Tatterton?
- Est ptimo.
- O que  isso?
- J vais ver - disse ele e retirou o tabuleiro vazio da minha cadeira de rodas.
P-lo em cima de uma cmoda e levou a minha cadeira at junto da cama, para poder sentar-se ao meu lado e, juntos, vermos o que o Parson desempacotava daquela caixa.
Momentos depois, percebi o que aquilo era: um cavalete de pintor. O Parson montou-o rapidamente e ajustou-o, de modo a eu poder pintar sentada.
- Oh, Tony, um cavalete! Que maravilha - exclamei.
-  o melhor e o mais caro que existe - anunciou o Tony com orgulho.
- Oh, Tony, obrigada, mas...
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- Nada de mas. Tens de readquirir o ritmo das coisas,  isso que me dizem as pessoas com quem tenho falado sobre ti.
Fez um sinal com a cabea para o Parson, que saiu e regressou com mais dois caixotes. Um deles estava cheio de utenslios de pintura e o outro continha papel. O
Tony colocou, de imediato, uma folha de papel no cavalete.
- No percebo muito deste assunto. Apenas dei ordens ao meu agente de compras para que fosse comprar tudo o que uma jovem artista iniciada precisa. At h uma boina
a algures.
Vasculhou no caixote, at que encontrou uma boina preta e p-la na cabea. Ri-me.
- Ests a ver? J consegui fazer-te sorrir e at rir. Depois deu a volta e ps a boina na minha cabea.
- O preto  a tua cor, Annie.
Virou-me para o espelho para que eu pudesse ver-me.
- J te sentes inspirada?
Estava realmente inspirada. Ver-me com aquela boina fez-me reviver sonhos que quase havia esquecido. A arte enchia a minha vida de significado e alegria interior,
de uma forma nica. Nem me tinha apercebido do quanto havia perdido. O acidente e as suas consequncias haviam-me separado das pessoas e das coisas que eu amava,
especialmente do meu trabalho artstico. Talvez essa fosse a principal razo de eu me sentir como uma pessoa incompleta at aquele momento. Tinha tanto medo de que
a tristeza e a tragdia me tivessem tornado incapaz de realar os sentimentos mais ntimos e anulado a inspirao... Tudo o que podia transformar-se numa coisa to
bonita... E se eu erguesse o pincel na direco da tela e visse apenas, para sempre, um espao vazio e em branco?
- No sei, Tony.
- Bem, mas vais tentar, no vais? Pelo menos, tenta. Prometes?
Hesitei, olhando para ele, cheia de esperana.
- Ento? Prometes?
- vou tentar, Tony. Prometo.
-  assim mesmo. - Bateu palmas. - Ento, vou deixar-te com o teu trabalho. Amanh ou depois, espero ver algo magnfico.
- No tenha muitas esperanas, Tony. Tambm nunca fui assim to boa e...
- s demasiado modesta. O Drake j me tinha dito. Ele at me trouxe um dos teus quadros.
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- Trouxe! - exclamei.
- Est pendurado l em baixo, no meu gabinete.
- Ele no me disse que tinha feito isso. Que quadro ?
-  aquele com um pequeno pardal numa magnlia. Gosto muito dele. Espero que no te importes que ele mo tenha trazido.
- No  que me importe... mas ele devia ter-me dito. Devia ter-me pedido - afirmei eu, censurando ligeiramente.
No entanto, senti-me lisonjeada e feliz com o apreo do Drake pelo meu trabalho artstico.
- Bem, eu pedi-lhe que me trouxesse um e ele apenas tentou agradar-me. No sejas muito dura para com ele pediu o Tony.
- Est bem, Tony. No serei.
Sorriu e preparou-se para sair do quarto.
- Tony - chamei.
- Sim?
- Se o Luke no telefonar at s sete horas, quero que me leve at um telefone para eu lhe falar. No consigo entender a razo por que no veio, ou porque no respondeu
s minhas cartas e aos telefonemas. Deve haver qualquer coisa de estranho.
- Se h algum problema, Annie, deves manter-te afastada por mais um tempo, para tua proteco. Vamos combinar o seguinte: eu mesmo lhe telefono, se ele no o fizer.
- Mas acabou agora mesmo de dizer-me que no me conta se houver algum problema.
- Eu digo-te. Prometo.
- Tony, quero que me instalem aqui um telefone. No suporto o isolamento. Por favor, pea ao mdico que autorize.
O Tony pareceu ter ficado aflito quando usei a palavra "isolamento", mas no pude evit-lo. Era assim que me sentia. Ele fez uma careta. Eu prossegui:
- No  que no esteja a fazer por mim tudo o que pode, Tony. E estou-lhe realmente muito grata, a srio que estou... Mas tenho saudades dos meus amigos e da vida
que levava antigamente. Sou uma mulher jovem, que estava prestes a iniciar a parte mais emocionante da sua vida. No consigo deixar de sentir-me sozinha, embora
o Tony e o Drake me tenham dispensado muita da vossa ateno. Por favor, fale com o mdico - roguei.
O seu rosto suavizou-se.
- Claro. Estou convencido de que ele vai concordar. Ests
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no caminho certo para uma total recuperao. Tenho a certeza disso. Pinta, alimenta-te bem, descansa e vais comear a andar muito antes do que ests  espera.
- Venha logo c acima, assim que falar com o Luke.
Concordou com um aceno de cabea e saiu.
Fiquei ali sentada, muito sossegada, por um momento, a pensar em tudo o que acontecera. Talvez o Tony tivesse razo... No devia agarrar-me mais  doena, nem queles
pensamentos tristes. Ele prometera livrar-se de Mrs. Broadfield de imediato. No entanto, mesmo com uma enfermeira atenciosa e compreensiva, continuaria a sentir-me
apanhada numa armadilha.
O Tony podia rodear-me do equipamento mais caro e encher-me de coisas: televises, aparelhagens de som, fosse o que fosse, mas mesmo assim eu no ficaria satisfeita.
Sentia saudades do meu prprio quarto, do cheiro dos meus lenis e da minha almofada, do toque fofinho dos edredes de penas. Sentia a falta dos meus prprios vestidos,
dos sapatos e dos pentes.
Tinha saudades das risotas ao telefone com as amigas; de ouvir msica sozinha ou acompanhada dos meus amigos no caf. Tinha saudades das festas, de danar e de rir
com pessoas da minha idade. Tinha saudades de ver as flores a desabrochar no nosso jardim, ou de ver a mam a fazer croch calmamente na sala de estar. Tinha saudades
de ver o pap a ler o jornal, a virar cuidadosamente aquelas grandes pginas e, de vez em quando, olhar para mim e piscar-me o olho.
Acima de tudo, tinha saudades do Luke. Tinha saudades de v-lo aparecer ao fundo da rua, ou de observ-lo, sem ele dar por isso, quando estava sentado no terrao
 minha espera. Tinha saudades das nossas conversas nocturnas pelo telefone.
H muito tempo, era raro passar-se um dia sem que nos vssemos ou falssemos um com o outro. Agora, parecia estar a quilmetros de distncia; a uma vida de distncia,
talvez absorvido no seu prprio mundo. Ficava com o corao despedaado s de pensar nisso. Mas o Tony tinha razo. No devia ficar a matutar no meu estado. A nica
forma de voltar a estar com o Luke era recompor-me depressa e ficar boa outra vez.
Devia fazer um esforo para voltar a ser como era antes, e a melhor maneira de comear era lanar-me  pintura. Conduzi a cadeira at ao cavalete e olhei para dentro
do caixote dos utenslios. Desempacotei devagar as coisas de que precisaria para comear.
249
De sbito, senti-me perplexa. Que iria pintar? Como que a dar-me uma resposta, fui atrada para a janela e olhei para fora, na direco do cemitrio da famlia Tatterton.
Peguei no lpis e comecei a fazer um esboo, trabalhando... como se um dos espritos do Rye Whiskey se tivesse apoderado do meu brao e guiasse os meus dedos atravs
da folha de papel em branco. E,  medida que desenhava, as lgrimas comearam a correr.
Tal como sempre acontecia quando comeava a pintar, depressa me absorvi no meu trabalho. Era como se eu tivesse encolhido e me tivesse tornado uma figura minscula
do esboo, movimentando-me no cenrio, orientando o meu esprito para desenhar isto ou emendar aquilo. O mundo  minha volta ia desaparecendo gradualmente; perdi
a noo do tempo e at do lugar. Nem dei pelo Tony voltar e no fazia a menor ideia de h quanto tempo ele ali estaria a observar-me, mesmo atrs de mim. Dei um
salto quando me apercebi da sua presena.
- Desculpa. No quis assustar-te, mas tambm no quis perturbar-te, nem estragar a tua inspirao. Sei como vocs, os artistas, precisam de concentrao. A Jillian
tambm  exactamente assim. Isto , ela era assim, sempre que desenhava ou pintava alguma coisa. Era capaz de estar a v-la horas seguidas, que ela nem dava por
nada. Sempre me surpreendeu, ou melhor dizendo, sempre me fascinou, e acho-te igualmente fascinante quando ests a trabalhar, Annie acrescentou.
Disse-o to intensamente que no pude deixar de corar. Sorriu, e depois lembrou-se da razo por que tinha vindo ali.
- Oh, venho saber se precisas do comprimido para dormir. Antes de se ir embora, com um acesso de fria, Mistress Broadfield deixou algumas instrues. Se o no tivesse
feito, teria participado dela, e nunca mais arranjaria emprego em lado nenhum.
- Acho que no vou precisar de ajuda para adormecer esta noite, Tony. Obrigada.
- ptimo. vou deixar-te trabalhar mais um pouco e depois passo por c para ver se precisas de ajuda para ires para a cama.
Lanou-me um sorriso rpido e preparou-se para sair.
- Oh, Tony - chamei, e ele voltou atrs. - Que aconteceu quando telefonou ao Luke?
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Oh, Annie, ainda no tive tempo de o fazer. Primeiro,
tratei do assunto de Mistress Broadfield. Tenho a certeza de que compreendes. vou tentar apanh-lo agora - prometeu ele, e saiu.
E eu regressei ao meu trabalho.
Horas mais tarde, encostei-me para trs na cadeira, mentalmente exausta. Parecia que tinha estado em transe, pois, quando olhei para o meu trabalho, foi como se
outra pessoa o tivesse feito e deixado ali  minha frente.
Tinha desenhado o caixilho de uma janela, a servir de uma espcie de moldura para o quadro. O jazigo erguia-se, enorme, ao centro do quadro, e as outras sepulturas
estavam superficialmente esboadas  sua volta. Havia um vulto ajoelhado perante a grande pedra tumular. No era o Tony e no era eu; era o homem misterioso e sombrio
que eu j havia visto. O seu rosto estava em branco, mas ele era alto e magro.
Olhei para a paleta e pensei que cores iria utilizar. Na minha opinio, o quadro deveria ser todo pintado em tons de cinzento e preto; para se encaixar no esprito
do tema. Decidi deixar o quadro de lado at  manh seguinte, quando podia sentir-me mais animada e alegre. Ao afastar-me da janela, vi a pulseira da sorte que o
Luke me havia oferecido. Mrs. Broadfield tinha-ma tirado  pressa quando me despira, aps eu ter sentido aqueles problemas no estmago. Agora estava em cima da mesa-de-cabeceira.
J passava das oito horas da noite, por isso Tony j devia ter telefonado ao Luke. Por que razo no teria vindo c acima dar-me conta do telefonema, tal como prometera
que faria? Quereria isto dizer que o Luke ainda continuava incomunicvel, ou teria arranjado novas desculpas para no ter vindo ainda visitar-me?
Recostei-me na cadeira e respirei fundo para acalmar o meu corao agitado, que mais parecia um tambor militar a ser tocado no meio de uma batalha. Como eu desejaria
descobrir tudo sozinha.
No estava a sentir tanta pena de mim; era antes raiva, e algo me dizia que isso era bom sinal. Era o comeo de uma luta para recobrar a sade e as foras. A frustrao
transformou as minhas mos em punhos e apertou a minha coluna como uma corda que se puxa firmemente de ambos os lados. Nada disso mudaria quando chegasse a substituta
de Mrs. Broadfield, por muito simptica que fosse.
Ainda tinha de levantar-me quando os outros mandassem; comer quando me dissessem e o que me mandassem; fazer o tratamento quando me dissessem que estava na hora;
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fazer a sesta quando ela me ordenasse; vestir-me, lavar-me ir  casa de banho, quando ela decidisse, e falar com outras pessoas apenas quando ela achasse conveniente.
Tinha-me tornado um fantoche, e as minhas enfermeiras, os meus mdicos e at mesmo o Tony mexiam os cordelinhos  sua vontade.
- No
Gritei para um quarto vazio. Senti a raiva e a frustrao percorrerem-me o corpo, aquecendo o sangue que corria nas minhas pernas rebeldes. De repente, senti umas
picadas; uma espcie de choques elctricos a descerem pela espinha. Ao princpio, foi como uma espcie de alfinetadas na parte de trs das minhas coxas; depois,
transformou-se num formigueiro desde os tornozelos at s pontas dos dedos dos ps. Obriguei os meus ps a fazerem fora de encontro ao encosto inferior da cadeira.
Senti a presso nas solas dos ps. Senti uma presso nas pernas trmulas e fracas, mas, apesar de tudo, era uma presso. As minhas pernas estavam a colaborar. Estava
a obter uma resposta  minha fora mental. E estava a dar resultado! Estava a conseguir! A conseguir!... Todo o meu corpo tremia, mas eu sentia-o... Conseguiria
alcanar um equilbrio instvel, se me pusesse de p. Estava a acontecer; a fazer o que sempre tivera de mais certo na vida. Contudo, ser capaz de faz-lo agora
era uma vitria importante! O meu corao martelava com a ansiedade e a alegria. O meu corpo estava a colaborar!
Pareceu levar horas, em vez de momentos, mas eu estava a levantar-me da cadeira, orientando-me ao fazer fora nos braos, assim que comecei a pr-me de p. Logo
que fiquei completamente de p, as minhas pernas comearam a tremer como palitos que suportam um peso superior ao que poderiam aguentar. Nesse momento, o Tony entrou.
Parou e olhou para mim, espantado.
- Tony... eu s tentei, mas aconteceu! As minhas pernas esto quase boas, Tony! Estou a comear a andar! Mas  uma sensao to estranha... Como se estivesse a flutuar.
Cambaleei quando me ri.
- Calma - disse ele.
Avanou devagar e estendeu as mos como se estivesse a falar com um suicida em potencial, no parapeito de uma janela.
- No tentes andar ainda. No vais querer partir nenhum osso.
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No parecia to entusiasmado com tudo aquilo como eu esperara. Quando muito, parecia aborrecido. Porque no estaria ele to feliz como eu? Aquilo por que tanto esperramos
estava a acontecer!
- vou ficar boa! vou! - exclamei, excitada, numa tentativa de provocar nele algum entusiasmo.
No entanto, a sua expresso no se alterou.
- Claro que vais - disse o Tony calmamente. - Mas agora no apresses as coisas. Tem calma.  melhor sentares-te outra vez - insistiu.
- Mas eu ainda no estou cansada, e  uma sensao to boa estar novamente de p! Oh, Tony,  to bom...  to maravilhoso fazer uma coisa to simples como estar
de p. Quem me dera que o Drake pudesse estar aqui agora para ver... Quem me dera que o Luke... E o Luke? Telefonou-lhe, no  verdade?
- Sim, telefonei-lhe - respondeu.
- Oh, vou ficar de p s para ele! Diga-me exactamente quando ele vem e eu levanto-me assim que ele entrar aquela porta e..."
- Ele no pode vir amanh - declarou o Tony, simplesmente. - Tem de fazer uma espcie de exame inicial.
O entusiasmo que me tinha arrebatado esvaziou-se como se eu fosse um balo. Pude sentir as minhas novas foras diminurem; o bater forte do meu corao abrandar
e aquela sombra horrorosa abateu-se sobre mim outra vez.
- O qu? Mas isso no vai certamente tomar-lhe o dia todo.
-  s uma questo de no lhe dar jeito. Talvez depois de amanh, ou ento no fim-de-semana. Ele no tinha a certeza.
- No tinha a certeza? O Luke disse que no tinha a certeza?
De repente, as minhas pernas tornaram-se geleia. Sem um aviso sequer, perderam toda a sua firmeza. Gritei. O Tomy precipitou-se para a frente. Infelizmente no chegou
a tempo de impedir que me estatelasse no cho.

18 REVOLTA

A primeira coisa em que reparei depois de voltar a mim, foi que estava a usar outra camisa de noite; uma daquelas de seda que o Tony me levara para o hospital. Isso
significava que ele me tinha tirado a roupa antes de o mdico chegar. Mas porqu? Teria eu rasgado a outra camisa quando desmaiara? Era confrangedor perceber que
ele me tinha despido a camisa e vestido outra, enquanto eu estava inconsciente. O Tony era muito mais velho do que eu; era meu bisav, mas mesmo assim... era um
homem!
Antes que eu pudesse fazer-lhe alguma pergunta, tanto ele como o Dr. Malisoff se apressaram a vir ver-me ao meu quarto. As minhas ideias aclararam-se e eu lembrei-me
dos meus progressos fsicos. Estava a acontecer... Eu estava realmente a recuperar! Apesar do colapso, sabia que isso era verdade. Havia uma luz ao fundo do tnel
para aquela minha vida de invlida. O meu corao encheu-se de alegria. Em breve, voltaria a andar sem ajuda, e nunca mais estaria dependente de enfermeiras, mdico,
medicamentos e aparelhos.
Esperei pacientemente, mas com excitao, que o Dr. Malisoff terminasse de observar-me e de testar os meus reflexos. O Tony aguardava junto  porta.
Enquanto estava ali deitada na cama, voltei a sentir o despertar dos meus membros inferiores e percebi que algo de significativo estava prestes a acontecer. E, muito
embora o mdico usasse a sua mscara inexpressiva e analtica, pude ver uma reaco nova nos seus olhos, quando me fitou.
- Ento? - perguntei, ansiosamente.
O Tony deu um passo em frente para ouvir o que o mdico ia dizer.
- Estou a melhorar? - perguntei.
- Sim - anuiu ele -, as tuas pernas esto a recuperar; os teus reflexos esto mais fortes.
254
Oh, graas a Deus! Graas a Deus! Graas a Deus! -
cantarolei.
Olhei para o Tony, mas ele parecia perturbado. O mdico decidira ter uma rpida conversa com ele. Fiquei  espera, nquanto eles conversavam na sala de estar. No
percebi por que razo eles resolveram falar sem ser na minha presena. A nica coisa que me ocorreu foi achar que, provavelmente, o mdico no queria que me emocionasse
muito. Quando regressaram ao meu quarto, ambos pareciam mais animados.
- Annie - comeou o mdico -, ests definitivamente no caminho certo para uma recuperao completa. No entanto,  muito importante, principalmente agora, que no
apresses as coisas, a fim de no provocares um retrocesso.
- Oh, no se preocupe.
- O que deves fazer  seguir  risca as minhas ordens, est bem?
Concordei com um aceno de cabea. Agora ele at podia dizer-me para aparar a relva toda de Farthy com uma tesoura, que eu tambm ia concordar.
- A razo por que desmaiaste depois de te teres levantado deve-se ao facto de ainda estares fisicamente debilitada. Tens de reunir foras para a batalha que se avizinha,
agora que as tuas pernas esto a voltar ao normal. vou reajustar a forma de tratamento a fazer. Dei a Mister Tatterton umas instrues simples de seguir. Em todo
o caso, volto depois de amanh para examinar-te outra vez.
- Posso comear a usar as canadianas, de manh? Quero tentar ficar de p e andar, assim que acordar.
O Dr. Malisoff olhou para o Tony e depois apertou o queixo com os dedos enquanto me mirava.
- Annie, j descrevi, com grande pormenor, os estdios da tua recuperao a Mister Tatterton. No faas nada sem primeiro lhe pedires autorizao, est bem?
- Sim, mas...
- Nada de mas. Os "mas" s trazem complicaes acrescentou o mdico, a sorrir. - Posso confiar em ti?
Desviei os olhos, incapaz de esconder a expresso triste do meu rosto.
- Ora, ora, devias estar contente. Ests no caminho certo.
O Dr. Malisoff deu uma palmadinha na minha mo e encaminhou-se para a porta. O Tony apertou-lhe a mo e depois voltou atrs. Olhou para mim com uma expresso triste
nos seus olhos azuis.
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- Quando desmaiaste, tive quase a certeza de que era preciso voltar a levar-te para o hospital. Agora que temos boas notcias, no pareces ter ficado muito feliz.
- S estou ansiosa por voltar ao normal, Tony.
- Claro.
Ficou pensativo por um momento e depois, de repente, o seu rosto iluminou-se como se se tivesse lembrado de alguma coisa.
- Mas eu ainda tenho outra surpresa para ti e, como agora temos a certeza de que ests a melhorar, ainda fico mais entusiasmado.
- Que foi que fez, Tony?
De facto, ele parecia animadssimo: os seus olhos azuis pareciam jovens e suaves de novo, e o seu rosto regozijava.
- Visto que mandmos instalar o elevador para ti na escadaria, decidi esta tarde mandar construir uma rampa  entrada da porta principal. Podes ir na tua cadeira
de rodas at  escadaria, descer e ires at  porta da frente. Depois, podes descer a rampa e dares uma volta pelos passeios e caminhos de Farthy. Claro que nas
primeiras vezes eu levo-te, mas com o tempo...
- com o tempo, vou sair pelo meu prprio p, Tony. Arrependi-me de ter dito aquilo to rapidamente de uma maneira to drstica. Ele pareceu ficar triste, como um
rapazinho desprezado, mas no pude deixar de diz-lo. Os meus progressos encheram-me de muita esperana, e agora o Tony e o mdico diziam-me que tinha de esperar
mais tempo do que eu desejaria. Continuava a ficar confinada quela cadeira de rodas.
- Claro. No pretendi...
- Mas eu estou-lhe grata pelo que fez, Tony. Estou ansiosa por sair e dar uma volta por Farthy. Obrigada, Tony. Obrigada por tudo, porque tenho a certeza de que,
se no fosse a sua ajuda, no estaria a recuperar to depressa.
O seu rosto voltou a iluminar-se.
- Fico contente por pensares assim, Annie. Oh! - exclamou ele, olhando para o cavalete. - Vejo que j adiantaste o teu quadro. Que maravilha!
Examinei o seu rosto, enquanto ele deitava um olhar agudo e penetrante ao meu trabalho. O seu sorriso desvaneceu-se e com ele desapareceu tambm tudo o que tornava
o seu rosto animado e jovem. Depois, olhou pela janela, como se pudesse ver atravs da escurido... Continuou a olhar, a olhar, atravs do breu da noite... Eu no
sabia que dizer.
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- Por enquanto  s um esboo.
- Sim...
Quando se virou para mim, os seus olhos azuis pareciam transtornados. Tinha o sobrolho franzido e os lbios crispados, como se estivesse a atravessar uma enorme
tenso mental.
- Est bom, mas eu estava  espera de que pintasses os jardins e as sebes, as pequenas alamedas e as fontes cristalinas.
- Mas, Tony, as fontes no esto a funcionar. Esto atoladas com as folhas secas das rvores. E os jardins precisam de ser podados. As flores que ainda l existem
esto a ser sufocadas pelas ervas daninhas. Algumas das sebes esto aparadas, mas at essas precisam de ser mais bem cuidadas.
Ele estava a fixar um ponto distante, sem pestanejar. Julgo at que nem ouviu uma nica palavra do que eu dissera.
- Quando o Sol se pe, os jardins brilham. - Sorriu.
- A Jillian diz que  como se estivesse um gigante no telhado a atirar jias para os relvados. Ela  uma artista, por isso tem o sentido e a imaginao de um artista.
Ela s pinta coisas bonitas e agradveis, coisas felizes, coisas que a fazem sentir jovem e viva. Foi por isso que comeou a fazer ilustraes para livros infantis.
- A Jillian... est a referir-se  minha bisav Jillian? Mas ela est morta. Tony?
Ele estava de facto a olhar para mim fixamente, com aquela expresso distante do olhar. Senti-me estremecer. Haveria mais alguma coisa a acontecer com ele? Seria
que as suas viagens ao passado estavam a tornar-se mais frequentes, ao ponto de ter dificuldade em regressar ao presente?
- O qu? Oh, eu queria dizer que era isso que a Jillian costumava dizer.
O Tony deu uma gargalhada breve e seca, antes de voltar a olhar para o meu cavalete.
- Acontece que, sempre que vejo um quadro ou utenslios de pintura, lembro-me dela e recordo nitidamente aqueles tempos do passado. Enfim, quando puderes andar,
poders instalar-te, onde quiseres, nos jardins... e pintar. Pintar at gastares os pincis por completo.
E continuou.
- No me surpreende que tenhas escolhido um cenrio triste, uma vez que te encontras encerrada neste quarto. Um artista precisa de espao para vaguear e respirar.
S o Troy conseguia trancar-se e criar sucessivamente coisas lindas. Acho que ele j as imaginava vivamente no seu esprito.
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- Gostaria de conhecer um pouco mais do trabalho do Troy.
- Oh, vais conhecer. Quando fores at l baixo, iremos ao meu gabinete para veres todos os exemplares que eu guardo nas prateleiras. Ele criou cada um deles at
ao mais nfimo pormenor.
- Talvez l v amanh - disse eu, esperanosa.
- Sim. Vamos tratar da tua primeira sada. No  maravilhoso percorreres de novo os corredores da Manso Farthinggale?
- De novo?
Ele bateu as palmas. Tudo o que estava a dizer parecia confuso. "Talvez seja s a excitao devido  minha iminente recuperao", pensei. Tive de lembrar-me de que
o Tony j no era nenhum jovem. A alterao radical da sua vida, depois de ter passado tantos anos a viver numa relativa solido, devia t-lo perturbado bastante.
- Agora devias ir descansar.
- Estou demasiado excitada para dormir.
De repente, lembrei-me da minha camisa de noite.
- Mas, Tony, porque estou vestida com uma camisa de noite diferente da que tinha antes de desmaiar?
- Uma camisa de noite diferente? - O seu sorriso tornou-se confuso. - No entendo.
- No era esta que eu tinha vestida. Mudou-me a camisa, no mudou?
Ele abanou a cabea.
- Deves estar a fazer confuso. Sempre usaste essa camisa de dormir.  a tua preferida. Disseste-me isso tantas vezes.
- Di.. disse?
Agora, deixara-me na dvida. Abanei a cabea. Fosse como fosse, tambm no me parecia assim to importante.
- Se calhar,  melhor dar-te qualquer coisa para te ajudar a adormecer. O mdico deixou indicao para continuares a tomar os sedativos.
- Detesto comprimidos para dormir. Fazem-me pesadelos - gritei.
- Ora, Annie, tens de continuar a fazer as coisas que ajudaram  tua recuperao. No concordas? - perguntou ele, numa voz suave. - O mdico acha que sim e afinal
 para ele dar o seu parecer mdico que estamos a pagar-lhe. Volto j.
Pouco depois, regressou com o comprimido e um copo de
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gua. Peguei no medicamento com relutncia e tomei-o. Em seguida, recostei-me na almofada. Ele aconchegou o cobertor e apagou as luzes. Depois, voltou para junto
da minha cama e pegou na minha mo.
- Sentes-te confortvel? - perguntou.
- Sim.
A minha voz soou muito sumida. Como eu desejei que aquela mo que segurava a minha fosse a do pap.
- Isso  bom.  assim que vai ser de hoje em diante declarou o Tony. - vou estar sempre perto de ti.  s chamares. Eu ouvirei o teu apelo, Annie, e virei o mais
rpido que puder.
- Mas no pode dedicar-me todo o seu tempo, Tony. Tem um negcio para dirigir - declarei.
- Oh, no te preocupes com os meus negcios. Eles dirigem-se sozinhos e tenho pessoas competentes para tomar conta de tudo, inclusive o Drake, a partir de agora.
Nunca penses que s um fardo para mim - acrescentou, dando-me uma palmadinha na mo.
- Amanh vai tratar de arranjar uma nova enfermeira?
- vou falar para a agncia logo pela manh - afirmou ele. - Dorme bem.
Ajoelhou-se e beijou-me no rosto. Desta vez, os seus lbios demoraram-se demasiado tempo em contacto com a minha pele e a sua mo fazia uma forte presso por cima
do meu ombro, como se nunca mais me quisesse largar.
- Boa noite.
- Boa noite, Tony - retorqui eu e fiquei a v-lo sair devagar do meu quarto.
Deslocava-se como se fosse um dos fantasmas do Rye Whiskey, apagando as luzes ao sair. A escurido caiu atrs de si.
Mesmo tendo tomado o comprimido para dormir, estava demasiado excitada para adormecer em seguida. De vez em quando, tentava mexer os dedos dos ps e sentir o formigueiro
dos meus ps, ao mesmo tempo que os sentia mexer sob o cobertor. Imaginei-me no muito diferente de um recm-nascido, ao descobrir os seus membros e todo o resto
do seu prprio corpo. Qualquer movimento, qualquer sensao, por mais pequenos que fossem, provocavam um novo fascnio. Oh, como eu desejava ter ali algum que me
fosse chegado; algum muito ntimo para compartilhar comigo aquela resposta do meu corpo! Como teria sido maravilhoso se o Luke estivesse ali quando eu me levantara!
Ter-me-ia abraado e
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apertado contra si, ter-me-ia beijado e afagado o meu cabelo. Sorri comigo mesma ao imagin-lo; ao ouvi-lo sussurrar no meu ouvido enquanto os seus dedos percorriam
os meus ombros. Fiquei arrepiada s de imaginar. "Oh, Luke", chorei, "estarei a ser terrivelmente pecaminosa ao ter estes pensamentos?"
Por fim, o comprimido para dormir que o Tony me dera fez efeito. Senti-me ficar cada vez mais tonta, as minhas plpebras cada vez mais pesadas, at que se tornou
difcil mant-las abertas. Fechei-as e, mal dei por isso, j tinha a luz do Sol a bater-me na cara e o Tony estava a abrir as cortinas. Ainda se encontrava de roupo
e chinelos, mas j tinha feito a barba. O quarto tresandava  sua loo de after-shave.
O primeiro pensamento terrvel foi temer ter sonhado tudo aquilo: as sensaes nas minhas pernas e ps; o meu esforo para ficar de p e a concretizao real desse
esforo. Porm, concentrei-me em mexer os ps e, para minha surpresa, desta vez a minha perna dobrou-se para dentro.
- Tony! - gritei.
Ele virou-se de repente, como se eu lhe tivesse dado uma pancada na nuca.
- As minhas pernas... mexem-se com mais facilidade e esto muito melhores.
Acenou rapidamente com a cabea e continuou a abrir cortinas e a andar pelo quarto, preparando-me as coisas para ajudar-me a sair da cama, a lavar-me e a vestir-me.
- Devias vestir isto hoje, Annie - aconselhou ele, tirando do armrio um dos antigos vestidos da mam e segurando-o com admirao. - Ficas lindamente com ele.
- Nunca o usei, Tony.
- Pois ento devias faz-lo. Ficarias lindamente com ele. Acredita em mim.
Era um vestido de algodo azul-claro, com mangas tufadas, uma gola larga bordada, e dava-me pelo tornozelo. Achei-o bastante inadequado. Tratava-se de um vestido
mais apropriado para usar numa pequena festa do que para ficar fechada num quarto.
- Posso escolher a minha prpria roupa, Tony. No se preocupe - declarei.
No ia precisar de mais ajuda hoje de manh do que nos outros dias. Para o provar, sentei-me e desviei cuidadosamente as pernas para fora da cama, sob o cobertor,
deixando-as penduradas num dos lados da cama.
- Que ests a fazer? - gritou ele, excitado.
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- A levantar-me. Est a ver? Agora posso fazer isto sozinha!
- No ouviste nada do que o mdico disse ontem  noite? Espera por mim - ordenou ele. - Se tentares ficar de p e cares, podes partir algum osso. Queres ficar de
cama, engessada no mnimo durante seis semanas?
As palavras dele aterrorizaram-me.
- Est bem, Tony. Estou  espera.
Pousou o vestido aos ps da cama e veio ter comigo, trazendo a cadeira de rodas. Baixei-me at os ps tocarem no cho, mas quando ia preparar-me para fazer fora
nas pernas, ele agarrou-me por debaixo dos braos e ps-me na cadeira.
- Acho que podia ter feito isso sozinha, Tony.
- No posso correr riscos contigo, Annie. O mdico culpar-me-ia se te acontecesse alguma coisa.
- Parece-me que devia fortalecer-me ao tentar melhorar o meu estado.
- Tens tempo - afirmou ele. - Tens muito tempo. No apresses as coisas - avisou. - Agora, quanto a este vestido...
- Eu prpria vou escolher qualquer coisa depois de me lavar, Tony.
- Eu ajudo-te - disse ele.
E antes que eu pudesse mexer-me sozinha, agarrou-se  cadeira de rodas, virando-a na direco da casa de banho.
- Mas, Tony...
- Lembra-te do que o mdico disse sobre esses "mas" insistiu ele.
Virou a cadeira em direco  banheira e ps-me de frente para ela. Depois ps a gua a correr.
- Tony, no posso deix-lo fazer tudo isso - protestei.
- Que disparate! Sinto-me terrivelmente responsvel pelo que aconteceu com a Mistress Broadfield. Fui eu quem a contratou. O mnimo que posso fazer, at ela ser
substituda,  fornecer-te o servio que precisas e mereces. Pensa em mim apenas como um enfermeiro - acrescentou ele, alegremente. - E que tal um banho de espuma?
Deitou um p cor-de-rosa para dentro de gua e saiu para ir buscar uma esponja e algumas toalhas.
- Tony - comecei a dizer, o mais suavemente que fui capaz, quando ele voltou -, eu sou uma mulher. Preciso de privacidade.
- No deves preocupar-te com essas coisas agora - replicou
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ele. - E seja como for, estou a fazer tudo de acordo com as instrues do mdico.
No soube como responder-lhe. O Tony fechou a torneira da banheira e sorriu-me.
- Est na hora de ires l para dentro - afirmou.
Olhei para a gua e depois para ele. O seu cabelo grisalho estava cuidadosamente penteado para trs e os seus olhos eram doces e carinhosos.
- Uma vez que estejas l dentro, deixo que sejas tu a lavar-te - condescendeu ele. - S quero ter a certeza de que no escorregas e no cais de encontro  banheira.
Levantei a camisa de noite com muita relutncia. Ele tirou-ma e ps as mos debaixo dos meus braos. Inevitavelmente, os seus dedos tocaram na parte lateral dos
meus seios nus. Ofeguei. Para alm dos meus pais, dos mdicos e das enfermeiras, nunca ningum me tinha visto nua e muito menos me tocara. O Tony no parecia ter
dado pelo que tinha feito. Passou o brao debaixo das minhas pernas e levantou-me, pondo-me devagar dentro de gua, at que a espuma escondeu a minha nudez. Senti-me
terrivelmente indefesa; era mais uma criana do que uma invlida.
- A est - afirmou ele. - Vs como foi fcil? Toma acrescentou ele, dando-me a esponja. - vou at l fora fazer a cama, enquanto tomas banho.
Regressou cerca de dez minutos mais tarde.
- Como te sentes?
- ptima.
- Queres que te esfregue as costas? Sou perito nisso. Costumava fazer isso  tua av e  tua me.
- A srio?
No conseguia imaginar a mam a deix-lo fazer uma coisa dessas.
- Um especialista nato - repetiu ele.
Tirou-me a esponja das mos e tomou posio na parte de trs da banheira. Inclinei-me para a frente quando ele pousou a esponja no meu pescoo.
- Tens o mesmo pescoo macio e gracioso, Annie - declarou ele, fazendo descer a esponja suavemente pelos meus ombros. - E os mesmos ombros delicados e femininos...
Ombros que podem provocar e atormentar os homens mais fortes.
Senti como ele usava a esponja para delinear os contornos dos meus ombros, movendo-a em crculos sobre a minha clavcula e voltando  nuca outra vez. Pouco depois,
tambm
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senti a sua respirao perto de mim e, quando olhei para o espelho que estava  nossa frente, reparei que ele tinha os olhos fechados e a cabea posta de maneira
como se estivesse a inalar o meu odor. Um arrepio de terror percorreu-me.
- Tony - protestei, pondo a minha mo sobre a dele e a esponja. - Agora possso acabar de fazer isso. Obrigada.
- O qu? Oh sim, sim. - Levantou-se rapidamente.
- vou pr uma toalha no assento da tua cadeira de rodas. Disse e f-lo. - J terminaste?
- Sim, mas vai ficar todo molhado.
- No te preocupes comigo. No  a primeira vez que fico todo molhado - brincou ele.
Depois, meteu os braos dentro de gua para me pegar pelos braos outra vez. Em seguida, levantou-me com cuidado para fora da banheira e colocou-me na cadeira. Embrulhei-me
rapidamente nas toalhas. O Tony agarrou noutra toalha e comeou a limpar-me as pernas.
- Eu posso fazer isso, Tony.
- Que disparate. Porque hs-de cansar-te, se eu estou aqui para ajudar?
Continuou a massajar a barriga das minhas pernas, subindo at aos joelhos, secando a minha pele com o cuidado de um artista. Ps-se de ccoras e ergueu lentamente
os olhos para fix-los nos meus.
- Quando te vejo aqui assim, s consigo pensar na tua av Leigh.
- Porque diz isso, Tony?
- O teu aspecto: jovem, inocente, to suave e o teu cabelo...
Comecei a arrepender-me de ter concordado com a mudana da cor do cabelo. Talvez fosse por isso que muitas vezes o Tony no me via quando olhava para mim.
-  melhor eu vestir-me - decidi eu.
- Sim, claro.
Levantou-se e levou-me da casa de banho para o quarto, onde tinha estendido o vestido de algodo azul em cima da cama.
- Eu ajudo-te - insistiu, e foi rapidamente buscar-me umas cuecas e um soutien.
Ajoelhou-se novamente  minha frente.
- Eu fao isso, Tony.
Agarrei nas cuecas; ele, pura e simplesmente, levantou-me os ps e f-las deslizar pelos tornozelos, puxando-as cuidadosamente para cima. O seu olhar era fixo, mas
os seus
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dedos nunca me tocaram na pele. Quando chegou s minhas coxas, parou e foi pr-se atrs de mim. No havia como det-lo. Usando os antebraos, levantou-me s para
puxar as cuecas e vesti-las convenientemente. Fechei os olhos, como que a negar o que estava a acontecer. Entretanto, o Tony comeou a abrir a toalha.
- Tony, por favor, deixe-me fazer isso.
- S vou ajudar - insistiu ele e trouxe-me o soutien.
Passei-o pelos braos rapidamente; porm, quando comecei a apert-lo, as mos dele passaram por cima das minhas e apressaram-se a tomar o comando.
- E agora para terminar... - anunciou ele e ps-se  minha frente com o vestido.
- Tony, no acho que esse vestido...
- Levanta os braos. Vai ser fcil.
Relutante, mas percebendo que essa era a maneira mais fcil de terminar com tudo aquilo, levantei os braos e deixei-o enfiar-me o vestido pela cabea. Ergueu-me
e ajustou o meu corpo, de modo a poder puxar o vestido completamente para baixo. Depois, recuou.
- Vs? Foi muito fcil. vou estar aqui todas as manhs para ajudar-te, Annie.
- Todas as manhs? Mas, certamente, que amanh j teremos uma outra enfermeira.
- Espero bem que sim, mas desta vez vou ter bastante mais cuidado com quem contratar. No queremos outra Mistress Broadfield, pois no? - Sorriu e depois bateu as
palmas. - Agora deixa-me ir tratar do teu pequeno-almoo acrescentou.
Saiu do quarto  pressa, animado com tudo o que tinha feito e o que ia fazer.
Dentro de poucos minutos reapareceu, trazendo a bandeja com o meu pequeno-almoo.
- Espero que tenhas fome esta manh - disse ele, recuando.
- Sim. Estou faminta.
Desejei que esse fosse outro sinal da minha recuperao.
- vou vestir-me enquanto comes - comunicou ele por fim, e saiu.
Quando voltou, parecia bastante desmazelado, muito semelhante  maneira como o Drake o descrevera na sua carta: o cabelo estava desgrenhado, a gravata frouxa e cheia
de ndoas. O seu fato estava bastante amarrotado. Foi como se ele tivesse ido vestir um conjunto de roupa velha.
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- bom dia - exclamou, como se fosse a primeira vez que me via naquela manh.
Olhei para ele, estarrecida, mas ele no pareceu dar por isso. No olhou muito para mim. Em vez disso, ficou a balanar-se nos ps, espreitando pela janela, com
as mos atrs das costas. Passou a lngua pelos lbios, esfregou ligeiramente o rosto e abanou a cabea. Mais uma vez, tive a sensao de que ele entrava e saa
da realidade, viajando entre o passado e o presente. Na verdade, comeava a ficar alarmada.
- Sinto-me bastante mais forte esta manh, Tony - afirmei.
Estava ansiosa por ficar boa depressa, para entrar em contacto com o Luke.
- Talvez afinal me possa levar a dar um passeio.
Ele falou, mas no deu uma resposta ao que eu estava a dizer. Agiu como um homem que estivesse a ouvir outra conversa.
- Prometo - comeou ele -, que te dou um lar e tudo o que ele representa...
- Lar? No compreendo, Tony. Eu tenho um lar...
- Pelo que j sei de ti, s uma pessoa que se adapta com facilidade. Suspeito que a longo prazo te sentirs mais enraizada em Boston do que eu, que nasci aqui.
Comeou a rir-se, mas parou de repente. O seu rosto endureceu e os lbios crisparam-se.
- Mas no quero os teus parentes labregos por aqui, nunca mais...
- Parentes... labregos?
Tinha esperana de que ele no estivesse a referir-se ao Luke.
- Que est a dizer, Tony? Est a assustar-me. Piscou os olhos, rapidamente, como se estivesse a acordar de um sonho, mesmo diante dos meus olhos. Depois, abanou
a cabea.
- Tony? Sente-se bem?
- Como? Oh, sim. Desculpa... Estava muito distrado. Bem, tenho de voltar para baixo e tratar de uns assuntos de negcio - disse ele. - O Rye j c vem buscar a
tua bandeja - acrescentou, e saiu do quarto apressadamente.
O meu corao batia, descompassado. Que se passaria com ele naquela manh? Seria alguma reaco a tudo o que tinha feito: dar-me banho e vestir-me? Fiquei contente
quando o Rye Whiskey apareceu, embora no me parecesse nos seus melhores dias.
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- Como se sente esta manh, Miss Annie?
- Sinto-me muito mais forte, Rye, obrigada.
Pegou na bandeja e pareceu-me que tambm se preparava para correr para fora do quarto.
- Est tudo bem com Mister Tatterton, Rye?
- Ele parece estar bem. Est a trabalhar no gabinete.
- Ainda h pouco, disse-me coisas muito esquisitas... e durante um momento agiu como se nem percebesse que era eu que estava aqui.
- Talvez estivesse a sonhar - sugeriu. - Quando as pessoas chegam  idade dele, muitas vezes ficam confusas assim que se levantam de manh.
- Ele j estava a p h muito tempo. E quanto  idade, voc  mais velho do que o Tony e no fica confuso de manh, pois no?
- Bem, menina... s vezes fico. Principalmente, depois de ontem  noite.
Olhei para ele estupefacta.
- Ontem  noite? Porqu? Pareceu relutante em falar.
- Que se passa, Rye? Por favor, conte-me - insisti.
- O velho Rye no fala o que no deve, Miss Annie... Ainda vai ficar aqui muito tempo?
- No muito. Estou a melhorar rapidamente.
- Isso  bom. Os fantasmas antigos esto muito zangados. Ouvi-os a andar por a esta noite.
- Ah... Os fantasmas antigos? Sorri.
- Mesmo assim, Miss Annie, espero que melhore depressa e volte logo para sua casa. No  que o velho Rye no a queira aqui.  menina traz-me boas recordaes. S
no quero que seja perseguida.
- Bem, vou manter os olhos bem abertos, Rye. Concordou com um aceno de cabea. No consegui fazer com que ele se risse. Os fantasmas e os espritos eram um assunto
que ele levava muito a srio. Abanou a cabea e saiu, levando a bandeja consigo.
Voltei  minha pintura para me distrair de tudo aquilo. Talvez devido s minhas foras renovadas e s perspectivas optimistas a respeito do meu estado, senti que
estava a imprimir uma nova cor ao trabalho. Concentrei-me nas rvores e folhagem do cenrio que rodeava o tmulo, e depois encontrei o verde-vivo e adequado para
a relva. Pintei o cu de um azul suave, em vez do cinzento sombrio. Trabalhei todos
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os pormenores do quadro,  excepo do homem junto ao tmulo.
Depois do almoo, o Drake chegou. Entrou a correr no quarto, como um homem apressado em apanhar um comboio, e beijou-me rapidamente no rosto. Desde que tinha comeado
a trabalhar para o Tony, o Drake copiara tambm o seu passo apressado. Era como se toda a sua vida se regulasse por um horrio. Senti que tambm havia estipulado
quanto tempo passaria comigo e, quando o relgio de ouro, que o Tony lhe dera recentemente, marcava a hora certa, o Drake ia-se embora, sem mais delongas. O Drake
parecia to mudado, quase como um estranho. S me restava desejar que o mesmo no tivesse acontecido com o Luke e que, quando ele finalmente viesse visitar-me, no
o achasse completamente mudado. Esse era o meu maior medo.
Aparentemente, ningum tinha contado nada ao Drake sobre os meus progressos.
- Ests a dizer-me que ningum te disse o que se passou? Mistress Broadfield praticamente envenenou-me para se vingar.- O Tony despediu-a e eu comecei a recuperar!
- gritei com surpresa.
- Bem, ainda no vi o Tony. Vim logo a correr c acima. Mas, dize-me: que fez a enfermeira?
Descrevi-lhe tudo, sumariamente. O Drake encostou-se para trs, abanando a cabea.
- Nunca gostei muito dela, mas estava to bem recomendada e com ptimas referncias... Isso s demonstra como  difcil encontrar gente boa e competente por a.
Nos negcios depara-se-me o mesmo problema. No sei se sabes, mas tambm tenho despedido algumas pessoas.
O Drake fez uma pausa, olhou para mim durante um momento e depois sorriu.
- Realmente ests muito diferente: mais entusiasmada, mais forte. Mas conta-me sobre a tua recuperao.
- Levantei-me... sozinha! - exclamei, impaciente com a sua falta de entusiasmo.
- Quando? Parecia cptico.
- Ontem  noite. Sou capaz de faz-lo outra vez agora, mas o mdico e o Tony dizem-me para ter calma. Oh, Drake, eu no quero ter calma. Estou to ansiosa por me
ir embora daqui.
Abanou a cabea, pensativamente, fitando-me com o mesmo olhar estreito e penetrante com que o Tony me olhava s vezes.
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- Estou certo de que o que eles te disseram  para o teu prprio bem, Annie.
- Mas no  justo - insisti. - Eu sei que posso levantar-me. Deveria faz-lo mais vezes e habituar as minhas pernas a fazer esse exerccio para fortalec-las. E
tambm devia usar aquelas canadianas - insisti eu, apontando para elas, para um dos cantos do quarto. - De que servem elas, se no as utilizo?
Ele encolheu os ombros.
- Provavelmente s deves faz-lo a uma dada altura, ou ento..,  capaz de fazer mais mal do que bem. No sei, Annie. No sou mdico.
- Mas o Luke vai ser! - exclamei.
O Drake encolheu-se como se eu lhe tivesse dado uma bofetada; porm, no pudera evitar expressar os meus sentimentos.
- Quem me dera que ele estivesse aqui. No entendo porque no est. - E cruzei os braos sob o peito.
- Eu deixei vrios recados.
- Pelos vistos, ele no os recebeu - amuei.
- Todos?
- No  do seu feitio fazer uma coisa destas - afirmei.
- As pessoas mudam, principalmente quando entram para a faculdade. Acho que j te tinha dito isto.
- O Luke, no - insisti. - Drake, gostas de mim? Gostas mesmo de mim?
- Claro que sim. Como podes sequer fazer uma pergunta dessas?
- Nesse caso, quero que me leves daqui. vou at l abaixo no elevador. Quero ser eu mesma a falar com o Luke agora. O Tony prometeu mandar instalar um telefone neste
quarto, mas ainda no o fez e tenho as minhas dvidas de que ele tenha realmente tentado falar com o Luke, tal como eu lhe pedi.
- Porqu? Se ele disse que tentou... e se prometeu arranjar-te um telefone...
- No, no, ele esquece o que diz e o que promete. Tu no o vs da mesma maneira que eu, Drake. Acho que o Tony est a ficar senil e, a cada dia que passa, fica
pior.
- O qu? Ora, eu tenho trabalhado com...
- Ouve-me, Drake. s vezes, quando ele fala comigo, confunde tudo... Fala da minha me, da minha av e da minha bisav. Esquece-se de quem j morreu e de quem ainda
est vivo. Agora estou arrependida por ter deixado que ele e
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o cabeleireiro me convencessem a pintar o cabelo desta cor. S aumenta a sua confuso.
Naquele momento, ao contar tudo ao Drake, o assunto parecia-me mais srio do que tinha sido at ento.
Ele sorriu e abanou a cabea.
- Annie, tu  que j ests a parecer senil.
- No, Drake. Acontecem coisas estranhas... A maneira como ele conservou os aposentos da mam e do pap e os da minha bisav Jillian... Como se todos eles ainda
estivessem vivos. At mesmo o Rye Whiskey acha certas coisas esquisitas. Claro que ele fala em fantasmas a vaguear pelos corredores, mas ele sabe mais coisas. O
Rye quer que eu regresse a casa! - exclamei.
Percebi ento que, durante todo aquele tempo, tinha tido pena do Tony. Tentava compreender por que razo ele era assim e arranjava desculpas para isso. Mas, agora
que descortinara tudo, compreendi que devia ter mais pena de mim. Podia estar presa na casa de um louco e no apenas de algum que tinha lapsos de memria de vez
em quando.
- O Rye quer que te vs embora? - O Drake abanou a cabea. - Ora a est uma pessoa senil.
- E o Tony mantm o quarto da Jillian como se fosse um museu - prossegui, comeando a sentir-me desesperada pelo facto de o Drake no entender a minha preocupao.
- No deixa ningum l entrar. ... esquisito. Havias de t-lo visto h pouco, murmurando qualquer coisa sobre os meus parentes labregos virem morar para aqui...
- Abanei a cabea. - Sabes que retiraram todos os espelhos do quarto da Jillian e...
- Espera um pouco, tenho a cabea a andar  roda. Recostou-se. - Levar-te l abaixo para telefonar ao Luke; o Tony transformou os aposentos num museu; o Tony est
confuso; tu desejavas no ter pintado o cabelo... Ser que isto pode ser o efeito de algum medicamento que ests a tomar?
- Drake, no ests a ouvir-me?
Ele s conseguia olhar para mim, estupefacto.
- Estou a comear a ter medo. Quero colaborar e fazer o que toda a gente acha que eu devo, mas no consigo deixar de imaginar o que o Tony ir fazer a seguir.
- O Tony? - disse ele, ainda descrente. - Nunca conheci ningum to gentil, carinhoso e devotado a ns como o Tony.
- Leva-me at l fora - exigi. - Agora.
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- Deixa-me falar com o teu mdico.
- No - disse eu rapidamente, ocorrendo-me outra possibilidade. - Ele trabalha sob as ordens do Tony. Faz tudo para tornar o Tony feliz.
A possibilidade de tudo aquilo ser verdade fez com que uma espcie de espada fria de terror trespassasse o meu corao.
- Meu Deus... e se...
Olhei em redor do quarto, agora em pnico.
- At mesmo o mdico no presta? Annie, devias ouvir-te a dizer essas coisas. S ests exausta devido a tudo o que passaste.., o acidente, a tua invalidez... a cerimnia
religiosa junto ao tmulo... Compreendo como te sentes, mas, na verdade, tens um dos melhores mdicos e ests a receber o melhor tratamento que existe. Tenho a certeza
de que j ters uma outra enfermeira at ao fim do dia e...
- Oh, de que vai servir isso? - protestei, baixando a cabea.
O Drake no via o que se passava ali, ou... Levantei a cabea e olhei para ele. Ou ento no queria ver, porque estava demasiado contente com o novo emprego de executivo
que o Tony lhe confiara. O Drake estava apaixonado pelo seu prprio poder e autoridade. Na realidade, o Tony fizera uma coisa que j havia feito antes: comprar o
Drake.
- Tu no queres ouvir. Julguei que podia confiar em ti. Uma vez que os meus pais morreram, tu, o Luke e a tia Fanny...
Senti-me doente por dentro; doente e sozinha. O meu corao estava oco e a sua cavidade enchia-se com o eco dos meus gritos vazios; gritos esses que no seriam ouvidos
por ningum, porque as pessoas que realmente me haviam amado um dia estavam mortas. At mesmo o Luke parecia-me morto agora.
- Olha - disse ele, esticando-se para agarrar rapidamente nas minhas mos -, estou de partida para Nova Iorque. Tenho de dirigir sozinho um projecto relativamente
importante. vou estar fora durante uns dias e depois venho logo para aqui e, se ainda pensares da mesma maneira, eu prprio te levarei de novo para Winnerrow.
- Levas? Prometes?
No entanto, no tive grandes esperanas.
- Claro. Eu prprio tomarei a tua recuperao a meu cargo. Chamo os nossos prprios mdicos e enfermeiras...
- Oh, Drake, quem me dera que o pudesses fazer j.
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- So s mais uns dias, Annie. No podes precipitar-te, porque podes piorar. Tens de ter a certeza de que essa  a deciso certa mas, se tiveres a certeza, prometo
que te ajudo.
Beijou-me ao de leve no rosto e abraou-me. Depois, deu um salto como se tivesse tocado um alarme dentro da sua cabea de homem de negcios.
- Tenho de apanhar o avio.
- Mas, Drake, pensei que, ao menos, me levasses l abaixo para telefonar ao Luke.
- No vejo necessidade de passar a vida a telefonar-lhe. Ele vir quando quiser.
- Drake, por favor - implorei realmente, para faz-lo entender como isso era importante para mim.
Por um momento, ele olhou para mim e depois abanou a cabea.
- Eu falo com o Tony  sada. De certeza que ele pode fazer isso.
- Mas, Drake...
- nimo, Annie. Tudo vai correr bem. Vais ver. Pelo menos- voltaste a pintar - comentou, apontando para o cavalete.
Nem sequer se aproximou para ver o meu trabalho. Lanou-me um sorriso rpido, como um autmato, e acenou-me ao retirar-se. Estava obviamente com medo de que eu insistisse
numa coisa que podia p-lo em conflito com o Tony. Fiquei to desapontada... O Drake, o tio que sempre fora, para mim, mais como um irmo mais velho, agia agora
como um perfeito desconhecido.
Quando saiu, restou-me o silncio que me fazia tomar mais conscincia do meu abandono. Mais uma vez me encontrava s, encurralada, como um animal ferido, numa jaula
dourada.
Mais determinada do que nunca, dirigi a cadeira at  porta e abri-a. Depois, percorri a saleta e abri a porta que dava para o corredor. Desci-o em direco  escadaria.
Olhei para baixo e vi que no havia ningum; a minha segunda cadeira de rodas encontrava-se no lugar que o Tony me havia dito - ao fundo da escadaria. Desapertei
e levantei o brao da cadeira, para poder iar-me para a cadeira do elevador, tal como o Tony e o tcnico me haviam indicado. J em segurana no elevador, com o
cinto apertado, carreguei no boto para descer e iniciei a descida. O meu corao batia violentamente. No entanto, estava decidida a revoltar-me e determinada em
pr fim quela situao de crcere.
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A cadeira parou ao fundo das escadas e eu comecei a tentar sentar-me na cadeira de rodas que me aguardava. Encorajada pelo sucesso que tinha tido at quele momento,
movimentei a cadeira atravs do tapete do corredor, em direco ao gabinete do Tony.
A porta do gabinete estava entreaberta. Parei, no ouvi qualquer rudo vindo do interior, e avancei, determinada. Havia apenas um pequeno candeeiro em cima da secretria.
Fora esse pormenor, a sala estava relativamente escura, com os cortinados corridos, encobrindo a luz do Sol da tarde. Olhei em volta. No havia ningum. Onde teria
ido o Tony? Recostei-me na cadeira, frustrada. Depois, os meus olhos fixaram-se no telefone que estava em cima da secretria do Tony.
Ali estava finalmente uma oportunidade de falar com o Luke! Empurrei a cadeira de rodas at  secretria. S quando peguei no auscultador, compreendi que no fazia
a mnima ideia de como entrar em contacto com ele. No sabia o nmero. Como era o nome do alojamento em que o Luke vivia? O Drake nunca me dissera.
Liguei para as informaes e pedi o nmero de telefone de Harvard. A telefonista, aborrecida com a minha falta de informaes precisas, comeou a ler uma lista com
os departamentos possveis. Quando mencionou a administrao dos alojamentos, interrompi-a. Uma voz gravada surgiu e mencionou um nmero. Telefonei para l e expliquei
o que queria, assim que me atenderam. A secretria foi muito amvel. Disse-me que a maioria dos alunos ainda no tinha telefone instalado nos seus quartos; porm,
deu-me o nmero de telefone do piso onde o Luke estava alojado. Agradeci-lhe e liguei de novo.
Atendeu-me um rapaz. A sua voz tinha o sotaque caracterstico de Boston e pareceu-me uma verso nova do Tony.
- Preciso de falar com Luke Casteel. Fala a sua prima Annie.  urgente.
- S um momento, por favor.
Aguardei, olhando para a porta do escritrio,  espera de que o Tony entrasse a qualquer momento. No pude deixar de sentir que estava a fazer algo que ele no aprovaria.
Detestei a ideia de que um mero telefonema se transformasse numa aventura.
- Menina?
- Sim?
- Neste momento, o Luke Casteel est a ter uma aula.
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O seu companheiro de quarto disse-me que lhe daria o recado.
- Oh, mas... Por favor, diga-lhe mais uma coisa. Por favor - implorei.
- Mas, claro. Que deseja que lhe diga?
- Diga-lhe... Diga-lhe que preciso desesperadamente dele e que, no importa o que disserem, ele deve vir a Farthy com urgncia.
- Farthy?
- Sim, ele vai entender. Por favor, d-lhe o recado o mais depressa possvel.  muito, muito importante.
- E  a Annie quem fala?
- Sim.
- Est certo, vou dar o recado ao seu companheiro de quarto e ele vai certamente comunicar-lhe.
- Obrigada.
- No tem de qu.
Desliguei o telefone. O meu corao comeou outra vez a bater, descompassado, pulando tanto que julguei rebentar no meu peito. A excitao provocou-me um calafrio.
Senti as gotas de suor que se tinham formado na minha nuca.
Endireitei-me na cadeira e retomei a respirao normal, obrigando-me a ficar mais calma. Onde estaria o Tony? Tinha-me dito que viria para ali trabalhar. Talvez
tivesse ido buscar outra enfermeira. Voltei a sair para o corredor e escutei. A casa estava muito silenciosa.
Fui at  porta principal e abri-a. A luz do Sol incidiu sobre mim e inundou-me como uma onda de gua tpida. Pisquei os olhos e depois fechei-os, recostando-me
como se estivesse na praia. Era maravilhoso sentir o ar fresco e o calor, depois de ter estado tanto tempo trancada num quarto! Encheu-me de fora e esperana. O
meu corao fortaleceu-se e,  medida que o sangue irrigava o meu corpo mais rapidamente, os meus membros sentiram-se logo mais fortalecidos.
Sentei-me e fiz rodar a cadeira para a frente e para trs at ao alpendre e l estava ela, tal como o Tony havia descrito: a rampa de madeira. Contudo, parecia to
ngreme. Seria que eu podia atrever-me a descer por ela? Que iria acontecer quando eu quisesse voltar a subi-la? Fiquei a pensar.
O medo apoderou-se de mim. Achei que tinha ido longe de mais. Agora estava a fazer demasiado. No entanto, enquanto estava ali na entrada da porta, a olhar para a
rampa, pensei no Luke. Podia ouvi-lo a dizer-me: "Dirige-te s mais altas." Que iria fazer agora...? Voltar para trs e refugiar-me no meu quarto, sentindo-me derrotada?
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Disse para mim mesma que era suficientemente forte. O meu corpo no iria desapontar-me. Devagar, rodei a cadeira pela rampa. Como o meu corao batia! Mas recusei-me
a ser derrotada. Tinha de ser capaz de faz-lo.
As rodas avanaram. Hesitei no topo da rampa e depois... comecei a descer. Os meus braos mal tinham fora para evitar que as rodas se desgovernassem. Precisei de
fazer mais esforo do que havia previsto, para manter a cadeira direita e controlada, mas consegui chegar ao fundo e encaminhei-me at  alameda. Tinha conseguido!
Tinha feito tudo isso e continuava com foras para prosseguir.
Olhei para a direita, mas o som de vozes fez-me virar para a esquerda. "Muito provavelmente, o Tony estava ali fora a supervisionar alguma obra", pensei e comecei
a deslizar com a cadeira at  alameda que ficava  minha esquerda. A pedra acidentada tornava, por vezes, isso difcil; consegui, porm, encontrar um ritmo equilibrado,
e s parei a uns bons cento e cinquenta metros da porta principal de Farthy. Vi um empregado ao p da piscina. Transportava o que parecia ser uma cadeira de repouso,
para uma arrecadao. No havia mais ningum  vista. Durante alguns instantes, fiquei a olhar para o enorme terrao e pensei no Luke. Pelo menos, agora tinha a
certeza de que ele ia receber o meu recado. Iria compreender como era importante que ele viesse e como eu estava desesperada. Talvez ele tivesse pensado que o abandonara,
porque no tinha notcias minhas h muito tempo. Talvez eu estivesse errada, completamente errada por pensar coisas terrveis dele e aceitar a afirmao do Drake
de que o Luke tinha mudado, s porque agora estava na faculdade e conhecera gente nova, principalmente outras raparigas. Ele viria at ali imediatamente, sabia que
viria.
Como desejava, naquele momento, estar a olhar para o meu prprio terrao em Winnerrow. Como desejava que o Luke j estivesse ali  minha espera.
Por detrs do terrao e um pouco afastado para a esquerda, ficava o labirinto. Ao v-lo da posio sentada, lembrei-me de o Drake ter dito como era grande, porque
ele era muito pequeno da primeira vez que o vira. De facto, parecia grande, formidvel e misterioso. E, contudo, no conseguia deixar de sentir-me atrada por ele,
desejando atravess-lo, como imaginara que a minha me e a minha av deviam ter feito.
- Gostarias de ir at l? - perguntou uma voz.
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Quase dei um salto da cadeira de rodas. Debati-me para virar  direita, de modo a poder ver quem aparecera de repente atrs de mim. Levei algum tempo, porque ningum
me ajudou. Por fim, virando-me e inclinando-me, consegui voltar-me. Ao princpio, no vi fosse quem fosse e imaginei ter ouvido uma voz.
Depois, ele saiu de trs de uma sebe alta.
As sombras ainda lhe encobriam o rosto; contudo, percebi imediatamente que estava na presena do homem misterioso, aquele que se tinha ajoelhado diante do tmulo
dos meus pais. Era como se ele tivesse sado dos meus quadros e desenhos; como se tivesse sado da minha imaginao e agora se encontrasse  minha frente, naquele
mundo real.

19 O OUTRO LADO DO LABIRINTO

- Quem  o senhor?
Olhei para ele fascinada. Tinha surgido das sombras e estava  minha frente, com as mos nos bolsos das calas. Embora fosse alto e magro, os seus ombros eram largos.
Tinha cabelo rebelde cor de cobre, que estava a ficar grisalho nas fontes. O seu cabelo era comprido e encaracolado nas pontas, a roar a gola branca da sua bata
de artista, de mangas largas.
Achei que ele tinha feies muito distintas, mas no efeminadas; eram mais como as feies esculpidas no rosto de uma esttua grega. Inclinou a cabea um pouco para
o lado e levantou uma das suas grossas sobrancelhas escuras, enquanto me contemplava. Estava a olhar para mim to intensamente que me tornei muito consciente de
mim mesma. Algo que ele viu em mim afectou-o e comoveu-o. Os seus olhos ficaram mais pequenos, tal como os olhos do Tony quando assumia aquela expresso distante,
nas alturas em que balbuciava e confundia o passado com o presente. Porque no falaria ele? Comecei a tremer, sentindo-me naturalmente ameaada pela sua relutncia
em saudar-me. Olhei na direco da casa; todavia, ningum me havia seguido at ali, ningum sabia onde eu me encontrava.
Quando me voltei para ele, vi que os seus lbios se curvavam num sorriso, e havia algo naquele sorriso e naqueles olhos castanho-escuros que me fez sentir animada
e segura.
- No precisas de dizer-me quem s - declarou ele, na sua voz suave, calma e quase carinhosa. - s a filha da Heaven. No entanto, pareces-te mais com a Leigh, com
essa cor de cabelo. Dize-me, essa  a cor natural do teu cabelo, ou pintaste-o como a tua me fez um dia?
- Quem  o senhor? - perguntei, agora com mais determinao.
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Vi nos seus olhos que ele estava a pensar, a decidir se devia continuar a falar comigo ou simplesmente ir-se embora. Algo que ele no conseguia superar f-lo ficar
ao meu lado.
- Eu? Sou... Chamo-me Brothers. Timothy Brothers.
- Mas quem  o senhor? Isto , como conhece a minha me e a minha av? E como sabe que ela pintou o cabelo um dia?
- Trabalho para Mister Tatterton.
Recostei-me. Decididamente no se parecia com nenhum dos outros empregados, e o Rye dissera-me que no havia ningum, com as caractersticas daquele homem, a trabalhar
nos jardins. "Claro que o Rye tambm pode estar esquecido", pensei, "mas no me parece que este homem faa trabalhos pesados." Havia nele uma suavidade e uma delicadeza
que lhe conferiam uma natureza contemplativa.
- Oh? E o que faz para Mister Tatterton?
- Eu... crio brinquedos.
- Cria brinquedos?
- No fiques to surpreendida, Annie. Algum tem de fazer esse trabalho.
- Como sabe o meu nome? - perguntei, surpreendida.
- Oh, neste momento j toda a gente sabe o teu nome. Mister Tatterton fala muito sobre ti.
Continuei a olh-lo nos olhos. Tive a sensao de que havia mais mistrio naquele homem do que ele estava disposto a revelar.
- E que estava o senhor a fazer aqui junto das sebes? No me diga que  aqui que cria os brinquedos!
Lanou a cabea para trs e riu.
- De maneira nenhuma. Estava a dar um passeio quando te vi a descer a alameda.
- Onde vive? Tambm mora em Farthy?
- No. Moro do outro lado do labirinto.  a que fao os brinquedos.
- Do outro lado do labirinto? No  a que... No h a uma pequena casa de pedra? - perguntei, rapidamente.
- Oh, j tens conhecimento dessa casa? Acenei afirmativamente com a cabea.
- Foi a tua me que te contou?
- No. Ela no me contou muita coisa sobre Farthy; nunca gostou de falar nesse assunto.
Abanou a cabea devagar, e o seu rosto ficou triste. Desviou os olhos na direco do cemitrio da famlia Tatterton. Havia qualquer coisa na posio dos seus ombros
que me
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lembrava muito eu mesma, sempre que me sentia melanclica. Pouco depois, tirou a mo direita do bolso e passou-a pelo cabelo. Os seus dedos eram compridos, sensveis
e fortes; eram os dedos de um artista. Bastante parecidos com os meus... "Talvez certas pessoas tenham nascido para serem artistas", pensei.
- Sinto muito pelo que aconteceu com os teus pais disse ele, em voz baixa.
No olhou para mim quando falou.
- Obrigada.
- E ento? - inquiriu ele, olhando rapidamente para cima. - Tambm sabes da existncia do labirinto, suponho. No pude deixar de reparar na maneira como estavas
a olhar para ele.
- Parece to misterioso...
- Como qualquer outra coisa na vida,  estranho e misterioso para aqueles que no o conhecem. Gostarias de atravess-lo?
- Atravess-lo? Quer dizer... at ao outro lado?
- Porque no?
Olhou para cima, para o cu azul, raiado aqui e ali de rastos de nuvens compridas e finas.
- Est um dia lindo para dar um passeio. Terei muito gosto em ir empurrando a tua cadeira.
Hesitei em concordar, embora estivesse muito ansiosa por conhecer o labirinto e, decididamente, queria ver a casa que ficava do outro lado. No entanto, apesar de
Mr. Brothers ser muito simptico, continuava a ser um perfeito desconhecido. Que iriam dizer se eu sasse assim com ele por ali? Por outro lado, trabalhava para
o Tony e, fosse como fosse, este iria ficar zangado por eu ter sado de casa. Por isso, j agora, podia dar esse pequeno passeio; principalmente esse.
- Est bem - concordei eu.
Ele reparou no modo furtivo como eu olhava em volta.
- Mister Tatterton no sabe que saste?
- No, mas no me importo! - exclamei, num tom de desafio.
- Estou a ver que herdaste o gnio da tua me.
Deu a volta por detrs da cadeira e segurou nas pegas.
- Conheceu-a bem?
- Sim. Conheci-a bem. Tambm tinha mais ou menos a tua idade quando a conheci.
- Est a dizer que trabalha para o Tony h tanto tempo? Sempre a fazer brinquedos?
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- Sim.
Nesse momento, ele j estava atrs de mim a empurrar a cadeira; no podia ver-lhe a cara, mas a sua voz estava cada vez mais suave.
- Mas eu pensei que fosse o Troy, o irmo dele, que desenhava todos os brinquedos nessa altura.
- Oh, e era. S estou a fazer rplicas dos seus esboos. Ele ensinou-me tudo o que sei.
- Compreendo.
Senti que ele no estava a ser completamente verdadeiro.
- Tambm trabalhava na casa do outro lado, ou trabalhava numa fbrica?
- As duas coisas.
- Onde conheceu a minha me?
Estvamos a aproximar-nos da entrada do labirinto, e achei que falar disfarava o meu medo.
- Por a...
Parou de empurrar a minha cadeira. Pareceu perceber a minha angstia.
- Tens a certeza de que queres continuar?
No respondi de imediato. As sebes eram to altas e espessas e os caminhos que constituam o labirinto pareciam escuros e interminveis. E se aquele homem no conhecesse
realmente o caminho e se perdesse?
- Tem a certeza de que pode entrar e que sabe o caminho de regresso?
Ele riu-se.
- De olhos fechados. Talvez um dia o faa, s para te provar que sou capaz. Mas se tiveres medo...
- No, no, eu quero continuar - protestei, fazendo um esforo para ser corajosa.
- Muito bem, ento. C vamos! - Comeou a empurrar a cadeira atravs do fantstico labirinto de estilo ingls. Eu estava mesmo a entrar nele! Algo que tinha sido
uma fantasia durante grande parte da minha vida estava prestes a acontecer! Mais uma vez, desejei que o Luke estivesse ao p de mim. Recostei-me, sustendo a respirao
e, em breve, deparou-se-nos um castelo em hera verde e brilhante.
O labirinto era bonito e agradvel, com as sebes muito altas, formando voltas precisas em ngulo recto. Claro que, como quase toda a vegetao de Farthy, precisava
de ser cuidada e aparada. Porm, ali dentro, tudo era escuro, verde e calmo, e senti a tenso do dia, as preocupaes, o medo e a luta afastarem-se de mim.
279
- Que achas at agora? - perguntou ele, assim que contornmos a primeira curva e nos embrenhmos mais.
-  to sossegado. Mal se ouvem os pssaros do jardim a chilrear.
-  verdade, esta calma serenidade  o que eu mais aprecio no labirinto.
Olhei para cima. Mesmo os gritos melanclicos das gaivotas que nos sobrevoavam pareciam abafados e distantes. Quando demos mais uma volta, ele parou.
- Ests muito baixa para ver o telhado de Farthy?
- No, consigo v-lo mesmo por cima da sebe. J parece muito distante.
- No labirinto, podes fingir que ests num outro mundo. Eu fao isso muitas vezes - confessou ele. - Gostas de fingir, de viver uma fantasia, de vez em quando?
- Sim, gosto muito. Eu e o Luke fazamos isso muitas vezes, e se ambos estivssemos agora em casa, provavelmente ainda faramos, muito embora j pudssemos no ter
idade para o fazer.
- O Luke?
- O meu... primo... Luke, o filho da minha tia Fanny.
- Ah, sim... a tua tia Fanny. J me tinha esquecido dela.
- Tambm a conheceu?!
- Ouvi falar dela - disse ele.
Ele sabia mais do que dizia. Isso era evidente. Quem era aquele homem? Teria sido demasiado temerria ao aceitar o seu convite to prontamente? Estvamos a embrenhar-nos
cada vez mais naquele labirinto, que me parecia enorme. Rodeei o meu corpo com os braos, numa atitude de proteco. Uma parte de mim queria regressar de imediato
a casa, mas uma outra parte mais forte queria ver a casa; queria saber mais coisas sobre aquele homem misterioso e fascinante.
- Ests com frio? Realmente, chega a estar bastante fresco aqui.
- Eu estou bem. Ainda falta muito?
- S mais uns minutos. Viramos aqui e depois ali adiante, depois vamos a direito e estaremos logo no outro lado.
- Agora percebo como  fcil uma pessoa perder-se aqui.
- H pessoas que se perdem. A tua me perdeu-se uma vez.
- A srio? Ela nunca me contou isso. Ele riu-se.
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- Foi a primeira vez que a vi. No conseguia encontrar o caminho de regresso.
- Por favor, conte-me isso - implorei. - Ela tinha tanta relutncia em falar sobre os tempos que passara em Farthy.
- Foi da primeira vez que ela veio ao labirinto. Eu estava a trabalhar na casa de pedra... fazendo pequenas armaduras para minsculos cavaleiros, acho eu... De repente,
ela apareceu  porta. Parecia inocente e perdida, quase como um anjo que tivesse sado do nevoeiro... To linda e to cheia de determinao. Nesse dia havia muito
nevoeiro e escurecera muito cedo. Ela estava com medo de no ser capaz de encontrar o caminho de regresso para casa.
- O Troy tambm l estava?
- Estava sim.
- E ento, que aconteceu depois? - perguntei, impaciente com aquelas pausas dramticas.
- Oh, ns acalmmo-la. Demos-lhe qualquer coisa para comer, tanto quanto me lembro, e depois reconduzimo-la atravs do labirinto.
-  estranho pensar na minha me quando ela era jovem.
- Ela era uma jovem muito linda, muito parecida contigo.
- No me tenho sentido particularmente bonita nestes ltimos tempos, devo dizer.
- Vais sentir-te. Tenho a certeza disso. Ora, c estamos ns, s falta uma curva.
Contornmos uma esquina e samos do labirinto.
 nossa frente, estava um carreiro de laje baa, ladeado por altos pinheiros. Mesmo em frente, situava-se a pequena casa de pedra com o telhado de ardsia vermelha,
encoberto por entre os pinheiros. No consegui evitar que um pequeno grito se soltasse dos meus lbios.
Era a casa de brincar da mam, a mesma que ela me dera quando eu fizera dezoito anos. A rplica da Fbrica Tatterton era exactamente igual. "Que estranho", pensei.
Foi como se eu tivesse acabado de entrar num mundo de fantasia; um mundo verdadeiramente de brinquedo, onde as pessoas viviam os seus sonhos.
"Oh", pensei, "Se ao menos o Luke estivesse aqui!" Podia ver que o nosso "faz de conta" podia transformar-se em realidade. Aquelas duas figuras de brincar que havia
na casa em miniatura podamos perfeitamente ser ns. L estava a vedao de estacas,  altura do joelho, cujo propsito no
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era manter ningum afastado. Contornava a casa a toda a volta, servindo de suporte s rosas trepadeiras, tal como estava representada na rplica em miniatura.
Ao contrrio do resto de Farthy, os jardins  volta da casa estavam bem cuidados e tratados por uma mo carinhosa... A relva era abundante e bem aparada; a vedao
caiada; o passeio estava limpo e o piso era suave e as janelas rebrilhavam.
- Bem... Aqui est a casa...
- Oh, parece uma ilustrao de um livro. Como eu gostaria de poder vir aqui pint-la! - exclamei.
- Tu pintas?
- Oh, sim. A pintura  a minha paixo. Estou at a dedicar-me a ela enquanto dura a minha recuperao. Quero estudar arte e desenvolver o meu talento para sempre
acrescentei, cheia de esperana.
- Claro. Claro - repetiu ele, parecendo mais uma vez distante e perdido nas suas prprias recordaes. - Bem, quem sabe se no a pintas um dia. Porque no?
- Podemos entrar? - perguntei.
- Certamente que sim, mas no achas que j devem ter dado pela tua falta em Farthy?
- No quero saber. De qualquer maneira, sinto-me l como uma prisioneira. Por favor, deixe-me entrar na casa.
Empurrou a minha cadeira atravs do carreiro de laje at  porta principal, abriu-a e depois fez-me entrar. Havia brinquedos do gnero Tatterton por toda a parte:
nas prateleiras, por cima da lareira e, pelo menos, meia dzia de relgios antigos, todos certos. Como que a salientar esse facto, o relgio mais velho, que estava
num dos cantos, deu as horas, e a caixa de msica azul-clara, com a forma da prpria casa, que tambm era um relgio, abriu a porta da frente. L de dentro saiu
uma minscula famlia, que depois se recolheu ao som de uma melodia suave e conhecida; uma melodia que me era familiar.
Era a mesma melodia que se ouvia sempre que se levantava o telhado da casa de brincar, a casa que ficara em Winnerrow: um nocturno de Chopin. Quando a msica chegou
ao fim, olhmos um para o outro.
- A minha me tinha um brinquedo exactamente igual a esta casa, com as mesmas sebes e pinheiros, e tocava a mesma msica. Deu-ma no dia em que fiz dezoito anos.
Tem a mesma idade que eu e ainda funciona. Algum lha deu logo a seguir ao meu nascimento.
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- Sim...
Ele mal conseguiu pronunciar aquela palavra. Parecia assustado e os seus olhos estavam arregalados. Depois, a sua expresso mudou e por um momento ficou muito triste,
com a cabea inclinada, ao mergulhar profundamente nos seus pensamentos. De repente, apercebeu-se de que eu estava a olhar para ele e sorriu.
Virei-me rapidamente e continuei a inspeccionar a casa. Era estranha, acolhedora e confortvel, tal como eu imaginava que devia ser a casa de um jardineiro. Apesar
da moblia ser velha, no parecia gasta. As prateleiras, o cho, as cortinas, tudo parecia arrumado e limpo. Estvamos, decerto, em casa de uma pessoa meticulosa.
Na realidade, s havia dois quartos e, na sala de estar, mesmo defronte da lareira, havia uma mesa grande, coberta de pequenas peas de metal, ferramentas e o que
parecia ser uma miniatura de uma aldeia medieval. A igreja, com o seu telhado em espiral e as janelas de vitrais, estava completa. At havia um padre  porta saudando
os seus paroquianos que se aproximavam. Havia lojas e delicadas casas de pedra e casebres para as pessoas mais pobres. Algumas carroas puxadas por cavalos estavam
apenas parcialmente terminadas, tal como alguns dos edifcios e passeios.
- Tenho ch gelado, se quiseres.
- Aceito, obrigada.
Dirigi a cadeira at  sala de estar para ver melhor aquela aldeia em miniatura dos Brinquedos Tatterton.
- Essa est a levar-me muito mais tempo, porque estou sempre a acrescentar coisas novas - explicou ele.
-  to bonita, to natural! Gosto muito dela. Repare na maneira como conseguiu captar as expresses nos rostos das pessoas. No h duas iguais.
Olhei para cima e apanhei-o a olhar-me atentamente, com um sorriso doce e maravilhoso estampado no rosto. Apercebeu-se de que eu estava a mir-lo.
- Oh... o ch.  s um momento - disse ele e foi para a cozinha.
Recostei-me e examinei a casa.
- Aqui tens - anunciou, surgindo de sbito para me dar o ch gelado. Peguei no copo, mas no bebi. Ele tentou evitar o meu olhar e virou costas, atarefado em arrumar
as ferramentas em pequenos nichos na parede.
- O senhor  o homem que eu vi da janela do meu quarto - declarei.
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- Oh?
- Vi-o junto ao tmulo dos meus pais, no  verdade?
- Fui l uma vez, de facto.
- Mais de uma vez - teimei.
- Talvez tivesse sido mais de uma vez.
Lanou-me um sorriso rpido e sentou-se na cadeira de baloio em madeira, perto da lareira. Ps as mos atrs da cabea, esticou as suas pernas compridas e esbeltas
e olhou para o tecto. Agora que o tinha examinado de perfil, percebi que, de um modo muito especial, ele era muito atraente. Irradiava uma sensibilidade que me fazia
lembrar o Luke, quando este mostrava o seu lado mais afectuoso, intenso e potico.
- As minhas caminhadas dirias so o meu nico exerccio. Farto-me de passear pelos jardins.
- Tambm esteve na cerimnia fnebre. Eu vi-o - declarei, intencionalmente. - Porque no saiu do bosque e no veio at junto das outras pessoas?
- Oh... Eu sou muito tmido. Ento... - comeou ele, ansioso por mudar de assunto. - Como vai a tua recuperao?
- Mas por que razo no quis ser visto ali? O senhor tem medo do Tony?
- No - respondeu ele a sorrir.
- No consigo compreender como se mantm, assim, to... to escondido.
-  a minha maneira de ser. Suponho que todos ns temos algo de estranho, se nos olharmos mais de perto. Eu sou do tipo que gosta de estar sozinho.
- Mas porqu? - insisti.
- Porqu? - riu-se ele. - s persistente quando uma coisa te incomoda, no ? Tal como a tua me.
- No percebo como sabe tanta coisa dela, se gosta de estar sempre sozinho.
Riu-se de novo.
- Estou a ver que vou ter de conservar os segredos da minha vida bem guardados, quando estiveres perto de mim. Gosto de estar sozinho - disse ele calmamente -, mas
gostei de estar com a tua me e tambm falo com as pessoas, tal como estou a fazer contigo neste momento. E agora dize-me como vai a tua recuperao?
- Ontem, levantei-me sozinha pela primeira vez desde o acidente.
- Que maravilha!
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Mas o mdico e o Tony acham que eu devo ir com calma. Ainda ningum tentou fazer-me levantar hoje e tambm nunca utilizei as canadianas. Continuam a insistir para
que eu faa sestas, tome comprimidos para dormir e permanea trancada e longe das pessoas. Esta  a primeira vez que sa de casa desde ento e j aqui estou h quase
uma semana! Nem posso telefonar a ningum, para conversar. No tenho telefone! - exclamei.
-Oh?
- No vejo o meu primo Luke desde que sa do hospital e j l vo seis dias. Enviei-lhe recados atravs do Tony e do Drake.
- O Drake?
- O meio-irmo da minha me.
- Ah, sim, o filho de Luke Casteel.
- Para um empregado, ou um mero assistente, o senhor parece saber muitas coisas acerca da minha famlia... - notei eu, desconfiada.
- Apenas presto ateno e sou muito observador quando as pessoas conversam perto de mim.
- Que memria extraordinria para pormenores que o senhor tem!
Estreitei os olhos para lhe mostrar que achava que ele sabia de mais coisas e no queria dizer-me. Sorriu-me com um sorriso de garoto.
- E o que aconteceu com o Luke?
- Nem me telefonou, nem veio ver-me. Hoje, antes de vir at c fora, fui ao gabinete do Tony e falei para o alojamento do Luke em Harvard, e deixei um recado para
ele ao seu companheiro de quarto.
- Entendo. Nesse caso, tenho a certeza de que, em breve, ele vir visitar-te.
- No sei. Esto todos to diferentes... O Drake est... apaixonado pelo facto de se ter tornado um homem de negcios, trabalhando para o Tony, e o Luke nunca antes
me ignorou. Crescemos juntos e sempre fomos muito chegados. Contei-lhe coisas que mais nenhuma rapariga ousaria contar a um rapaz, e ele contou-me coisas que os
rapazes no se atrevem a conversar com as raparigas. Tudo isso, porque significamos muito um para o outro - informei eu, com entusiasmo.
Ele acenou a cabea, pensativamente.
- Somos mais do que meros primos.
Fiz uma pausa. Por qualquer razo, senti que podia partilhar
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os segredos da famlia com aquele homem. Pressenti a sua sinceridade e sentia-me  vontade na sua presena. Era como se eu o tivesse conhecido durante toda a vida.
Em Winnerrow, pessoas totalmente desconhecidas sabiam tudo sobre o Luke. "Porque no ele?" pensei.
- O Luke e eu somos filhos do mesmo pai - deixei finalmente escapar.
- Compreendo - disse ele, mas no se mostrou surpreendido com essa revelao.
- No compreende, no. Ningum pode imaginar como  difcil. Como tem sido difcil - gritei. - Principalmente para o Luke. Tem tido tantos e tantos obstculos para
ultrapassar e montanhas para trepar. s vezes, as pessoas podem ser muito cruis, em especial em cidades pequenas como Winnerrow. No nos deixam esquecer os pecados
dos nossos...
- Os pecados dos nossos pais? - sugeriu ele.
- Sim.
- O Luke deve ter-se transformado num rapaz extraordinrio para gostares tanto dele.
- Oh, e tornou-se.  to inteligente. Foi o orador oficial da sua turma, na cerimnia do final do curso. E  atencioso e delicado. Todas as pessoas justas gostam
do Luke e respeitam-no tambm! A mam adorava-o. Era difcil para ela, mas gostava dele tanto como se ele fosse o seu prprio filho - declarei, com firmeza.
- Fala-me sobre o teu cabelo. Porque o pintaste? Pintaste-o, no  verdade?
- Sim.
- Quando?
- H alguns dias, o Tony trouxe um cabeleireiro a Farthy e convenceu-me a faz-lo. Achou que o cabelo mais claro me faria sentir melhor.
- O Tony obrigou-te a fazer isso? Reparei no ar preocupado da sua cara.
- Sim. Porque pergunta?
- Como tem estado o Tony... Mister Tatterton... nestes ltimos dias? H j uns tempos que no o vejo.
- Est estranho. Anda muito esquecido e confunde as coisas.
- Confunde? De que maneira?
- Muitas vezes confunde-me com a minha me e com a minha av... e at mesmo com a minha bisav Jillian.
- Que queres dizer com isso?
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Inclinou-se para a frente na cadeira e juntou as mos em cima dos joelhos.
- Fala comigo como se estivesse a falar com uma delas, fazendo aluso a coisas que eu desconheo ou no me lembro.
Ele olhou para mim, com aquela expresso preocupada estampada no seu rosto.
- Quanto tempo vais ficar aqui em Farthy?
- A ideia era eu ficar at estar completamente restabelecida, mas hoje disse ao Drake que queria ir para casa e recuperar l.
Todos os sentimentos reprimidos por ter estado enclausurada, por ter sido atormentada por uma enfermeira cruel e por estar agora a viver com o Tony, o qual se movimentava
de um mundo para o outro, transbordaram.
- Eu quero ir!
- Ento deves ir. Se no s feliz, se no te sentes bem aqui, ento  melhor que vs embora - concordou ele, de uma maneira to veemente e com uns olhos to determinados
que, subitamente, senti muito medo.
- Quem  o senhor... realmente? Sabe de mais sobre esta famlia para ser um mero empregado.
Ele voltou a recostar-se e olhou-me durante um longo momento. Agora, o meu corao batia alvoroado, porque eu sabia que tinha razo.
- Se eu te disser, vais guardar segredo, porque  muito importante para mim que muito poucas pessoas saibam a verdade. Estou feliz aqui, a viver uma vida annima,
protegido pelo labirinto. O meu isolamento  muito valioso e importante para mim. Sinto-me feliz a viver com as minhas recordaes e o meu trabalho, o qual, como
podes ver, pode ocupar-me muito tempo.
Fez uma pausa e prosseguiu, tristemente:
-  a vida que eu escolhi para mim. De qualquer maneira, nunca pensei que ia viver tanto tempo.
- Porque no? O senhor no  muito velho.
- No, realmente no sou muito velho mas, quando era mais novo, era fraco, doente e sonhava que ia morrer jovem... que no viveria alm dos trinta anos, mas vivi.
A morte recusou-se a chamar-me. Nem pergunto porqu; continuo a fazer o que fao, vivendo esta vida calma, resignado com o que tenho. De certo modo, estou em paz
comigo mesmo, com todos os meus medos e desgostos. No quero fazer nada para reabri-la.
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Fitou-me com os seus olhos doces e afectuosos, que me impulsionavam a confiar nele.
- Ento... s capaz de guardar um segredo to importante como este?
- Claro que sim - assegurei-lhe.
- Tambm acho que s. No sei por que sinto isso, mas confio em ti... tal como confiaria... na minha prpria filha, se tivesse casado e tido uma filha.
- A minha me sempre me ensinou a respeitar o que  importante para as outras pessoas, mesmo que essas coisas possam no ter importncia para mim.
- Isso era mesmo dela.
- Est a ver? Conheceu-a bem de mais para ser um mero empregado.
Ele sorriu.
- Deveria ter permanecido nas sombras, Annie. Deveria ter adivinhado que perceberias a verdade.
- E qual  a verdade? Aguardei, sustendo a respirao.
- Eu no sou o assistente do Troy Tatterton. Eu sou o Troy Tatterton.
Era estranho como a revelao do Troy no me chocara tanto como deveria, uma vez que todos me tinham contado que ele havia morrido e falavam dele como se isso tivesse
acontecido h muito tempo.
- Quando o Rye Whiskey o v, provavelmente pensa que est a ver um dos seus espritos - comentei.
- O Rye... - Sorriu. - No sei bem o que ele pensa, mas acho que deves ter razo.
- Mas agora que me disse a verdade sobre a sua identidade, pode dizer-me porque deixou que todos acreditassem que tinha morrido? - perguntei.
- J algum te contou as circunstncias que levaram  minha suposta morte?
Examinou-me com ateno depois de ter feito aquela pergunta.
- Soube umas coisas, aqui e ali, a maior parte delas pelo Rye Whiskey, mas no sei quanto do que o Rye me contou  verdade e quanto faz parte da sua imaginao frtil.
Sei que montou um cavalo, o cavalo da Jillian, e se dirigiu para o mar, e desde a nunca mais ningum o viu ou soube de si.
- Sim, essa parte  verdade.
- Como aconteceu uma coisa dessas?
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Os seus olhos pareciam sorrirem novamente.
- Quando perguntas assim... de um modo to apaixonado..- lembras-me imenso a tua me, quando ela tinha a tua idade. Acho que s uma ouvinte igualmente atenta. Ests
disposta a ouvir? - perguntou ele, recostando-se na cadeira.
Acenei afirmativamente com a cabea, de certo modo assustada com o seu novo tom de voz, muito srio.
- O que eu te contei  verdade: fui uma criana e um adolescente doente e melanclico. Durante toda a minha juventude vivi deprimido por pensamentos sombrios e tristes.
O meu irmo Tony, que era mais como um pai para mim, tentou tudo para modificar-me, de modo a eu me tornar mais esperanoso e optimista... Porm, era como se tivessem
colocado uma nuvem escura sobre a minha cabea quando nasci. A partir da, ela cresceu cada vez mais, at que um dia, quando olhei para cima, tudo o que conseguia
ver era um cu nublado, mesmo que o dia estivesse lindo. Consegues entender?
Abanei a cabea, porque no conseguia. No era capaz de entender como uma pessoa podia viver a sua vida constantemente debaixo de um cu nublado. A luz do Sol era
to importante; era importante para as flores, para as rvores, para a relva, para os pssaros e, principalmente, para as crianas que tinham necessidade de mergulhar
no seu calor aconchegante. De que outro modo podiam as coisas crescer? Ele leu o meu pensamento.
- Eu no podia tornar-me um rapaz saudvel, sobretudo com aqueles pensamentos negativos a ameaarem-me a toda a hora. Quanto pior eu me encontrava, mais preocupado
o Tony ficava e me dedicava cada vez mais tempo e energia. A sua mulher, a Jillian, era uma mulher egocntrica, que estava apaixonada apenas pela sua imagem reflectida
no espelho, esperando que todos  sua volta ficassem igualmente fascinados. No podes imaginar os cimes que ela tinha de tudo e de todos os que desviassem dela
a ateno do Tony, nem que fosse s por um momento.
O Troy prosseguiu.
- Por isso, finalmente, mudei-me para esta pequena casa, a fim de viver e trabalhar nos brinquedos Tatterton. Era uma vida muito solitria. Sei que a maior parte
das pessoas teria enlouquecido, mas eu no estava to solitrio como podes imaginar, porque fazia dos brinquedos o meu mundo, das miniaturas as minhas pessoas e
imaginava histrias sobre as suas vidas.
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Percorreu a sala com o olhar, observando alguns dos brinquedos e riu-se.
- Talvez eu estivesse louco. Quem sabe? No entanto, era uma loucura saudvel. Seja como for - continuou, inclinando-se de novo para a frente -, s vezes invadiam-me
pensamentos sobre a minha prpria morte. O Inverno era uma poca particularmente difcil, porque as noites eram demasiado longas, dando azo a que houvesse muito
tempo para surgirem demasiados sonhos. Tentava afugentar o sono at quase ao romper da aurora. s vezes, conseguia. Se via que no era capaz, ia dar uma volta l
por fora e deixava que o ar fresco varresse os meus pensamentos sombrios. Passeava pelos carreiros, por entre os pinheiros e, quando o meu crebro ficava desanuviado,
s nessa altura eu regressava e tentava dormir um pouco.
- Porque ficava aqui durante o Inverno? Era suficientemente rico para ir para onde quisesse, no  verdade?
- Sim. Eu tentei escapar. Passei Invernos na Florida, em Npoles, na Riviera e em toda a parte do mundo. Viajei sem parar, procurando uma vlvula de escape, mas
os meus pensamentos sombrios eram como um excesso de bagagem e estavam sempre comigo. No conseguia livrar-me deles onde quer que fosse, ou fizesse o que fizesse...
Por isso, voltava derrotado, incapaz de fazer outra coisa a no ser aceitar o meu destino.
"Por essa altura, surgiu a tua me. Ela era uma flor plantada no deserto... Uma pessoa alegre, inteligente e bonita. Eu sabia que ela tinha passado um mau bocado
durante a sua infncia, mas ela parecia ser capaz de agarrar-se quele optimismo e inocncia que caracterizam os jovens e que provocam tanta inveja nos mais velhos.
"Tu tens a mesma chama maravilhosa nos teus olhos, Annie. Noto isso. Apesar de terem acontecido, contigo e com as pessoas que amavas, coisas horrveis e pavorosas,
esse brilho ainda a est, ardendo como uma grande vela num tnel escuro. Algum com muita sorte vai ser guiado por essa luz para fora da escurido dos seus prprios
pensamentos tristes e viver feliz no calor do teu brilho. Eu sei isso.
No consegui evitar corar. Muito poucos homens me tinham falado assim.
- Obrigada - agradeci. - Mas ainda no me disse o que foi que o levou a ir de cavalo at ao mar.
Recostou-se e voltou a pr as mos atrs da cabea. Percebi que essa era a sua posio favorita. Pensou durante bastante
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tempo com os olhos fixos no tecto. Fui paciente, porque senti que devia ser difcil para uma pessoa explicar a razo que a levava a pr termo  vida. Por fim, inclinou-se
para a frente outra vez.
- Ao ver a tua me, a sua alegria e vida encheram-me de esperana em mim mesmo naqueles dias, e senti-me diferente durante uns tempos. At cheguei a pensar... Acreditei
que era possvel para mim encontrar algum como ela, casar e ter filhos... Talvez mesmo uma filha muito parecida contigo...
"Mas a minha melancolia regressou quando no consegui encontrar ningum como ela. Para a maioria das mulheres eu era deprimente, porque a maior parte delas no tinha
pacincia para aturar o meu temperamento. Um dia, durante uma festa que o Tony organizou para me animar, decidi mudar a sorte e ir ao encontro da morte... a morte
que me perseguira durante toda a vida. A morte que me espreitava sorrindo, esperando, perseguindo-me com os seus olhos escuros e sombrios, com a sua postura paciente...
esperando a sua oportunidade. Decidi aproveitar a oportunidade. Ao invs de passar" a minha vida a tentar escapar ao que eu sabia ser o seu alcance inevitvel, avancei
na sua direco e surpreend-la-ia com a minha atitude, de modo a deix-la sem resposta. Montei o cavalo selvagem da Jillian em direco ao mar, esperando sinceramente
pr fim  minha vida infeliz.
"Mas, tal como eu disse, a morte ficou surpreendida e no pde levar-me. Fui atirado para a costa, vivo. Falhei at mesmo nisso. No entanto, percebi que tinha dado
a mim mesmo a oportunidade de escapar de outra maneira. Deixei que todos acreditassem que eu tinha morrido. Isso permitiu-me transformar-me numa outra pessoa. Posso
movimentar-me por a como uma sombra e no ser incomodado por pessoas que queiram animar-me. De qualquer maneira, s conseguiria deprimi-las. Se tentassem e no
atingissem os seus fins, passariam a competir comigo, nesse estado de esprito triste e sombrio.
"Assim, no incomodava ningum e ningum me incomodava. Mas um dia, o meu irmo descobriu-me. Em todo o caso, tinha chorado tanto a minha morte que eu no podia
manter-me afastado dele por muito mais tempo. Fizemos um pacto... Eu viveria aqui anonimamente e ele manteria a verso da minha morte. Passados uns anos, quando
a maior parte das pessoas que me havia conhecido morreu ou partiu, dissemos que eu era um novo arteso que criava brinquedos ao estilo do Troy Tatterton.
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"E assim, ningum me aborrece, e eu posso continuar como estou, como te contei: trabalhando e vivendo com as minhas recordaes e no meu isolamento pacfico. Agora
que j sabes a verdade, estou dependente da tua promessa para manteres o segredo trancado no teu corao.
- No vou contar a ningum, mas gostaria que voltasse para o mundo do outro lado do labirinto. Gostaria de poder, de algum modo, lev-lo de regresso a um mundo mais
alegre...
- Como s gentil ao desejar ajudar os outros, a sentada na tua cadeira de rodas.
Olhmos um para o outro. Havia lgrimas retidas ao canto dos seus olhos, porque ele sabia que, se as deixasse correr, as minhas lgrimas tambm brotariam.
- Ora vejamos - exclamou ele, de repente, batendo as palmas; - Disseste que te levantaste sozinha ontem?
-  verdade.
- Bem, deverias ficar de p um pouco todos os dias e tambm devias tentar dar uns passos.
- Isso  o que eu tambm acho, mas o mdico disse...
- Os mdicos podem saber sobre o corpo humano, mas muitas vezes no sabem o suficiente sobre o corao humano.
Levantou-se e afastou-se de mim cerca de meio metro, a distncia suficiente para me estender os braos.
- Quero que te levantes outra vez e desta vez quero que tentes dar um passo na minha direco.
- Oh, no sei... Eu...
- Tolice, Annie Stonewall. Vais pr-te de p. s filha da Heaven e ela no ficaria a sentada com pena de si mesma, nem ficaria por muito tempo  merc das outras
pessoas.
Dissera as palavras mgicas. Engoli a custo e mordi ligeiramente o meu lbio inferior. Depois, agarrei-me aos braos da cadeira e obriguei os meus ps a mexerem-se
do encosto para o cho. Devagar e com muita dificuldade, consegui faz-lo. O Troy acenava com a cabea, encorajando-me. Fechei os olhos e empreguei toda a fora
de que fui capaz nas minhas pernas.
- Pe os ps no cho e faze com que eles percorram parte do cho desta casa - murmurou ele. - As plantas dos teus ps esto coladas a este cho. Coladas...
Senti a fora que estava a fazer. As minhas pernas retesaram-se; os msculos flcidos esticaram e eu fiz fora para baixo nos braos da cadeira. Devagar e at melhor
e mais
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suavemente do que na vspera, o meu corpo ergueu-se at ficar de p. Abri os olhos. O Troy sorriu.
- ptimo. Agora no tenhas medo. Mexe as pernas e avana. Larga os braos da cadeira.
- No consigo deixar de ter medo. Se eu cair...
- No vais cair. Eu no vou deixar que isso acontea, Annie. Caminha! Vem at mim - incitou ele, estendendo as mos apenas a uma distncia suficiente para eu dar
um ou dois passos para alcan-lo. - Vem at mim... vem, Annie.
Talvez fosse aquele apelo, algo no som da sua voz, to parecido com a voz que eu ouvia nos meus sonhos a chamar-me para fora das trevas at  luz, que me deu a vontade
e a fora para tentar. Fosse o que fosse, foi o suficiente. Senti a minha perna direita tremer e mexer-se um pouco para a frente, e o p mal conseguia levantar-se
do cho. A minha perna esquerda seguiu-lhe o exemplo.
Era um passo! Um passo!
Dei mais outro, mas depois o meu corpo sucumbiu. Amoleceu com o esforo e senti-me cair. Porm, ca s por um instante, porque os braos do Troy rodearam-me, segurando-me
com firmeza.
- Conseguiste! Conseguiste, Annie! Ests no caminho certo. Nada pode deter-te agora!
No consegui conter as lgrimas. Estava a chorar de tanta felicidade, como um arco-ris azul e amarelo, com um vu de tristeza um pouco sombrio. Chorei devido ao
meu xito, e chorei porque estava nos braos de algum que eu sabia ser carinhoso e terno, mas que se encontrava encerrado num mundo de dias tristonhos.
Ajudou-me a voltar para a cadeira e depois recuou, olhando para mim com tanto orgulho, como um pai que v a sua filha dar os primeiros passos.
- Obrigada.
- Sou eu quem tem de agradecer-te, Annie. Hoje fizeste as nuvens afastarem-se um pouco e deixarem entrar uma nesga de sol no meu mundo. Mas - disse ele, olhando
para o relgio de p -,  melhor levar-te para Farthy. Se, como tu dizes, no sabem onde ests, a esta hora j devem estar loucos de preocupao.
Limitei-me a acenar com a cabea. Sentia-me exausta, e a perspectiva de me deitar naquela cama enorme e confortvel em Farthy, parecia-me surpreendentemente convidativa.
- Vai visitar-me? - pedi-lhe.
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Os meus dias em Farthy pareceram, de repente, mais animados com a companhia do Troy, para me ajudar a passar o tempo.
- No. Tu virs visitar-me... pelo teu prprio p e muito em breve. Tenho a certeza.
- E depois de eu deixar Farthy e voltar para Winnerrow vai l visitar-me?
- No sei, Annie. Hoje em dia  raro eu deixar esta casa.
Comeou a empurrar a minha cadeira para fora. O Sol da tarde j estava a pr-se e tinha passado muito tempo desde que atravessramos o labirinto e entrramos na
casa de pedra. Agora havia grandes sombras  volta do jardim e do relvado. O labirinto parecia ainda mais escuro e mais denso.
- Ests com frio - disse o Troy. - Espera.
Voltou l dentro para buscar um casaco de malha leve, num tom branco sujo. Vesti-o logo.
- Sentes-te melhor?
- Sim, obrigada.
Desta vez, quando entrmos no labirinto, compreendi que estava a atravessar uma fronteira escura entre um mundo feliz e um triste. Desejei voltar para trs e regressar
 casa do Troy. Confiara nele muito rapidamente e sentia-me bem na sua companhia.
- Talvez um dia me deixe ajud-lo a dar os seus primeiros passos, Troy - afirmei.
- Os meus primeiros passos? Que queres dizer com isso, Annie?
Contornmos uma curva.
- Os seus primeiros passos num mundo alegre e afectuoso, a que pertence. O mundo que merece.
- Oh! Bem, talvez j o tenhas feito. Acho que somos ambos uma espcie de invlidos.
- No caminho certo para a recuperao - afirmei-lhe com um sorriso.
- Sim, no caminho certo para a recuperao - concordou ele.
- Ns os dois? - insisti, levantando as sobrancelhas.
- Sim, ns os dois. - Ele riu-se. - Acho que no conseguiria ficar deprimido ao p de ti. No o tolerarias por muito tempo. A tua me tambm era assim.
- Conta-me mais coisas de que se lembre sobre ela quando era mais nova... sempre que conversarmos?
- Prometo.
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Ento, temos de falar muitas vezes - insisti. - Promete?
vou fazer o melhor que puder.
No havia ningum ali fora quando samos do labirinto. Tinha a certeza de que a esta hora j estariam  minha procura; no entanto, pensei que no lhes passaria pela
cabea que eu estivesse fora de casa. Claro que deviam ter encontrado a minha cadeira ao p do elevador e percebido que viera at abaixo... Primeiro, deviam ter
procurado por mim no piso inferior...
- Eu ajudo-te a subir a rampa - disse o Troy. Empurrou a minha cadeira para cima at chegarmos  porta principal.
- J c ests! - Deu a volta  cadeira e ficou  minha frente. - Passa uma boa noite, Annie, e obrigado. Esta noite no terei pesadelos - acrescentou, sorrindo-me
com afecto nos seus olhos.
- Eu tambm no.
- Posso dar-te um beijo de despedida?
- Sim. Gostaria muito.
Curvou-se, beijou-me docemente no rosto e depois afastou-se. Desapareceu antes que eu tivesse tempo de me voltar para trs. Foi engolido pelas sombras, como se,
tambm ele, fosse meramente um sonho aparente que eu imaginara para fazer passar o tempo, nas horas de solido, ali, na Manso Farthinggale.
Abri a enorme porta e empurrei a cadeira para dentro de casa. Ia a meio caminho do vestbulo e na direco do elevador quando apareceu o Tony, acompanhado pelo Parson
e outro empregado.
- Aqui est ela! Diabos me levem! - gritou o Parson.
- Onde estiveste? - quis o Tony saber.
Parecia completamente desgrenhado, e os seus olhos estavam furiosos.
- L fora... apenas l fora - disse eu, tentando parecer natural.
Contudo, quanto mais natural eu parecia, mais zangado o Tony ficava, e os seus olhos faiscavam de raiva e lanavam um fogo surpreendente.
- L fora? No compreendes o que nos fizeste passar, desaparecendo dessa maneira? No fizemos outra coisa a no ser procurar por ti. Virmos a casa toda do avesso.
No disseste a ningum onde ias. Eu disse-te que iria contigo nas primeiras vezes que sasses. Como pudeste fazer uma coisa destas, depois de tudo o que aconteceu?
- perguntou ele.
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- No o teria feito se achasse que no podia, mas consegui ir at l fora sozinha e, quando lhe contar o resto, vai compreender - respondi, perplexa pela sua exploso
de raiva.
"Esta  uma faceta sua que ele tinha mantido escondida at agora", pensei; o lado de Tony Tatterton que fazia os empregados tremer e os criados saltar; o executivo
implacvel que no tolerava que ningum fosse contra os seus desejos e ordens.
- Levem-na l para cima! - vociferou ele, sem me dar tempo a dizer mais nada. - E no utilizem o elevador. Quero-a l em cima depressa! Ela parece estar exausta.
O Parson e o outro empregado apressaram-se a cumprir a sua ordem e empurraram a minha cadeira at ao fundo da escadaria. Depois, levantaram-me para me carregarem
pela escada acima.
- Espere, Tony. No quero ir ainda para cima. Sinto-me encurralada naquele quarto. Esta noite quero jantar c em baixo, na sala de jantar, e quero poder circular
livremente pela casa. Hoje dei os meus primeiros passos - comuniquei, com orgulho.
- Os primeiros passos? Onde? Precisas do teu repouso, dos teus banhos quentes, das tuas massagens. J no sabes o que fazes. O mdico vai ficar furioso. Todos os
progressos que fizeste at agora iro por gua abaixo.
- Mas, Tony...
- Levem-na para cima - repetiu o Tony. - Rpido!
- Parem com isso. Ponham-me no cho - exigi.
O Parson e o empregado olharam novamente para o Tony, mas o que viram no seu rosto f-los continuar.
- Desculpe, menina, mas se Mister Tatterton acha que isto  melhor para si,  prefervel obedecer.
- Oh, est bem - concordei, percebendo que, daquela maneira, s estava a deixar os empregados mal colocados.
- Faam o que ele quer.
- Muito bem, menina.
Ergueram-me com facilidade e levaram-me pelas escadas acima.
- Agora podem pr-me no cho - pedi eu, quando chegmos ao topo das escadas. - Eu mesma vou com a cadeira de rodas para o meu quarto.
Quando entrei pela porta que dava para o corredor, empurrei-a para fech-la. Bati com a porta e depois fiquei ali sentada em silncio, olhando para a minha cama,
para as canadianas
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e para os aparelhos clnicos. Aps ter estado l fora tudo aquilo era to deprimente. Sentia-me determinada a acabar com aquela situao. Tinha a certeza de que
o Luke receberia o meu recado e viria visitar-me.
E, quando ele viesse, exigiria que me levasse para casa.
E ento deixaria aquele lugar, aquela casa cheia de fantasmas, recordaes macabras e tempos dolorosos.
Era possvel que eu e o Luke tivssemos perdido o nosso mundo de fantasia, mas sempre nos teramos um ao outro. Era esse o pensamento que me encorajava a partir.

20 A FUGA DE UMA PRISIONEIRA

Exausta, devido  minha primeira sada, ao esforo despendido para andar e  dramtica exploso de raiva do Tony, conduzi a cadeira at  cama. Mal me tinha levantado
da cadeira e debruado sobre a cama quando o Tony apareceu  porta.
- Annie, nunca mais feches a porta - censurou ele.
- Assim, como posso saber quando precisares de alguma coisa? E repara na tua luta para ires para a cama. J devias saber que eu no tardaria a vir para cima para
ajudar-te.
Empurrou a cadeira para trs e depois puxou as minhas pernas para cima.
- Eu fao isso sozinha - insisti.
- Oh, Annie. s exactamente como a Heaven... Teimosa! Vocs as duas do cabo da pacincia a um santo.
- Ns as duas? - Virei-me para trs, de repente. - A mam est morta... morta! - gritei.
Estava to cansada e mentalmente to exausta que j no tinha pacincia para as suas confuses.
- Eu sei isso, Annie - disse ele, docemente, abrindo e fechando os olhos. - Desculpa, desculpa por ter sido to rude contigo l em baixo, mas fizeste uma grande
maldade e eu fiquei completamente desvairado com tudo isso.
- No faz mal, Tony. No tem importncia - concordei, no querendo prolongar aquela discusso por mais tempo.
A nica coisa que eu queria era meter-me na cama, descansar, jantar, dormir e esperar pela chegada do Luke.
- Tem importncia, sim, mas eu vou compensar-te. Prometo. Vais ver. H tantas coisas que eu agora quero fazer por ti, Annie. E vou fazer essas coisas. Coisas que
poderia ter feito pela Heaven, se ela me tivesse deixado.
- Est bem - anu.
Fechei os olhos e depois senti a sua mo na minha testa.
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Pobre Annie... Minha pobre, pobre Annie.
Afagou carinhosamente o meu cabelo e, quando o olhei nos olhos, vi outra vez aquela expresso de doce preocupao. Ele era demasiado complicado e confuso para mim.
J no era capaz de lidar com ele. Tudo o que eu queria era ir-me embora dali.
Subitamente, o brilho do seu olhar alterou-se.
- Onde foste arranjar essa camisola que tens vestida? pergundou ele.
No queria arranjar problemas para o Troy, mas tambm no podia mentir. O Tony tinha examinado o meu guarda-fatos depois de o Drake me ter trazido as minhas coisas
e, portanto, sabia que roupa eu tinha pendurada nos armrios e guardada nas gavetas da cmoda.
- Foi uma pessoa que me deu - afirmei.
- Uma pessoa? Quem?
- Um homem muito simptico que vive na casa do outro lado do labirinto - respondi, decidida a fingir que no sabia que era o Troy na realidade.
- Do outro lado do labirinto? Atravessaste o labirinto?
- Estou cansada, Tony. Estou muito cansada, por favor. No quero falar mais. S quero dormir.
- Sim, sim. Eu ajudo-te a despir - disse ele, baixando-se para ajudar-me a tirar a camisola.
- No! Eu fao isso sozinha. Quero a minha privacidade. Deixe-me em paz! - exigi.
Ele recuou, como se eu lhe tivesse dado uma bofetada.
- Claro - murmurou. - Claro. vou deixar-te descansar e depois vou tratar do teu jantar.
- Obrigada.
No me mexi, para lhe mostrar que no faria nada at que ele sasse. O Tony compreendeu, abanou a cabea, parecendo ainda abismado; depois, voltou-se e saiu do quarto.
Estava um pouco mais cansada do que pensava, e o esforo para me despir e vestir a camisa de noite foi estafante. Pareceu levar uma eternidade. Quando consegui iar-me
para cima da cama e deitei a cabea na almofada, estava esgotada. Adormeci em poucos minutos.
Acordei abruptamente. Levei algum tempo a ambientar-me outra vez e, quando olhei para o relgio na mesa-de-cabeceira, percebi que tinha dormido at meio da noite.
A casa estava to silenciosa como uma agncia funerria; os cortinados haviam sido corridos e apenas o pequeno candeeiro da sala de estar se encontrava aceso, projectando
umas longas sombras esbranquiadas nas paredes.
299
O meu estmago agitava-se e resmungava, queixando-se, porque eu tinha dormido, deixando passar a hora do jantar! Fiz um esforo para sentar-me. Por que razo no
me teria o Tony acordado para comer? O Rye tambm no tinha vindo ali, nem tinha deixado o tabuleiro da comida.
- Tony? - chamei.
No obtive resposta, nem sequer o ouvi na sala de estar. Levantei a voz e esperei novamente, mas continuei sem resposta.
- Tony! - gritei.
Fiquei  espera de que ele irrompesse pelo quarto depois daquela minha exploso e me censurasse por ter deixado passar a hora do jantar, dizendo que a culpa tinha
sido do meu passeio pelos jardins de Farthy. Ele, porm, no apareceu. Tudo permanecia calmo e silencioso.
Estiquei-me para acender o candeeiro na mesa-de-cabeceira, decidida a levantar-me e a sair da cama. Iria na cadeira de rodas at ao corredor para ver o que se passava
e por que razo ningum me respondia. Mas, quando acendi a luz e o quarto ficou iluminado, fiquei chocada ao descobrir que a minha cadeira de rodas havia desaparecido,
bem como as canadianas! Na realidade, estava encurralada na minha cama.
- No pode fazer isto, Tony - murmurei. - No pode manter-me presa aqui por mais tempo. Eu vou-me embora. Est a ouvir-me? Vou-me embora de manh!
Continuei sem obter resposta. Deixei-me cair de encontro  almofada, sentindo-me mais uma vez exausta e subjugada. Devo ter pegado no sono outra vez, porque um movimento
perto da minha cama fez-me abrir os olhos de repente, e o meu corao deu um salto. Esfreguei os olhos com as mos fechadas, tentando afugentar o sono. O Tony devia
ter voltado ao meu quarto, enquanto eu estava a dormir, e apagara a luz. At mesmo a luz da saleta parecia mais fraca. Mal conseguia distinguir a sua silhueta aos
ps da cama, mas reconheci o seu vulto encoberto pelas sombras.
- Tony? Que est a fazer? Porque est a s escuras e por que razo levou daqui a minha cadeira de rodas e as canadianas? - perguntei.
Ele no me respondeu. Ficou simplesmente ali, de p, olhando para mim, atravs da escurido.
- Tony! - exclamei, com uma voz mais estridente.
- Porque no me responde? Porque est a a olhar-me dessa maneira? Est a assustar-me!
Seguiu-se uma longa pausa, antes de ele finalmente responder.
300
- No tenhas medo, Leigh - implorou ele, numa voz que mais parecia um sussurro.
- O qu?
- No deves ter medo. No vou fazer-te mal.
Falou como se estivesse a dirigir-se a uma menina assustada pela sua sbita presena.
- Tony, que est a dizer?
- Estou a dizer que te amo e que te quero. Preciso muito de ti, Leigh.
A sua voz era um murmrio rouco e gutural.
- Leigh! Mas eu no sou a Leigh. Sou a Annie. Tony, que se passa consigo? Por favor... V chamar o Rye. Quero falar com o Rye. Tenho fome - protestei, j nervosa
e assustada. - Adormeci e deixei passar a hora do jantar, por isso tenho fome. Tenho a certeza de que o Rye no se importa de levantar-se e preparar-me alguma coisa
para eu comer balbuciei, desejando despert-lo do seu sonho.
Tony parecia um sonmbulo e agia como tal.
- V acord-lo, por favor.
-"Ela est a dormir. No vai saber de nada - continuou ele, aproximando-se da beira da minha cama.
- Ela? Quem est a dormir?
O meu corao batia cada vez com mais violncia. Senti-me como se os meus pulmes estivessem a falhar. Era cada vez mais difcil para mim respirar. O meu rosto estava
a escaldar, o meu pescoo a ferver e a minha boca tinha ficado terrivelmente seca. No conseguia engolir.
- No que isso tenha alguma importncia... Ela no sabe o que eu fao durante a noite ou onde vou. J nem se importa com isso. Tem os seus prprios interesses e
os seus amigos. - Riu-se. - Ela tem-se a si mesma. Sempre se teve a si mesma e isso sempre foi o suficiente para ela, mas no  o bastante para mim, Leigh. Tinhas
razo.
O Tony agarrou na minha mo, e eu retirei-a e afastei-a para o outro lado da cama, o mais depressa que pude. No entanto, as foras renovadas, que eu tinha descoberto
naquele dia na parte inferior do meu corpo, parecia agora no existirem. O medo e o choque afastaram toda a minha energia. Estava a comear a sentir-me dormente
e entorpecida e no era s nas pernas. Tinha de faz-lo voltar a cair em si; precisava de faz-lo.
- Tony, eu no sou a Leigh. Sou a Annie! Annie! Durante um longo momento, o Tony no se mexeu nem disse nada, e eu julguei ter chegado at ele; porm, depois,
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desapertou o roupo de banho e deixou-o cair no cho. Pela fraca luz que saa da sala de estar, pude ver que ele estava completamente nu.
"Oh, no!", pensei. Ele est a sonhar, vivendo uma fantasia, e no h aqui ningum para ajudar-me, nem mesmo aquela enfermeira horrorosa. Ia gritar pelo Rye, mas
depois fiquei a pensar se o Tony no poderia tornar-se violento ou ficar ainda mais louco. E, de qualquer maneira, o Rye dormia na ala dos criados, e era to distante
que, provavelmente, nem teria hiptese de ouvir-me. A minha nica esperana era restituir a sanidade mental ao Tony.
- Tony, eu no sou a Leigh. Nem sou a Heaven. Sou a Annie, a Annie. Est a fazer confuso... Uma terrvel confuso...
- Acho que te amei logo no primeiro momento em que te vi - respondeu ele. - A Jillian  linda. Ser sempre linda, mas a beleza dela  como uma borboleta. Se a tocarmos,
ela no vai poder voar mais; vai enfraquecer e morrer. Essa espcie de beleza  para ficar encerrada numa gaiola de vidro, para ser vista e apreciada, mas nunca
para ser amada e experimentada como a tua beleza, Leigh. A Jillian  um quadro para ser pendurado numa parede. Tu s uma mulher, uma verdadeira mulher - acrescentou
ele, com a voz plena de um significado sensual.
Sentou-se na minha cama e tentou agarrar-me. Eu encolhi-me de medo.
- TONY! O senhor  o marido da minha bisav. Eu sou a Annie, a filha da Heaven, a Annie. No sabe o que est a fazer. Por favor, saia da minha cama e v-se embora.
Por favor - implorei.
Contudo, as minhas splicas foram em vo e ele parecia surdo, incapaz de ouvir mais alguma coisa para alm dos sons e das palavras proferidos pela sua imaginao.
- Oh, Leigh... Leigh, minha querida Leigh.
A sua mo tacteou at que encontrou o meu pulso esquerdo e comeou a puxar-me para si. Tentei resistir; porm, sentia-me to fraca e to cansada que no seria capaz
de oferecer resistncia. Tive a certeza de que ele encararia isso como uma forma de encorajamento.
- Vamos fazer amor durante toda a noite, como j fizemos antes e, se quiseres, podes chamar-me pap.
Chamar-lhe pap? Que coisa horrvel estava ele a sugerir? A mo do Tony estava pousada no meu ombro, e ele baixou o rosto na direco do meu, tocando com os lbios
nos
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meus. Afastei a cabea; a sua outra mo, porm, estava na minha cintura, apertando-a com firmeza. Sentia-me em grande desvantagem, sem a fora completa no meu corpo,
da cintura para baixo.
- TONY! PARE! PARE!
A sua mo subiu da cintura at aos meus seios e ele gemeu de prazer.
- Oh, minha Leigh, minha Leigh.
Libertei-me do seu aperto no meu pulso esquerdo e escapei  sua mo esquerda, acertando-lhe em cheio no antebrao, e afastei os seus dedos do meu peito. O golpe
chocou-o.
- TONY! PARE! Eu sou A ANNIE! EST A FAZER UMA COISA HORRVEL, UMA COISA DE QUE VAI ARREPENDER-SE PARA SEMPRE!
Finalmente, as minhas palavras acertaram no alvo. Ficou como que congelado na sua posio sentada. Para manifestar bem a minha resistncia, inclinei-me para a frente
e empurrei-o no peito com ambas as mos, afastando-o de mim. Precisei de todas as minhas foras para empreender aquele esforo e deixei-me cair para trs, de encontro
 almofada.
- O qu? - disse ele, como se tivesse ouvido vozes, que eu no conseguia ouvir. - O qu?
- V-se embora - implorei com uma voz cansada. - V-se embora. Deixe-me em paz.
- O qu?
Voltou-se e olhou para as sombras escuras do quarto. Estaria a imaginar que estava ali algum? Seria um dos espritos do Rye Whiskey que o estava a chamar? Talvez
fosse o fantasma da minha bisav, ou ento o fantasma da minha av a exigir que ele me deixasse em paz.
- Oh, meu Deus - disse ele, para consigo. - Oh, meu Deus.
Levantou-se e olhou para mim. Aguardei, com o corao a bater descompassado. Que se passaria naquela mente distorcida e atormentada? Estaria ele a voltar  realidade,
ou a penetrar noutro caminho atravs do labirinto da sua loucura, para vir novamente para a minha cama?
- Eu... eu sinto muito - murmurou ele. - Oh, peo muita desculpa...
Ajoelhou-se e apanhou o roupo do cho. Depois, vestiu-o rapidamente e apertou bem o cinto. Observei-o sem falar, com medo de que o som da minha voz pudesse faz-lo
retroceder.
- Eu... eu tenho de... de - pronunciou. - Boa noite.
303
Sustive a respirao e mal voltei a cabea quando ele se afastou da cama e se dirigiu para a porta. Em pouco tempo, foi-se embora, mas o meu corao no parou de
bater. Estava apavorada com a ideia de que ele podia voltar, e sentia-me demasiado fraca e exausta para conseguir sair da cama e rastejar para fora do quarto.
O meu corpo estava to suado que a camisa de noite se colava  minha pele. Tinha de sair daquele lugar. Precisava de convencer o Drake, o Luke, ou algum, a levar-me
dali imediatamente. No entanto, o Drake estava em Nova Iorque... E se o Luke no viesse? Sentindo-me em pnico e desesperada, o meu pensamento corria como um pssaro
preso numa gaiola. O Rye Whiskeyl Era preciso que ele me ajudasse. Ou ento o Troy! Ou o Parson! Algum! Por favor, algum tinha de ajudar-me a fugir daquele louco!
Que teria ele feito  minha av para que ela houvesse fugido? Mal podia suportar pensar nisso. A nica coisa que me consolava era a certeza de que em breve seria
manh. Abracei-me a mim mesma, com tanta fora quanto pude, do modo como a mam me abraava sempre que eu tinha um sonho mau e vinha ter comigo  cama... Aquilo
era mais do que um sonho mau. Era um pesadelo real. Tinha medo de adormecer outra vez; tinha medo de acordar e voltar a ver o Tony nu ao meu lado... As minhas plpebras
comearam a ficar pesadas e deixei-me adormecer, num sono leve e exausto.
- bom dia - cantarolou o Tony, alegremente.
As minhas plpebras piscaram antes de as abrir e vi-o a afastar as cortinas. A luz viva do Sol ocultava-se atrs de cada sombra. Abriu as janelas para deixar entrar
mais ar, e as cortinas comearam a agitar-se alegremente por sobre o peitoril da janela. No levantei a cabea da almofada. Em vez disso, deixei-me ficar deitada
em silncio, observando-o a andar ali no quarto de um lado para o outro. Usava um outro roupo de seda azul-clara e parecia inacreditavelmente alegre. Estaria ele
a fingir, para que eu pensasse que nada do que acontecera na noite anterior tinha realmente acontecido?
- Trago-te o pequeno-almoo num instante - anunciou.
- Estar a ser amvel comigo esta manh no vai ajudar, Tony. No me esqueci da noite passada.
- A noite passada? - Voltou-se a sorrir. - Oh... A noite passada. Ests a referir-te ao momento em que gritei contigo l em baixo. J te expliquei e j te pedi desculpas,
Annie. No devias guardar ressentimentos. Todos ns erramos.
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- No estou a falar disso. Estou a referir-me  altura em que veio ao meu quarto no meio da noite - afirmei, rispidamente.
J no sentia a mnima compaixo por ele. O Tony tinha de assumir a responsabilidade pelo que andava a fazer e, de uma maneira ou de outra, eu estava decidida a
deixar aquela casa nesse mesmo dia.
- O qu? Tiveste outro sonho? Pobre criana, as coisas por que ests a passar.
Abanou a cabea, apertando os lbios como um av preocupado.
- Ora bem, quando pusermos algo substancial no teu estmago...
- Quero a minha cadeira de rodas. Quero ir l abaixo ao telefone.
- Cadeira de rodas? Oh, no, Annie, hoje no. Precisas de, pelo menos, um dia de inteiro repouso, depois de tudo aquilo por que passaste. Hoje vou trazer-te o pequeno-almoo
 cama. No vai ser agradvel?
- QUERO A MINHA CADEIRA DE RODAS! - exig, com o tom de voz mais alto que alguma vez lhe dirigira.
Ele ficou a olhar para mim por um momento e depois comeou a dirigir-se para a porta, como se no me tivesse ouvido.
- TONY!
Nem se voltou para trs e, desta vez, quando saiu do meu quarto, fechou a porta.
- NO PODE manter-me AQUI FECHADA COMO UMA PRISIONEIRA!
Sentei-me e empurrei as pernas devagar para fora da cama. Na realidade, sentia-me fraca e cansada, mas a minha determinao era forte. Iria sair daquele quarto,
nem que tivesse de rastejar l para fora. Tinha de procurar ajuda; tinha de ir ter com o Rye. Estava certa de que ele iria ajudar-me.
Quando comecei a baixar os ps na direco do cho, o Tony irrompeu pelo quarto, trazendo a bandeja com o pequeno-almoo.
- Oh, no, Annie. Deves sentar-te encostada  cabeceira da cama, para eu poder pr a mesa por sobre as tuas pernas.
O Tony pousou a bandeja em cima da mesa-de-cabeceira, pegou-me pelos braos e empurrou-me para trs, pondo-me na posio certa. A minha fraca resistncia no surtiu
efeito.
- Por favor - gritei. - Por favor, deixe-me levantar.
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- Depois de comeres e descansares, veremos como te sentes, Annie.  uma promessa.
Sorriu-me como se fssemos os melhores amigos do mundo e comeou a armar a mesa. Depois, colocou a bandeja do pequeno-almoo em cima da mesa e afastou-se, com os
cantos da boca dobrados num sorriso algo ridculo.
"Ele  louco", pensei. Decididamente, na vspera  noite, algo dera um estalo na sua cabea. Era intil tentar chegar at ele.
Olhei para a bandeja. Havia um copo com sumo de laranja e um pouco de papas de aveia, com o que parecia ser mel espalhado por cima. Tambm havia a habitual torrada
seca e um copo com leite magro. No fora o Rye que preparara aquele pequeno-almoo. O Tony devia ter-se levantado cedo e feito tudo sozinho. J que ele estava a
observar-me, achei melhor comer para arranjar energias no meu corpo. Bebi o sumo e comi umas colheradas da papa de aveia. A torrada parecia saber a carto, mas engoli-a
com a ajuda de uns goles de leite. O Tony abanou a cabea, com o rosto preso num sorriso louco.
Quando terminei, recostei-me, ele retirou a bandeja e depois levou a mesa.
- Ora pronto - comeou ele. - Isso deve fazer-te sentir muito melhor, no  verdade? E agora, queres que te d uma massagem, com leos, no corpo? - perguntou.
- No! - exclamei, peremptria.
- No? Ests a dizer isso porque te sentes muito melhor?
- Sim - concordei, por entre lgrimas. - Por favor, por favor, traga-me a minha cadeira de rodas.
- Depois de fazeres a sesta, veremos - insistiu.
Dirigiu-se  cmoda e tirou uma camisa de noite vermelha; era outra das que ele me tinha levado para o hospital de Boston.
- Devias vestir uma camisa de dormir lavada. Acho que esta te fica bem, no concordas? Sempre gostei de ver-te de vermelho.
Trouxe-me a camisa  cama. Eu estava sentada com os cobertores puxados at ao pescoo.
- V l. Uma camisa de noite lavada vai fazer-te sentir muito melhor.
No me pareceu que ele fosse deixar-me em paz at eu ter vestido a camisa vermelha. Por isso, tirei-lha das mos. O Tony recuou para me ver despir a que eu tinha
vestida e colocar a outra. Fiz tudo isso o mais depressa que consegui.
306
Ento, no te sentes melhor?
Sim - repeti, dando-lhe o que ele queria.
Fiquei ainda com mais medo porque, em vez de sentir-me desperta e enrgica como eu esperava ficar depois de tomar o pequeno-almoo, senti-me outra vez sonolenta
e cansada. A voz dele soava-me muito distante.
- Eu quero... quero...
- Tu queres dormir. Eu sei. J estava  espera disso. Descansa bem.
Puxou-me o cobertor para cima e aconchegou-o to apertado como um colete de foras.
- No... eu...
- Dorme, Annie. Dorme e vais ver que te sentirs muito melhor quando acordares. Todos aqueles pesadelos ridculos vo desaparecer quando voltares a acordar.
Tentei falar mas no consegui articular as palavras. Senti os meus lbios colados. Dentro de poucos instantes estava outra vez a dormir, e a ltima coisa de que
tive conscincia foi que ele devia ter posto um sedativo no meu pequeno-almoo.
Quando voltei a acordar, estava muito confusa. No fazia ideia em que altura do dia me encontrava. Devagar, naquilo que me pareceu serem mais horas do que minutos,
consegui livrar-me daquele cobertor to apertado e erguer-me na almofada. Recostei-me, respirando com dificuldade e sentindo o corao aos pulos.
Vi que era quase meio-dia. A porta do meu quarto continuava fechada, mas as janelas estavam abertas e por elas entrava uma fresca e revigorante brisa do mar. Virei-me
para a janela, desejando poder sair outra vez e, de repente, ouvi uma voz familiar. Ao princpio era muito sumida; porm,  medida que centrei nela a minha ateno,
foi ficando mais Porte. Vinha l de baixo... da entrada principal da casa. - Luke!
Tambm ouvi a voz do Tony.
Concentrei-me o melhor que pude e dirigi toda a minha Bfora para as pernas; oscilei at  beira da cama, mas as minhas pernas no me ajudaram. Toda e qualquer vitalidade
que tinha readquirido, havia desaparecido de novo. O Tony Idera-me qualquer coisa a tomar que fizera com que as minhas foras regressassem a um estado de hibernao,
- Luke! - gritei.
A minha voz ecoou no quarto vazio, e o seu som encerrou-se em mim. Deixei-me cair no cho, desfalecendo como
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um vestido que escorrega de um cabide dentro de um armrio. Contorci-me e iniciei uma luta vagarosa na direco da janela, empurrando-me e arrastando-me o melhor
que podia encorajada pelos sons contnuos da voz do Luke. Comecei  perceber algumas palavras.
- Mas foi ela que insistiu para que eu viesse - argumentava o Luke.
- Ela ainda no est preparada para receber visitas.
- Ento porque me telefonou ela?
- No telefonou. No pode ter telefonado. Deve ter havido algum engano.
- Mas eu percorri uma distncia enorme. No posso v-la s por uns momentos? - implorou ele.
- Os mdicos no o recomendam.
- Porqu?
- Meu rapaz, no disponho do dia todo para estar a explicar-lhe os procedimentos mdicos. De qualquer maneira, est na hora da sesso de fisioterapia da Annie e
ela no pode receber visitas nessas horas.
- Muito bem. Eu espero aqui fora.
- Voc  teimoso.
Eu encontrava-me a muito pouca distncia do parapeito da janela. Fiz fora para baixo, para levantar o meu corpo e alcanar o parapeito o mais depressa que podia;
no entanto, falhei e ca para a frente, batendo com a cabea de encontro  parede. Por um momento, fiquei demasiado atordoada para conseguir levantar-me.
- Muito bem, eu vou-me embora, mas diz-lhe que eu vim c?
A sua voz parecia resignada.
- Claro que sim.
- No - murmurei. - No... no...
Ergui-me de novo e, dessa vez, consegui agarrar-me ao parapeito, empurrando-me na direco da janela aberta.
- Obrigado.
Ouvi a porta da frente fechar-se. Ele estava a ir-se embora; o Luke estava a ir-se embora! O Tony tinha-o afastado dali! A minha esperana! Luke... Encontrava-me
de joelhos e, usando as duas mos, puxei-me para cima at a minha cara ficar ao nvel da janela.
- LUKE! - gritei com todas as minhas foras. LUKE! NO TE VS EMBORA. LuKE, VEM C ACIMA BUSCAR-ME. LUKE...
Gritei sem parar, at sentir que o meu rosto podia rebentar com o esforo; os meus braos ficaram muito fracos para
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conseguir aguentar-me. Mesmo antes de voltar a cair no cho, julguei vislumbrar o Troy na orla do labirinto, a olhar para cima. Mas talvez fosse s uma viso que
eu desejava ter visto.
Fiquei ali deitada, com a cara encostada ao tapete, o meu corpo crispado, a chorar e a gemer pelo Luke. Foi dessa maneira que o Tony me encontrou.
- h, pobre Annie - lamentou ele. - Caste da cama. Parecia que estava a adivinhar que algo parecido podia acontecer. A culpa  minha. Devia ter posto as grades
de segurana  volta da cama.
- SEU MONSTRO! - gritei. - Como pde mand-lo embora? Sabia que eu estava h tanto tempo  espera que ele viesse ver-me! Sabe como isso  importante para mim! Como
pde faz-lo? Como pde ser to cruel? No me interessa o que se passa consigo, nem como a sua vida tem sido triste e trgica. Isso foi odioso, terrivelmente odioso!
Odeio-o por isso! V busc-lo. Faa-o regressar. FAA-O REGRESSAR!
Ignorou a minha exploso, como se a louca fosse eu e no ele.
O meu corpo estremecia com os soluos quando ele ps as mos debaixo dos meus braos e me levantou do cho. Levou-me de novo para a cama e meteu-me debaixo dos cobertores,
aconchegando-os  minha volta outra vez. Depois recuou para retomar o flego.
- No devias fazer isto contigo, Annie. S vais ficar cada vez mais doente. Tenta descansar. Sabes que eu s quero o melhor para ti. S quero o melhor para a minha
pequena Annie.
- Eu no sou a sua pequena Annie. Quero que o Luke volte - murmurei. - O Luke vai voltar... Ele vai voltar.
- Claro. Tu vais melhorar e ele vai voltar. Se me escutares, vais ficar de p e comear a andar antes mesmo de te aperceberes. Mas, em que estava eu a pensar? Ah,
sim, as grades laterais da cama.
O Tony saiu e voltou com elas. Fiquei ali deitada, indefesa, enquanto ele as amarrava  cama e as apertava, enjaulando-me como a um pobre animal.
- Pronto. Agora no precisamos de ter medo que caias outra vez da cama. Sentes-te segura?
Virei-lhe as costas, fechei os olhos e esperei que ele sasse do quarto. Depois de ter a certeza de que j tinha sado, voltei a fechar os olhos e imaginei que estava
no terrao em Winnerrow. Desejei isso sem parar. "Oh, Luke, vem ajudar-me.
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Ouve-me para alm da distncia e do tempo e compreende como isto  terrvel e como eu preciso que me leves daqui."
- Farthy no  o paraso, o castelo mgico que ns imaginmos.  uma priso terrvel, escura e perigosa e cheia de desespero ardiloso. Devia ter dado ouvidos  minha
me... Ela sabia... Ela sabia.
Ao princpio, julguei que ainda estava a sonhar, porque quando abri os olhos, ouvi vozes. Olhei para o relgio e vi que eram quase sete horas da tarde. Tinha dormido
o dia todo. As vozes tornaram-se mais fortes e distintas. Vinham do corredor, em direco ao meu quarto.
Pouco depois, a porta do meu quarto foi aberta  fora e  minha frente surgiram a minha tia Fanny e... graas a Deus... o Luke.
- Ora, ela parece um beb num bero! - exclamou a Fanny na sua voz estridente. - E olha s para aquilo... O cabelo dela tem outra cor.  como a cor que o cabelo
da Heaven costumava ter.
- Annie!
Levantei a minha mo e o Luke correu at  cama, dobrando-se por cima das grades para agarr-la. Assim que os nossos dedos se tocaram, comecei a chorar.
- No chores, Annie. Ns estamos aqui.
Eles estavam realmente ali? Olhei para eles com a alegria com que um nufrago, numa ilha deserta, olha para os seus salvadores: meio descrente, meio desvairado de
alegria. Foi como se uma luz maravilhosa tivesse entrado naqueles lgubres aposentos; como se tivessem tirado as grades de uma janela e aberto os cadeados. O meu
mundo de Winnerrow surgiu de repente atravs da porta, inundando-me com uma torrente de recordaes e sentimentos maravilhosos. Os pesadelos afastavam-se. Ia ser
capaz de fugir quela loucura. O meu corao rebentava de alegria. O Luke no me tinha esquecido, no me tinha abandonado. Tinha ouvido o meu apelo. O nosso amor
era to forte que esmagava tudo  sua passagem. Instantaneamente, senti as minhas foras a voltar. Eu era como uma flor que tinha sido fechada num canto escuro e
nunca fora regada. Antes de murchar para sempre, a priso havia sido afastada, a luz fora autorizada a afag-la e a chuva carinhosa fizera-a reviver. Iria florir
novamente. Eu iria florir de novo. Eu e o Luke estaramos juntos mais uma vez.
310
- Oh, Luke, por favor... leva-me para casa.
- Vamos levar, Annie.
O Tony precipitou-se a correr atrs da tia Fanny.
- Esto satisfeitos agora? No conseguem ver como ela est doente? - gritou ele.
- No, Luke. No. Eu no estou doente...  ele que me pe doente. Pe remdios na minha comida, que me enfraquecem. No acredites nele.
-  tal como eu pensava... Tal como o homem disse. A tia Fanny aproximou-se da minha cama, com o rosto franzido de preocupao.
- Que homem, Luke?
- Um homem telefonou  minha me e disse-lhe para ir buscar-me e virmos at aqui ter contigo a fim de levar-te para casa, o mais depressa possvel.
- Troy! - exclamei. Quem mais poderia ser?
- Que ests a dizer? - perguntou o Luke.
- Nada... Graas a Deus voltaram.
- Vamos levar-te daqui num instante, querida Annie.
- No podem lev-la daqui sem falarem com o mdico. Ela  uma invlida. Precisa de cuidados especiais, remdios especiais...
O Tony tinha o rosto totalmente vermelho, agitado e procurava controlar-se. Os seus olhos estavam enormes e o seu cabelo arrepiado. Parecia uma pessoa que tinha
acabado de sofrer um terrvel choque elctrico.
- No lhe d ouvidos, tia Fanny - implorei.
- Ela pode ter um colapso terrvel... Podem at causar-lhe a morte...
A tia Fanny voltou-se devagar e baixou as mos, levando-as  cintura. Levantou os ombros. Parecia um falco pronto a atacar um rato.
- Parece-me que voc  que pode causar uma recada a esta criana. Olhe para ela. Est plida e macilenta, encafuada neste... - Ela fungou. - Neste tmulo, com um
cheiro adocicado e doentio... Este lugar  exactamente como eu sempre pensei.
- vou chamar o mdico.
- Chame. Que raio de mdico  esse afinal? Olhe bem para este lugar. Ele  o qu: cego, estpido ou no to inteligente como esses mdicos novos dizem ser? Como
pde ele deixar a minha sobrinha ficar num stio destes?  como uma espelunca. Cheira a mofo e a podre.
311
- No vou ficar aqui a tolerar este abuso - afirmou o Tony, com o orgulho e a arrogncia dos Tatterton a brilhar-lhe no rosto.
Saiu do quarto; porm, no achei que ele fosse muito longe.
A tia Fanny voltou a centrar a sua ateno em mim.
- Agora no te preocupes, Annie. Vais para casa connosco. Luke, baixa essas grades para ela sair da cama. vou procurar uma mala e reunir as coisas dela.
- Tudo o que  meu est no lado direito do armrio, tia Fanny. No  muita coisa. A mala est no cho, ali adiante.
O Luke apertou a minha mo.
- Estou to feliz por te ver.
- Nem podes imaginar como eu estou contente por te ver, Luke. Por que no vieste mais cedo?
- Eu tentei. Telefonei a esse Tony Tatterton, mas ele insistia em desencorajar-me, dizendo que o mdico no queria que tivesses visitas.
- E o Drake?
- O Drake dizia o mesmo. Queriam que eu esperasse mais um pouco.
- Mesmo depois de teres recebido a minha carta?
- Carta? No recebi carta nenhuma, Annie.
- Ele no chegou a envi-la! Eu devia ter adivinhado! Todas aquelas histrias sobre os teus exames, as associaes de estudantes e as amigas... as namoradas!
Agora sentia-me to mal, to culpada por ter desconfiado que o Luke se tinha tornado uma pessoa egosta e presunosa. Como pudera duvidar dele? Devia ter adivinhado.
Desde o comeo que fora uma prisioneira ali, e desde o comeo, tambm, que o Tony me tinha enganado. Senti-me enojada com a maneira terrvel como ele me mentira.
- Que namoradas?
- Vo continuar a a tagarelar, ou vamos voltar para Winnerrow?
- Vamos para casa, me.
- Ento faz o que te digo e baixa essas grades.
O Luke baixou as grades laterais da cama, enquanto a tia Fanny fazia a minha mala e separava uma roupa para eu vestir.
- Vais levar esta mala para baixo, Luke, enquanto eu visto a Annie.
- Por favor, Luke, vai buscar a minha cadeira de rodas. H uma aqui em cima e outra l em baixo.
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- E no pares por nada, nem por ningum, ouviste? ordenou a Fanny.
- De acordo, chefe - disse o Luke e fez uma continncia a brincar  tia Fanny.
Era to bom poder sorrir e rir outra vez.
- V, despacha-te. Onde j se viu este rapaz... Ds-me licena, mido?
- Ele  um rapaz maravilhoso. Oh, tia Fanny... Estou to feliz por ter vindo. Nunca fiquei to feliz por v-la.
- Aposto que no. Mas no fales mais nisso. Vamos tirar-te daqui. Que tenho de fazer para te ajudar?
- Ontem, teria feito tudo sozinha, tia Fanny. Mas agora sinto-me fraca e cansada. Por isso, ajude-me a vestir a roupa interior. Prometo que no vou ser um fardo
para si em Winnerrow.
- Oh, pobre criana - disse ela, e os seus olhos suavizaram-se e encheram-se at de lgrimas.
Nunca me tinha apercebido de como a tia Fanny podia ser afectuosa e meiga.
- No julgues que me importo. Vais ser o fardo que tiveres de ser e no te preocupes com isso. Ns somos uma famlia, independentemente do que possam pensar.
- Que quer dizer com isso, tia Fanny?
- No quero dizer nada. Deixa-me comear a vestir-te. Ajudou-me a vestir, e o Luke regressou com a cadeira de rodas. Tirou-me da cama, como se eu fosse um beb muito
querido, e baixou-me devagar para sentar-me na cadeira. Estar nos seus braos era uma sensao boa, que dava segurana. Depois, comeou a empurrar a cadeira para
fora do quarto.
Olhei para trs, para a cama de dossel, para a mesa de toilette e para as cmodas. Aquele quarto devia ser um lugar acolhedor e maravilhoso para mim; era o antigo
quarto da minha me.
Como era triste que aqueles aposentos se tivessem transformado num local cheio de pesadelos. A cama tinha-se tornado a minha gaiola; a casa de banho e a banheira
as minhas cmaras de tortura. Senti-me verdadeiramente como algum que estava a fugir de uma priso. Toda a magia e mistrio de Farthy era apenas algo que eu e o
Luke havamos imaginado, um sonho de criana. A realidade era muito mais dura e cruel.
Vi a mesma desiluso no Luke, quando olhei para trs e vi o seu rosto, enquanto ia empurrando a minha cadeira
313
atravs do corredor. Ele observara as teias de aranha, as lmpadas fundidas dos lustres, a carpete gasta, as paredes esburacadas e os velhos cortinados pudos sobre
as janelas mantendo os corredores escuros e hmidos. Indiquei ao Luke o caminho para o elevador.
- Vai facilitar tudo.
- Ento, Annie, tens a certeza de que sabes mexer naquela geringona? Eu no quero  que acontea nenhum acidente aqui, para darmos oportunidade quele Tony Tatterton
de vir culpar-nos.
-  fcil, tia Fanny.
Deslizei at ao assento da cadeira do elevador e amarrei-me firmemente. Depois, carreguei no boto de descer, e a cadeira comeou a sua descida.
- Ora, macacos me mordam. Olha para aquilo, Luke. Temos de arranjar depressa uma coisa daquelas para a Casa Hasbrouck.
- O nome da firma est l escrito na cadeira - disse o Luke.
Tirou uma caneta do bolso de cima e tomou nota do nome. O Luke estava sempre preparado para tudo. Parecia sempre o bom aluno.
- Como vai a faculdade, Luke?
- Vai bem, Annie - afirmou, acompanhando-me a p, enquanto o elevador descia a escadaria. - Mas tomei uma deciso nova.
- Oh?
- vou desistir do curso de Vero. De qualquer maneira, no preciso de comear j.
- Desistir? Porqu?
- Para passar o resto do Vero em casa contigo e ajudar-te na tua recuperao - declarou ele, a sorrir.
- Oh, Luke, no faas isso.
O elevador parou ao fundo da escada e eu deslizei para a cadeira de rodas que me aguardava ali em baixo.
- No adianta discutirmos sobre isso, Annie. J decidi insistiu, com um ar firme e decidido.
Eu sabia que estava a ser egosta, mas fiquei feliz e radiante por ele ter tomado aquela deciso.
- E que diz disso a tia Fanny?
- Est feliz por eu ficar com ela mais um tempo. A minha me mudou, Annie. Vais ver. A tragdia transformou-a numa pessoa responsvel. Estou mesmo orgulhoso dela.
- Fico satisfeita, Luke.
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- Miss Annie - chamou algum, e parmos  entrada da porta principal.
Era o Rye Whiskey que vinha da cozinha.
- Rye! Luke, este  o Rye Whiskey, o cozinheiro.
- Vai para casa, Miss Annie?
- Sim, Rye. Esta  a minha tia Fanny e este  o meu primo Luke. Vieram buscar-me.
- Isso  bom, Miss Annie - concordou, sem hesitaes. A tia Fanny abanou a cabea, porque havia algum a confirmar as suas suspeitas e a concordar com a sua deciso.
- Nunca fui capaz de fazer-lhe uma comida especial, porque aquela enfermeira estava sempre a vigiar-me enquanto c esteve e agora...
- Eu sei, Rye. Desculpe.
- No faz mal. Quando c voltar depois de ficar boa, fao-lhe a melhor refeio deste lado do paraso.
- vou aceitar com muito prazer, Rye. O seu rosto voltou a ficar srio.
- Os espritos tambm no ficaram afastados, pois no, Miss Annie?
- Acho que no, Rye.
Abanou a cabea e olhou para a tia Fanny.
- Que raio esteve ele a beber? Oh, Senhor, que lugar!
- S a bebida suficiente para evitar a mordida de uma cobra. No , menina?
- Ah, sim?
Os olhos do Rye cintilaram.
- Sim, senhora. E resulta, porque nunca fui mordido.
- Vamos embora, Luke - disse a tia Fanny e fez um sinal com a cabea na direco da porta principal.
O Luke abriu a porta mas, quando voltou atrs para empurrar a minha cadeira para fora, ouvimos o grito do Tony.
Todos nos virmos para olhar para o topo da escadaria. Ele estava l em cima, de p, com o punho erguido.
- Levam essa rapariga para fora desta casa e so responsveis por tudo o que acontecer. J telefonei para o mdico e ele est furioso.
- Ento diga-lhe que  melhor ele mesmo consultar um mdico - gritou a tia Fanny, e riu-se da sua prpria resposta.
Sem mais hesitaes, fez um sinal ao Luke para avanar, e ele comeou a empurrar a minha cadeira para fora daquela casa.
- Parem - gritou o Tony, precipitando-se pelas escadas abaixo.
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- Aquele homem  doido! - exclamou a tia Fanny
- Parem! - repetiu o Tony, aproximando-se de ns
- No podem lev-la daqui. Ela  minha.
- Sua?
A tia Fanny comeou a rir desdenhosamente.
- Ela  minha! Minha!
O Tony respirou fundo e fez uma confisso desesperada.
- Ela , na verdade, minha neta e no minha bisneta pOr afinidade. A tua me fugiu daqui, em parte, por causa disso - declarou ele, dirigindo-se directamente a mim.
- Quando descobriu que...
- Descobriu o qu, Tony?
Virei a minha cadeira, de modo a poder encar-lo.
- Quando descobriu que a Leigh e eu... a me dela e eu... A Heaven era minha filha e no do Luke.
- Meu Deus - disse a tia Fanny, recuando.
-  verdade. Estou envergonhado com o que fiz, mas no tenho vergonha por seres a minha neta verdadeira, Annie. E  isso que tu s. No entendes? O teu lugar  aqui
comigo, com o teu av verdadeiro - implorou ele.
Olhei estarrecida para o Tony. Agora, o que tinha sucedido na noite anterior fazia sentido. No admirava que ele me tivesse chamado Leigh quando viera ter  minha
cama. Estava a reviver o seu caso com ela... Uma ligao que mantivera naquela casa, quando ela era apenas uma garota!
- E o que aconteceu ontem  noite... j tinha acontecido na realidade - conclu eu, em voz alta.
- Que aconteceu ontem  noite? - perguntou a tia Fanny, dando um passo em frente.
- Sinto muito pelo que aconteceu ontem  noite, Annie. Fiquei confuso.
- Confuso?
Todas as vezes que ele me tinha beijado e tocado na vspera, quando me dera banho e eu o vira atrs de mim, quase a beijar-me no pescoo... Tudo aquilo voltou 
minha memria e, de sbito, tudo ficou horrvel e lascivo. Sentia-me agoniada. Mal conseguia pensar naquilo. Sentia-me to violada e to humilhada!... A minha mente
era uma cmara de ecos de gritos e berros.
- O senhor  nojento - gritei. - No admira que a mam tenha fugido desta casa e no quisesse ter mais contactos consigo.
Depois, ocorreu-me um pensamento terrvel. Ele pareceu adivinhar o que eu ia dizer. Pude v-lo nos seus olhos, na maneira como os arregalou e como recuou.
316
- Tambm ficou confuso com a minha me? Foi essa a verdadeira razo por que ela fugiu de si e de Farthy?
- No, eu... A culpa no foi minha.
Olhou para a Fanny e para o Luke, na esperana de que, de algum modo, eles viessem em seu auxlio; estes, porm, Olhavam-no, pasmados, com a mesma expresso de horror
e de nojo.
- No podes odiar-me. No vou suportar passar por tudo aquilo de novo, Annie. Por favor, perdoa-me. Eu no tive inteno...
- No teve inteno? No teve inteno de qu? De engravidar a minha av? Foi por isso que ela abandonou Farthy e a sua prpria me. O senhor afastou-a, tal como
afastou a mam e me afasta a mim agora.
As minhas palavras martelavam como pregos num caixo. O Tony empalideceu e abanou a cabea.
- Quis que eu fosse propriedade sua como... como... como aquele retrato da mam que est na parede! - exclamei, abanando a cabea. - Foi por isso que mentiu quando
me disse que tinha telefonado ao Luke. Nunca chegou a telefonar. Nunca enviou a carta. Quis manter-me prisioneira nesta casa!
- S fiz isso porque te amo e preciso de ti. Tu s a verdadeira herdeira de Farthinggale e de tudo o que este nome representa. O teu lugar  aqui e eu no vou deixar-te
partir berrou o Tony.
- Ah, isso  que vai - disse o Luke, colocando-se entre ns.
O meu Luke, o meu prncipe encantado vinha salvar-me, derrotando o feiticeiro malvado das nossas fantasias. O destino fizera com que tudo isso se tornasse uma realidade.
O Tony parou de falar quando o Luke o mirou de alto a baixo.
- Vamos embora daqui, querido Luke - ordenou a tia Fanny, e o Luke agarrou novamente na minha cadeira, virando-a na direco da porta.
- Annie - chamou o Tony -, por favor...
A tia Fanny abriu a porta e o Luke empurrou a cadeira para fora.
- ANNIE! - berrou o Tony. - ANNIE! HEAVEN! OH, HEAVEN, NO...
A tia Fanny fechou a porta assim que samos, a fim de abafar aquele grito horripilante. Tapei os ouvidos com as mos. O Luke utilizou a rampa para levar-me at ao
carro que nos aguardava.
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- Se quiseres, podes sentar-te  frente, Annie.
- Quero - respondi.
O Luke abriu a porta e depois levantou-me da cadeira Encostei a cabea ao seu peito, enquanto ele me colocava cuidadosamente no banco do carro.
-  melhor levarmos esta cadeira de rodas, Luke.  escusado deix-la aqui a apodrecer, como tudo o resto.
O Luke dobrou-a e meteu-a no porta-bagagens. A tia Fanny entrou para o banco de trs do carro e o Luke sentou-se ao volante.
Dirigiu o carro para a sada.
- Luke, tia Fanny, antes de irmos embora, gostaria de parar junto ao tmulo dos meus pais. Por favor.
- Claro, Annie.
O Luke fez a curva e dirigiu-se para o cemitrio da famlia Tatterton. Chegou o carro o mais perto do tmulo que foi possvel, para que pudssemos olhar pela janela.
Anoitecera, mas a Lua projectava uma luz amarelada sobre o cemitrio, suficiente para eu poder ver.
- Adeus, por agora, mam e pap. Descansem em paz. Em breve eu volto, e virei ao vosso tmulo pelo meu prprio p.
- Podes ter a certeza - disse a tia Fanny e deu-me uma palmadinha no ombro
O Luke apertou a minha mo. Virei-me para ele para captar o calor e o amor do seu sorriso.
- Vamos para casa, Luke - pedi eu.
Quando arrancmos, olhei para trs e vislumbrei o Troy Tatterton a sair da floresta, de onde eu tinha a certeza que ele havia observado todo o meu processo de partida.
Levantou a mo suavemente e acenou-me, e eu retribu o gesto.
- Para quem ests a dizer adeus, Annie?
- Para ningum, tia Fanny... Para ningum.

TERCEIRA PARTE
21 O REGRESSO A CASA

Estava demasiado excitada para dormir no avio. O Luke e eu sentmo-nos ao lado um do outro, junto a uma janela, e a tia Fanny sentou-se  nossa frente. Eu estava
to feliz por ver o Luke que no conseguia tirar os olhos dele e, pela maneira como me olhava, eu sabia que ele sentia o mesmo.
- Belisca-me e dize-me que no estou a sonhar, Luke. Dize-me que ests realmente comigo outra vez.
- No  um sonho - declarou ele, sorrindo.
- Sonhei com isto tantas vezes e com tanta intensidade que continua a parecer-me um sonho - confessei.
Foi a primeira vez, desde que me lembro, que no corei, nem ele desviou o olhar quando lhe expressei o meu amor por ele e a necessidade que tinha do seu afecto.
Os nossos olhos colaram-se. O Luke ps a mo sobre a minha e apertou-a carinhosamente. Todo o meu ser o desejava e forava-me a dizer mais. Queria que ele me acariciasse,
me abraasse com ternura e me beijasse.
- Annie, estive permanentemente preocupado contigo. No conseguia concentrar-me em nada na faculdade. Toda a gente tentava arrastar-me para festas a fim de conhecer
novas pessoas, mas o meu corao estava demasiado apertado para apreciar ou interessar-me por alguma coisa. Passei muito tempo no meu quarto a escrever-te cartas.
- Cartas que eu nunca recebi!
Fiquei extremamente irritada. Se ao menos eu tivesse recebido as cartas dele, os meus dias sombrios e desesperados teriam sido mais animados e esperanosos.
- Agora sei isso - replicou o Luke -, mas na altura no conseguia entender porque no tentavas entrar em contacto comigo, porque no me telefonavas, nem tentavas
enviar uma mensagem qualquer. Pensei...
Baixou os olhos.
321
- Que foi que pensaste, Luke? Por favor, dize-me - implorei.
- Pensei que, uma vez que entrasses num mundo de riqueza como o de Farthy, te esquecerias de mim. Pensei que o Tony te tinha rodeado de tantas coisas bonitas e te
apresentara tantas pessoas novas, que eu j no fosse importante para ti. Desculpa, Annie. Desculpa-me por ter pensado estas coisas - pediu o Luke.
O meu corao rejubilou por saber que ele sentia o mesmo que eu.
- Oh, no, Luke. Compreendo perfeitamente, porque pensaste isso, porque comigo aconteceu o mesmo - admiti ansiosamente.
- Pensaste?
Acenei afirmativamente com a cabea, e ele sorriu.
- Ento preocupaste-te mesmo?
- Oh, Luke, no podes imaginar como senti a tua falta e como tive saudades do som da tua voz. Repetia esse som vezes sem conta no meu pensamento, lembrando-me das
coisas bonitas que me havias dito no passado. Apesar de todas as dificuldades por que passei, s o facto de pensar em ti, e nas coisas que tinhas feito, dava-me
esperana e coragem. Sorri. - Dirigi-me logo para aquelas montanhas mais altas.
- Fico muito feliz por te ter servido de ajuda, muito embora no estivesse ao teu lado.
- De certa maneira, estiveste, porque eu fartei-me de nos imaginar juntos no terrao novamente.
- Eu tambm - disse ele, corando ao de leve. Sabia que era mais difcil para ele do que para mim fazer aquele tipo de confisso. Os outros homens podiam at consider-lo
fraco e at mesmo imaturo.
- Quando estava sozinho l no meu quarto, imaginava-nos novamente juntos, como estivemos no dia em que fizemos dezoito anos. Desejei que o tempo tivesse parado para
sempre naquele dia. Oh, Annie - prosseguiu ele, apertando a minha mo com mais firmeza -, no sei como vou ser capaz de deixar-te outra vez.
- Eu no quero que o faas, Luke - sussurrei.
Estvamos muito prximos um do outro e os nossos lbios quase se roaram. A tia Fanny riu-se com qualquer coisa que estava a ler numa revista, e ns voltmos a encostar-nos
nos assentos. O Luke olhou pela janela e eu encostei a cabea ao encosto da cadeira e fechei os olhos. O Luke no largou a minha mo, e eu senti-me salva, segura,
protegida e abrigada outra vez.
322
Estava muito excitada e impaciente quando o avio finalmente aterrou. Depois de entrarmos no carro da tia Fanny
no aeroporto de Virgnia, adormeci e dormi durante a maior parte do percurso at Winnerrow. Quando abri os olhos, j estvamos no meio do campo e das colinas, subindo
pela estrada sinuosa e cheia de curvas. No havia uma auto-estrada at l acima, aos Willies. Dentro de pouco tempo, as bombas de gasolina tornaram-se mais espaadas.
Os grandes e modernos motis foram sendo substitudos por pequenas cabanas escondidas por entre os bosques densos e escuros. Pequenos edifcios degradados anunciaram
outra cidade secundria, afastada de tudo, mas tambm isso foi ficando para trs.
A tia Fanny tinha adormecido no banco traseiro. O rdio tocava uma msica suave. O Luke tinha de estar atento  estrada, mas no seu rosto via-se, estampado, um sorriso
de felicidade. Parecia-me que ele tinha muito mais maturidade do que eu. A tragdia tinha-nos envelhecido e mudado, at mesmo em aspectos que nem imaginvamos.
Ao-ver aquela paisagem campestre, que me era to familiar, enchi-me de uma sensao de afecto e segurana. Perguntei-me se a mam tambm teria sentido o mesmo quando
fugira de Farthy com o Drake, por causa de tudo o que o Tony Tatterton havia feito. O mundo fora dos Willies e de Winnerrow deveria ter-lhe parecido to difcil,
frio e cruel como me parecia a mim agora.
- Estamos quase a chegar - anunciou o Luke, suavemente. - Estamos quase de volta ao nosso mundo, Annie.
- Oh, Luke, sempre pensmos que fugir dele e ir para um lugar de fantasia seria maravilhoso, mas nada  mais fantstico do que a sensao de estarmos em casa, no
achas? perguntei-lhe.
- Desde que faas parte desse mundo, Annie - sussurrou ele e pegou na minha mo.
Quando os nossos dedos se tocaram, entrelaaram-se firmemente, j que nenhum de ns queria largar a mo do outro. O meu corao batia, mais acelerado, de felicidade.
O Luke reparou na expresso do meu rosto e tornou-se subitamente muito srio. Pressentiu como os meus sentimentos eram profundos, e eu percebi que os seus eram igualmente
srios. Eu sabia que isso o perturbava, porque ambos nos estvamos a render aos nossos sentimentos, em vez de nos preocuparmos com quem realmente ramos.
- Estou ansiosa por ver a Casa Hasbrouck - murmurei.
323
- J no tarda muito.
 medida que avanvamos, ficava mais impaciente mais excitada. Finalmente, depararam-se-nos os extensos campos verdes nos arredores de Winnerrow e as quintas bem
cuidadas, com campos de milho pronto a ser colhido. As casas estavam todas iluminadas, e as famlias que l viviam juntavam-se em redor da luz acolhedora dos candeeiros.
Quase gritei de contentamento quando vi as luzes, nas cabanas dos mineiros de carvo, que se espalhavam pelos montes. Pareciam estrelas cadentes que tinham mantido
o seu brilho.
E ento, entrmos propriamente em Winnerrow e seguimos pela rua principal. Fomos at ao fim da rua e passmos por todas as casas de cores suaves, pertencentes s
pessoas mais ricas, um pouco recuadas em relao s casas, menos numerosas, das pessoas de classe mdia: aqueles que trabalhavam nas minas, ocupando os cargos de
superviso ou de direco.
Fechei os olhos quando fizemos a curva para a rua que conduzia  Casa Hasbrouck. Dentro de pouco tempo, estaria em casa; seria, porm, uma casa diferente, sem a
presena do pap e da mam. Eu sabia que, assim que parssemos  entrada, o pap e a mam no estariam l para saudar-nos... No haveria sorrisos, nem beijos afectuosos,
nem abraos, nem boas-vindas calorosas. A realidade passou-me por cima como uma onda gigantesca e violenta no oceano. No podia escapar-lhe, nem det-la. Os meus
pais estavam mortos e enterrados em Farthy e eu continuava a ser uma invlida. Nada disso havia sido um sonho.
- Ora bem, graas a Deus chegmos! - exclamou devagar a tia Fanny, enquanto nos aproximvamos da casa. - Toca a buzina, Luke, para os criados saberem que chegmos.
- A Annie no precisa disso, me.
- Toca a buzina, anda.
Ela saiu do carro rapidamente e deu a volta para abrir-me a porta. Fiquei ali sentada a olhar para a casa, para os enormes pilares brancos e as grandes janelas.
Inalei o aroma das magnlias e, por um momento, senti-me outra vez como a criana que regressava a casa depois das frias na praia com a famlia. Tal como faziam
nessa altura, os criados reuniram-se  porta para saudar-nos.
Mrs. Avery estava debulhada em lgrimas e o seu leno de seda, que eu lhe tinha oferecido num dos seus aniversrios, parecia molhado e amarrotado. Acenou-me com
ele, como se fosse um estandarte de boas-vindas e desceu as escadas
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at ao carro, o mais depressa que as suas pernas cheias de artrite lhe permitiram.
- Oh, Annie. Bem-vinda a casa, minha querida.
A tia Fanny desviou-se para que Mrs. Avery se pudesse inclinar para abraar-me e beijar-me.
- Ol, Mistress Avery.
- O teu quarto j est pronto... limpo, polido e arejado como deve ser.
- Obrigada.
Virei-me na direco da casa e vi o George a descer os degraus a correr, avanando mais depressa e demonstrando maior emoo no seu rosto do que me lembro de alguma
vez ter visto. A sua habitual postura rgida estava mais descontrada, e o seu sorriso, normalmente sumido, mostrava-se agora de orelha a orelha, e era to arqueado
aos cantos da boca que mais parecia um gato.
- Bem-vinda a casa, Annie.
Estendeu o seu brao com firmeza, e os seus dedos longos e carinhosos apertaram os meus com afecto, quando lhe peguei na mo.
- Obrigada, George. Estou muito contente por v-lo.
O Roland estava  porta, com um avental imaculado, impecvel e engomado. Trazia nas mos um bolo de baunilha enorme e levou-o at ao carro para mostrar-mo. Na parte
de cima estava escrito o seguinte: BEM-VINDA A CASA, ANNIE.
DEUS A ABENOE.
- Roland, que simptico da sua parte!
- Foi s para manter o meu pensamento ocupado, Miss Annie. Seja bem-vinda.
- Obrigada, Roland.
O Luke j tinha armado a minha cadeira e estava  espera. Os criados recuaram e ficaram a v-lo ir buscar-me e pr-me na cadeira. O seu rosto estava compenetrado
e srio; quando os nossos olhos se encontraram, ele sorriu. Era to bom estar nos seus braos. Reparei como o Luke estava orgulhoso da maneira segura como me pegava
ao colo. Continuava a ser o meu prncipe e eu a sua princesa.
- Ests a ficar bom nisto, Luke Casteel - murmurei.
- Acho que  um dom natural.
Lanou-me um sorriso rpido e os seus olhos escuros de safira cintilaram diabolicamente, tal como os do pap costumavam fazer.
- vou buscar as malas - disse o George rapidamente, enquanto o Luke se encaminhava para a casa comigo.
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O Roland entregou o bolo a Mrs. Avery e ajudou o Luke a levar-me pelas escadas.
- Talvez tambm precisemos de uma daquelas rampas
sugeriu a tia Fanny, pensando em voz alta.
- No, tia Fanny. vou voltar a andar antes que conseguissem terminar a construo dessa rampa.
-  assim mesmo que deve pensar, Miss Annie - disse o Roland.
O Luke e ele levaram-me directamente para o meu quarto. Nunca antes me parecera to maravilhoso, confortvel e acolhedor. Lgrimas de felicidade correram-me pelas
faces. Estava em casa; estava realmente em casa. Iria dormir na minha prpria cama e estaria rodeada pelas minhas prprias coisas. Por um momento, foi como se tudo
o que acontecera tivesse sido, de facto, apenas um sonho. Tal era o poder do meu quarto!
Nessa altura, o meu olhar dirigiu-se para a casa em miniatura e pensei no Troy. Foi como se eu me tivesse tornado um gigante e me encontrasse a olhar para o lugar
onde estivera. Tinha tanta coisa para lhe agradecer. A seu modo, tambm ele me havia salvo.
- Oh, Luke,  tudo to maravilhoso. Nunca mais considerarei nada como certo.
Olhei em volta, avidamente, deleitando-me com todas as minhas coisas. L estavam os meus quadros e os utenslios de pintura, cuidadosamente arrumados como no dia
em que os deixara. O quadro inacabado de Farthy, que eu tinha comeado pouco tempo antes do trgico acidente, ainda permanecia no cavalete. "Como eu estava enganada",
pensei. As cores eram demasiado vivas; o mundo  sua volta tambm era demasiado suave e convidativo. Era, na verdade, um quadro desenhado a partir de uma fantasia.
No era de admirar que a mam quisesse que eu pintasse outras coisas. Ela sabia que eu estava a viver num mundo de sonho e, s vezes, viver de sonhos podia ser perigoso
e trgico.
A nica coisa que estava verdadeiramente correcta no quadro era o Luke. No havia nada de imaginrio na maneira como ele olhava. Mas, o que era mais importante,
tinha-o posto onde mais precisava dele: comigo; vindo ao meu encontro para levar-me para casa.
- Eu estava completamente enganada acerca de Farthy, Luke - disse eu. - Os meus quadros no passavam de uma fantasia.
- No te culpes por teres desejado que Farthy fosse mais
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do que isso, Annie. Se no nos permitirmos sonhar, o mundo pode ser terrivelmente montono. Talvez agora fiquemos mais satisfeitos com aquilo que temos e com o que
somos acrescentou ele.
- Oh, Luke, espero que sim.
A comoo, que nos envolvia, afastou o arrependimento e os pensamentos sombrios. O George trouxe as minhas coisas e Mrs. Avery abriu-me a cama. Toda a gente falava
ao mesmo tempo. O seu entusiasmo era contagiante.
- Minhas senhoras e meus senhores, agora eu ajudo a Annie sozinha - comunicou a tia Fanny.
- Sim, minha senhora - disse o Roland, e todos saram obedientemente.
Vi pela maneira como eles responderam que, efectivamente, a tia Fanny tinha tomado as rdeas daquela casa.
- Venho ver-te mais tarde, Annie. Queres que te traga alguma coisa? - perguntou o Luke.
- Por agora no, Luke. S te quero a ti.
- com isso no h problema. Na verdade, o mais certo  ficares cansada de me veres tantas vezes. vou parecer um velho papel de parede.
- No consigo imaginar uma coisa dessas. Apertei-lhe a mo. O seu rosto estava to prximo do meu que julguei que ele fosse beijar-me; porm, a tia Fanny comeou
a falar antes de o Luke se resolver a fazer isso.
- Ento, se  para te ires embora, Luke, vai j! Temos mais que fazer.
- Desculpem. At j, Annie.
- vou telefonar ao doutor Williams para ele c vir amanh de manh, assim que puder, para te ver e nos dizer o que temos de fazer a partir de agora.
- E veja se amanh consegue trazer aqui um cabeleireiro, tia Fanny. Quero pr o meu cabelo como era antes, o mais rpido possvel.
A tia Fanny abanou a cabea.
- Mas dize-me, Annie, que te levou a fazer uma coisa dessas?
- O Tony convenceu-me de que isso me faria sentir uma jovem bonita outra vez. No parava de falar na mam e de como tambm ela o tinha feito, e ele tinha fotografias
dela com o cabelo louro-prateado. Eu sentia saudades dela. Por isso, acho que estava a tentar faz-la voltar se ficasse parecida com ela, mas desconhecia as razes
doentias do Tony para querer que eu fizesse isso. Ele estava a tentar fazer com
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que eu me parecesse com a minha me e com a minha av Leigh. A tia estava l e ouviu a razo.
Os olhos da tia Fanny estreitaram-se, pensativamente
- Dantes eu odiava a Heaven por no me ter levado para viver em Farthy com ela. Pensava que ela estava rodeada de todos aqueles luxos, do brilho e da riqueza, mas
agora compreendo o que ela passou. De certo modo, deve ter sido mais difcil para ela viver ali do que nos Willies.
- Nunca percebi a verdadeira razo por que ela tentava a todo o custo manter a famlia unida - continuou a tia Fanny. - A Heaven precisava da famlia mais do que
eu, embora estivesse rodeada de toda aquela riqueza. Tambm estava rodeada de doidos varridos. Aquela av dela, presa na sua prpria loucura. Esse Tony Tatterton...
Quem sabe o que mais se ter passado ali. E ns deixmos-te nas mos deles...
A tia Fanny abanou a cabea.
- A culpa no  sua, tia Fanny. Quem poderia adivinhar? Eu tinha os melhores mdicos. O Tony comprava tudo o que eu precisava. Inclusive, contratou uma enfermeira
especializada. S que ela acabou por tornar-se um monstro.
Descrevi algumas coisas que se tinham passado. A tia Fanny escutava, abanando a cabea e apertando os lbios de vez em quando.
- Gostava que ela estivesse aqui agora. Torcia-lhe o pescoo.
- Tia Fanny, a tia no pareceu ficar muito admirada quando o Tony declarou que era o verdadeiro pai da mam. Como soube disso?
- Pouco tempo antes de o meu irmo tom ter sido morto por um tigre no circo, ele escreveu-me uma carta a contar uma conversa que tivera com o meu pai, o Luke Casteel.
O tom estava furioso, porque descobrira que a Heaven, na realidade, no era filha do Luke. No sei se sabes, mas ele e a Heaven eram muito unidos e incomodou-o ter
conhecimento de uma coisa to horrvel, e precisou de desabafar com algum. Enfim, parece que quando o meu pai casou com a tua av Leigh, ela j estava grvida de
um filho do Tony. O Luke contou ao tom que a Leigh lhe tinha contado que o Tony a violara... talvez at mais de uma vez. Seja como for, essa foi a razo por que
ela fugiu daquele castelo e de todo aquele dinheiro e veio parar aos Willies, para viver com o meu pai. Morreu de parto, por isso nenhum de ns a conheceu. A Heaven
estava convencida de que o Luke, o meu pai, a odiava, porque o seu anjo Leigh havia morrido ao d-la 
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luz, entendes? Acho que a histria  mais complicada do que isso, tendo em conta que o Luke sabia que a Heaven no era sua filha.
- Ento, o Tony  mesmo o meu av verdadeiro e no disse aquelas coisas no final s para me obrigar a ficar cOnclu eu, e agora as palavras martelavam com mais fora
nos meus ouvidos.
-  o que parece, Annie - afirmou ela e depois interpretou mal a expresso do meu rosto. - Ento, s porque ele  prulas, no quer dizer que tambm venhas a ser,
Annie.
- No era sobre isso que eu estava a pensar, tia Fanny. Estava a pensar na mam e como tambm deve ter sido duro para ela descobrir todas essas coisas. No entanto,
nunca contou a ningum, pois no? E a tia tambm no.
- No. Nunca disse nada a ningum, a no ser quele advogado incompetente que me tratou do caso da custdia do Drake. No se soube de nada, porque ns as duas fizemos
um acordo. Comprmos e vendemos o Drake entre ns, tal como j tinha acontecido connosco.
A tia" Fanny baixou os olhos, envergonhada.
- O que quer que tenha feito no passado, est encerrado, tia Fanny. A tia j pagou por tudo mais do que devia.
- Ests a falar a srio, querida Annie? Acenei afirmativamente com a cabea.
- Mesmo tendo tido o Luke, que  filho do teu pai?
- Todos fazemos e damos o melhor que temos e podemos.
- Ora, como tu s uma menina maravilhosa. - O seu rosto ficou triste. - Mas agora j sabes que eu no sou realmente tua tia.
- Oh, no, tia Fanny, sempre ser minha tia. No quero saber se no temos laos de sangue que nos unam.
- Ora, eu amo-te tanto como se tivssemos esses laos, Annie. At te amo mais. Amo-te como a uma filha e o Luke ainda  teu meio-irmo.
- Sim - respondi e olhei, na direco da janela, para o telhado do terrao l em baixo.
No consegui deixar de pensar em tudo o que tinha mudado desde o acidente. A minha me no era, na verdade, uma Casteel, muito embora tivesse sido educada como tal,
tivesse vivido naquela cabana e tivesse pensado que o Toby e a Annie Casteel eram os seus avs verdadeiros. Apesar de agora estas revelaes serem dolorosas e perturbadoras
para mim, no podia sequer fazer uma ideia do efeito que deviam
329
ter causado na minha me, quando ela soubera realmente da verdade. Era como perder a famlia inteira num instante e ser, de repente, adoptada por desconhecidos.
E depois fora, subitamente, transformada numa Tatterton e obrigada a viver naquela manso cheia de recordaes que haviam transformado o seu verdadeiro pai numa
criatura ciumenta e perturbada. No admirava que tivesse fugido de l com o pequeno Drake nos braos. O Drake! Ele no era realmente meu tio, mas certamente no
sabia disso e no o saberia, a menos que um dia o Tony lhe revelasse a verdade atabalhoadamente, num dos seus acessos de loucura. Eu no tinha pressa em contar-lhe.
"A dor dessa revelao deve permanecer encerrada no meu corao", pensei.
Dei-me conta de que perdera, no s os meus pais, como tambm a minha ascendncia, uma das coisas mais importantes que sempre me haviam ligado ao Luke. J no partilhvamos
um passado cheio de histrias enriquecedoras sobre a vida nos Willies; histrias sobre o nosso bisav Toby. Agora j no tinha passado, porque o meu estava ligado
ao Tony Tatterton e eu no queria esse elo; no queria lembrar-me de nada que ele me tivesse contado sobre o seu pai e o seu av.
Na verdade, eu estava prestes a comear uma nova vida e a transformar-me numa pessoa diferente. Quem seria eu? Como iria isso mudar o meu relacionamento com o Luke?
O futuro era to incerto e mais assustador do que nunca. Tinha cado numa espcie de labirinto e no fazia ideia de quanto tempo iria andar perdida, tentando encontrar
a sada. Tinha saudades do Troy; de algum para pegar na minha mo e guiar-me. A tia Fanny estava a ser mais maravilhosa do que alguma vez eu pudera supor; porm,
mesmo ela estava arrasada com tudo o que acontecera.
No podia pedir a ajuda do pap, nem ir ter com a mam. E o Drake estava to fascinado com o Tony Tatterton e com a sua posio nas empresas do Tony que j no era
de confiana como antigamente. Perdera o tio que sempre fora para mim como um irmo mais velho; perdera-o devido ao brilho da riqueza e do poder. Nesse momento,
o Tony parecia o diabo e o Drake uma das suas vtimas.
Os meus nicos pensamentos alegres e esperanosos surgiam quando pensava no Luke. Iria contar-lhe como me sentia e quais eram os meus medos. Mas no iria eu ser
um peso grande de mais para ele? Ficaria ele subjugado pela responsabilidade de ser um conforto e um apoio para uma pessoa to desesperada e solitria? Eu tinha-me
tornado mais importante do que ele jamais esperara; isso era uma certeza.
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A tia Fanny ajudou-me a vestir uma camisa de noite e a meter-me na cama... a minha caminha macia, de lenis com perfume de lils. Mrs. Avery voltou para arrumar
as minhas coisas e depois cirandou por ali a ajeitar tudo e a limpar o p aqui e ali, at que a tia Fanny lhe disse para me deixar descansar.
- O Luke e eu vamos comprar algumas coisas de que vais precisar, como, por exemplo, uma daquelas mesas janotas para poderes comer na cama.
- E umas canadianas. Quero comear a andar amanh de manh.
-  assim mesmo. Muito bem, querida. Bem-vinda a casa, o lugar onde pertences.
Beijou-me na testa e voltou-se, preparando-se para sair.
- Tia Fanny.
- Sim.
- Obrigada por me ter trazido para casa, tia Fanny. Ela abanou a cabea com os olhos rasos de lgrimas e saiu rapidamente do meu quarto.
Olhei para a porta do quarto, meio na expectativa, meio desiludida. Se ao menos a mam entrasse por aquela porta mais uma vez. Se ao menos ns pudssemos ter outra
das nossas conversas. Como eu precisava dela; como eu precisava da sua sabedoria e do seu apoio. Talvez, se eu fechasse os olhos e desejasse com muita fora, conseguisse
ouvir os passos dela no corredor e o seu riso suave e terno... E depois v-la-ia irromper pela porta do meu quarto.
A mam abriria as minhas janelas de par em par e correria as persianas.
- Toca a levantar. Fica feliz por estares viva e com sade. No desperdices nem um momento, porque todos os instantes so preciosos, Annie. Todos os momentos so
uma ddiva e tu no vais querer parecer ingrata, pois no?
- Oh, me, eu ainda estou invlida. As minhas pernas so como dois troncos velhos e ensopados.
- Que disparate - ouvi ela dizer. - A vida  aquilo que quisermos fazer dela. Agora dize a a essas tuas pernas que j tiveram umas frias demasiado prolongadas.
Est na hora de voltarem ao trabalho. Estamos entendidas?
Seria o som do meu riso que eu ouvira? Senti as suas mos nas minhas pernas, afagando-as e restituindo-lhes, como que por magia, a sua fora.
- Est bem - disse ela, levantando-se da cama. Depois, comeou a deslizar, a afastar-se e tornou-se uma sombra.
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- Mam? Ma... Ma-mi
Havia desaparecido e o sol ficou encoberto por uma enorme nuvem negra. O meu quarto estava escuro e sombrio; havia sombras por toda a parte.
- Mam]
- Annie?
- O qu... quem... Luke?
Ele estava de p, junto  minha cama.
- Ests bem? Ouvi-te gritar.
- Oh, Luke... Abraa-me, por favor, abraa-me - gritei O Luke sentou-se rapidamente na minha cama e abraou-me. Enterrei o meu rosto no seu peito e solucei, enquanto
ele me afagava carinhosamente.
- Pronto. Estou aqui. Est tudo bem - murmurou ele. Depois senti os lbios dele na minha testa. Os seus beijos de conforto provocaram-me um arrepio nos seios, 
medida que ia sentindo a sua respirao morna no meu rosto. O bater do seu corao martelava de encontro ao meu.
- Acho que tive um pesadelo - afirmei, j um pouco embaraada. - E, quando acordei, pensei que Mistress Broadfield estava aqui. Ela foi to m para mim, Luke. Obrigava-me
a tomar banhos com gua a escaldar. A minha pele ficava to vermelha como uma rosa em pleno desabrochar e levava horas a sentir alvio.
O Luke afagou o meu pescoo e abanou a cabea.
- Minha pobre Annie. Como sofreste, e eu no estava l para ajudar-te. Odeio-me por ser to estpido.
- No tiveste culpa, Luke. No podias saber.
Ainda nos encontrvamos abraados um ao outro e no queramos largar-nos. Por fim, ele recostou-me na almofada e ficou ali sentado a olhar para mim.
- Annie, eu...
Toquei nos seus lbios e ele beijou-me os dedos. Isso fez o meu corpo vibrar e despertar.
-  melhor eu voltar para a cama - sugeriu ele.
- Espera. Fica comigo mais um pouco. Fica comigo at eu voltar a adormecer. Por favor.
- Est bem. Fecha os olhos.
Fechei-os, e ele voltou a tapar-me com o cobertor e aconchegou-o ao meu pescoo. Senti os seus dedos a percorrerem o meu rosto, afastando-me o cabelo.
- Luke...
- Dorme, Annie. Eu estou aqui.
O sono chegou por fim e, desta vez, foi tranquilo e descansado.
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E, quando acordei, com a luz do Sol a espreitar atravs da janela, encontrei o Luke a dormir aos meus ps, enroscado como uma criana. Por um momento, esqueci-me
do que o tinha trazido  minha cabeceira. Assim que me mexi, as suas plpebras estremeceram, abriu os olhos e fitou-me. Ao perceber que se encontrava na minha cama,
reagiu como se tivesse levado com um balde de gua gelada. Sentou-se muito rapidamente.
- Annie!
O Luke olhou em volta.
- Esse pijama  muito engraado, Luke.
- O qu? Oh... Devo ter adormecido. Desculpa. Levantou-se muito depressa.
- No tem importncia, Luke.
No pude deixar de sorrir-lhe. As calas do seu pijama eram um pouco largas.
- Eu... eu j volto, depois de me vestir - gaguejou ele e saiu do quarto, apressado.
Pouco tempo depois de eu ter acordado nessa manh, o velho Dr. Williams chegou. Era o mdico da nossa famlia desde que me lembrava. Era um homem baixo e forte,
com cabelo encaracolado e arruivado, o qual agora j estava quase todo grisalho. Quando entrou no meu quarto, saudou-me com um sorriso aberto, que me fez sentir
descontrada. No me dei conta de que estivesse a ser picada e remexida como uma cobaia de laboratrio e, principalmente, no havia ali nenhuma enfermeira espreitando
por cima do seu ombro e franzindo o sobrolho a cada pergunta minha.
- A tua tenso est normal e o teu corao parece ptimo, Annie. Claro que tenho de saber o resultado das radiografias e dos relatrios dos exames que fizeste em
Boston. vou tratar disso j, mas no vejo nenhuma razo para que no possas comear a andar.
- Comecei por levantar-me sozinha e at j dei um ou dois passos, doutor Williams - contei eu. - Mas eles no queriam que eu continuasse a tentar andar.
- No queriam?
Os seus olhos ficaram mais pequenos, e ele apertou o queixo com o polegar e o indicador, enquanto olhava para mim.
- Vejo que os teus reflexos so rpidos e tens sensibilidade nos membros. A maior parte do teu problema agora  emocional. No havia nenhuma razo para te manterem
numa cadeira de rodas e prolongar o teu estado de invalidez.
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- Ento, no h razo para deixar de continuar a tentar?
- Que eu veja, no. Tenta apenas no te esforares demasiado, para no te cansares. O teu corpo ser o melhor avaliador da situao. Voltarei c, assim que tiver
informaes de Boston. Bem-vinda a casa, Annie. Estou certo de que melhorars muito em breve.
- Obrigada, senhor doutor.
O mdico reparou nas lgrimas nos meus olhos, e o seu rosto tornou-se paternal, suave; o seu sorriso era franco e aberto, e os seus olhos brilharam de ternura e
preocupao.
- Tu sabes como eu gostava dos teus pais e como gosto de ti. Agora tens de ficar forte. Vais ter muitas responsabilidades novas.
O mdico beliscou o meu rosto, ao de leve, como sempre fazia, e saiu.
Quase a seguir, o Luke esgueirou-se para dentro do meu quarto.
- Oh, desculpa - disse ele e voltou-se, preparando-se para sair novamente. - Julguei que j te tivessem levantado e preparado para o pequeno-almoo.
- Ora, Luke Casteel, volta j aqui. Puxa de uma cadeira e conta-me tudo o que tens feito, desde que eu fui viver para Farthy. Quero saber tudo sobre a tua vida na
universidade... Principalmente sobre as namoradas.
Lembrei-me de ele me ter dito no avio que se tinha preocupado muito comigo e que tinha ficado sozinho a maior parte do tempo; contudo, recordei-me tambm das histrias
do Drake, e tinha de ser o Luke a confirm-las.
- Namoradas?
O Luke recuou e depois aproximou-se da minha cama.
- Quando anteriormente te referiste a namoradas, no entendi.
- No conheceste logo ningum em especial? - perguntei.
- Muito dificilmente. Entre tentar integrar-me, reunir livros e restante material, organizar o meu quarto no alojamento... e tentar ver-te, no me restava muito
tempo para grandes confraternizaes.
- Mas eu pensei... O Drake foi ver-te uma vez, no foi? Nesse momento, o meu corao batia, acelerado. Seria que o Luke estava a mentir para que eu no me sentisse
triste? Deveria for-lo a contar-me a verdade?
- Realmente apareceu e demorou-se uns dez minutos. Eu estava no trio do alojamento a ler - disse o Luke com indiferena.
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- Sozinho? - insisti.
Parecia vida de um castigo, exigindo ouvir aquilo que eu sabia que me despedaaria o corao.
- Estavam l outros alunos, mas mal nos conhecamos, j te disse que estava to preocupado contigo, que eu...
- O Drake achou que tinhas conhecido uma pessoa que se tinha tornado muito ntima...
O Luke pareceu ficar confuso.
- Ah, sim? No me parece que ele tenha pensado seja no que for. Balbuciou umas coisas sobre o teu estado, sobre a necessidade de ficares em repouso e no poderes
ser incomodada e depois saiu  pressa para tratar de um assunto qualquer de negcios e prometeu manter-se em contacto comigo. Telefonei-lhe uma srie de vezes, mas
a secretria dele dizia-me sempre que ele estava fora, ou ento numa reunio. Telefonei para o escritrio do Tony e, normalmente, a resposta era sempre a mesma.
Por fim, liguei mesmo para Farthy e falei com Mistress Broadfield. E, como tu sabes, ela no era nada animadora...
"Mas fiquei to feliz quando o meu companheiro de quarto me deu o teu recado. Depois... quando o Tony me barrou a entrada, quase passei por cima dele para entrar
de qualquer maneira. A nica coisa que me impediu foi o receio de poder causar-te mais algum sarilho. Felizmente, a minha me recebera aquele telefonema e vinha
a caminho. E, agora, dize-me que confuso foi aquela entre ti e o Tony quando samos de Farthy... Aquela confuso a que ele se referiu?
- Oh, Luke, foi uma coisa dolorosa, horrvel e nojenta. Senti-me to indefesa, to atormentada e o que mais me di agora  pensar que muitas daquelas coisas no
deveriam ter acontecido... Que o que eu achei ser terapia ou um excelente tratamento mdico fazia parte da loucura pela qual eu estava rodeada. vou ter pesadelos
para sempre! - gritei.
- No, no vais, porque, quando essas recordaes desagradveis voltarem, vou estar aqui para afast-las - prometeu o Luke, com os olhos apertados e determinados.
- Mas, conta-me tudo. Pode ser que ajude falar no assunto.
- Oh, Luke, foi to embaraoso e, agora que conheo algumas das razes doentias que justificaram uma parte de tudo, sinto-me suja e desonrada.
Abanei-me para sacudir aqueles pensamentos e aqueles sentimentos.
O Luke tomou a minha mo entre as suas.
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- Oh, Annie, que espcie de coisas fez ele?
- Fez-me despir  sua frente e insistia em ajudar-me a tomar banho.
O rosto do Luke gelou de espanto.
- No conseguia fazer-lhe frente. No podia chamar ningum, nem ningum podia ajudar-me e, naquela altura, ele parecia to... paternal. Deixei-o lavar-me as costas,
deixei-o... Oh, Luke, sinto nojo ao pensar nisso neste momento.
Tapei a cara com as mos. O Luke deixou-se escorregar na cama at ao p de mim e abraou-me, segurando-me junto de si e afagando o meu cabelo. Depois, beijou-me
na testa e eu levantei o rosto na direco do seu.
- Estou to furioso comigo mesmo por no ter ido salvar-te mais cedo.
- No havia maneira de saberes - contrapus. - Mas estavas perto de mim a ajudar-me. Nos momentos mais tristes, mais dolorosos e mais solitrios, eu pensava em ti.
Oh, Luke, sinto-me to protegida ao p de ti... Sinto-me to segura outra vez.
Os nossos rostos estavam muito prximos. Olhmos bem dentro dos nossos olhos.
- Eu sei que no  justo. No deveria fazer-te este tipo de exigncias e evitar que tenhas uma namorada a srio, mas...
O Luke ps-me um dedo sobre os lbios...
- No digas mais nada, Annie. Estou feliz por estar... por estar contigo.
Beijou-me no rosto. Fechei os olhos,  espera, desejando e ansiando que os seus lbios se colassem aos meus, mas ele no o fez. O meu corpo estremeceu na expectativa.
Senti o meu pescoo ruborizar-se. O meu peito estava comprimido de encontro ao seu brao.
- Oh, Luke, no consigo evitar os meus sentimentos por ti - murmurei.
- Eu tambm no, Annie.
O Luke apertou-me de encontro a si e ficmos abraados durante bastante tempo.
- De qualquer maneira - afirmou ele, afastando-se -, o terror acabou. Quem foi a pessoa que telefonou  minha me? Foi um dos empregados?
Hesitei, no sabendo se deveria partilhar o segredo da vida do Troy com o Luke. J tnhamos partilhado tantos segredos no passado! Eu sabia que podia confiar nele
e que o Luke no faria nada que pudesse magoar-me.
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- Se eu te contar, prometes que nunca contars a ningum e que guardas esse segredo para sempre?
- Claro que sim. H tantas coisas sobre ns dois trancadas no meu corao, que mais uma no vai fazer diferena.
- Foi o Troy Tatterton.
- O Troy Tatterton? Mas eu pensei...
- O Troy Tatterton no morreu, Luke, mas quer que as pessoas continuem a pensar que sim.
- Porqu?
- Ele quer viver annimo. Teve uma vida muito triste e conturbada e quer, simplesmente, que o deixem em paz.
- Ento foi ele quem telefonou  minha me? Foi uma sorte ter feito isso.
- Acho que foi mais do que sorte. Acho que ele decidiu olhar por mim. Levou-me a ver a sua casa e... Adivinha, Luke... Aquela rplica ali - disse eu, apontando -,
 a casa dele em miniatura.
- A srio?
- Enquanto estive na sua casa, ele ajudou-me a levantar e a dar- alguns passos. Senti-me como um beb que estava a aprender a andar, mas isso convenceu-me de que
eu deveria tentar mais, a partir de ento, e fazer com que as pernas readquirissem fora e se habituassem a aguentar com o meu peso.
- Claro. Vamos comprar-te as canadianas hoje de manh e eu vou ajudar-te, assim que estiveres preparada.
- Ajuda-me a sentar na cadeira de rodas, por favor. O Luke olhou em volta, desorientado por um momento.
- Tens a certeza? Isto ...
- Claro que tenho a certeza. No sou um pedao de porcelana frgil, Luke Casteel.
Trouxe a cadeira de rodas at junto da minha cama e puxou, delicadamente, o cobertor para trs. Depois, deslizou a mo esquerda sob as minhas coxas e agarrou-me
pela cintura com o brao direito.
- No sou muito pesada, pois no?
- Muito pesada? s to leve como um sonho ligeiro, doce e suave.
Durante um momento, segurou-me nos seus braos. Os nossos rostos ficaram to juntos que, quando me virei para ele, os meus lbios quase roaram os dele. Olhmos
um para o outro com intensidade e eu senti um arrepio suave percorrer o meu corpo; um arrepio mgico, doce e sedoso.
- Era capaz de pegar-te assim para sempre - murmurou o Luke.
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O seu olhar era to intenso e estava to fixo no meu que eu senti que ele estava a ver dentro da minha alma.
- E se eu te dissesse para fazeres isso mesmo? Segurar-me para sempre? - perguntei-lhe com uma voz suave e modulada.
O Luke sorriu e beijou-me na testa, e eu fechei os olhos
- No te ponho na cadeira, sem que me peas.
- Vamos fingir de novo - propus eu. - Vamos fingir que me encontraste em Farthy, a dormir naquele quarto horrvel, sob um feitio lanado pelo prprio diabo. Pe-me
na cama outra vez - ordenei.
Sorriu e obedeceu. Pus os braos ao lado do meu corpo e fechei os olhos.
- vou entrar de rompante!
- Sim - disse eu, entusiasmada por ele ter aceite o desafio. - Depois, vs-me e o teu corao fica despedaado.
Mantive os olhos fechados.
- Isso, porque eu julgo que nunca mais vais acordar e te perdi para sempre.
- Mas ento lembras-te da magia. H muito tempo disseram-te que isto ia acontecer e precisavas de beijar a princesa adormecida para despert-la. S que o teu beijo
tem de ser sincero - acrescentei.
O Luke no respondeu e, por um momento, julguei que o jogo tinha acabado; porm, no me atrevi a abrir os olhos. Primeiro, senti-o debruar-se sobre mim. Depois,
senti o seu rosto a aproximar-se... a aproximar-se... at que... os seus lbios tocaram nos meus. E o seu beijo demorou-se nos meus lbios famintos.
- Tinha de faz-lo de uma maneira sincera - murmurou ele, e eu abri os olhos.
Quis erguer-me e pux-lo para baixo, para junto de mim, mas estava to dominada pelos meus sentimentos e pela expresso do seu olhar que no consegui mexer-me. Depois,
sorriu-me.
- Deu resultado! Acordaste.
O Luke pegou-me novamente ao colo.
- O meu prncipe! - exclamei, e abracei-o com mais fora.
- E agora vou levar-te daqui.
Segurou-me assim por mais algum tempo. Se estava a fazer um grande esforo, no o demonstrou. Por fim, comeou a rir.
- Muito bem, meu prncipe, pe-me na cadeira. Acredito
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em ti - afirmei eu, achando que podia entrar algum no quarto e encontrar-nos assim.
Colocou-me na cadeira com muito cuidado e depois recuou alguns passos.
- Que tal estou? Dize-me a verdade - pedi muito depressa, com medo de que tivesse mudado radicalmente e perdido um pouco da beleza que um dia pudesse ter tido.
- Bem, ests mais magra. E no estou muito habituado a essa cor de cabelo.
- Amanh vou tratar de restituir ao meu cabelo a sua cor natural.
- Mas para alm disso... ests na mesma. Bonita como sempre.
- Luke Toby Casteel, eras capaz de dizer que eu estava bonita, mesmo que a minha cara estivesse cheia de bexigas declarei, tentando esconder a minha evidente satisfao.
- Lembro-me de quando tiveste bexigas e mesmo assim achei que estavas bonita, ou, pelo menos, engraada.
O Luke comeou a andar agitadamente de um lado para o outro, durante alguns instantes.
- Queres que te leve a algum lugar em especial?
- No, vou ficar aqui por agora.
O Luke concordou com um aceno de cabea, e os seus olhos azul-escuros fixaram-se em mim.
- Quando te vi com os olhos fechados daquela maneira, eu... eu no pretendi fingir. Quis que esse beijo fosse real, Annie - confessou ele.
- Foi um beijo verdadeiro - concordei. - Um beijo maravilhoso.
O Luke acenou com a cabea e depois desviou rapidamente o olhar, sabendo que, se o no fizesse, podia dizer o que no devia.
- Oh, Luke, tive tantas saudades tuas.
O Luke mordeu, ao de leve, o lbio inferior e acenou com a cabea suavemente. Reparei que ele estava a reprimir as lgrimas.
- Ora bem, j vi que te levantaste e ests pronta para comear. Isso  bom.
Subitamente, a tia Fanny havia aparecido  porta.
- Queres lavar-te e tudo o resto e preparar-te para tomar o pequeno-almoo?
- Sim, tia Fanny.
- Ento, muito bem. E tu pira-te, Luke, para eu levantar e vestir a Annie.
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- Eu trago-lhe o pequeno-almoo c acima - ofereceu-se, Luke.
E, ao dizer isto, preparou-se para sair.
- Luke - chamei.
Ele voltou-se rapidamente.
- Obrigada, mas de agora em diante no quero mais refeies na cama. No quero mais sentir-me uma invlida.
Ele sorriu.
- ptimo. Vamos tentar pr-te a andar, durante o dia as vezes que quiseres - declarou, olhando para a me.
- Se vocs os dois vo continuar a falar assim, eu vou voltar para a sala de estar, entreter-me a contar os dedos.
- Vou-me j embora.
O Luke lanou-me um sorriso e saiu.
- J alguma vez viste um rapaz com tanta lbia? Tem bem a quem sair:  como o bisav dele, Toby. Aquele homem era capaz de sentar-se no alpendre daquela cabana,
esculpindo coelhos e tagarelando at o Sol se pr. E muito depois de a minha av Annie ter morrido, continuava a falar com ela como se ainda estivesse viva, sabias?
- Agora compreendo porqu, tia Fanny.  difcil desistirmos das pessoas que amamos e s vezes recusamo-nos a faz-lo, independentemente do que a realidade nos diz.
Ela recuou e contemplou-me.
- Acho que mudaste muito, Annie. De certo modo, cresceste, por causa desta tragdia e por tudo o que aconteceu depois. Talvez tenhas aprendido algumas coisas sobre
as pessoas, que eu nunca fui capaz de aprender. A minha av costumava dizer que os tempos difceis so capazes de nos tornar bastante sbios. Sei que aconteceu isso
com a Heaven. Ela era muito mais inteligente do que eu.
"Oh, eu tambm passei os meus maus bocados, mas sempre tive muita pena de mim, por isso no tinha tempo de aprender nada - concluiu a tia Fanny, abanando a cabea.
- Bem, aqui estou eu a tagarelar como o Luke. Deve ser de famlia. Vamos para a casa de banho tratar das tuas necessidades e depois lavar-te e vestir-te.
Mrs. Avery tambm veio ajudar. A maneira como ela e a tia Fanny me mimavam fez-me seguramente sentir em casa de novo. Que diferena havia entre as mos carinhosas
delas e as suas palavras tranquilizadoras e os mtodos friamente eficientes e mecnicos de Mrs. Broadfield. Todo o dinheiro do mundo e todos os cuidados mdicos
especializados no podiam competir com rivais mais fortes, tais como o carinho
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e o afecto. Deveria ter adivinhado isso desde o princpio, e quando o Tony se oferecera para arranjar-me os melhores mdicos e os tratamentos mais caros, eu deveria,
pura e simplesmente, ter pedido para me levarem para casa.
Em pouco tempo, deram-me banho e vestiram-me, e o Luke voltou para ajudar-me a descer as escadas.
- Ests pronta? - perguntou ele.
Tanto Mrs. Avery como a tia Fanny se viraram para mim, na expectativa. Iria eu voltar atrs e pedir que me trouxessem as refeies l acima, ou iria enfrentar o
mundo sem a presena do pap e da mam? Virei-me para o Luke. Os seus olhos estavam cheios de determinao para me encorajarem. Eu sabia que ele estaria ao meu lado.
- Sim - respondi. - Estou pronta.
E o Luke avanou rapidamente. Ps a sua mo sobre a minha e foi para trs da cadeira de rodas.
- Vai correr tudo bem - sussurrou o Luke e, quando Mrs. Avery e a tia Fanny se voltaram de costas para ns, deu-me um rpido beijo no rosto.

22 ABENOADA OU AMALDIOADA PELO AMOR

Assim que entrmos na sala de jantar, os meus olhos demoraram-se nos lugares que os meus pais costumavam ocupar. As cadeiras vazias parecia retriburem-me o olhar,
e o meu corao confrangeu-se e fechou-se na sua concha. Durante um momento, todos ficaram calados; toda a gente, incluindo o Luke, olhou para mim com o rosto cheio
de piedade.
E ento comearam todos a falar ao mesmo tempo... A tia Fanny dava ordens; Mrs. Avery queixava-se disto ou daquilo, o Roland batia as palmas e prometia que aquele
seria o melhor pequeno-almoo que j houvera em Winnerrow. At mesmo o George, normalmente mais silencioso do que um ndio especado  porta de uma loja, fazia perguntas
desnecessrias, como por exemplo, se devia ir buscar mais uma argola de guardanapo; ou ento se aquele seria o jarro certo para pr o sumo.
- Ateno a todos, por favor - gritei -, vamos somente apreciar o pequeno-almoo. No  assim to importante que tudo seja perfeito. S o facto de estar aqui com
todos, outra vez, j  maravilhoso. Gosto muito de vocs e senti muito a vossa falta.
Olharam todos para mim de novo, mas desta vez os seus rostos exprimiam afecto e amor.
- Ento, vamos comer - declarou a tia Fanny -, se no fica tudo mais frio do que a cama de uma solteirona.
- Ai, credo! - exclamou Mrs. Avery, apertando as palmas das mos de encontro ao peito.
Todos ns desatmos a rir e instalmo-nos  volta da mesa para comearmos a comer.
- Marquei-te uma hora no cabeleireiro para hoje cedo anunciou a tia Fanny.
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- Bem - disse o Luke, radiante. - Est um dia lindo. Se quiseres, posso levar-te at l.
- Gostaria muito.
O pequeno-almoo foi animado. No me recordo de ter comido tanto, mas o Roland no parava de vir da cozinha com alguma coisa nova para eu experimentar.
Logo aps o pequeno-almoo, o Luke foi a p, empurrando devagar a minha cadeira de rodas pelas ruas de Winnerrow, at ao centro da cidade. Tomou o caminho que sempre
tomvamos: passmos pelas magnlias que ladeavam a rua; passmos pelas casas de outras famlias que eu conhecia to bem. Estava um dia lindo; um daqueles raros dias
de fim de Vero, em que o sol brilhava, o cu era de um azul cristalino e o ar no era demasiado quente, porque corria uma brisa suave e fresca, vinda dos Willies.
As pessoas acenavam-me dos seus alpendres, algumas delas vinham at c fora saudar-me e dar-me os psames pela morte dos meus pais.
- Sinto-me como se tivesse cem anos e houvesse estado fora durante setenta e cinco - disse para o Luke.
-  curioso como tudo parece diferente quando nos ausentamos de um lugar e regressamos depois - frisou o Luke.
- Nunca me apercebi de como a rua principal  realmente pequena. Quando eu era mido, esta rua parecia-me to grande e animada como Times Square1, ou a prpria cidade
de Nova Iorque.
- Ests desapontado?
- No. At gosto bastante desta rua. Acho que um dia gostaria de voltar para aqui e fixar residncia. E tu?
- Acho que sim. Mas, primeiro, gostaria de viajar e conhecer o mundo.
- Oh, claro, eu tambm.
- Talvez a tua mulher no queira viver numa cidade to pequena, Luke - sugeri eu, testando-o com a dolorosa realidade que eu gostaria de negar para sempre.
Ns ramos meios-irmos. Um dia teramos de encontrar outras pessoas a quem amar. Quando o Luke voltasse para a faculdade, eu teria mais uma vez de enfrentar o facto
de que ele no estaria ali sempre comigo.
O rosto dele adquiriu um ar atormentado. Piscou os olhos e enrugou a testa.
1 Times Square: grande praa na cidade norte-americana de Nova Iorque, no corao da Broadway. (N. da T.)
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- Vai ter de querer, se quiser ser minha mulher - exclamou ele, furioso, desprezando a pretensa mulher, porque no seria eu.
Ele ficava muito atraente e com um olhar peculiar quando se irritava. Em vez de ficar vermelho, a sua pele escurecia e os seus olhos tornavam-se fascinantes.
- Alm do mais, a tua me voltou para Winnerrow depois de ter vivido num mundo muito rico e sofisticado. Se era suficientemente bom para uma pessoa como ela...
No quis revelar-lhe as verdadeiras razes do regresso da minha me.
- Ela foi educada aqui e estava a regressar a uma esplndida casa antiga e a uma empresa nova, que estava em crescimento. Mas, enfiado numa universidade como Harvard,
vais conhecer raparigas que vm de grandes cidades e de outras cidades pequenas, mas muito maiores e mais animadas do que Winnerrow. Podem achar isto curioso, mas
vo querer morar num lugar onde haja lojas caras e finas, onde possam fazer compras; num lugar onde possam comer em restaurantes requintados, ver uma pea de teatro,
uma pera, ou outras coisas fascinantes.
Detestava ter de dizer aquelas coisas, mas queria que ns confrontssemos juntos o inevitvel.
- No estou interessado nesse tipo de raparigas - retorquiu ele, de imediato. - Alm disso, o mesmo pode acontecer contigo. Podes conhecer um homem que queira levar-te
daqui; um homem que se aborrea com esta vida simples.
- Eu sei isso, Luke - salientei, docemente.
Era to doloroso ter esse tipo de pensamentos, muito mais doloroso era pronunci-los em voz alta, mas pior ainda era mant-los encerrados no nosso corao. Uma coisa
era fantasiar e fingir, outra muito diferente era mentirmos a ns prprios. A minha curta, horrvel, dolorosa e atormentada estada em Farthy ensinara-me isso.
- J sei - exclamou ele, parecendo subitamente animado e alegre outra vez. - Vamos deixar que essa rapariga, que queres que case comigo, e esse homem, que eu quero
que case contigo, se casem um com o outro. Ento podem ser felizes.
Ri-me e abanei a cabea. O Luke no estava preparado para enfrentar a verdade. Talvez ele achasse que deveria continuar a proteger-me, porque pensava que eu ainda
estava muito frgil.
- Mas, Luke, que aconteceria ento connosco?
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- Connosco? Tu ficas... tu ficas uma solteirona e eu um solteiro e envelheceremos juntos na Casa Hasbrouck.
- Mas seramos felizes dessa maneira, Luke? - perguntei, duvidando eu prpria de que isso fosse possvel.
- Desde que esteja contigo, Annie, sou feliz - teimou ele.
- Sinto como se estivesse a privar-te de teres uma vida normal, Luke.
- Nunca mais digas isso - implorou ele.
Ao falar, parou de empurrar a minha cadeira de rodas. Olhei para trs e vi que o sofrimento voltara aos olhos dele. Franziu a testa como um rapazinho que estivesse
a ser permanentemente espicaado por outros rapazes mais velhos, ficando frustrado, porque no podia fazer nada para impedi-lo.
- Est bem, pronto. Desculpa - afirmei, mas ele ainda parecia que ia desatar a chorar e abanou a cabea.
- Estou a falar a srio, Annie. No seria capaz de casar com ningum, a menos que ela fosse como tu. E... - acrescentou ele devagar - no h e no pode haver ningum
como tu.
Olhou para mim to atentamente que comecei a sentir o meu pulso acelerar. Depressa me apercebi de que os transeuntes e as pessoas que passavam de carro estavam a
olhar na nossa direco.
- Bem, quando encontrares algum parecido, manda-a ter comigo e eu dou-lhe umas lies - respondi, tentando aliviar a tenso.
No entanto, bem no fundo do meu corao, no conseguia evitar ser egosta e desejar que as nossas vidas se transformassem exactamente naquilo que o Luke havia vaticinado...
Nenhum de ns encontraria mais ningum e ficaramos juntos para sempre. Seramos ntimos e carinhosos, mesmo que nunca pudssemos ter o mesmo que os outros apaixonados:
um casamento e filhos nossos.
Prosseguimos em direco ao salo de beleza. Deviam ter estado  nossa espera, espreitando pelas janelas, porque ainda antes de termos chegado, a dona, Dorothy Wilson,
e as suas duas ajudantes saram a correr para cumprimentar-me.
- Ela agora vai ficar nas nossas mos, Luke - ordenou Mrs. Dorothy, dirigindo-se para trs da minha cadeira de rodas.
Todas elas me rodearam de atenes. Enquanto se ocupavam do meu cabelo, trouxeram-me uma pedicura e uma manicura
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e tagarelavam, pondo-me a par de todos os mexericos da terra. O Luke aproveitou para ir visitar alguns velhos amigos e regressou apenas alguns instantes depois de
eu estar pronta.
As raparigas no se limitaram apenas a mudar a cor do meu cabelo; convenceram-me tambm a fazer uma trana. Puxaram-me o cabelo dos lados, todo para trs e fizeram-me
uma grossa trana. Quando o Luke entrou e me viu, percebi que ele tinha gostado muito. Arregalou os olhos e exibiu um sorriso que se foi lentamente espalhando por
todo o seu rosto; era aquele sorriso especial que eu s me recordava de ter visto em ocasies especiais, como na altura em que ele me dera a pulseira da sorte e
eu lhe dera o anel.
- Que tal estou?
- Ests to bonita... - exclamou ele, sem pensar. Olhou para Mrs. Dorothy e corou, devido ao modo to entusistico como falara.
- Quero dizer... Ficas muito melhor assim com a cor natural do teu cabelo. Tenho a certeza de que todos vo concordar. Bem - prosseguiu, balanando-se num p e no
outro -,  melhor voltarmos, antes que a minha me mande o Gerald  nossa procura e ele se perca.
- Gostas mesmo? - perguntei-lhe no caminho de regresso  Casa Hasbrouck.
- Muito. Faz-te ficar como eras antigamente.
- Sinto-me realmente muito melhor desde que vim para casa, Luke.  como se tivesse recomeado a viver, depois de ter dormido durante muito tempo. Quero tentar andar
de novo, Luke. Quando chegarmos, vai buscar as canadianas para eu ver se melhorei alguma coisa, ou se  apenas imaginao minha.
O meu entusiasmo f-lo sorrir.
- Claro. Onde queres tentar?
O Luke abrandou e eu olhei outra vez para ele. No precisei de explicar nada. Os nossos olhos falaram por ns. Ele acenou com a cabea e prosseguimos.
Quando chegmos a casa, o Luke entrou e voltou pouco depois, trazendo as canadianas. Em seguida, empurrou a minha cadeira at ao carreiro que ladeava a casa. Parou
perto dos degraus do terrao e veio para junto de mim, a fim de segurar a minha mo, enquanto ambos contemplvamos o terrao.
- Primeiro, levo-te ao colo l para cima e sento-te no banco.
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- Est bem.
Mal conseguia pronunciar as palavras; estava to feliz por me encontrar ali de novo com o Luke.
Ergueu-me com cuidado e levou-me ao colo. Passei o meu brao esquerdo  volta do seu pescoo, e os nossos rostos tocaram-se. Depois, cuidadosamente e devagar, ele
levou-me ao colo pelas escadas do nosso terrao e sentou-me no banco. O Luke baixou-se diante de mim, continuando a agarrar na minha mo e olhando para mim. Recostei-me
e olhei em volta.
- Tens razo sobre o que disseste em relao a partir e depois regressar - salientei eu. - De certo modo, o terrao parece mais pequeno e mais velho.
- Mas estamos aqui juntos novamente, Annie. Fecha os olhos e lembra-te do que ele significava para ns e deseja que seja assim outra vez. Eu sei que ser. Sabes
uma coisa... Vim at aqui no dia em que eu e a minha me regressmos de Boston, depois de te termos ido ver ao hospital.
- Vieste?
Olhei para dentro dos seus olhos; olhos esses que se fixaram intensamente nos meus. Era como se pudssemos ver a alma um do outro; ver para alm dos nossos corpos
e at mesmo das nossas mentes, para encostarmos as nossas almas uma  outra. Ele fez-me acreditar que, de facto, tnhamos algo de especial em comum. Era algo mgico;
algo que s ns conhecamos e podamos alcanar.
- Sim. Sentei-me aqui e fechei os olhos e, quando os abri, vi-te sentada  minha frente, a rir, com o cabelo esvoaando ao sabor da brisa. At falaste comigo.
- E que foi que eu disse?
A minha voz era pouco mais do que um sussurro.
- Disseste: "No estejas triste, Luke. Eu vou melhorar, ficar forte e vou voltar para Winnerrow." Tinha de fechar os olhos para poder ver-te e, quando os abri, aconteceu
uma coisa verdadeiramente mgica, Annie.
- O qu?
- Encontrei isto no cho do terrao.
O Luke meteu a mo no bolso das calas e tirou uma fita de cetim cor-de-rosa, com que eu costumava apanhar o cabelo.
- Oh, eu sei que as pessoas vo dizer que isto sempre esteve aqui, talvez escondida debaixo da balaustrada e voou, finalmente, levada pelo vento. Mas o facto  que
no a vi seno quando voltei a abrir os olhos.
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- Oh, Luke. - Tirei-lhe a fita da mo. - Nem sequer perdeu a cor.
- Guardei-a comigo e dormia com ela de noite. O meu companheiro de quarto deve ter pensado que eu era anormal, mas no me ralei com isso. Enquanto a tivesse comigo
sentia-me perto de ti. Por isso, ests a ver que h algo, realmente, mgico neste lugar.
"Mgico", pensei. "Se o amor  magia, ento isto  mgico." Oh, eu sabia que estava errada; sabia que um rapaz e uma rapariga, com um parentesco to prximo, no
deveriam pensar essas coisas um do outro; sabia que no deveriam olhar um para o outro e desejarem-se dessa maneira, mas nenhum de ns parecia capaz de pr cobro
a essa situao. Deveramos encarar esse facto abertamente e declarar os nossos sentimentos, completa e livremente? Ou deveramos continuar a fingir que ramos apenas
amigos ntimos, como deveramos ser como meios-irmos?
Seria isso suficiente para acabar com o desejo que eu sentia por ele? Iria isso acalmar o bater do meu corao, todas as vezes que ele me tocasse? Conseguiria eu
parar de sonhar e de ter fantasias com ele? Se o amor era, de facto, mgico, ento ns estvamos abenoados ou amaldioados pelo seu feitio.
Abenoados, porque sempre que eu estava com o Luke, sentia-me viva; sentia o que uma mulher deve sentir. Amaldioados, porque era um tormento querer e precisar de
algum a quem era proibido amar por inteiro.
Talvez fosse melhor no ser tocada por essa magia.
- Quero estar perto de ti, Luke - murmurei -, mas...
- Eu sei - disse ele, pondo um dedo sobre os meus lbios, para travar as palavras que ambos recevamos. Retirou o dedo e inclinou-se sobre mim. O meu corao comeou
a bater descompassado e a minha respirao acelerou.
- Luke... - murmurei.
Ele deteve-se, controlou-se e voltou a recostar-se no banco rapidamente. Por um momento, pareceu perturbado, e depois levantou-se.
- vou buscar as canadianas. Vais voltar a andar sem dificuldade. Vais faz-lo por ns dois - acrescentou ele, dando uma maior importncia aos meus esforos.
Agarrei-lhe rapidamente na mo para obrig-lo a parar.
- Luke, no esperes demasiado. S h pouco tempo comecei a ter sensibilidade nas pernas.
O Luke limitou-se a sorrir-me como se soubesse de coisas
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que eu no sabia. Apertei a velha fita cor-de-rosa de encontro ao peito e esperei que ele arranjasse as canadianas e as pusesse  minha frente. Depois, afastou-se,
cruzando os braos sob o peito.
Estiquei o brao e agarrei nas canadianas. Em seguida, fiz fora com o meu corpo, at que comecei a levant-lo do banco. As minhas pernas vacilaram, mas comearam
a endireitar-se gradualmente, at que consegui pr-me de p. Tinha os braos a tremer. O Luke parecia preocupado e deu um passo na minha direco.
- No. No te aproximes. Tenho de ser capaz de fazer isto sozinha.
Uma nuvem enorme tapou o sol e uma sombra estendeu-se sobre o terrao, como uma imensa cortina escura que impedia o mundo l fora de entrar. Embora estivesse calor,
senti um arrepio percorrer a parte de trs das pernas, at me chegar  coluna. Lutei para manter as costas cada vez mais direitas e depois concentrei a minha ateno
em impelir o p direito para a frente. Senti a careta que estava a fazer, devido ao esforo da minha cara ao apertar os lbios.
- Anda, Annie, anda - incitava o Luke.
Movi lentamente o meu p para a frente, com todas as minhas foras, at que consegui completar um passo. O meu corao rejubilava de alegria e optimismo; depois
comecei a fazer o mesmo com a perna esquerda. Era como tentar alcanar uma coisa que estava muito prxima de ns; como apanhar um anel dourado num carrocel, em que
nos esticamos e debatemos para l dos limites do espao e das nossas foras. Primeiro, as pontas dos dedos roam no anel e, por fim, conseguimos agarr-lo. O meu
p esquerdo conseguiu dar um passo e avancei com as canadianas. Abri os olhos. A nuvem afastara-se e a luz do Sol levantara a cortina que se havia abatido sobre
o terrao. Senti como se me tivessem tirado um grande peso de cima, libertando-me, arrancando as amarras que me prendiam os joelhos e os tornozelos. As minhas pernas
pareciam bastante mais fortes; bastante mais parecidas com o que eram.
Sorri e voltei a mexer o meu p direito, dessa vez dando um passo maior. O esquerdo acompanhou-o e eu ia avanando mais com as canadianas. Cada passo sucessivo era
mais rpido e mais comprido. As minhas costas endireitaram-se, e eu senti que estava de p, apenas com a ajuda das minhas foras.
Estava a conseguir!
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- Estou de p, Luke! Estou de p! No  s devido  ajuda das canadianas!
- Oh, Annie, eu sabia que irias conseguir!
Fiquei muito sria e libertei a mo direita da canadiana
- Espera, Annie. No exageres. No queiras fazer tudo num s dia.
- No, Luke. Eu sou capaz. Tenho de ser capaz! Ele avanou na minha direco, mas eu levantei a mo
- No me ajudes.
- Se cares, a minha me mata-me.
- No vou cair.
Utilizando, agora, apenas a mo esquerda, avancei com a canadiana, de tal maneira que j quase no precisava dela. Quando me endireitei completamente, larguei a
canadiana.
Estava de p sozinha! Completamente sozinha! As minhas pernas eram suficientemente fortes para aguentarem de novo com o meu peso.
O Luke estendeu as mos, apenas a alguns centmetros de mim.
- Annie...
Fechei os olhos e depois abri-os rapidamente. Ainda segurava a fita de cetim cor-de-rosa na mo esquerda. Sem mais hesitaes, ergui o p direito e arrastei-o uns
centmetros para a frente, e depois fiz o mesmo com o esquerdo. O rosto do Luke iluminou-se, com um sorriso aberto e maravilhoso, e o meu rosto tambm. Dei um passo
mais largo e depois outro, temendo que as minhas pernas cedessem com o esforo. Porm, antes que eu pudesse cair no cho, os braos do Luke rodearam a minha cintura
e ele abraou-me com fora, beijando-me no rosto.
- Annie, conseguiste! Conseguiste!
Eu estava to feliz que comecei a beijar-lhe o rosto tambm.
E ento, subitamente, os nossos lbios encontraram-se. O encontro foi to rpido e inesperado que nenhum de ns se afastou antes de os nossos lbios se unirem apaixonadamente.
O Luke foi o primeiro a erguer o rosto.
- Annie... eu...
Parecia ter um ar to culpado... Tnhamos rompido aquele vu que existia entre ns; ultrapassramos o limite e violramos a proibio.
- No faz mal. Estou feliz por nos termos beijado afirmei.
O Luke ainda estava a apertar-me de encontro a si.
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E, ento, ambos nos voltmos muito depressa com o som da voz do Drake.
- Annie - gritou ele.
O Drake tinha os olhos arregalados de espanto e raiva. Estiquei-me para trs para alcanar as canadianas, e libertei-me do abrao do Luke. O Drake veio a correr
at ao terrao, com os ombros levantados, condizendo com a fria do seu rosto. Voltou-se para o Luke.
- Interrompi uma importante viagem de negcios quando soube do que tinha acontecido em Farthy, e ainda bem que o fiz. Parece que cheguei mesmo a tempo.
- E isso quer dizer exactamente o qu? - perguntou o Luke.
Olharam um para o outro com os punhos cerrados.
- Tu e aquela casca grossa da tua me no tinham o direito... o direito de tirar a Annie de Farthy, onde ela estava a receber o melhor tratamento mdico, onde tinha
cuidados permanentes, noite e dia, onde tinha o melhor equipamento, onde...
- Drake, por favor - interrompi. - Tu no sabes o que aconteceu. Tentei contar-te, mas no quiseste ouvir. Deixa-me dizer-te agora.
- Dizer-me o qu?
Olhou para mim com desprezo e sorriu com desdm. Nunca o tinha visto to zangado.
- Que querias voltar para aqui para jogar... os teus jogos de fantasia com ele? Antigamente j achava isso errado, mas agora ainda acho mais. Mas tu no tens culpa,
Annie declarou, virando-me as costas. - Tm abusado de ti, devido ao teu estado de fraqueza.
- No, Drake. Isso no  verdade - gritei. Ele olhou para o Luke com dio, com os seus olhos escuros faiscando como brasas acesas.
- Devia partir-te o pescoo de uma vez por todas ameaou ele, e os seus lbios curvaram-se e o seu rosto contorceu-se num trejeito pavoroso; um trejeito de dio.
- Talvez devesses tentar isso mesmo, de uma vez por todas - respondeu o Luke.
Ao dizer isto, o rosto do Luke endureceu, os seus lbios ficaram tensos, os olhos tornaram-se mais pequenos e mais determinados e todo o seu rosto ficou vermelho.
- No, Luke! Drake, escuta! Fui eu que telefonei ao Luke e lhe pedi para que me levasse para fora de Farthy.
Avanaram um para o outro, ambos aparentemente surdos aos meus gritos.
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- Agora j no me surpreendes - continuou o Drake
- Eu sabia que te transformarias numa pessoa m. Nem podia ser de outra maneira, vivendo com uma me como a tua. O verniz estalou e ests a mostrar-te como realmente
s. Eu bem vi o modo como olhavas para a Annie ao longo de todos estes anos.
- Drake, pra com isso!
Eu estava apavorada com o que ele pudesse dizer a seguir
- Muito bem, isso vai j acabar, aqui e agora. Vai..
- Drake! Drake! - implorei.
De repente, o terrao comeou a andar  roda como um carrossel. O trilho comeou a girar sem parar. No fui capaz de segurar-me s canadianas e equilibrar-me. Senti-me
a rodopiar e deitei a cabea para trs. Antes que algum dos dois pudesse alcanar-me, ca no cho e tudo escureceu.
Acordei na minha cama, com um pano molhado e frio na testa. A tia Fanny e Mrs. Avery estavam de p ao meu lado. O Luke estava sentado num dos cantos da cama e o
Drake no outro, ambos de mau humor.
- Mandei chamar o doutor Williams - comunicou-me a tia Fanny. - Deve estar a a chegar. Esforaste-te demasiado, no foi? Eu sabia que isso ia acontecer.
Tanto o Luke como o Drake se viraram para mim, parecendo ambos arrependidos...
- Eu estou bem.
- Vamos deixar que seja o mdico a dizer isso, Annie murmurou o Luke, docemente.
Mrs. Avery substituiu o pano por outro mais frio e mais molhado. Ento, o Dr. Williams chegou e saram todos do quarto, rnenos ele e a tia Fanny.
O mdico tomou-me o pulso, mediu-me a tenso e auscultou-me. Depois, recostou-se na cadeira e abanou a cabea, olhando alternadamente para mim e para a tia Fanny:
com as suas sobrancelhas farfalhudas levantadas como dois pontos de exclamao.
- Que foi que aconteceu?
- Acho que ela exagerou, no foi, doutor? Tirmo-la da cama e deixmo-la ir comer  mesa. Depois, o Luke levou-a ao salo de beleza e ela ficou l bastante tempo
e, quando voltaram, ela e o Luke fizeram um pouco de exerccio com as canadianas, l no terrao.
- Fizeste demasiado esforo, Annie? Eu avisei-te.
O mdico abanou-me o seu curto e gordo dedo indicador, brincando comigo, como se estivesse a castigar-me.
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- Acho que no, doutor Williams.
- Ha... h. Bem, o pulso e o corao esto normais. A tenso est um pouco alta, mas no  nada alarmante. Agora tens de descansar e no exageres. Consegui finalmente
falar, pelo telefone, com o teu mdico de Boston, e ele prometeu mandar-me os teus relatrios o mais depressa possvel. Pelo que ele me disse, acho que vais recuperar
por completo.  s uma questo de tempo.
- Eu sei que vou, doutor Williams. Agora tenho a certeza disso.
- ptimo, Annie.
Levantou-se e virou-se para a tia Fanny.
- Ela vai ficar bem. No a deixem fazer esforos durante mais uns dias.
- Ests a ouvir o mdico? - admoestou a tia Fanny.
- Sim, tia Fanny. Obrigada, doutor Williams.
- Em breve volto c.
O mdico sorriu-me, tranquilizador, e deu-me uma palmadinha na mo.
A tia Fanny acompanhou-o  sada.
- Tia Fanny, por favor, pea ao Drake para entrar. Preciso de falar com ele. J posso fazer isso, no posso, senhor doutor?
- Claro que sim, desde que descanses tambm depois. O Drake voltou, carrancudo, ainda ardendo de raiva por dentro.
- Por favor, Drake, senta-te aqui para eu poder falar contigo. O doutor Williams disse-me que podia.
O Drake permaneceu  entrada da porta. Depois, deu alguns passos em frente; porm, compreendi que ele no ia sentar-se e ouvir calmamente.
- No podes dar ouvidos ao velho doutor Williams. Este homem  apenas um mdico de provncia, Annie. Deixa-me fazer as tuas malas e levar-te de volta para Farthy.
- Drake, na ltima visita que me fizeste em Farthy, prometeste que me ajudarias a sair de Farthy se eu insistisse.
- S disse isso porque estavas exausta, devido aos medicamentos e a tudo o resto.
- Drake, no foram os medicamentos. O pesadelo comeou com Mistress Broadfield. Ela era uma mulher cruel e dominadora. Achava que eu era uma rapariga rica e mimada
e ela odeia gente rica. Foi horrvel para mim.
- E depois... O Tony livrou-se dela, ou no? Ele ia contratar outra enfermeira. Isso no era um problema.
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- O Tony  o problema, Drake. O Tony era um grande problema. Ele nunca quis que eu recuperasse.
- O qu? Ora ouve...
- No, ouve tu, por favor. O Tony queria que eu l ficasse para sempre. Queria aprisionar-me nos seus sonhos nas suas fantasias distorcidas. Ele no me deixava,
deliberadamente, fazer o que eu devia para melhorar. Estava a prolongar, de propsito, o meu estado de invalidez, para poder manter-me naquela cama, dependente dele
para sempre. E quando eu lhe demonstrei que era capaz de levantar-me e sair da cama sozinha, tirou-me a cadeira de rodas e as canadianas do quarto, para que eu no
pudesse sair!
- Estou certo de que ele apenas queria que no exagerasses e arruinasses as hipteses de conseguires uma total recuperao. - O Drake recostou-se, sorrindo. - As
pessoas doentes muitas vezes ficam impacientes acerca da sua recuperao e...
- No, Drake, ele no estava a pensar no meu bem-estar. Estava a pensar apenas em si mesmo.
- Ora, Annie - protestou o Drake, inclinando-se para a frente -, eu sei que...
- Ele no est bem!
Levantei a voz e esbugalhei os olhos, e a brusquido e a violncia da minha frase fez com que o Drake ficasse petrificado por um momento.
- Drake, ele... ele veio ter comigo de noite, pensando que eu era a minha av Leigh, quando ela era nova.
- O qu?
Um sorriso incrdulo desenhou-se no rosto do Drake.
- Sim, ele quis... fazer amor comigo, pensando que eu era a av Leigh.
- Oh, Annie, de certeza que foram os medicamentos que te provocaram essas alucinaes ridculas. Ora, o Tony ...  apenas um velho solitrio.  foi por isso que
vim directamente para aqui - explicou ele, usando um tom de voz condescendente. - Deste-lhe um grande desgosto quando deixaste que a Fanny e o Luke te levassem de
Farthy. Ele praticamente chorou ao telefone quando mo disse. No compreende porque te foste embora sem te despedires dele. "Fiz tudo o que pude por ela", disse-me
ele, "e faria mais. Faria o que ela quisesse. Eu estava a reconstruir Farthy."
- Oh, Drake, porque te mantns to cego com tudo o que est a acontecer?
- Eu no estou cego. Vejo um homem idoso e gentil,
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ansioso por ajudar-nos, confiando-me um cargo importante... prometendo-me a direco da Fbrica de Brinquedos dos Willies, aqui, bem como muitos outros projectos...
Uma pessoa que fez tudo o que pde por ti, em termos de sade. Sempre disposto a gastar o que fosse preciso para ajudar-te a melhorar...  isso que eu vejo.
"Mas tambm vejo a cabra da minha meia-irm a encher-te de mentiras, s para que voltasses, para ela poder viver nesta casa e desfrutar de tudo o que o Logan e a
Heaven possuam. Vejo o meu sobrinho pervertido fingindo to bem o seu auto-sacrifcio s para poder... poder ocupar toda a tua ateno. Ele no perdeu tempo em
levar-te para o terrao. O vosso lugar mgico... - acrescentou ele com um sorriso desdenhoso.
- Ele no  pervertido, Drake. E eu queria ir at l, ao terrao. Acredito naquele lugar.
- Annie, ests to vulnervel agora... to fraca, exposta a todas as emoes... Qualquer pessoa pode aproveitar-se de ti... A Fanny enchendo-te de mentiras ridculas.
O Luke inclinando-se sobre ti, tocando-te...  por isso que eu quero que voltes para Farthy, onde ficarias em segurana e...
- Em segurana? Mas ser que no ouviste nada do que eu disse?
O Drake olhou para mim por um momento, com os seus olhos escuros a cintilar.
- O Luke voltou-te contra mim... Encheu a tua cabea com aquelas balelas de jogos de fantasia.  por isso que no me escutas e...
- Pra de culp-lo. Ests enganado acerca dele. O Luke tem sido maravilhoso, carinhoso. At desistiu do curso de Vero s para ajudar-me.
- Tinhas de defend-lo... Sempre o defendeste, alis. Nada do que te disse tem importncia, porque achas sempre maneira de defend-lo - acusou o Drake, como uma
pessoa que sempre se sentira desprezada.
- Drake...
Estendi a mo para alcan-lo.
- No! - Afastou-se da minha cama, abanando a cabea. - A Heaven estaria do meu lado. Eu sei que estaria. Ela no iria gostar de ver-te com ele durante tanto tempo.
- Isso no  verdade, Drake - protestei, embora soubesse que era.
-  verdade, sim - insistiu ele. - A Heaven estava preocupada, porque sabia... Bem, no vou ficar aqui a assistir
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a isto e a aturar mais esta situao. Quando cares em ti, telefona-me, que eu largo tudo o que estiver a fazer, por muito importante que seja, e venho buscar-te,
para te levar para o lugar onde realmente pertences. Farthy  tua!  nossa! Tudo aquilo vai ser nosso!
- Mas eu no quero nada daquilo! Quero o que tenho aqui, Drake. Farthy no  o que julgas. A minha me tinha razo. Foste tu que no deste ouvidos, no eu. Aquilo
... um cemitrio cheio de recordaes tristes. No voltes para l. Fica aqui. Trabalha aqui na fbrica e esquece tudo aquilo, Drake. Por favor - implorei.
- No. Farthy vai ser minha... Toda minha! O Tony prometeu. Ele prometeu. Lembra-te do que te disse. Quando cares em ti, telefona-me.
Virou-me as costas e saiu do quarto.
- Drake
O meu grito morreu  entrada vazia daquela porta. Enterrei a cara na almofada e solucei. O Drake parecia to odioso, to zangado. Aquele olhar generoso de um irmo
mais velho e preocupado havia desaparecido. Desaparecera tambm a doura do seu olhar. Agora, os seus olhos ardiam de inveja e de dio. Todo o dinheiro, poder e
prestgio dos Tatterton tinham-no transformado. Era como se ele tivesse vendido a alma ao diabo.
O Luke no veio ver-me depois de o Drake ter sado dali a correr, cheio de raiva. Por isso, no sabia se os dois haviam discutido mais. Mrs. Avery perguntou-me se
eu queria almoar na sala de jantar; sentia-me demasiado aborrecida para ver gente; a tia Fanny trouxe-me o almoo ao quarto. Perguntei-lhe onde estava o Luke.
- Ele disse que precisava de ir dar um passeio sozinho para pr as ideias em ordem. Nem tentei impedi-lo. Quando um Casteel fica assim, de mau humor,  melhor no
lhe ligar nenhuma. Se nos metermos, eles podem enfurecer-se e serem desagradveis.
- Nunca vi o Luke furioso, nem ser desagradvel, tia Fanny.
- Bem... Isso  porque nunca o viste irritado como eu j vi. Claro que, s vezes, eu dou-lhe motivos para ficar irritado. Quando est contigo, ele  diferente. Acho
que o sangue do teu pai limpou o sangue quente dos Casteel, mas nunca se sabe o que pode acontecer. Ele vai apanhar ar e acalmar-se primeiro.
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- Assim que o Luke voltar, por favor, diga-lhe para ele vir ver-me, tia Fanny.
Ela acenou com a cabea e saiu. Para passar o tempo, retomei o meu ltimo quadro de Farthy, fazendo as alteraes que achava que iriam retrat-la de uma maneira
mais realista. Era importante para mim fazer isso agora; pr de lado algumas fantasias de infncia. Acrescentei ao quadro um homem a sair do parque. Quando terminei
e me encostei para trs, vi que tinha captado os olhos, o nariz e a boca do Troy to bem que eu prpria fiquei impressionada com o meu trabalho. Se em algum momento
da minha vida eu estivera inspirada, esse momento era agora.
O trabalho restituiu-me as foras e acalmou-me. Decidi descer para jantar em baixo, na sala. A tia Fanny veio buscar-me juntamente com Mrs. Avery. Fiquei desiludida
ao saber que o Luke ainda no havia voltado. Apesar de o Roland ter preparado um frango assado com molho de cereja, um dos meus pratos preferidos, e feito uma suculenta
tarte de chocolate com natas, eu estava com pouco apetite. No parava de olhar para a porta,  espera de que o Luke chegasse. Mas ele no chegava.
Vi um pouco de televiso com a tia Fanny, dirigindo por vezes o meu olhar para a porta da rua e prestando muita ateno ao som de algum carro a chegar. No entanto,
passaram-se horas e o Luke no voltava. Finalmente, cansada e desapontada, fui para a cama.
Dormi mal, acordando de vez em quando, prestando ateno aos rudos familiares da casa, ansiosa por ouvir os passos do Luke. Pouco depois da meia-noite acordei,
porque senti a presena do Luke e, com a mais absoluta certeza, abri os olhos e olhei para cima. L estava ele, de p,  luz do luar, ao lado da minha cama, olhando
para mim.
- Luke, onde estiveste? Porque ficaste fora tanto tempo? - exclamei.
Ele olhou-me pensativamente.
- Fui at  cabana dos Willies, Annie. Precisava de pensar um pouco - explicou ele, docemente.
-  cabana? Tentei erguer-me.
- Costumava ir l muitas vezes quando era mais novo disse ele rapidamente.
Depois, franziu o sobrolho, incapaz de esconder a raiva que ainda estava dentro dele.
- O Drake ainda c est? - perguntou.
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- No, saiu a correr. Ficou zangado comigo, porque eu no quis voltar para Farthy e para o Tony - expliquei.
- Nunca fiquei to irritado com ele. S estava  espera de que ele me batesse, para poder bater-lhe tambm - exclamou o Luke, e os seus olhos tornaram-se frios,
mais pequenos e cheios de determinao.
Deve ter-se apercebido do seu ar duro e detestvel, pois o seu rosto suavizou-se, e descontraiu os ombros.
- Suponho que  uma coisa que est no meu sangue e no dele tambm. A minha me falou-me muitas vezes no temperamento dos Casteel.
O Luke sentou-se ao meu lado e depois sorriu-me daquela maneira familiar que eu tanto adorava: com os olhos brilhantes e os lbios doces.
- Gostava de ser mais parecido contigo, Annie. Temos a mesma herana dos Casteel e dos Stonewall e, no entanto, s to diferente de mim: s tolerante, paciente e
compreensiva.
- Oh, Luke... No temos exactamente o mesmo sangue. O Tony no estava apenas a balbuciar disparates sem nexo quando samos de Farthy. A mam, afinal, no era uma
Casteel.
O sorriso dele congelou no seu rosto por um momento e depois evaporou-se.
- Como podes ter a certeza? O Tony est to confuso... Contei-lhe tudo o que a tia Fanny me havia dito. Ouviu-me com extrema ateno, mas ia abanando a cabea lentamente,
como se j estivesse  espera de ouvir algo semelhante um dia.
- Por isso no s ao mesmo tempo meu primo e meio-irmo. s apenas meu meio-irmo - conclu.
- Annie - prosseguiu o Luke, abanando a cabea como um velho cansado e suspirando -, as nossas vidas so to conturbadas e confusas. Parece que tu e eu fomos fadados
para suportar todo este sofrimento... Um sofrimento interminvel...
- Eu vou melhorar, Luke. Eu sei que vou - prometi. Ele olhou para mim com uma expresso to derrotada e to desanimada... Aquele no era o meu velho Luke, to determinado
e destemido, pronto a enfrentar as "montanhas mais altas". Se ele perdesse a esperana e a f, que seria de mim?
- No estou a referir-me a esse tipo de sofrimento, Annie.
O Luke olhou para baixo, para as mos no seu colo e depois
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olhou para cima. Mesmo  luz plida do luar, pude ver que os seus olhos estavam cheios de lgrimas.
- Fiquei zangado com o Drake, porque ele foi muito desagradvel contigo, mas fiquei ainda mais furioso com ele, porque ele... ele disse a verdade. Annie... - O Luke
tomou a minha mo entre as suas. - No consigo evitar,  superior s minhas foras. Eu amo-te e no  da maneira como um meio-irmo deve amar a sua meia-irm. Amo-te
como um homem deve amar uma mulher.
- Oh, Luke...
As barreiras que existiam entre ns ficaram reduzidas a p. O meu corao voou e caiu. No pude evit-lo. Quando o Luke pronunciou aquelas palavras em voz alta,
desafiou o encanto que existia na minha mente. Tinha feito o que era proibido e libertara toda a paixo que esperava ansiosamente por aquele momento; esperava que
um de ns se rendesse ao que, na verdade, sentia.
O Luke assumiu de novo o seu olhar familiar e decisivo; os olhos fixos em mim e os maxilares contrados.
- Na cabana, decidi que, ao regressar aqui, te diria tudo isto. O Drake tinha razo. Efectivamente, eu sempre te olhei com desejo e com paixo ao longo destes anos.
Mais nenhuma rapariga me fazia feliz.  por essa razo que eu nunca tive nenhuma namorada. Sonho contigo a toda a hora. Eu sei que isso est errado, mas no consigo
evit-lo. Foi por isso que fugi.  duro, Annie.  realmente muito duro.
- Luke, eu compreendo.
Sentei-me na cama e, assim, os nossos rostos ficaram a escassos centmetros de distncia.
- Compreendes? - perguntou ele, com o ar de algum que sempre conhecera a resposta.
- Tambm sinto o mesmo. Sempre senti, e esses sentimentos parece que ficaram mais intensos desde que foste buscar-me a Farthy - confessei.
Durante bastante tempo, o ambiente entre ns era como uma janela, atravs da qual olhvamos um para o outro e na qual colvamos os nossos lbios.
- Tambm me pareceu - murmurou o Luke, fazendo deslizar as mos pelos meus braos at aos ombros.
- Nestes ltimos dias estive muito prximo de dizer-te estas coisas. Quase o fiz no terrao.
- Eu tambm.
A minha camisa de noite escorregou pelos ombros e mal se segurava na parte de cima dos meus braos. Os meus seios
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j estavam meio descobertos, mas no me senti envergonhada. Os dedos do Luke passeavam-se pelas minhas clavculas como se tivessem vontade prpria. Ele suspirava.
- Oh, Annie, a natureza pregou-nos uma partida to traioeira. Odeio-me por te amar assim. Mas no sei como travar esse sentimento e nem sequer quero trav-lo!
- No te odeies, Luke. Eu tambm no consigo evitar, mas no me odeio por isso.
- Annie...
No podamos evitar por mais tempo que os nossos lbios se tocassem. Ambos passmos para o outro lado da janela imaginria e, quando os lbios dele tocaram nos meus,
a minha camisa de noite escorregou definitivamente abaixo dos cotovelos e desnudou-me os seios por completo. Os dedos dele deslizaram para baixo, para tocar-me.
Gemi e procurei de novo os seus lbios; o Luke, porm, afastou-se de mim abruptamente.
- No, Annie... No, no! No podemos fazer isto. O Drake tinha razo a meu respeito. Eu no perteno aqui, no posso ficar aqui. Essa tal propenso para o mal,
que percorre os Casteel, est comigo agora. Se ficar aqui contigo, no vou ser capaz de conter-me, e tornar-nos-emos como alguns dos meus antepassados de baixa condio...
incestuosos, animalescos e medonhos.
- Luke, ns no podemos ser medonhos. Isto no pode estar errado. No sei porqu, mas sinto isso.
- s boa de mais para uma pessoa como eu, Annie. No mereces que nenhuma maldio se abata sobre a tua cabea, s pelo facto de eu no ser capaz de dominar a paixo
infame que corre livremente nas minhas veias de Casteel. Provavelmente no sou melhor do que era a minha me. O Drake estava certo nesse ponto.
"Tenho de afastar-me de ti por uns tempos, Annie, e deixar-te melhorar e fortalecer emocional e fisicamente. O Luke afastou-se da minha cama.
- No, Luke, eu preciso de ti. Por favor, no te vs embora.
Estendi a mo na sua direco, mas ele continuou a recuar.
- Tenho de ir. Deus te abenoe, Annie, e melhora depressa.
Deu meia volta e saiu apressadamente.
- Luke!
Debati-me para sair da cama. As minhas pernas tremiam.
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Mesmo assim, fiz um esforo para que elas aguentassem o meu peso at eu dar a volta  cama e agarrar nas canadianas. J na posse delas, dirigi-me  porta do quarto.
Alcancei-a mesmo a tempo de ouvir a porta da rua abrir e fechar-se.
- Luke!
- Annie! Que se passa?
A tia Fanny surgiu a correr pelo corredor.
- Oh, tia Fanny, depressa. O Luke fugiu. No deixe. Est a culpar-se por tudo. Pelo que aconteceu entre mim e o Drake e... por... por tudo.
A tia Fanny abanou a cabea; percebi, contudo, que ela sabia mais do que eu pensava.
- Tinha de acontecer, minha filha. Tal como a Heaven, apercebi-me do que estava a acontecer, mas no soube como fazer para par-lo.
Levou-me de volta para a cama.
- Apercebeu-se do que estava a acontecer?
Seria que toda a gente tinha conhecimento de tudo aquilo que eu julgava estar to bem escondido dentro dos nossos coraes?
- Via a maneira como ele sempre te olhou... Via vocs dois quando estavam juntos. Via um brilho nos vossos olhos e percebi o que estava a nascer entre vocs.
- Oh, tia Fanny, no fiz de propsito. Eu... Sentei-me na cama com as mos no colo e abanei a cabea.
- Eu sei, querida.
Ela sentou-se ao meu lado e pegou-me na mo.
- Eu sei que no deixarias nada disto acontecer, se pudesses evitar. O amor limitou-se a apanhar-vos na sua rede. Nenhum de vocs pode ser culpado. Sentiram-se os
dois atrados desde muito cedo e, tal como duas flores escondidas na floresta, longe do alcance de todos, o vosso amor cresceu selvagem e livre, at que se entrelaou.
Mas, como isso est errado, tm de desembaraar-se dele. Vai ser uma coisa dolorosa e, principalmente, para que isso possa acontecer, vai ser duplamente difcil
para ti. Mas eu vou estar aqui para te ajudar a enfrentar tudo isso, Annie.
- Mas o Luke... - gritei.
Ele no tinha ningum para ajud-lo ou apoi-lo.
- Tens de deix-lo seguir o seu caminho, Annie. J te disse. Ele no tem s o nome de Luke Casteel, tem tambm o seu sangue. Eu amava o meu pai, mas ele era um homem
com um grande fogo, que ardia intensamente debaixo daqueles lindos olhos.
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- Tia Fanny, sinto-me to doente, to vazia e to sozinha por dentro. No consigo suportar isso - lamentei-me.
A tia Fanny abraou-me por uns momentos. Depois beijou-me na testa e em seguida amparou-me com um dos braos.
- Vamos, Annie. vou ajudar-te a voltar para a cama. Agora tens de pensar na tua sade.
Deixei-a ajudar-me. Depois de me ter voltado a enfiar debaixo dos cobertores, inclinou-se, beijou-me na testa e afagou o meu cabelo, tal como a minha me costumava
fazer.
- Dorme um pouco, Annie. vou estar sempre contigo e vou ajudar-te at que fiques boa outra vez.
- Obrigada, tia Fanny.
- Ns, as mulheres, temos de manter-nos unidas - declarou ela, sorrindo e endireitando os ombros, para indicar que enfrentaramos juntas aquele problema.
Deu-me outro beijo e depois deixou-me sozinha na escurido, acompanhada apenas pelo eco da voz do Luke. Ainda conseguia ver os seus olhos perto dos meus.
- No  uma coisa horrvel. No pode ser horrvel! repeti e adormeci com a lembrana do seu beijo ainda nos meus lbios.

23 O SEGREDO DA CASA DE PEDRA

A semana e meia seguinte foi difcil para mim. Em certos aspectos, foi at mais difcil do que os dias que passara em Farthy. No que houvesse algum a ser cruel
comigo; muito longe disso. Todos os criados e a minha tia Fanny no podiam ser mais atenciosos, carinhosos e interessados. No entanto, agora, pouco tempo depois
de ter perdido os meus pais, tambm perdera o Luke, a nica pessoa no mundo que eu julgava que estaria sempre ao meu lado; a nica pessoa que fazia com que a luta
e a dor valessem a pena. Ele tinha ido embora e eu sentia-me to morta e perdida por dentro como quando ficara sem os meus pais.
Os dias eram tristes e escuros, mesmo que o sol brilhasse intensamente. Sentia-me sempre gelada e cansada, embrulhada nos cobertores e passando horas a fio a olhar
simplesmente para o tecto, sem me apetecer sequer acender as luzes quando chegava a penumbra. s vezes, sentia-me entorpecida, e outras vezes chorava sem parar,
at me doer o peito. Adormecia a chorar e acordava apenas com a conscincia de que todas as pessoas, as que me eram chegadas, haviam desaparecido. Nunca me sentira
to solitria, nem mesmo quando estava encarcerada em Farthy. Pelo menos, quando l estava, continuava a ter as minhas fantasias e os meus sonhos.
Agora, at mesmo os sonhos tinham desaparecido. J no havia fantasias para ajudar a passar os momentos tristes. E pior ainda era sentir que as minhas recordaes
e as que eu tinha do Luke pareciam agora manchadas. Vivamos um amor proibido, e tudo o que em tempos fora lindo e maravilhoso para recordar, parecia agora nocivo
e errado. Isso destroava o meu corao e enchia-me de desespero.
Como era horrvel perder, no s as pessoas que amamos, como tambm perdermos o prazer e a alegria das suas
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recordaes. O destino tinha pilhado o meu corao; tinha vindo ao meu jardim e colhido todas as flores que estavam a desabrochar, deixando apenas um canteiro de
ervas daninhas e pednculos despojados da sua beleza e da sua razo de existir.
Muitos dos velhos amigos dos meus pais tinham vindo apresentar os seus psames atrasados; atrasados, porque eu havia estado muito tempo longe deles, impedindo-os
de o fazerem mais cedo. Agradecia a sua simpatia; porm, sempre que algum vinha visitar-me, eu revivia toda a tragdia e sentia ainda muito fresca a minha perda.
Algumas das amigas da minha me desatavam a chorar na minha presena, e o seu sofrimento dilacerava-me e abria feridas onde j existiam cicatrizes. Contudo, dava
por mim a ser a mais forte de todas e a confort-las por necessidade.
-  exactamente isso que a Heaven teria feito - salientava a tia Fanny, aps cada um desses episdios. - Em caso de emergncia, no havia ningum mais forte do que
a tua me. Eu era a que andava na farra, mas era ela e o tom que nos davam de comer quando estvamos quase a morrer de fome, e foi ela quem tratou e cuidou da "Nossa"
Jane, quando ela adoeceu.
Aquelas histrias sobre a minha me davam-me uma determinao e a fora necessrias para continuar a recuperao, depois de o Luke e o Drake me terem abandonado.
A tia Fanny dizia-me que o Luke telefonava com frequncia para saber de mim, mas sempre que lhe perguntava se ele queria falar comigo, respondia-lhe que falaria
comigo em outra ocasio. Tentei, pelo menos meia dzia de vezes, escrever-lhe uma carta; contudo, sempre que olhava para o que tinha escrito, rasgava, porque nada
me parecia certo; nada exprimia o que eu realmente sentia.
O Dr. Williams vinha ver-me muitas vezes, para verificar os meus progressos. As minhas pernas fortaleciam-se cada vez mais e ele indicou-me um fisioterapeuta para
ajudar-me a exercit-las melhor. Cheguei a um ponto em que j no precisava mais das canadianas. O Dr. Williams deu-me uma bengala, s para me manter equilibrada.
Alguns dias mais tarde, j subia e descia as escadas sozinha e, por fim, sa e fui sentar-me no terrao, pensando em tudo o que me tinha acontecido e ao Luke tambm.
A tia Fanny veio atrs de mim, teimando para que eu vestisse uma camisola.
- O ar est fresco e ainda no ests completamente bem.
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O Outono havia surgido de mansinho, por detrs das sombras, cercando-nos como um gato macio e arrojado. De repente, uma manh, reparei que as folhas estavam quase
todas castanhas e douradas.
Lembrei-me de como a mam gostava do Outono. Contava-me que era uma estao particularmente bonita nos Willies.
- Naquela altura, adorava passear na floresta. Por cima de mim, as rvores eram deslumbrantes  luz do Sol. Cada uma delas tinha diferentes tonalidades de amarelo:
mbar, limo e aafro. E tambm apresentavam diferentes tonalidades de castanho: castanha, gengibre e mogno escuro. Vai  floresta no Outono, Annie - dizia-me ela
-, e arranjas todas as ideias possveis para as cores dos teus quadros.
Nisso, ela tinha razo; contudo, pensar na floresta e em passear pelos bosques s me fazia lembrar o Luke, porque havamos feito isso muitas vezes juntos. Como eu
gostaria que ele estivesse comigo agora; agora que eu j conseguia andar. Porm, ele tinha regressado  faculdade para tentar esquecer.
Comecei a pintar um retrato do Luke. Primeiro, desenhei o terrao e depois desenhei-o a ele no terrao, a contemplar os jardins, pensativamente. Enquanto estava
ocupada com aquele quadro, aliviava um pouco a dor que sentia por ele estar to longe de mim. Todavia, assim que fiquei prestes a terminar o quadro, senti uma perda
terrvel. Comecei a adiar acab-lo, completando aqui e ali; encontrando mais qualquer coisa para fazer; acrescentando um pormenor aqui e mudando algo ali. Em breve,
j no havia mais nada para fazer e no conseguia a maneira de evitar termin-lo. Quando finalmente pousei o pincel e recuei, adorei e detestei o quadro ao mesmo
tempo.
Tinha-o pintado com a alma e captara-o bem; captara a maneira como o Luke inclinava sempre a cabea um pouco para a direita, quando ficava profundamente pensativo;
captara aquelas madeixas de cabelo que lhe caam sempre para a testa; captara a expresso dos seus olhos quando olhava para mim e via o amor que eu sentia por ele.
No entanto, o quadro incomodava-me e atormentava-me. Fazia-me desejar ouvir a sua voz e sentir a sua presena. "Isto  simultaneamente a paixo e a agonia de um
artista", pensei. "Apaixonar-se pela obra que criou e, no entanto, nunca a possuir verdadeiramente."
Esses pensamentos fizeram-me sentir melanclica. Antigamente, 365
sempre que tinha aqueles momentos de depresso ou se ficava to profundamente envolvida em algum assunto filosfico que confrangia o meu corao, ou se me tornava
menos alegre, podia ir ter com a mam e aliviar o fardo que os meus pensamentos tristes haviam depositado em mim. A mam acolher-me-ia com o sorriso mais caloroso
e, quase de imediato, o meu corao ficava mais leve e mais feliz outra vez. Ento, folhevamos as pginas de uma revista de moda e discutamos as tendncias da
moda, como duas adolescentes, dando gargalhadas tolas sobre algo que achvamos disparatado, ou suspirando por alguma coisa que achvamos bonita.
Ainda no tinha entrado no quarto dos meus pais desde que viera para casa. No tivera coragem de ir at ao quarto onde eles dormiam; onde eu tantas vezes havia ido
quando tinha pesadelos ou pensamentos desagradveis e onde eles me tinham consolado e amado. Tinha medo de olhar para aquela cama vazia; de ver os armrios e a roupa
deles, os sapatos do meu pai, as jias da minha me, as fotografias, tudo o que lhes havia pertencido.
No entanto, eu sabia que se queria continuar com a minha vida e encarar verdadeiramente a tragdia que a tinha modificado tanto, havia que enfrentar e admitir que
as coisas que eu amara haviam desaparecido; tinha de ultrapassar o tormento e a tristeza. S assim ficaria suficientemente forte para ser a mulher que o pap e a
mam queriam que eu fosse; a mulher que eu tinha de ser, por eles e por mim tambm.
Sa lentamente do meu quarto, amparada  bengala. Parei no corredor, hesitando mais uma vez se haveria de virar  direita e ir at  porta do quarto deles; desta
vez, a minha desculpa no tinha grande razo de ser. Estava decidida.
Abri a porta. Os cortinados estavam abertos e as janelas levantadas, para deixar entrar o ar no quarto. Tudo estava to arrumado e no seu lugar como aquando da noite
do acidente.
Fiquei  entrada da porta por um momento a olhar para tudo, digerindo visualmente cada pedao de recordao. Ali, na mesinha de toilette, estavam os cosmticos e
os perfumes da mam, um par de brincos azuis em forma de concha que ela tinha deixado ali em cima no dia da festa fatdica da tia Fanny, e o estojo de jias em mogno
escuro, que o pap lhe havia dado num Natal. Alinhados e arrumados, mesmo ao lado, estavam os seus pentes engastados de prolas.
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O meu olhar desolado percorria lentamente o quarto e pousou na cama. Os delicados chinelos de cetim vermelho da mam espreitavam debaixo da cama, do seu lado. Estava
certa de que se mostravam desejosos de voltar a sentir os seus ps pequenos e delicados deslizarem para dentro deles. O livro, que ela estava a ler, ainda se encontrava
em cima da mesa-de-cabeceira. J lera mais de metade e havia uma marca entre as pginas.
Claro que o quadro da cabana dos Willies ainda estava pendurado por cima da sua cama. Ao olhar para ele agora, fez-me pensar no Luke, quando fora para l pensar
na sua vida e conclura que seria melhor voltar para a faculdade e ficar longe de mim por uns tempos. Talvez os espritos do seu av Toby e da sua av Annie o tivessem
avisado. Talvez esse fosse, afinal, o conselho certo.
Em cima da cmoda do pap havia uma grande fotografia deles os dois, tirada na cerimnia do seu casamento em Farthy. Agora, eu reconhecia o ambiente. Ambos pareciam
to novos e cheios de vida. No entanto, agora, ao examinar aquela fotografia mais de perto, pareceu-me haver no olhar da mam um pouco de saudade. No lugar onde
eles se encontravam, eu sabia que estavam de frente para o labirinto.
Ao pensar no labirinto, pensei tambm no Troy e na sua pequena casa de pedra. E, de repente, uma onda de discernimento me percorreu. Voltei ao meu quarto e olhei
para a casa em miniatura que a mam me oferecera no dia em que eu fizera dezoito anos. Aquele presente significara tanto para mim, porque sabia o quanto significava
para ela; porm, ao olhar para ele agora, vi que se misturava com imagens da verdadeira casa do outro lado do labirinto, em Farthy. Percebi tambm que devia ter
sido o Troy Tatterton que fizera e mandara aquele presente  minha me, pouco depois do meu nascimento. Ela nunca mencionara quem o enviara. O que ela e o pap sempre
haviam dito, era que achavam que devia ter sido um dos artesos da Fbrica Tatterton a faz-lo.
No saberia a mam que o Troy ainda estava vivo e, por isso, no pudera imaginar que tinha sido ele a faz-la e a envi-la? E ele no teria tido medo de que ela
desconfiasse?
Ao pensar nele, ocorreu-me outra coisa: a maneira como ele se sentara na cadeira a conversar comigo... A maneira como pusera as mos atrs da cabea. Era essa a
pose que o pequeno homem da casa em miniatura tambm exibia. Seria apenas uma coincidncia? E aquela pequena mulher parecia
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a mam; tinha a sua cor de cabelo e vestia o seu estilo de roupa. Ela devia ter sabido quem enviara aquilo. Quem mais, para alm do Troy, poderia ter captado essa
cena? Se ela sabia que o Troy ainda estava vivo e tinha enviado a rplica da casa de pedra, porque teria guardado segredo?
Dirigi-me  pequena cadeira de forro de chita em frente  minha mesinha de toilette e pousei a bengala. Depois, devagar e com cuidado, levantei o telhado da casa
e, instantaneamente, comeou a tocar o nocturno de Chopin. Parecia ter estado todo aquele tempo  espera de que algum voltasse a abri-la. Examinei as pequenas figuras
l dentro e confirmei o que suspeitava: o homem era realmente parecido com o Troy e a jovem era uma rplica em miniatura da mam.
Agora que eu estivera na casa verdadeira, via coisas em que antes no havia reparado: os brinquedos minsculos que aquele homem pequenino tinha estado a fazer; as
chvenas de ch em cima da mesa da cozinha e a porta das traseiras parcialmente aberta. Seria que a porta realmente abria e fechava?
Os meus dedos tremiam quando os estendi e toquei na porta minscula, que tinha apenas cerca de sete centmetros de altura. Abriu-se nos seus pequenos gonzos e, quando
baixei a cabea para espreitar l para dentro, vi que havia um lano de escadas que desciam. A, algo chamou a minha ateno. Um pouco abaixo desses degraus misteriosos,
estava um pedao de papel branco. Os meus dedos eram muito grandes para caberem na porta e retirarem esse papel, fosse aquilo o que fosse. Achei que s havia uma
maneira de faz-lo, a mesma maneira como, de algum modo, deviam ter posto l o papel: com uma pina.
E achei uma na gaveta da mesa de toilette da mam. Depois, com a preciso de um cirurgio, inseri a pina atravs da porta minscula e retirei o papel misterioso,
afastando-o cuidadosamente, at que vi que tinha sido muito bem dobrado at se tornar suficientemente pequeno para se esconder.
Retirei-o da pequena casa e pousei-o no tampo da mesa. Em seguida, voltei a colocar o telhado, a msica cessou, e comecei a desdobrar o papel. Era frgil e estava
amarelecido pelo tempo, como as cpias de documentos antigos para que paream autnticos. Os cantos rasgaram-se e ameaavam desfazer-se nos meus dedos.
Por fim, consegui desdobr-lo por completo e coloquei-o,  minha frente, em cima da mesa. Era uma carta. Os vincos eram to profundos que tornavam difcil ler algumas
das palavras, mas consegui faz-lo com algum custo.
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"Meu querido, querido e proibido amor,
Agora, mais do que nunca, a noite passada ainda parece um sonho. Durante o decorrer deste ano sonhei tanto com isso que, agora que realmente aconteceu, acho muito
difcil acreditar.
Fiquei aqui sentado a pensar em ti, recordando os nossos momentos preciosos, a doura dos teus olhos e das tuas carcias. Tive de levantar-me e ir at  minha cama
procurar fios do teu cabelo, os quais, graas a Deus, encontrei. vou mandar fazer um medalho para p-los l dentro e us-los bem junto do meu corao.  reconfortante
para mim saber que terei sempre comigo um pouco de ti.
Esperava ficar aqui mais um tempo, embora reconhea que seja uma tortura ir espiar-te de vez em quando em Farthy. Dar-me-ia prazer e tambm algum sofrimento ver-te
a passear nos jardins, ou ver-te sentada a ler. Eu sei que agiria como um colegial.
Esta manh, pouco tempo depois de partires, o Tony veio at minha casa contar-me as novidades; novidades essas que eu esperava que tambm me trouxesses. S que,
quando aqui chegasses, eu j teria partido. Sei que parece cruel da minha parte abandonar o Tony numa altura como esta, mas dei-lhe todo o apoio que pude enquanto
ele c esteve e em que tivemos ocasio de conversar.
No lhe contei nada sobre ns; sobre a tua visita de ontem  noite. Ele no sabe que tu sabes da minha existncia. No podia fazer isso e aumentar ainda mais as
suas preocupaes e os seus problemas nesta altura. Talvez, um dia mais tarde, aches que ele deva saber. Deixo isso ao teu critrio.
Provavelmente, deves achar estranho por que razo eu acho necessrio partir to rapidamente logo aps a morte da Jillian.
Minha querida Heaven, por muito difcil que possa ser para tu compreenderes, sinto-me, de certo modo, responsvel. A verdade  que eu gostava de atorment-la com
a minha presena. Como te disse, ela viu-me algumas vezes, e eu sei que ela ficava chocada cada vez que me via. Podia ter-lhe contado a verdade: dizer-lhe que no
morri, que no era um fantasma, mas preferi deix-la acreditar que eu era um esprito que ela via. Queria que ela sofresse e se sentisse um
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pouco culpada, porque, embora ela no tivesse culpa de seres filha do Tony, sempre lhe guardei algum rancor pelo facto de a Jillian me ter contado a verdade; por
ter desmascarado essa terrvel verdade entre ns! Ela sempre foi uma pessoa muito invejosa e odiava o afecto que o Tony sentia por mim, mesmo quando eu era apenas
um rapazinho.
Agora, sinto-me terrivelmente culpado por tudo. No tinha o direito de castig-la. Devia ter percebido que isso s traria sofrimento ao Tony e at a ti. Parece que
s transporto tristeza e tragdia para todas as pessoas que me rodeiam. Claro que o Tony no pensa assim. Ele no queria que eu me fosse embora, mas, por fim, convenci-o
de que isso era a melhor coisa a fazer.
Por favor, apoia-o nesta altura de grande necessidade e conforta-o o melhor que puderes. Vais estar a fazer isso por ns dois.
Espero que no nos voltemos a ver, ou a tocar da maneira como o fizemos ontem  noite. Mas a tua lembrana est de tal maneira gravada no meu corao que levo-te
comigo para onde quer que v.
Para todo o sempre, Troy"
Recostei-me, estupefacta.
- Mam, sabes o que estavas a legar-me quando me deste esta pequena casa, o smbolo do teu amor? - murmurei.
A injustia, a tristeza e a tragdia de tudo aquilo atingiu-me como uma rajada de vento frio. Como a histria se repetia to terrivelmente! Algo que eu tinha pressentido
no meu corao, mas que no me atrevera a exprimir por palavras, havia acontecido: a mam e o Troy Tatterton tinham sido amantes, mas o seu amor era como o Troy
escrevera no topo da carta: proibido. Era um amor to proibido como o amor entre mim e o Luke, j que o Troy era irmo do Tony e, portanto, tio da minha me. O parentesco
entre eles tinha tornado o seu amor abjecto, tal como tambm era abjecto o amor entre mim e o Luke.
Afinal, a minha me sempre soubera que o Troy estava vivo, mas nunca pudera voltar a falar com ele, a escrever-lhe ou a procur-lo. Agora compreendia por que razo
o Troy Tatterton me tinha olhado daquela maneira quando me vira pela primeira vez. Certamente tinha-lhe despertado recordaes,
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principalmente com o cabelo pintado da mesma cor que a mam tinha nessa altura.
Muito do que estava escrito naquela carta comeava agora a fazer sentido, uma vez que tinha estado em Farthy. Compreendia as aluses  loucura da Jillian; a referncia
aos espritos que vagueavam pelo casaro; o tormento do Tony e a razo que obrigava o Troy a manter-se invisvel para o mundo que o rodeava. Mas, evidentemente,
no entendia ou no sabia, at agora, a razo do sofrimento da mam, porque parecia, pelo que o Troy escrevera, que ela o amara tanto como ele a ela.
"Como a mam deve ter entendido bem o que se passa agora entre o Luke e eu", pensei; e agora compreendo por que razo ela ficava to preocupada com o tempo que passvamos
juntos. Ela previra tudo isso, devido ao que se tinha passado consigo prpria.
- Oh, mam - murmurei -, como eu desejava que ns pudssemos ter conversado mais uma vez. Como eu precisava dos teus conselhos e da tua experincia. Poderia facilmente
ter visto que j tinhas vivido uma dor semelhante e poderia ser orientada pelas tuas palavras.
S quando a primeira lgrima salpicou a carta, me apercebi de que estava a chorar. Muito do que o Troy havia escrito  mam podia ser semelhante ao que o Luke poderia
escrever-me. Na verdade, enquanto lia aquelas palavras, ouvia a voz do Luke.
Voltei a dobrar a carta e levantei o telhado da casa em miniatura para rep-la no seu esconderijo especial, onde se havia mantido escondida durante todos aqueles
anos. Essa carta pertencia  pequena casa; fazia parte dela. A msica entristecia-me, como devia ter entristecido a mam, de cada vez que se sentava sozinha e escutava,
porque, enquanto a msica tocava, de certeza que ela via o rosto do Troy e escutava as suas palavras de despedida, vezes sem conta.
Talvez essa tambm fosse uma das razes por que ela nunca mais quisera voltar a Farthy. No era s por causa da raiva que sentia pelo Tony. As recordaes de um
amor perdido eram demasiado dolorosas. E todas aquelas vezes que eu e o Luke falramos do labirinto e fizramos fantasias sobre Farthy... Como a devamos ter feito
sofrer, sem sabermos. "Oh, me", pensei, "perdoa-nos. As nossas pequenas histrias devem ter-te levado at junto da pequena casa para chorar o amor que tinhas enterrado
para sempre."
Mesmo nessa altura, Mrs. Avery bateu na minha porta.
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Mandei-a entrar. Parecia invulgarmente perturbada e agitada.
- Est um senhor ao telefone que diz estar a falar da Manso Farthinggale. Diz que  muito importante.
Mas... nunca mais me libertaria do Tony Tatterton e das suas alucinaes e confuses loucas? Comecei a ferver de raiva.
- Bem, diga a Mister Tony Tatterton...
- No, Annie, no  Mister Tony Tatterton. Ele diz que acha que deves saber.
- Saber? Saber o qu?
O meu corao parou e depois comeou a palpitar.
- Ele no disse, Annie. Pediu para falar directamente contigo e eu vim chamar-te.
- Oh! Diga-lhe que vou j.
Respirei fundo e sacudi o arrepio de frio que comeava a percorrer-me a espinha.
Segui Mrs. Avery o mais depressa que pude. Agora que j conseguia andar, estava frustrada pelo meu passo lento e desajeitado.
Mrs. Avery estendeu-me o telefone e eu sentei-me para atender.
- Est l - disse com uma voz assustada.
Pensei que o bater do meu corao se podia ouvir do outro lado da linha, atravs do telefone, to alto me parecia.
- Annie - disse a voz.
No tive dificuldade em reconhec-lo, tal como imaginei que a mam tambm no teria, mesmo no o ouvindo h anos.
- Achei que quererias saber e talvez quisesses vir ao funeral.
- Funeral?
O meu corao parou de bater e sustive a respirao.
- O Tony faleceu h algumas horas. Estive  sua cabeceira.
- Faleceu?
Subitamente, senti pena dele, definhando em Farthy, achando que a mulher que amava o havia abandonado outra vez. Ele havia libertado a sua prpria tragdia atravs
de mim. Involuntariamente, tinha sido uma actriz numa pea esboada h muitos anos. Tal como uma actriz substituta, eu tinha assumido o papel que a mam tambm tinha
sido forada a desempenhar. Agora, finalmente e talvez tambm piedosamente, o pano tinha cado, as luzes haviam sido apagadas
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e todos os actores saam de cena. Para o Tony Tatterton havia terminado o sofrimento.
Contudo, a voz do Troy exprimia um desgosto sincero e no alvio. Tinha perdido o irmo mais velho, que um dia fora mais como um pai para ele.
- Oh, Troy. Sinto muito. No me parecia que ele estivesse fisicamente doente. Esteve ao p dele?
- Tinha acabado de tomar a deciso de aparecer mais e confort-lo, numa altura da sua vida em que ele precisava desesperadamente de algum que gostasse dele, porque
o que eu te disse, era verdade: ele sempre se preocupou comigo quando eu estava doente. E - acrescentou o Troy, com a voz a falhar - ele amava-me muito. Afinal de
contas, s nos tnhamos um ao outro.
Senti um n na garganta e no consegui engolir, por um momento. Os meus olhos encheram-se de lgrimas. No era difcil para mim imaginar o Troy  cabeceira do Tony,
tomando a mo dele entre as suas; a cabea do Troy inclinada e os seus ombros a sacudirem com os soluos, quando o seu irmo mais velho falecera.
- Como morreu ele? - perguntei por fim, com a voz to sumida que mais parecia um sussurro.
- Foi um ataque de corao. Ao que parece, j tinha tido um mais ligeiro h algum tempo, mas eu nunca soube de nada.
- O Drake telefonou-me recentemente e disse-me que tinha falado com o Tony, mas no mencionou que ele estivesse gravemente doente - disse eu.
- Ele trancou-se no seu quarto, de modo que nem o Rye sabia o que estava a acontecer. Quando se apercebeu, j era demasiado tarde. Pelo menos, fiquei junto dele
no final. Balbuciou uma srie de coisas, confundindo as pessoas. A dada altura, no tive a certeza se ele sabia quem eu era, mas referiu-se a ti e fez-me prometer
que cuidaria de ti e certificar-me-ia de que ests bem.
"Eu... eu sei que ele estava a atravessar perturbaes mentais estranhas e suponho que tenhas assistido a algumas, mas era inofensivo. Era apenas uma pessoa  procura
de amor e de uma maneira de compensar os seus pecados... Algo que, de certo modo, todos acabamos por fazer, mais cedo ou mais tarde.
- Eu sei.
Perguntei a mim prpria se ele teria dito aquilo por j saber que eu sabia de tudo.
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- Eu sei quem era o Tony realmente e o que ele era em relao a mim, Troy. Revelou-o, aos gritos, quando eu estava de partida, e a minha tia Fanny confirmou-o.
- Oh! Entendo. - A sua voz enfraqueceu. - No estou a querer desculp-lo, mas ele, de facto, teve um casamento complicado e difcil.
- Sim.
No me apetecia falar sobre aquele assunto.
- Mas, Troy, eu quero ir ao funeral. Quando ?
- Depois de amanh, s duas horas. Vai ter lugar no cemitrio da famlia. Pelo que a tua criada acabou de me contar, estou a ver que melhoraste consideravelmente.
Fico feliz por ti, Annie, e no quero fazer nada para atrapalhar a tua recuperao. Por isso, se uma viagem to longa  um esforo demasiado grande...
- No vai ser e no vou ter nenhuma recada. Estou... estou ansiosa por voltar a v-lo. Ainda no tive ocasio de agradecer-lhe por ter telefonado  minha tia Fanny,
para que ela e o Luke viessem buscar-me. Foi o Troy que fez isso, no foi?
- No queria que partisses. Esperava que tivssemos mais oportunidades para estarmos juntos, mas via o que estava a acontecer contigo aqui, e percebi que, realmente,
o teu lugar era entre as pessoas que amavas, muito embora possa imaginar que deve ter sido muito doloroso para ti voltar para casa. Lembrei-me do que o Tony me contara
quando viera  minha casa, ao julgar que eu tinha morrido.
- Foi muito doloroso. Quem me dera ter uma pequena casa para me esconder da tristeza e do sofrimento, como tem a, do outro lado do labirinto, para manter afastadas
as pessoas indesejadas.
- A tragdia  uma maneira de encontrar o caminho certo na nossa vida, se for caso disso, Annie. Aprendi isso bem de mais - disse ele, tristemente.
- Eu sei.
A minha voz mal se ouvia; era pouco mais do que um murmrio. Estava prestes a dizer mais qualquer coisa, talvez at a referir-me  carta secreta, escondida na casa
de brincar. Ele deve ter pressentido algo, porque falou rapidamente para pr termo  conversa.
- Bem, vejo-te depois de amanh. Fico feliz por estares ao p de mim. Ento, adeus e at l.
- Adeus, Troy.
Pousei o auscultador do telefone devagar, pensando no
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Tony. Apesar da loucura e das mentiras, no podia deixar de chorar por ele. O Troy tinha razo: embora o Tony tivesse uma imaginao muito frtil, era uma pessoa
solitria e perdida e, tal como qualquer outra pessoa, procurava algum a quem amar e que o amasse tambm.
Talvez o Rye Whiskey tivesse razo sobre os espritos em Farthy. Talvez eles tivessem, finalmente, acabado com o sofrimento do Tony ao transform-lo num deles.
A tia Fanny ficou aborrecida quando lhe disse que tencionava ir ao funeral do Tony.
- Ningum sabe que ele era teu av, Annie. Ningum est  espera de que faas uma viagem to grande s para veres o enterro do homem.
- Eu sei quem ele era, tia Fanny. No posso esquec-lo e odi-lo.  sua maneira, ele tentou ajudar-me.
- Esse lugar  um veneno. Todas as pessoas ricas acabarn por destruir-se, de uma maneira ou de outra. No  que eu no queira ser rica.  a maneira como aqueles
janotas impostores vivem, sempre a pensar que so melhores do que os outros. So piores do que os vigaristas. Gostava de poder tirar essa ideia fixa da tua cabea.
Queixou-se o dia todo, mas percebeu que eu estava inflexvel. Pouco depois de ter falado com o Troy e de ter sabido da morte do Tony, telefonei ao Luke. Quase no
consegui falar quando ele atendeu o telefone. Parecia to triste e solitrio. A minha mo tremeu ao ouvir o som da sua voz, mas fechei os olhos e comecei a falar.
Assim que ouviu a minha voz, a dele readquiriu a fora e o brilho.
- H dias que ando a tentar escrever-te uma carta, Luke, mas nada me parece certo.
- Eu sei. Foi por isso que ainda no consegui escrever-te ou falar contigo. Mas ainda bem que telefonaste. Estou a tentar manter-me ocupado e afastar-te dos meus
pensamentos, mas no  fcil. Estou to feliz por ouvir a tua voz, Annie.
- Eu tambm, mas no estou a telefonar para te dar uma notcia agradvel - disse eu e contei-lhe sobre a morte do Tony e o telefonema do Troy. - A tua me est zangada
por eu ir e diz que no volta l. Est  espera de que eu desista, mas eu vou. J posso andar com a ajuda da bengala. Por isso, viajar  mais fcil agora.
- Eu vou estar a nesse dia para levar-te a Farthy - respondeu o Luke rapidamente.
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- Oh, Luke, eu sabia que irias.
- Amo-te, Annie. No consigo evit-lo. vou viver e sofrer com isso at ao dia em que morrer.
- Eu tambm, Luke.
Ficmos calados por um momento. De qualquer maneira, senti um n na garganta e achei que no conseguia dizer nada. Finalmente, aps um profundo suspiro, olhei para
o quadro que fizera dele e recuperei as foras.
- Oh, Luke, pintei um quadro teu, em que ests no terrao.
- A srio? Ds-mo para eu pendurar no meu quarto? Eu queria ficar com ele; porm, achei que era um acto demasiado egosta da minha parte.
- Claro.
- Posso v-lo quando for a buscar-te. No te preocupes com nada. vou tratar dos preparativos para a viagem.
- Obrigada, Luke.
- Annie,  to difcil negar o que sinto por ti.
- Eu sei. Passa-se o mesmo comigo.
- At breve.
Tivemos ambos de terminar a conversa pela mesma razo. Cada palavra era como uma espada pesada e afiada que nos trespassava, ao atingir-nos, mesmo no corao.
O Drake telefonou ao fim da tarde. Ficou surpreendido por eu j saber da morte do Tony e ainda mais surpreso quando lhe disse que iria ao funeral. Nem me perguntou
como eu tinha sabido da notcia; por isso, no toquei no nome do Troy. O Drake desencorajou-me com o seu tom frio de homem de negcios.
- Bem, se estavas a pensar em vir, devias ter-me telefonado. Mas ainda no  demasiado tarde. vou tratar-te das coisas.
- J est tudo a ser tratado. O Luke tambm vai comigo.
- J devia calcular.
- Por favor, Drake. Pelo Tony e pela sua memria, vamos fazer as pazes - implorei.
- Tens razo. Claro, vou agir com dignidade. Toda a gente que  algum no mundo dos negcios vai estar l, garanto-te.
- No quis dizer...
- Seja como for, no podes imaginar o que  preciso fazer agora. No tenho tempo para desperdiar com o Luke.  uma sorte eu estar aqui antes que tudo isto tivesse
acontecido. Da maneira como as pessoas recorrem a mim, parece
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at que sou filho do Tony. Ia fazer-te uma surpresa ao dar-te esta notcia, mas acho melhor contar-te desde j. Antes de morrer, o Tony deu-me uma grande percentagem
das aces das suas empresas.
O Drake fez uma pausa e depois acrescentou secamente, quando eu no o felicitei de imediato.
- Achei que irias ficar feliz ao saber disto.
- Sei que era isso que querias, Drake. Sei que ests feliz. Ficou desiludido com a minha reaco reflectida e controlada.
- Sim. Bem, vemo-nos no funeral.
- Claro, Drake.
Cada vez mais ele me parecia um estranho.
O Luke veio ter a casa muito cedo, na manh do funeral do Tony, para levar-me ao aeroporto. Eu j estava vestida e pronta quando ele foi ao meu quarto. Estava de
p, sem a ajuda da bengala. Ficmos a olhar um para o outro durante um longo momento. Finalmente, o Luke olhou na direco do quadro que pintara dele. - Ena, est
muito bom!
- Estava desejosa de que gostasses.
- Gostasse? Adorei. s uma artista maravilhosa, Annie. Estou certo de que as pessoas vo pagar fortunas pelos teus quadros. Tenho a certeza disso.
Voltmos a olhar um para o outro. Parecia que sempre que um de ns terminava uma frase, havia obrigatoriamente uma pausa, durante a qual eram os nossos olhos que
falavam. Nesse preciso momento, os meus olhos estavam a dizer-lhe o quanto o amava e precisava dele e o quanto me sentia enganada pelo destino. Os dele diziam o
mesmo.
Pensei que a tia Fanny se arrependesse e viesse connosco; porm, ela herdara a teimosia dos Casteel, a mesma que, segundo ela, tambm o Drake e o Luke possuam.
Acabou com os nossos silncios comprometedores ao surgir  entrada da porta do meu quarto, com as mos na cintura e a cabea atirada para trs, naquele seu modo
caracterstico.
- No acredito que tenhas vindo at aqui para lev-la quele lugar, Luke. No devias ter alimentado essa ideia.
- Eu teria ido, com ou sem ele, tia Fanny.
- A tua me fugiu daquela casa e daquele homem, Annie.
- Eu sei.
Olhei para uma das fotografias da mam, que estava em cima da minha mesinha de toilette. Era uma das minhas preferidas,
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porque ela estava a olhar na direco dos Willies, uma das suas poucas recordaes boas daquela vida que brilhava nos seus olhos azuis.
- Mas ela conseguia sempre ver o arco-ris depois da chuva. Acho que ela tambm teria ido ao funeral do Tony, tia Fanny.
Voltei-me para ela, com o olhar to penetrante e determinado como a mam tambm teria exibido. A tia Fanny notou isso.
- Tenho de ir, por ns duas.

24 FINALMENTE, O MEU PRNCIPE

 medida que nos encaminhvamos para o aeroporto, no pude deixar de imaginar como seria se estivssemos a ir apanhar um avio que nos levasse na nossa lua-de-mel.
E se ns desafissemos o destino e toda a gente e fugssemos para casar? Essa seria a nossa viagem mais romntica e adorvel. O pessoal de bordo e os outros passageiros
olhariam para ns, enroscados um no outro, e sorririam, pensando como o amor entre os jovens podia ser uma coisa maravilhosa; como poderia abrir horizontes e tornar
a vida deslumbrante, excitante, esperanosa e doce.
Quando olhei, nesse momento, para o Luke, enquanto ele me ajudava a entrar no carro que nos levaria ao aeroporto, no pude deixar de pensar que pertencamos um ao
outro. "Como a vida pode ser trgica e efmera", pensei. Bastava lembrar-me do que tinha acontecido aos meus pais e da agonia em que o Tony sempre havia vivido.
Porque no escolher simplesmente a felicidade?
Durante a viagem at ao aeroporto de Virgnia e durante o prprio voo, hesitei se devia ou no falar ao Luke sobre a carta que tinha achado na casa em miniatura.
At ento, o Luke tinha sido muito educado e quase formal durante a viagem. Eu sabia que ele agia assim para erguer um muro entre mim e os seus sentimentos, mas
isso era um tormento para ns dois. Depressa comemos a falar de banalidades e, sempre que os nossos olhos se cruzavam, os nossos coraes batiam com tanta fora
que ficvamos com a cara vermelha. No era possvel negar a paixo que existia entre ns. Seria mais fcil travar as mars ou suavizar as tempestades que ribombavam
no cu de Vero.
Uma vez que o que acontecera entre o Troy e a mam me parecia to semelhante ao que estava a acontecer entre mim e o Luke, achei que ele tinha o direito de saber
e de compreender
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o que eles haviam sofrido. Certamente isso iria ajud-lo a entender a razo do receio da mam acerca da nossa relao.
Comecei por lembrar-lhe a pequena casa e depois revelei-lhe a minha descoberta. Quando citei certas palavras do Troy, apareceram algumas lgrimas ao canto dos seus
olhos azuis de safira escura.
- Agora compreendo a solido dele e a razo por que quis afastar-se do mundo e viver sozinho do outro lado do labirinto - murmurou o Luke. - Eu sinto a mesma coisa.
- No, Luke. No podes rejeitar a tua vida como ele rejeitou a dele. Deves continuar a estudar para ser mdico, como sempre sonhaste, e encontrar algum a quem possas
amar livre e completamente, sem qualquer espcie de culpa. Tu mereces.
- E tu?
- Eu farei o mesmo...
- No s uma boa mentirosa, Annie. Os teus olhos azuis traram-te.
- Bem, pelo menos, vou tentar - teimei.
O Luke sorriu daquela maneira arrogante tpica dos Casteel; a mesma maneira como o Drake sorria.
- Luke Toby Casteel, tu no sabes de tudo.
Depois da minha repreenso, o seu rosto suavizou-se e ficou triste, como o rosto de um rapazinho.
- Eu sei o que sinto no meu corao e o que tu sentes no teu e sei o que isso significa.
- De qualquer maneira, vou tentar e devias fazer o mesmo - repeti com uma voz mais sumida.
Virei o rosto para que ele no pudesse ver as minhas lgrimas. O Luke dormitou durante o resto da viagem e eu olhei pela janela, para as minsculas casas e estradas
l em baixo, desejando mais uma vez que vivssemos no mundo dos Brinquedos Tatterton, onde as fantasias podiam tornar-se realidade.
No aeroporto, em Boston, alugmos um carro e inicimos a viagem para Farthy. S conseguia lembrar-me da excitao do Tony durante a minha primeira viagem para Farthy,
depois de eu ter tido alta do hospital. Estava to feliz e ansioso por ajudar-me. Como poderia eu prever o que se passaria em breve? Talvez se a mam tivesse tido
uma oportunidade de contar-me mais qualquer coisa sobre o seu passado, eu tivesse evitado todo aquele sofrimento e os tumultos.
Quando chegmos a Farthy, a multido de acompanhantes
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do funeral estava reunida em frente da casa. Para alm do Miles, do Curtis e do Rye Whiskey, estavam presentes vrios scios do Tony, bem como muitas pessoas que
trabalhavam nos Brinquedos Tatterton. A maior parte das pessoas estava formalmente vestida de preto e encontrava-se reunida em pequenos grupos, cumprimentando-se
uns aos outros, apertando as mos, beijando-se no rosto e falando baixinho.
Estava um dia quente, mas nublado; um dia de Outono: "Um dia perfeito para um funeral", pensei. Tudo parecia mais cinzento do que nunca e a desolao realava a
degradao da Manso Farthinggale. No pude deixar de recordar a maneira entusistica com que o Tony se havia referido quela casa, na primeira vez que viera para
aqui... a sua casa ancestral, melhorada e ampliada por cada herdeiro sucessivo dos Tatterton. Como era irnico que ele tivesse um herdeiro que iria seguir fielmente
as suas pisadas, mas que no tinha qualquer grau de parentesco consigo, uma vez que o Drake era filho do Luke Casteel, o homem a quem o Tony comprara a prpria filha.
E agora, em toda a acepo da palavra, tinha comprado o Drake: tinha comprado um herdeiro.
E o Drake dava realmente conta do recado. Estava de p  entrada da porta, junto ao carro funerrio, vestido com um smoking preto. O seu rosto estava to sombrio
e carregado como o do cangalheiro. As pessoas que ele contratara para tratar do funeral estavam, calmamente, junto dele a receber instrues. Havia pessoas a conduzir
carros e a distribuir pequenas oraes e cartes com salmos impressos.
O Luke encostou o carro na fila e eu voltei a erguer os olhos para aquela casa. O mistrio e o entusiasmo por aquele enorme edifcio de pedra cinzenta desaparecera,
ficando, em seu lugar, recordaes desagradveis. A janela daquele que havia sido o meu quarto estava s escuras. Todas as cortinas tinham sido corridas e os vidros
das janelas haviam-se tornado espelhos, que reflectiam o cu escuro e nublado.
Os criados aproximaram-se para me cumprimentar. O Curtis parecia destroado, com os seus lbios roxos a tremer; o Miles parecia aturdido, com o rosto frio e o olhar
distante. At mesmo o Rye me pareceu muito velho. O desgosto tinha-o envelhecido rapidamente; ele e o Tony tinham ficado juntos durante muitos anos.
O Drake aproximou-se de ns pouco depois. Ignorou o Luke e dirigiu-se directamente ao meu lado do carro.
- Como ests, Annie?
- Estou ptima, Drake.
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Estava decidida a ser a filha da minha me e a manter a minha dignidade e a minha fora.
- A cerimnia vai comear em breve. - Inclinou-se mais para mim. - Sabes quem est aqui? Quem est vivo, afinal de contas?
- Sei.
Ele recuou de espanto.
- Sabes?
- Se me tivesses deixado falar calmamente contigo, em vez de me acusares de ser uma ingrata e de acusares o Luke de coisas terrveis, poderia ter-te contado que
o tinha encontrado e que foi ele quem chamou a tia Fanny e lhe disse para vir buscar-me.
- Mas... porqu?
- Porque ele viu o que estava a acontecer, Drake. Ele sabia de algumas das coisas que tu te recusaste a ver - respondi, sem sequer tentar ocultar a minha raiva.
O Drake olhou de relance para o Luke e virou-se para mim outra vez.
- Bem... eu... fiz o que achei ser o melhor para ti, Annie. Desculpa - pediu ele, com remorsos.
- Vamos esquecer isso, Drake, e prosseguir com o que viemos aqui fazer - declarei, com firmeza.
- Sim. Claro.
Um dos cangalheiros fez-lhe um sinal.
- Depois, falo contigo.
O Drake voltou para junto do carro funerrio. Procurei o Troy por toda a parte, mas no o vi. Onde estaria ele?
A minha pergunta foi respondida quando os carros partiram, em cortejo, da casa, a caminho do cemitrio da famlia. Ele j l estava, dizendo o seu adeus particular.
Dirigiu-se directamente ao nosso carro assim que chegmos. Os seus olhos escuros e melanclicos brilharam quando me viu.
Agora que o Troy usava um fato preto e gravata, pude ver mais nitidamente as semelhanas entre ele e o Tony. No entanto, ao passo que os olhos do Tony haviam sido
vivos e excitados pela sua loucura e tristeza, os do Troy eram calmos.
- Ol, Annie. A viagem foi boa?
- Sim, Troy. Troy, este  o Luke.
- Ah, sim.
Apertaram as mos. Vi, pelo modo como se olharam nos olhos, que gostaram instantaneamente um do outro, e isso alegrou o meu corao. Quando abri a porta, ambos se
precipitaram
382
para ajudar-me, mas o Luke chegou primeiro. O Troy recuou e ficou a observ-lo a ajudar-me a sair do carro.
- Agora s falta a bengala. Assim est bem - disse o Troy quando o Luke ma entregou.
Como se nota a diferena no cuidado dispensado com carinho e amor.
O Luke, o Troy e eu dirigimo-nos para a frente da multido. Reparei como os olhos do Troy seguiram o movimento da mo do Luke ao agarrar a minha. O Troy observava-nos
de um modo muito estranho: os seus olhos ficaram mais pequenos e o seu rosto ficou triste. Acenou ligeiramente com a cabea e depois voltou-se para ouvir as palavras
do padre.
Em seguida, o Drake fez um pequeno elogio fnebre, descrevendo o Tony como um pioneiro no mundo dos negcios, cuja imaginao desencadeara novos mercados e criara
uma indstria inteiramente nova. Fiquei impressionada pelo modo experiente e conhecedor que ele apresentava. Parecia muitos anos mais velho e pensei que o Tony estava
certo a seu respeito: o Drake nascera para ser um executivo.
Depois, o padre pediu para todos cantarem o salmo escrito nos cartes que foram distribudos. Durante o salmo, os meus olhos desviaram-se do tmulo do Tony para
o dos meus pais. "Os cemitrios tm o dom de fazer com que as lutas de todos os seres vivos paream simples e insignificantes", pensei. Todos os problemas de famlia
morriam e eram de igual modo enterrados: a loucura da Jillian; as paixes confusas e a lascvia do Tony; a fuga da minha av Leigh ao que realmente era; o amor frustrado
e perdido da minha me... Tudo isso tambm havia tido o seu descanso. S aqueles que ficavam tinham de continuar a lutar.
Durante um longo momento, eu e o Troy olhmos um para o outro, e eu acho que ele percebeu que eu entendera a razo por que quisera cavalgar e afogar-se no oceano,
naquele dia fatdico. O seu olhar passou de mim para o Luke e novamente para mim. Assim que o salmo terminou e o padre proferiu as palavras finais, o Troy virou-se
para ns.
- Vocs os dois no querem vir at  minha casa comer e beber qualquer coisa, antes de regressarem?
- Gostaria muito - respondeu o Luke.
Eu limitei-me a abanar a cabea. Procurei o Drake com os olhos; porm, ele estava ocupado a cumprimentar outros homens de negcios, apertando mos e discutindo estratgias
a serem definidas num futuro prximo. No me pareceu que ele sequer tivesse dado conta de que nos tnhamos ido embora.
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Tive um pressentimento muito estranho enquanto subamos o caminho at  casa,  medida que nos aproximvamos de uma estrada secundria por detrs do cemitrio. Foi
como se todos tivssemos encolhido e estivssemos prestes a entrar na casa em miniatura. Foi como se nos tivssemos transformado em cidados de um mundo de brinquedo;
um mundo de magia e de "faz de conta"; o mundo em que eu e o Luke havamos vivido grande parte das nossas vidas. O Troy, o criador-mestre do mundo dos Brinquedos
Tatterton, era o nosso mgico. Ele tocar-nos-ia com a sua varinha de condo e o mundo triste e feio desapareceria.
O Luke adorou a pequena casa de pedra e ficou fascinado com todas as novas criaes do Troy, principalmente com a aldeia medieval. O Troy preparou-nos umas sanduches
e umas bebidas, e ele e o Luke falaram sobre a universidade, Boston e sobre algumas das coisas que ele estava a idealizar. Recostei-me e escutei, feliz por eles
os dois se estarem a dar to bem.
Finalmente, o Troy encostou-se para trs, com um sorriso afectuoso nos lbios e olhou, alternadamente, para mim e para o Luke.
- Contem-me quais so os vossos planos.
- Planos? O Luke vai voltar para a faculdade. Vai estudar para ser mdico. Quanto a mim, acho que vou fazer uma viagem pela Europa, tal como, inicialmente, os meus
pais queriam que eu fizesse, de modo a poder estudar os grandes mestres da pintura. Depois, tambm vou para a universidade, para desenvolver o meu talento artstico.
Vamos seguir caminhos separados e fazer o que pudermos para dar algum significado s nossas vidas.
- Entendo.
O Troy desviou o olhar, e o sorriso, que at ento exibira, desapareceu como fumo. Quando voltou a olhar para ns, o seu rosto estava, outra vez, cheio de desgosto
e sofrimento.
- Devo confessar que vos trouxe aqui com uma outra inteno. Acreditem-me, quando vos digo que tenho sofrido muito nestes ltimos dias ao pensar nisso. A minha maior
tentao  enterrar o passado juntamente com o Tony e a Jillian, com a Heaven e o Logan, e acabar os meus dias como estou agora... livre de fantasmas, longe do mundo
real e, apenas, empenhado no meu mundo de "faz de conta"; os meus brinquedos.
"Como  seguro e de confiana o mundo do "faz de conta".
384
Mas palpita-me que vocs j sabem isso, porque o encontraram para ser um abrigo seguro dos vossos verdadeiros sentimentos.
O Troy olhou para ns com um ar de conhecimento de causa, e eu perguntei a mim prpria como podia uma pessoa que s me tinha visto e falado comigo uma vez por to
pouco tempo compreender-me to bem e aperceber-se to rapidamente da minha angstia secreta.
Ele voltou-se na direco das suas criaes minsculas.
- Imagino um mundo inteiro s para mim, preencho-o com os tipos de pessoas de que gosto e crio acontecimentos que se encaixam no que eu gostaria que acontecesse.
 a minha loucura ntima, acho eu. No  to frgil como a loucura do Tony, mas, em todo o caso, no deixa de ser uma espcie de fuga.
"Mas depois de vos ver aos dois, percebi que no posso faz-lo; no posso esquecer e enterrar-me aqui. Muito embora ponha a descoberto feridas emocionais terrveis
e me obrigue a encarar a triste realidade,  preciso que o faa, porque no posso permitir que acontea contigo e com o Luke o que sucedeu comigo e com a Heaven.
- Troy, no precisa de fazer isso a si prprio - declarei eu e olhei para o Luke. - Ns j sabemos.
- Sabem?
- Estive a observar mais atentamente a pequena casa que enviou  minha me, pouco depois do meu nascimento. Foi mandada por si, no foi?
Ele acenou afirmativamente com a cabea e eu prossegui.
- E, por acaso, espreitei mais de perto a porta nas traseiras da cozinha... a mesma porta que existe aqui - acrescentei eu, apontando. - E encontrei a carta que
escreveu  minha me no dia em que a Jillian morreu e o Troy decidiu partir.
Em vez da surpresa e talvez do constrangimento de que eu estava  espera, o Troy limitou-se a abanar a cabea, um estranho sorriso desenhou-se aos cantos da sua
boca e o seu olhar adquiriu, de repente, uma expresso distante.
- Ento, ela guardou-a, no foi? Foi um gesto tpico dela e era mesmo dela tambm o ter escondido a carta na pequena casa, junto s escadas. Oh, Heaven... minha
querida Heaven.
O Troy virou-se para mim e, nesse momento, o seu olhar penetrante estava pousado em mim.
- Ento descobriste que eu e a tua me fomos amantes... Amantes secretos...
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Levantou-se, dirigiu-se a uma das janelas da frente e ficou a olhar l para fora durante tanto tempo que julguei que ele no fosse dizer mais nada. O Luke agarrou-me
na mo e espermos pacientemente. De repente, todos os relgios deram as horas, e um relgio em forma de caixa de msica, azul-clara, que tinha a forma da casa,
abriu a porta da frente e a famlia minscula, que estava l dentro, saiu e depois recolheu-se ao som da doce melodia familiar que eu conhecia to bem.
- Troy...
- Eu estou bem - murmurou, e voltou a sentar-se. Algo do que vou contar-te... talvez a tua me te tenha contado.
"H muitos anos, quando ela viveu aquela dura vida nos Willies, a Heaven conheceu o teu pai, e eles tornaram-se namorados e fizeram juras de amor eterno. Se a tua
me tivesse ficado nos Willies, podia muito bem ter casado com o teu pai e ter vivido uma vida calma e feliz em Winnerrow, mas o destino no quis assim.
"Depois de o Luke Casteel ter destroado a famlia ao vender os seus filhos, a tua me foi viver com uma mulher egosta e invejosa, chamada Kitty Dennison e o seu
marido Cal. Foi uma vida difcil para a Heaven, porque a Kitty encheu-se de cimes da tua me e o Cal... abusou dela. No  muito difcil de compreender como uma
coisa dessas pode ter acontecido. A tua me era jovem e procurava desesperadamente algum que a amasse e cuidasse dela. O Cal, que era um homem mais velho, uma figura
paternal, percebeu isso.
"Durante um tempo, isso aborreceu o Logan e, mesmo depois da morte da Kitty, quando a tua me foi viver para Farthy, enquanto o Logan estava na universidade em Boston,
ele rejeitou-a. Em Farthy, ela viveu uma vida solitria. Eu prprio estava no meio de um perodo muito mau, convencido de que no iria viver muito tempo. Sentia-me
amargo e desesperado. Conheci a tua me e, durante uns tempos, ela encheu a minha vida de esperana e felicidade. Falmos de casamento e fizemos planos maravilhosos.
"Depois, a Heaven partiu em busca da sua famlia perdida e, enquanto ela esteve fora, tal como leste na carta, a Jillian disse-me a verdade: o Tony era o pai da
Heaven; ela era minha sobrinha. Ao saber que nunca poderamos casar, escrevi-lhe uma carta e parti de Farthy para viajar e tentar esquecer.
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"Voltei enquanto ela estava fora e, tal como sabes, montei o cavalo da Jillian, o Abdulla Bar, at ao mar e convenci toda a gente, inclusive o Tony, de que tinha
morrido.
"E, de facto, morri... Morri para tudo o que fosse afecto e esperana, e andava por a  espera do fim inevitvel da minha vida.
"Mas ele nunca mais chegava. Vivia a maior parte do tempo sonhando que iria morrer. Mais uma vez, esperanoso e at mesmo renovado, voltei. Sonhei com uma vida qualquer
com a Heaven. Porm, nessa altura, ela j se tinha reconciliado com o Logan e iam casar-se. Eu vivia nesta casa, em segredo, e tambm em segredo fui espreitar a
cerimnia do casamento deles em Farthy, com o corao apertado.
"Durante uns tempos, vagueei pelos jardins e cheguei at a entrar sub-repticiamente no edifcio, comportando-me como um dos espritos do Rye Whiskey, s para poder
v-la, sem que a Heaven se apercebesse. A tua me pressentiu a minha presena e veio at minha casa. Tentei esconder-me dela nos tneis, mas ela perseguiu-me e...
descobriu-me. Descobriu que eu ainda estava de facto vivo.
"Ambos chormos o amor que ambos havamos perdido...
Os seus olhos ergueram-se para me encarar. - No terminou, porm, tudo ali, muito embora ela tenha partido, determinada a no nos vermos mais. No entanto, voltou
naquela mesma noite, Deus me perdoe, mas eu desejei e rezei para que ela viesse. At deixei a porta aberta.
"Ela veio e ns tivemos uma ltima noite de amor juntos. Uma noite especial e memorvel, Annie... Porque... No tenho dvidas nenhumas quando olho para ti agora...
O teu nascimento foi o resultado directo daquela furtiva noite de amor.
As lgrimas corriam-me pelo rosto ao longo da sua narrao; porm, quando ele pronunciou aquelas ltimas frases, o meu corao parou e o Luke apertou a minha mo,
como se tivesse sido abruptamente despertado de um sono profundo.
- O qu... O que est a dizer?
- Estou a dizer que s minha filha, Annie. Minha filha e no filha do Logan. Estou a dizer que tu e o Luke no tm qualquer grau de parentesco. A Fanny e a Heaven
no eram irms e o Logan no era teu pai, embora eu tenha a certeza de que ele te amou tanto como um pai pode amar uma filha, apesar de, no fundo do seu corao,
deva sempre ter suspeitado disso.
"Acredita em mim. Eu sofri muito ao pensar se havia de
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contar-te isto, porque receava que ficasses com uma impresso errada da tua me. No entanto, conclu, por fim, que a Heaven haveria de querer que eu te contasse,
para que tu e o Luke no perdessem o vosso amor, como ns.
"Se, na verdade, existe uma maldio na famlia Tatterton, ela reside na nossa recusa em sermos honestos com o nosso corao, e no vou deixar que isso acontea
contigo.
"Afasta as sombras negras de Farthy. Faze com que a luz da vida brilhe sobre ela, Annie. Compreende e perdoa as pessoas que foram transformadas e distorcidas pelo
destino cruel, cuja nica culpa foi terem desejado e exigirem tanto do amor.
O Troy baixou a cabea, exausto com as revelaes que fizera. Durante bastante tempo, nem eu nem o Luke conseguimos falar. Ento, curvei-me para a frente e peguei
lentamente na mo do meu pai. Ele olhou para cima e fitou-me e, nos seus olhos, eu vi o rosto da mam. Vi o seu lindo rosto a sorrir. Senti o seu apoio e o seu amor,
e soube que tudo o que o Troy nos tinha acabado de contar havia sido produto do amor; tinham sido palavras sinceras, vindas do fundo do seu corao.
No odiei ningum; no culpei ningum. Atitudes tomadas h muitos anos tinham determinado que duas famlias, to diferentes como a noite do dia, cruzassem os seus
caminhos e os seus destinos. O tumulto da resultante arrasou as duas casas, mantendo-as, para sempre, no meio de vendavais de paixo e dio, levando alguns  loucura
e abalando os alicerces mais profundos de ambas as famlias.
Agora, eu e o Luke estvamos sozinhos no meio dessa confuso. Agora, o meu verdadeiro pai decidira que estava na hora de terminar com tudo isso. Ensinara-nos o caminho
para sairmos daquele labirinto.
- No sentimos dio e no h ningum a quem perdoar. Ele sorriu por entre as lgrimas.
- H tanta coisa da Heaven em ti. Acredito que o que tens de igual a ela vai ser suficientemente forte para superares qualquer melancolia que tenhas herdado de mim.
"Durante muito tempo, vivi com vergonha, arrependido daquela noite de amor que eu e a Heaven partilhramos. Contudo, quando vi como eras bonita e percebi como podia
ser a tua vida se te libertasses de todas as mentiras e enganos, decidi dar-te a melhor e a nica prenda que podia... a verdade.
-  a prenda mais bonita de todas. Obrigada... pai.
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Levantei-me e abracei-o. Abramo-nos com fora e, quando nos afastmos, ele beijou-me no rosto.
- Agora vai e vive a tua vida, livre de todas as sombras. O Troy apertou a mo do Luke.
- Ama-a e estima-a como o teu pai acabou por vir a estimar a Heaven.
- vou fazer isso.
- Adeus.
- Mas ns viremos visit-lo muitas vezes - prometi eu, a chorar.
- Gostaria muito. No  muito difcil encontrar-me. Estarei sempre aqui. A minha fuga da vida acabou agora.
Acompanhou-nos  porta e beij amo-nos e abramo-nos mais uma vez. Depois, eu e o Luke entrmos no carro. Olhei uma vez para trs, para dizer adeus. O meu lado melanclico
afligiu-me, porque achei que no voltaria a v-lo. Senti-me projectada para um futuro em que eu voltaria quela casa de pedra e ela estaria vazia, apenas conservando
os brinquedos inacabados. No entanto, o meu lado mais forte e mais alegre varreu aquelas imagens negras do meu esprito e substituiu-as por outras de um Troy mais
velho, continuando a trabalhar nos seus brinquedos, acarinhando-me a mim, ao Luke e aos nossos filhos.
O Luke deslizou no banco do carro para alcanar e apertar a minha mo.
- Por favor, pra mais uma vez no cemitrio, Luke.
- Claro.
Quando l chegmos, eu sa do carro e dirigimo-nos juntos at aos tmulos. Ficmos defronte deles em silncio, de mos dadas.
A distncia, erguia-se a enorme manso de pedra, to majestosa e grandiosa como sempre. A luz do Sol encontrou uma aberta por entre as nuvens e separou-as cada vez
mais, at que os seus raios brilhantes se espalharam pelos jardins e pelo edifcio.
O Luke e eu olhmos um para o outro. Na minha memria as nossas palavras e fantasias sobre Farthy repetiam-se: "... talvez se transforme naquilo que quisermos. Se
eu quiser que ela seja feita de acar e melao, assim ser."
"E se eu quiser que ela seja um castelo magnfico com nobres e damas casadoiras e um prncipe triste, lastimando-se pelos cantos, ansiando pelo regresso da sua princesa,
assim ser."
- Queres ser a minha princesa, Annie? - perguntou o
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Luke, subitamente, como se tivesse ouvido os meus pensamentos.
- Para sempre?
- Para sempre.
- Oh, sim, Luke. Sim.
Ele ps o brao  volta da minha cintura e depois demos meia volta e regressmos ao carro.
Sorri para comigo, certa de que, na pequena casa de pedra, o Troy estava a ouvir os primeiros acordes da melodia de Chopin.

Fim
